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4 EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS NO IFPB

4.2 Direitos humanos na gestão do IFPB

4.2.1 Documentos institucionais

Desde 2006, por força do Decreto nº 5.773 (posteriormente revogado pelo Decreto nº 9.235, de 2017), o PDI é um documento obrigatório a toda instituição de ensino superior, com vigência de cinco anos, deve nortear as ações e programas desenvolvidas, trazer o planejamento estratégico, determinar metas a serem alcançados e seus respectivos prazos. Esse documento deve ser apresentado pela instituição no momento em que solicita ao Ministério da Educação, o credenciamento ou recredenciamento periódico ou autorização de cursos superiores de graduação, tecnológicos, sequenciais, ou credenciamento de Instituição para a oferta de ensino a distância, ou autorização de cursos fora de sede para as universidades.

Além da literatura referente aos direitos humanos, para suporte da análise do PDI/IFPB (2015-2019) nos apoiamos no Decreto nº 9.235/2017, em pareceres do Conselho Nacional de Educação (CNE) e nas diretrizes para elaboração de PDIs do Ministério da Educação, que assim define o documento:

O Plano de Desenvolvimento Institucional – PDI, elaborado para um período de 5 (cinco) anos, é o documento que identifica a Instituição de Ensino Superior (IES), no que diz respeito à sua filosofia de trabalho, à missão a que se propõe, às diretrizes pedagógicas que orientam suas ações, à sua estrutura organizacional e às atividades acadêmicas que desenvolve e/ou que pretende desenvolver. (BRASIL, MEC, 2004. DPI, Diretrizes para elaboração).

Antes de iniciarmos a análise do atual PDI do IFPB no que tange aos direitos humanos, chamamos a atenção é quanto à falta de definição de sua vigência. Na apresentação do documento não se fala em início e fim de sua vigência, na capa do documento e na ficha catalográfica contem o limite temporal de 2015-2019 e no cabeçalho de todo o documento o limite temporal que consta é 2014-2019. Para efeito de menção e referência optamos por usar PDI/IFPB (2015-2019), por ser assim que consta na ficha catalográfica.

Outra coisa que sentimos a necessidade de destacar é o fato da apresentação do PDI-IFPB (2015-2019) iniciar da seguinte forma: “O PDI-IFPB, cumprindo o que estabelece a Lei nº 11.892, de 29 de dezembro de 2008,apresenta seu Plano de Desenvolvimento Institucional – PDI - 2015-2019, elaborado com base nos dispositivos legais vigentes” (grifo nosso). Ora, como já esclarecemos acima a exigência do PDI decorre do Decreto nº 5.773/2006, posteriormente revogado pelo Decreto nº 9.235, de 2017. A lei 11.892/2008, que cria a Rede Federal o faz a partir de uma reconfiguração de instituições de ensino já existentes e ao criar

os Institutos Federais dá a estes atribuições que antes não cabia às antigas instituições, a exemplo dos CEFETs. Os Institutos Federais são criados dentro de uma proposta político-pedagógica inovadora, o que traz a necessidade de reconstrução dos documentos institucionais. Por isso,a lei, em suas Disposições Gerais e Transitórias, determina que:

Art. 14 O Diretor-Geral de instituição transformada ou integrada em Instituto Federal nomeado para o cargo de Reitor da nova instituição exercerá esse cargo até o final de seu mandato em curso e em caráter pro tempore, com a incumbência de promover, no prazo máximo de 180 (cento e oitenta) dias, a elaboração e encaminhamento ao Ministério da Educação da

proposta de estatuto e de plano de desenvolvimento institucional do Instituto Federal, assegurada a participação da comunidade acadêmica na construção dos referidos instrumentos.

É disposição transitória, foi cumprida no antigo PDI-IFPB (2010-2014), esse documento inclusive tem na apresentação a mesma redação do atual PDI. Fazemos essas observações aqui para demonstrar apenas duas situações onde houve inconsistência ou falta de zelo relativa à parte formal (redação) do documento. No entanto, várias vezes foram identificadas esse tipo de situação ao longo das mais de quatrocentas páginas que formam o PDI. Optamos por não elencar uma a uma durante a análise para não ficar cansativo e extenso e, visto que esse não é nosso objetivo maior, e sim a análise das iniciativas no tocante aos direitos humanos, apenas pontualmente citaremos as situações de inconsistências formais ou pedagógicas que não tenham relação direta com a proposta da educação em direitos humanos. A sequência do PDI-IFPB (2015-2019) segue o exigido no Art. 16, do Decreto nº 5.773/2006 (na época da elaboração do PDI este decreto estava vigente), inicia trazendo o perfil institucional, descrevendo a missão, a visão e os valores do instituto. Segundo o descrito a missão do Instituto é:

