Não se trata, propriamente, de incorporar ao currículo (já superpovoado) outro sujeito (o queer), mas sim, mais apropriadamente, de pôr em questão a ideia de que se disponha de um corpo de conhecimentos mais ou menos seguro que deva ser transmitido, bem como pôr em questão a forma usual de conceber a relação professor-estudante-texto (texto aqui tomado de forma ampliada); trata-se ainda, e fundamentalmente de questionar sobre as condições que permitem (ou que impedem) o conhecimento (2004. p. 65).
Dito isto, passamos a uma reflexão sobre os documentos normativos e as leis sobre a educação básica para estabelecer um parâmetro de segurança aos professores na hora de abordar essas questões em sala de aula, pois há um aparato legal que nos permite levar essas discussões aos alunos.
2. DOCUMENTOS NORMATIVOS: CONSTITUIÇÃO FEDERAL, LEIS DE DIRETRIZES BÁSICAS DA EDUCAÇÃO E BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR
Compreendemos que, para se referir ao ensino, existem leis gerais que regulamentam e garantem (ou pelo menos objetiva) as relações escolares, práticas docentes, direitos e deveres, organizações do ensino e objetivos a serem alcançados. Partindo da Constituição Federal de 1988, documento que estabelece todas as normas da República Federativa do Brasil, no seu artigo 3º, delimitam-se os objetivos gerais da República:
Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: I construir uma sociedade livre, justa e solidária; II garantir o desenvolvimento nacional; III erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. (CONSTITUIÇÃO, 1988. p. 12)
É possível estabelecer nesse trecho inicial da Constituição cuidados específicos com o desenvolvimento humano, inclusive como se lê a promoção do bem de todos e a erradicação da discriminação, seja ela de qualquer forma. Nos Artigos 205 a 214, trata-se especificamente da educação, determinando normas e distinguindo responsabilidades em relação à educação nos níveis de governo.
Na Lei de Diretrizes Básicas da Educação (LDB) nº 9.394 de Dezembro de 1996, já no seu artigo 1º, salienta-se a abrangência da educação e das suas esferas de participação.
Entende-se que o processo acontece na junção de todos com o objetivo de promover o desenvolvimento humano a tudo que se relaciona o convívio social:
Artigo 1º: A educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais (BRASIL. 1996. p. 10).
Tratando-se de desenvolvimento humano, é importante referenciar a importância do papel escolar e, a partir do documento oficial, é possível direcionar os esforços para um melhor resultado. Nos incisos do 3º Artigo, estabelece-se uma descrição sobre os princípios acerca do ensino e alguns recortes temáticos, de modo que o inciso IV trata sobre o processo de aceitação das diferenças e da promoção da diversidade e o “Respeito à liberdade e apreço à tolerância” (BRASIL. 1996. p. 11).
Considerando as informações no 3º Artigo da LDB, torna-se legítimo desenvolver práticas para a promoção destes valores. Logo, de que forma ou quais projetos devem ser elaborados pela gestão e equipe pedagógica?
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), documento normativo que garante o direito à aprendizagem no território brasileiro, delimita algumas competências que devem ser abordadas em todas as etapas da educação básica. Antes de dissertar acerca da competência que regulamenta a abordagem da diversidade no currículo escolar, é necessário delimitar o que o documento estabelece como competência:
Na BNCC, competência é definida como a mobilização de conhecimentos (conceitos e procedimentos), habilidades (práticas, cognitivas e socioemocionais), atitudes e valores para resolver demandas complexas da
vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho (BRASIL. 2017. p. 10).
Encontra-se, assim, no documento em questão, a relação entre conhecimentos, habilidades, atitudes e valores que direcionam o que o documento chama de “Competências Gerais da Educação Básica” (BRASIL, 2017. p 09). Isto significa que os direcionamentos aos quais as escolas, em todos os níveis, devem seguir para garantir a unidade e promover a qualidade única do ensino estão explicitados. Na competência de número 9, temos a presença da colaboração (partindo do princípio que a escola é uma das esferas responsáveis para a promoção da aprendizagem) por meio da empatia. Valores como respeito, cooperação e valorização aparecem na descrição da competência, conforme lemos a seguir:
Exercitar a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação, fazendo-se respeitar e promovendo o respeito ao outro e aos direitos humanos, com acolhimento e valorização da diversidade de indivíduos e de grupos sociais, seus saberes, identidades, culturas e potencialidades, sem preconceitos de qualquer natureza (BRASIL, 2017. p. 10).
A partir dos documentos normativos é possível reconhecer a importância da abordagem da diversidade nas escolas, sendo marcos legais a Constituição Federal, a LDB e a BNCC. Isso acontece enquanto prevê a lei com o objetivo da formação e desenvolvimento integral (BRASIL. 2017.p. 14) do ser humano a partir do lado emocional, cultural, linguagens, conhecimento de mundo, e todas as outras esferas que constituem o indivíduo.
Mas, como os direitos assegurados por lei acontecem em sala de aula?
É notável a dificuldade dos profissionais em abordar assuntos que socialmente (desde a construção histórica da luta pelas desigualdades e indivíduos à margem na sociedade brasileira) são tabus, tanto nas salas de aula quanto nas rodas de conversas informais. Alguns temas representam tamanha fragilidade nos argumentos que, muitas vezes, sequer são levados à discussão. Logo, como promover o reconhecimento e as abordagens do homoerotismo a partir da disciplina de Literatura no Ensino Médio, considerando as leis da educação?
Antes de promover a reflexão e começar a pensar em uma provável solução, é necessário entender o que se compreende como homoerotismo e suas representações na literatura brasileira.