No quarto e último momento da análise, estudei os documentos da Instituição – PDI (Plano de Desenvolvimento Institucional), PPI (Projeto Pedagógico Institucional) e a Organização Didática (OD) - tendo como norte os objetivos propostos, e, como elemento orientador, as mesmas categorias utilizadas na análise das entrevistas dos professores. Os documentos são fontes valiosas de informação e podem enriquecer a pesquisa com significativas informações que agregam subsídios à análise de dados. A análise documental foi realizada tendo por finalidade buscar informações complementares que triangulassem com a entrevista dos professores e do estudante, ampliando dessa forma, a noção e a clareza sobre as questões investigadas. O resultado da análise é apresentado em forma de resumo, integrando os aspectos relevantes analisados em cada um deles no mesmo texto, tendo em vista que os documentos dialogam entre si.
O PDI do IFRS, preparado para o período de 2014 a 2018, serve para nortear as ações da Reitoria e de todos os Campi que o constituem. O PPI orienta as práticas de ensino e de aprendizagem da Instituição, e a Organização Didática
dispõe sobre as normas e procedimentos acadêmicos dos cursos. O IFRS tem como visão institucional “ser uma instituição de excelência em educação, ciência e tecnologia” e traz como missão:
Promover a educação profissional, científica e tecnológica, gratuita e de excelência, em todos os níveis e modalidades, através da articulação entre ensino, pesquisa e extensão, em consonância com as demandas dos arranjos produtivos locais, formando cidadãos capazes de impulsionar o desenvolvimento sustentável (IFRS, 2014, p.18).
A missão da Instituição reforça o entendimento que o PDI traz de que a função dos cursos superiores é a formação de cidadãos trabalhadores, a expansão do conhecimento científico, tecnológico e pedagógico, e a produção e troca de cultura. O PPI complementa que o IFRS, tem, como compromisso, a educação profissional, e como propósito uma sociedade com direitos e oportunidades iguais. A concepção de aprendizagem da Instituição, no que concerne à educação superior, emerge no seguinte trecho do PDI: “o ensino de graduação difunde o exercício da autonomia, da liberdade para pensar, criticar, criar e propor alternativas que se traduzem concretamente na possibilidade de apresentar soluções próprias para os problemas enfrentados nesse nível de ensino” (IFRS, 2014, p.30). Nesse contexto, o IFRS assume como desafio construir uma conduta investigativa nos alunos, para lhes dar condições de também atuar no campo da educação. O PPI contribui com a concepção de aprendizagem quando defende a educação omnilateral, e explica que, para isso, é necessário observar todos os aspectos que formam o sujeito como ser histórico-social, ou seja:
Significa não desmerecer nenhum dos aspectos culturais e sócio- econômicos. Mas rejeitar uma educação de caráter adaptativo, prescritivo e instrumental e proporcionar uma educação profissional politécnica, reflexiva, crítica, política, a partir de uma compreensão histórico-cultural do trabalho, das ciências, das atividades produtivas, da literatura e das artes. (IFRS, 2011, p.16).
Um dos objetivos da área de extensão do IFRS apresentado no PDI é promover e contribuir para ações de inclusão social de grupos em vulnerabilidade, intentando o respeito à diversidade e à igualdade social. Por meio de projetos de extensão nessa área, o IFRS procura atender pessoas com deficiência da
comunidade externa, como forma de auxílio, mas também de pesquisa e de aprendizagem. A interação está presente nesses momentos, quando a comunidade acadêmica aprende a interagir com grupos variados de pessoas em situações diversas, inclusive com pessoas com variadas deficiências, possibilitando boas oportunidades de aprendizagem para os envolvidos. A questão da interação também é abordada no PDI e no PPI no item sobre a articulação entre ensino, pesquisa e extensão, quando explicita a importância de manter o diálogo e a interação entre professores e disciplinas e, consequentemente, entre essas três áreas. No entanto, a questão de interação é mencionada brevemente em apenas dois itens dos documentos citados - Extensão e Prática Profissionalizante e Articulação entre as áreas de Ensino, Pesquisa e Extensão -, mas não abordam propriamente a conotação de interação que busco nesse estudo, como função social necessária para aprendizagem e o desenvolvimento do ser humano, que acontece em sala de aula, entre o professor, o aluno e o conhecimento.
No que se refere à ação docente, tanto o PDI, quanto o PPI argumentam que o currículo é concebido como um projeto sempre em construção, construído de forma coletiva, considerando a realidade do indivíduo, da região, e do âmbito institucional, com fortes propósitos político-pedagógicos. Consideram o currículo uma forma de organizar as práticas educativas, ou seja, um método de estruturar e coordenar a ação docente dentro da proposta educacional da instituição, que é a de “formar cidadãos/trabalhadores que compreendam a realidade e possam satisfazer as suas necessidades transformando a si e ao mundo” (2014, p.26).