Ofertar a educação profissional, tecnológica e humanística em todos os seus níveis e modalidades por meio do Ensino, da Pesquisa e da Extensão, na perspectiva de contribuir na formação de cidadãos para atuarem no mundo do trabalho e na construção de uma sociedade inclusiva, justa, sustentável e democrática (IFPB, PDI 2015-2019, p. 12, grifo nosso).

Já a visão é apresentada como:

Ser uma instituição de excelência na promoção do desenvolvimento profissional, tecnológico e humanístico de forma ética e sustentável beneficiando a sociedade, alinhado às regionalidades em que está inserido (IFPB, PDI 2015-2019, p. 12, grifo nosso).

Como valores, elenca a ética, o desenvolvimento humano, a inovação, a qualidade e excelência, a transparência, o respeito e o compromisso social e ambiental, assim descritos:

Ética – Requisito básico orientador das ações institucionais;

Desenvolvimento Humano – Fomentar o desenvolvimento humano, buscando sua integração à sociedade por meio do exercício da cidadania, promovendo o seu bem-estar social;

Inovação – Buscar soluções para as demandas apresentadas;

Qualidade e Excelência – Promover a melhoria contínua dos serviços prestados;

Transparência – Disponibilizar mecanismos de acompanhamento e de publicização das ações da gestão, aproximando a administração da comunidade;

Respeito – Ter atenção com alunos, servidores e público em geral;

Compromisso Social e Ambiental – Participa efetivamente das ações sociais e ambientais, cumprindo seu papel social de agente transformador da sociedade e promotor da sustentabilidade (IFPB, PDI 2015-2019, p. 12, grifo nosso).

Observa-se que em todos esses momentos – missão, visão e valores – o texto nos reporta a nomenclaturas comuns na literatura dos direitos humanos, no entanto não é colocado explicitamente o termo direitos humanos. Apesar disso, podemos perceber que há uma explícita preocupação com uma formação humanística, voltada não apenas para formação técnica ou apenas em trazer soluções inovadoras para a sociedade, mas que essa formação esteja amparada por princípios éticos e comprometida com a justiça social, com o desenvolvimento humano, assumindo um compromisso social e ambiental que leve a ser agente transformador da sociedade e promotor da sustentabilidade ambiental.

Essa visão e esses princípios se alinham perfeitamente com os princípios de direitos humanos e com a proposta de educação em direitos humanos. No entanto, chamamos a atenção para a falta de menção explícita aos direitos humanos. Para se incorporar esses valores atribuídos à instituição é necessário a historicização de contextos onde os direitos humanos foram suprimidos, é preciso mostrar a barbárie dos tempos e locais onde os direitos humanos foram deixados de lado, e junto a eles também foram esquecidos a ética, o compromisso social, o desenvolvimento humano, resultando em grandes perdas e sofrimentos as pessoas e degradação ao meio ambiente. Apostar na construção de sociedade justa e democrática requer, então, o fortalecimento da democracia enquanto processo histórico, dando-se a devida atenção e valor as conquistas e identificando e superando os entraves ao longo da história, ou seja, é necessária a conservação da memória, outro termo que é silenciado em grande parte do documento.

aliada inseparável da missão e dos valores a que se propõe o instituto – isso pode ser atestado pelas recentes resoluções que vêm sendo aprovadas pelo instituto – no entanto, não pode ficar subentendido, visto que, interpretações são subjetivas e se o texto não for explícito podem ser direcionadas para onde intencione quem as lê. Apesar de mencionar mais adiante os direitos humanos (aparece pela primeira vez nas metas do Plano Pedagógico Institucional),mais apropriado e eficaz seria sua menção já no início do documento. Lembramos que também se omitiu essa expressão na introdução do documento. É a partir do que está posto no PDI da instituição que serão pensados e planejados todos os outros documentos e projetos, e ações empreendidas ao longo dos anos de sua vigência.

