• Nenhum resultado encontrado

A AYAHUASCA NO DISCURSO JURÍDICO E REGULADOR DO ESTADO

5.1. Documentos e deliberações sobre a Ayahuasca

O processo de legalização do uso religioso e ritual da ayahuasca em território nacional foi lento, se fazendo necessário vários recursos jurídicos para sua liberação. Esse processo gerou reuniões de debates e enfrentamentos jurídicos dos mais diversos. Aqui apresentamos alguns documentos que fizeram parte desse processo de regulamentação do uso do psicoativo ayahuasca em espaços religiosos no Brasil. Segundo a jornalista da Revista Veja Natália Cuminale (2010), que na edição do dia 26/03/2010 escreve a matéria intitulada “Quem controla o alucinógeno chá do Santo Daime?”. Segundo Cuminale (2010) “ao liberar o uso do chá ayahuasca para fins religiosos, o CONAD também reconheceu ao menos implicitamente, que o consumo do alucinógeno é arriscado, daí o fato da existência na mesma resolução, de regras como a proibição de que pessoas com histórico de transtornos mentais ou sob efeito de bebidas alcoólicas ou outras substâncias psicoativas ingiram a droga, e a obrigatoriedade de que as seitas do daime exerçam rigoroso controle sobre o sistema de ingresso de novos adeptos”. (CUMINχLE, 2010).

unanimidade o parecer do Grupo de Trabalho instituído pela resolução número 04/85, que tinha sido constituído para examinar questões relacionadas com a produção e consumo de substâncias derivadas de espécies vegetais, mais especificamente ao “ψanisteriopsis caapi e a Psychotria viridis”ν sendo que o exame de tais plantas seria feito na cidade de Rio Branco, Capital do Estado do Acre, junto a comunidades religiosas que fazem uso religioso do produto da decocção de ambas as plantas; considerando que as mesmas vêm sendo usadas há muitas décadas sem que tenha redundado em qualquer prejuízo social. Segundo relatório desse Grupo de Trabalho submetido a plenária pelos Doutores Isac Germano Karniol e Sérgio Dario Seibel, foram considerados relatórios anteriores que referiram-se a padrões morais e éticos socialmente iguais aos recomendados, sem nenhum desabono aos grupos praticantes do ritual religioso que fazem uso da bebida.

Na ocasião também foi citado o alto grau de envolvimento de pesquisas com a ayahuasca, pesquisas essas que ainda estavam em processo de execução e estudos. Na ocasião por uma portaria denominada 02/85 da DIMED, o vegetal “ψanisteriopsis caapi” havia sido incluído entre as drogas da lista de produtos proscritos, porém isso havia sido feito sem a correta observância e sem prévia audiência do CONFEN. Então por conta disso nessa reunião houve a sugestão de mais estudos e pesquisas sobre as referidas plantas e a bebida ayahuasca, bem como foi feito o pedido da suspensão temporária do vegetal Banisteriopsis caapi da lista de proscritos da DIMED, com a ressalva de pelo menos até o momento de finalização de pesquisas mais profundas sobre o tema. Sendo possível reformar a decisão de suspensão provisória se observado qualquer mau uso do chá, inclusive traduzido no aumento de usuários.

Em dois de junho de 1992 houve a quinta reunião ordinária do CONFEN no Ministério da Justiça em Brasília (vide anexo 2); nessa reunião houve uma normativa para o estabelecimento de uma comissão mista para discutir e debater assuntos relativos a ayahuasca; além de formular princípios e regras gerais básicas para todos os grupos que se utilizam da ayahuasca em seus cultos. A partir dessa reunião resultaram então algumas decisões, que começaram a nortear o processo de estabelecimento da legalidade do uso do vegetal em território nacional, nessa mesma reunião houve a formação de um grupo misto para trabalhar as questões ligadas ao uso da bebida vegetal dentro de cultos de ordem e origem ayahuasqueiros. Essa reunião foi um marco no processo decisório de caminhada pela

liberdade do uso legal da ayahuasca no Brasil. A referida reunião do CONFEN firmou a posição anterior de que o uso da bebida estava sob controle das comunidades, sem a necessidade da intervenção do Estado sob as mesmas; tendo ao final havido as seguintes recomendações, primeiro ponto - a permanência das plantas que compõem a ayahuasca fora da lista de proscritos da DIMED; segundo ponto - poderá ser objeto de reexame qualquer substância nova que apareça e venha a comprometer o Sistema Nervoso Central; terceiro ponto - a formação de uma comissão mista integrada pelo CONFEN para consolidar os princípios e regras básicas comuns a todas as entidades referidas, bem como acompanhamento da Administração Pública sobre o tema; e por fim quarto ponto - fazem parte do relatório final todos os documentos de instrução apreciados pelo CONFEN até então.