Nesse contexto pedagógico, o PPI lembra que a avaliação espelha os propósitos educacionais de uma instituição e, por isso, o IFRS está buscando estruturar parâmetros que caracterizem o processo avaliativo sempre considerando as especificidades das diversas realidades da qual os estudantes são provenientes. É preciso pensar em formas de avaliação díspar considerando que cada estudante é singular, com vivências e capacidade de aprendizagens individuais. O documento complementa que a avaliação deve ser contínua, investigativa, participativa, formativa e qualitativa, fazendo-se uso de instrumentos avaliativos variados que sejam democráticos e inclusivos. A OD acresce que a avaliação precisa focar a apropriação do conhecimento e o desenvolvimento de competências e atitudes. Para tanto, é importante que haja compromisso dos professores na sua prática docente,
de forma a empreenderem esforços para atingir essa expectativa da instituição. Nesse documento também está prevista a recuperação paralela com o objetivo de sanar as dificuldades de ensino e aprendizagem, e proporcionar uma melhor assimilação dos conhecimentos e de resultados, a qual pode ser ofertada pelos professores aos alunos com NEEs.
O PDI e o PPI também trazem um item específico sobre a questão da inclusão dentro do IFRS, onde afirmam o compromisso de aceitar a diversidade e respeitar a capacidade de desenvolvimento do aluno. Também esclarecem que em conformidade com o que determinam as diretrizes legais sobre o direito das pessoas com NEEs (de igualdade de oportunidades de acesso e permanência, com atendimento especial), promovem a implementação do Napne em todos os Campi, com o objetivo de estruturar o processo de inclusão. Ressalto que um dos princípios do IFRS com a ação inclusiva é a integração do estudante com a comunidade acadêmica.
Um ponto interessante do PPI, que merece ser mencionado, é o Glossário, item apresentado ao final do documento que traz importantes definições sobre alguns dos termos discutidos em suas páginas. Destaco sua explicação sobre educação e aprendizagem, definidas como processos distintos, porque “ensinar envolve a intencionalidade e o planejamento de ações por parte do educador, com a finalidade de provocar mudanças em seus educandos”. O planejamento das ações educativas é responsabilidade do professor e deve ser pensada de forma a facilitar as possíveis interações entre o estudante e o conteúdo. Já o “aprender é um processo individual, próprio de cada sujeito, ainda que não ocorra sem interação com o meio, com os objetos e com os outros, pois é sempre produto de trocas e de ações coletivas” (p.61). A definição se completa ao dizer que a aprendizagem é um processo intrínseco, que perdura por toda a vida, podendo ser provocada por meio da ação docente, e, principalmente, por intermédio das experiências únicas de cada um.
Nesta explicação, é possível identificar o pensamento de Vygotsky sobre concepção de aprendizagem, pois valorizam as vivências e experiências únicas do estudante na aprendizagem e reconhecem a importância da ação docente (mediação) nesse processo.
Por último, destaco o item das Políticas de Ação Afirmativas, contemplado no PDI, que abrange todas as ações de inclusão “para a promoção do respeito à diversidade socioeconômica, cultural, étnico-racial, de gênero e de necessidades específicas, e para a defesa dos direitos humanos” (p. 205). Além disso, a Instituição possui um órgão criado especialmente para gerenciar as ações relativas às políticas de ação afirmativas, chamado Assessoria de Ações Inclusivas, que se preocupa justamente em coordenar e planejar as políticas de inclusão do Instituto em todos os seus Campi.
A questão da inclusão de pessoas com NEEs está prevista em todos os documentos analisados do IFRS e engloba, com níveis de abrangência diferentes, os três aspectos que me propus a investigar: a concepção de aprendizagem, a ação docente e a interação. Como assinalado anteriormente, a concepção de aprendizagem adotada pelo IFRS se aproxima bastante da concebida por Vygotsky, cujo pensamento julguei ser o mais apropriado para referendar esse trabalho. No que se refere à ação docente, os documentos contemplam questões como currículo, avaliação e a inclusão, acesso e permanência das pessoas com NEEs, que podem nortear a prática pedagógica dos professores. Todavia, a questão da adaptação curricular como direito e necessidade para aprendizagem de pessoas com deficiência não é mencionada em nenhum momento nos três documentos. A importância do papel do professor como mediador no ensino e aprendizagem, também é ignorado. O aspecto da interação, apesar de citado em dois itens dos documentos, não carrega em seu contexto a abordagem vygotskyana adotada na pesquisa, de processo de aprendizagem, onde um sujeito versado partilha do seu conhecimento com um principiante.
Assim sendo, no que tange à documentação relativa à inclusão, o IFRS demonstra, o que penso ser, uma preocupação genuína com a questão, principalmente ao criar um órgão específico para organizar esse assunto, a Assessoria para Ações de Inclusão, com a finalidade de gerenciar atividades e colocar em prática ações inclusivas, que procurem entre outras coisas, promover o acesso, viabilizar a permanência e ofertar oportunidades iguais às pessoas com NEEs, proporcionando uma formação de qualidade.