Na sequência, o PDI/IFPB (2015-2019) vai apenas cumprindo o proposto na legislação. Traz um breve histórico da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica, como um todo, para depois tratar do histórico de implantação e desenvolvimento do IFPB, em particular. Em sequência discorre sobre a natureza institucional. Logo em seguida se ocupa de demonstrar sua inserção regional, trazendo a localização geográfica do estado da Paraíba e dados do IBGE para a caracterização socioeconômica do estado, como um todo, e das particularidades de cada uma das mesorregiões em que o estado está dividido e que são caracterizadas com base na configuração espacial e no processo de povoamento do estado.

No item Finalidades, apenas transcreve o art. 6º, incisos I a IX, da lei 11.892/2008, que elenca as finalidades e características dos Institutos federais em geral, para ao final acrescentar mais uma finalidade, qual seja, a de promover a integração e correlação com instituições congêneres, nacionais e internacionais, com vistas ao desenvolvimento e aperfeiçoamento dos processos de ensino-aprendizagem, pesquisa e extensão. Novamente não aparece a expressão direitos humanos.

No item Área(s) de atuação acadêmica, o PDI/IFPB (2015-2019) descreve os cursos ofertados pelo instituto21 e suas principais características, abordados de acordo com as modalidades e níveis (Educação Profissional de Nível Técnico – integrado ao ensino médio, subsequente ao ensino médio, educação jovens e adultos, Programa Mulheres Mil e Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego – e cursos superiores – em tecnologia, licenciatura e bacharelado – e Pós-Graduação Lato Sensu e Stricto Sensu).

No item 2, denominado Projeto Pedagógico Institucional (PPI), o documento evoca a LDBEN para mostrar que todo estabelecimento de ensino tem a incumbência de elaborar sua

21 Lista os cursos oferecidos ao tempo da elaboração do documento, portanto deixam de constar os cursos com inicio de oferta após a elaboração do PDI.

proposta pedagógica, e afirmar que o IFPB deve assumir como uma de suas principais tarefas o trabalho de refletir sobre sua intencionalidade educativa. Ao discorrer sobre o que é e a importância do PPI, diz:

O Projeto Pedagógico Institucional – PPI é um documento orientador da ação institucional no qual se registram as metas a atingir e as opções estratégicas a seguir, em função do diagnóstico realizado, dos valores definidos e das concepções teóricas escolhidas.

Nesse sentido, o PPI deve: traduzir a história da instituição; constar como parte integrante do PDI; orientar os documentos normativos da instituição; ser elaborado a partir de seus princípios norteadores; explicitar suas convicções ideológicas; enuncia os propósitos gerais que orientam a prática da instituição e justificam sua estrutura organizacional, em que são estabelecidas as relações entre os membros da comunidade acadêmica, as formas de participação e os mecanismos de tomada de decisão. (IFPB. PDI, 2015, p. 38).

Como podemos depreender o PPI deve prevê o planejamento de todas as ações da instituição, dando direcionamentos pedagógicos, administrativos e financeiros e por isso daremos especial atenção a este item.

O subitem 2.1 é denominado de “caracterização socioeconômica da área de abrangência” e descreve de forma sucinta as características e potencial social e econômico de cada uma das vinte e uma cidades no qual o IFPB tem Campus e a maneira como o instituto está inserido ou pretende se inserir de forma a contribuir para o desenvolvimento local, embora isto nem sempre fique muito claro.

O item 2.2 do PDI-IFPB (2015-2019) é denominado Princípios Filosóficos e Teórico-Metodológicos Gerais Que Norteiam as Práticas Acadêmicas da Instituição, contempla a visão da educação e os princípios que norteiam a proposta educacional do IFPB. Assim, a educação é entendida como:

[...] uma prática política realizada no âmbito das relações sócio-histórico-culturais promovedora da formação de pessoas tecnicamente competentes, mais humanizadas, éticas, críticas e comprometidas com a qualidade de vida dos cidadãos.

Preparar pessoas que pensem e reflitam sobre o mundo, visualizando o contexto social e assumindo o seu papel de protagonistas na emergência de uma sociedade nova. Neste cenário de aceleradas transformações culturais, sociais e científicas da sociedade contemporânea, marcada pela avassaladora onda das relações globais, a educação no IFPB tem o papel de formar profissionais que pensem e ajam de forma solidária e engajada socialmente, (IFPB, PDI 2015-2019, p. 63).

de sociedade assumido pela instituição, onde a técnica competente vem associada a conduta ética, crítica e solidária e engajada socialmente.