O parecer da Câmara de Assessoramento Técnico-Científico31 (vide anexo 3), que deliberou sobre o uso religioso da ayahuasca, foi outro documento que ajudou no nortear uma política bioética no uso da ayahuasca, de maneira uniforme e organizada. O parecer dado em 16 de agosto de 2004 têm um peso documental nessa caminhada da ayahuasca na busca de sua legalização. Esse parecer da Câmara de Assessoramento Técnico-Científico propõe alguns pontos, que citamos a seguir, primeiro ponto - a chave de interpretação da ayahuasca deve ser uma chave interpretativa inter e multidisciplinar; segundo ponto - deve ser ressaltada a relevância da bioética no exame do uso ayahuasca, haja vista que entre o seu uso está implícito o princípio da autonomia, como uma espécie de princípio fundante, e de uma nova postura global; terceiro ponto - o uso da ayahuasca por crianças e mulheres grávidas, obviamente tem que passar pelos pontos um e dois, ou seja pela interpretação inter e multidisciplinar, e pela bioética em seu fundamento de autonomia; quarto ponto - a questão da utilização do chá para finalidades terapêuticas está intimamente ligado e associado a realização de pesquisas e estudos de caráter clínico; quinto ponto - o uso religioso do chá passou a ser regulamentado e liberado desde a decisão CONFEN número 06 datada de quatro de fevereiro de 1986, quando foi suspensa provisoriamente a inclusão da Banisteriopsis caapi na lista de proscritos da DIMED; e finalmente no sexto ponto - o registro em ata de que não pode haver proibição, restrição direta ou indireta às práticas religiosas das comunidades, baseada em proibição do uso ritual da ayahuasca.

A Resolução CONAD Nº 04/2004 de quatro de novembro de 2004 (vide anexo 4), foi

altamente decisiva sobre o uso religioso da ayahuasca no Brasil. Nessa resolução houve a criação do GMT (Grupo Multidisciplinar de Trabalho), grupo esse criado para permanente vigilância sobre menores envolvidos em cultos, com a produção de censos e anotações dos respectivos menores e seus responsáveis legais. Esse grupo permanente teve a função de acompanhamento sobre o uso religioso da ayahuasca, bem como sua pesquisa na utilização terapêutica em caráter experimental. Seria um grupo composto de seis membros, pessoas essas que teriam um perfil de profissionais de vários setores/segmentos acadêmicos e profissionais - antropológico, farmacológico/bioquímico, social, psicológico, psiquiátrico e jurídico. Houve um relatório final apresentado em novembro de 2006 ao Ministro da Segurança Institucional, na época o então General Armando Félix, Presidente do Conselho Nacional Anti-Drogas, que aprovou e reconheceu a legitimidade jurídica do parecer. Nesse relatório final do GMT - Grupo Multidisciplinar de Trabalho (vide anexo 5), constou a resolução final sobre: O Uso Ritual da Ayahuasca. O relatório e o parecer final do grupo foi apresentado ao Ministro de Segurança Institucional, General Armando Félix no dia 23 de novembro de 2006 e foi posteriormente aprovado no Plenário do CONAD no dia seis de dezembro do mesmo ano. Foi um trabalho intenso onde foi alcançado patamar irreversível no que diz respeito à regulamentação do uso ritual religioso da ayahuasca no Brasil.

Finalmente a resolução nº 01/2010 do CONAD (vide anexo 6), datada de 25 de fevereiro de 2010 veio a selar e trazer uma fase de armistício entre as partes beligerantes na busca pelo reconhecimento e legalização do uso religioso da ayahuasca no Brasil. Essa resolução dispôs sobre a observância, pelos órgãos de administração pública das decisões do CONAD quanto as normas e procedimentos compatíveis com o uso religioso da ayahuasca, e dos princípios deontológicos que o informam. Essa resolução se baseia nas decisões dos seis encontros anteriores, que foram realizados para debate sobre ayahuasca, encontros esses realizados pelo antigo COFEN e pelo atual CONAD, e também nos trabalhos e no relatório final do GMT – Grupo Multidisciplinar de Trabalho; essa resolução veio a legitimar o uso religioso da ayahuasca, como matéria já examinada e decidida pelos plenários das entidades citadas anteriormente, cabendo ao GMT no âmbito de sua competência definida na resolução 05/2004 do CONAD identificar normas e procedimentos compatíveis com o uso religioso da ayahuasca, e implementar o estudo e a pesquisa sobre o uso terapêutico da ayahuasca em caráter experimental, também identificar “o que é preciso fazer” para atender aos diversos

itens que integram os direitos e obrigações pertinentes ao “uso religioso da ayahuasca”ν considerando também a decisão do INCB – International Narcotics Control Board, o órgão responsável pela questão de drogas na ONU – Organização das Nações Unidas, decisão essa relativa a ayahuasca que afirma não ser esta bebida nem as espécimes vegetais que a compõem objeto de controle internacional.