No mesmo subitem são elencados os Princípios que sustentam as ações educacionais do IFPB, são eles:

Respeito às diferenças de qualquer natureza;

Inclusão, respeitando a pluralidade da sociedade humana;

Respeito à natureza e busca do equilíbrio ambiental, na perspectiva do desenvolvimento sustentável;

Gestão democrática, com participação da comunidade acadêmica nas decisões, garantindo representatividade, unidade e autonomia;

Diálogo no processo ensino-aprendizagem;

Humanização, formando cidadãos capazes de atuar e modificar a sociedade;

Valorização da tecnologia que acrescenta qualidade à vida humana;

Indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. (IFPB, PDI 2015-2019, p. 63, grifo nosso).

Novamente, se repete o fato de não aparecer explícito o termo direitos humanos ou educação em direitos humanos (uma vez que já estamos falando do âmbito pedagógico especificamente). Apesar disso, proclama princípios indissociáveis dos direitos humanos, como: respeito, inclusão, o respeito à natureza e a gestão democrática.

A estranheza nesse subitem é a falta de menção à missão, a visão e aos valores elencados no início do PDI, não que esses sejam conflitantes com aqueles. Mas, a falta da menção nos causa a sensação de partes desligadas, desconexas, quando o ideal seria um documento homogêneo com parte interligadas.

O subitem 2.2.1 é denominado Princípios Filosóficos e Teóricos da Educação Profissional e Tecnológica: uma perspectiva de Educação Tecnológica para o IFPB. Este tópico traz a discussão sobre a histórica dicotomia (educação geral x educação profissional) presente no ensino no Brasil. E o IFPB se propõe a “desmistificar essa dicotomia e ofertar uma educação tecnológica compreendida como a conjugação interativa entre a educação geral e a tecnologia”. Novamente se compromete com a formação de cidadão crítico, capaz de fazer uso das novas tecnologias com o uso da razão e por formação humana. Entendemos que aqui se traduz toda a filosofia e razão de existir dos institutos: a formação humana integral. Ao discorrer sobre a formação humana integral Moura (2007) explica que se trata de superar a redução da preparação para trabalho ao seu aspecto operacional, simplificado, escoimado dos conhecimentos que estão na sua gênese científico-tecnológica e na sua apropriação histórico-social.

à preservação da memória para que horrores semelhantes ao da segunda guerra mundial não se repitam, onde a tecnologia ajudou a matar milhões de pessoas nas câmaras de gás dos campos de concentração. É preciso investir em uma educação que sensibilize e humanize. Afinal, a tecnologia para ser usada tanto para o bem, quanto para o mal necessita de pessoas que a execute.

Chamamos a atenção para o fato de que ao ser denominado de “Princípios Filosóficos e Teóricos da Educação Profissional e Tecnológica” o título induz o leitor a expectativa de encontrar um rol de princípios norteadores da educação profissional e tecnológica praticada no instituto, quando é feita apenas uma exposição da concepção de educação profissional. Aqui poderia aparecer, por exemplo, a formação humana integral, a preservação da memória, o trabalho como princípio educativo, etc.

Na sequência (item 2.2.2) temos “Princípios Filosóficos e Teóricos do Desenvolvimento da Ciência. Esse ponto específico do documento apresenta inconsistências de ordem epistemológica. Em um texto confuso exalta a ciência pós-moderna. Pode-se ler que o IFPB “adotará o rompimento com a ruptura epistemológica da ciência moderna” (IFPB, PDI 2015-2019, p. 64), destaca o senso comum, ao dizer que “considerará os preceitos da ciência pós-moderna onde o salto mais importante é o que é dado do conhecimento científico para o conhecimento do senso comum” (idem) e arremata afirmando que “IFPB terá em sua prática a busca desta realidade, reconhecendo no senso comum o caminho para a produção do conhecimento prático e pragmático”(bisidem).

O primeiro que temos que ressaltar aqui é a falta de referência a fonte primária, as ideias apresentadas fazem parte de um clássico da literatura sobre a ciência, de autoria de Boaventura Sousa Santos, o livro Um discurso sobre Ciência. Nessa obra o autor faz uma crítica à epistemologia positivista, seja das ciências ditas naturais, seja das ciências sociais. Vê nessa epistemologia um sinal da crise final do paradigma científico dominante e identifica os traços principais de um paradigma emergente que confere às ciências sociais uma nova centralidade na busca de um novo senso comum. Além da falta de referência o texto reproduz frases soltas, sem a devida flexão, podendo conduzir interpretações equivocadas.

A forma como foi expresso os Princípios Filosóficos e Teóricos do Desenvolvimento da Ciência, nos conduz a ideia de que o senso comum se sobrepõe a conhecimento historicamente sistematizado e que a única corrente aceita para se fazer pesquisa no IFPB é a Pós-moderna, essa visão pode comprometer todo o projeto institucional voltado a pesquisa. Melhor seria seguir a lei e a literatura da área.

realizada na Rede Federal, em seus Arts. 6º e 7º, vejamos:

Art. 6º Os Institutos Federais têm por finalidades e características: [...]

VIII - realizar e estimular a pesquisa aplicada, a produção cultural, o empreendedorismo, o cooperativismo e o desenvolvimento científico e tecnológico; [...]

Art. 7º Observadas as finalidades e características definidas no art. 6º desta Lei, são objetivos dos Institutos Federais:

[…]

II - realizar pesquisas aplicadas, estimulando o desenvolvimento de soluções técnicas e tecnológicas, estendendo seus benefícios à comunidade. (grifo nosso)

E isso acontece em razão de obediência a nossa Lei Maior, quando, em seu capítulo IV, ao tratar da Ciência, Tecnologia e Inovação, assim disciplina:

Art. 218. [...]

§ 2º A pesquisa tecnológica voltar-se-á preponderantemente para a solução dos problemas brasileiros e para o desenvolvimento do sistema produtivo nacional e regional. (BRASIL, CONSTITUIÇÃO FEDERAL, 1998).

Não se pode confundir fazer pesquisa aplicada (a partir do conhecimento de problemas concretos da comunidade, atuando na busca de suas soluções) com o senso comum. Não afirmamos isso na desmedida intenção de radicalizar e desprezar o senso comum. Como Paulo Freire nos ensinou

Na verdade, a curiosidade ingênua que, “desarmada”, está associada ao saber do senso comum, é a mesma curiosidade que, criticizando-se, aproximando-se de forma cada vez mais metodicamente rigorosa do objeto cognoscível, aproximando-se torna curiosidade epistemológica. Muda de qualidade,mas não de essência. (FREIRE,1996, p. 31).

A curiosidade presente nas relações do ser humano com o seu ambiente é caminho para fazer ciência e o conhecimento do senso comum não pode ser desprezado. Porém, apesar de ser caminho, não pode ser a meta. Isso porque o senso comum não pode conseguir mais do que uma objetividade limitada, assim como é limitada sua racionalidade, pois está estreitamente vinculado à percepção e a ação (MARCONI e LAKATOS, 2003, p. 76).

Ao comentar o Art. 6º, incisos VII a IX, da Lei 11.892/2008, Pacheco (2011) nos diz que indicam um modelo institucional visceralmente ligado às questões da inovação e transferência tecnológica sem deixar de lado a dimensão cultural e a busca do equilíbrio entre desenvolvimento econômico, desenvolvimento social e proteção ambiental. Assim entendida

a pesquisa aplicada é fiel à Constituição Federal de 1988 que proclama a pesquisa tecnológica voltada à solução dos problemas e para o desenvolvimento do sistema produtivo.

Ainda mais grave é o fato de, da maneira como foi colocado no texto do PDI-IFPB (2015-2019), querer delimitar a visão pós-modernista de se fazer pesquisa como a única aceita no IFPB, desprezando os Princípios da Liberdade de Pesquisa e da Pluralidade assegurados na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.

Art. 3º O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios:

II - liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber;

III - pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas (BRASIL, LDBEN, 1996).

A liberdade e o pluralismo assegurados no art. 3º da LDBEN devem ser entendidos de maneira extensiva a pesquisa e a extensão uma vez que são atividades indissociáveis. A liberdade de pesquisa, assim como a do ensino, considera as vivencias do professor, ora pesquisador, e da mesma forma que ao ensinar ele parte de suas vivencias e conhecimentos que fortalecem e determinam sua visão de mundo, também ao se dedicar a pesquisa ou a extensão essa visão de mundo vai determinar, entre outras coisas, o método por ele utilizado, sendo um contrassenso a apregoada democracia tentar impor um método único, seja ele qual for.

Da mesma forma que no subitem anterior, de novo deixa de arrolar os princípios da pesquisa. Poderia ter reafirmado o compromisso com a ética e a preservação com o meio ambiente, assumido a defesa dos direitos humanos e o trabalho de produção do conhecimento como princípio educativo, etc.