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DOCUMENTOS ORIENTADORES DE ÂMBITO INTERNACIONAL

3 CONSTRUÇÃO DE SISTEMAS EDUCACIONAIS INCLUSIVOS

3.1 DOCUMENTOS ORIENTADORES DE ÂMBITO INTERNACIONAL

No Século XVII, passando pela denominada fase religiosa, na qual era comum o sacrifício de crianças com deficiência, por acreditarem representar manifestações demoníacas, as pessoas deficientes eram indignas para vida.

As pessoas com deficiência, ainda nesse século, conseguem despertar, em parte da sociedade, um olhar diferenciado ao contexto da época, dando origem a uma iniciativa que os acolheriam, pautada na filantropia e assistencialismo de pessoas benevolentes.

No século XIX, a deficiência começa a despertar interesse como objeto de pesquisa pela classe médica, sendo alvo de estudos, que proporcionaria avanços na medicina.

Ainda no século XIX, o atendimento às pessoas com deficiência, era baseado em um modelo médico. A deficiência era vista como uma doença crônica e as pessoas acometidas desse mal eram rotuladas como um ser inválido e incapaz, que pouco poderiam contribuir para a sociedade, devendo ficar aos cuidados das famílias ou internados em instituições “protegidas”, segregadas do resto da população, como bem lembra Glat (2006). Essa busca pelo tratamento de algumas patologias, com vistas prioritariamente à cura e não à atenção da pessoa com deficiência; negando a possibilidade de garantia de uma vida melhor para as pessoas com deficiência da época, desconhecendo, assim, os seus direitos.

Essa era a realidade da época, não existia nenhuma política que acolhesse, de forma mais humana, as pessoas com deficiência, tampouco alguma forma de reconhecê-los como pessoa de direitos.

A partir do século XX, as pessoas com deficiência passam a ser vistas como sujeitos de direitos, parte integrante da sociedade.

A Educação de estudantes com Necessidades Educacionais Especiais - NEE, tradicionalmente, se pautava num modelo de atendimento segregado; a escola historicamente se caracterizou pela visão da educação que delimita a escolarização como privilégio de um grupo, uma exclusão que foi legitimada nas políticas e práticas educacionais reprodutoras da ordem social. A partir da segunda metade do século XX, principalmente com o desenvolvimento da psicologia da aprendizagem, da linguística, da análise experimental do comportamento e outras ciências afins, começaram a surgir propostas educacionais alternativas de atendimento a essa população.

Somente após a Segunda Guerra Mundial, especificamente nos Estados Unidos, houve uma ampliação significativa da educação especial, em instituições especializadas, para atender as pessoas com deficiência que não se beneficiavam da educação regular. Para ampliar ainda mais esse leque de atendimento, os Estados Unidos adotam o termo excepcionalidade (estudantes excepcionais), para o atendimento às pessoas com distúrbios emocionais, de linguagem, de aprendizagem, e por último, os superdotados. Antes, apenas eram consideradas pessoas com deficiência, aquelas que possuíam com problemas mentais, físicos, auditivos ou visuais.

Apesar da ampliação na oferta de vagas e a possibilidade de um atendimento considerado por muitos como ideal, deixava muitas questões e dúvidas quanto a sua eficácia e a sua validade na contraposição ao atendimento desses estudantes no ensino regular, conforme relata Carneiro (2008, p.19)

[...] Embora aparentemente essa ampliação do conceito tenha resultado em mais oportunidades educacionais àquelas crianças que não se beneficiavam da escolarização regular, a proliferação de escolas especiais tem um significado muito mais perverso, qual seja o de dissimular as diferenças de classe, oferecendo ensino qualitativo diferente, amparado por argumentos tidos como científicos e confiáveis aos diferentes extratos sociais.

A Educação Especial passou a ganhar mais força, após a Conferência Mundial sobre a Educação para Todos, realizado em Jomtien, na Tailândia, em março de 1990, sendo apontado como o grande marco na formulação de políticas governamentais para a educação desta última década, conforme relata Caiado (2003, p.17): O documento final da Conferência declara as posições que devem nortear as bases dos planos decenais de educação, principalmente para os países com altos índices populacionais. O documento afirma a necessidade de se garantir educação básica para todos como condição sine qua non para o desenvolvimento.

Em 1993, na Declaração de Nova Déli reafirma o compromisso dos governantes na oferta da educação básica com equidade às populações de seus países.

Na Conferência de Salamanca, no ano de 1994, com a presença de 92 países e 25 organizações internacionais, foi reafirmado o compromisso com a educação para todos, reconhecendo a necessidade e a urgência do ensino ministrado no sistema comum de educação ser para todas as crianças; anuncia que a escola inclusiva proporciona uma educação efetiva à maioria das crianças e melhora a eficiência e, certamente, a relação custo-benefício de todo o sistema educativo. Realça como uma das áreas prioritárias, a preparação dos jovens com necessidades educativas especiais. Evidentemente que essas crianças com NEE necessitam passar por uma transição, muito bem direcionada, da escola para a vida adulta, e , nesse sentido, a escola inclusiva deverá caminhar.

Apesar da ausência do governo brasileiro, durante a realização da Conferencia de Salamanca, o Brasil deu total apoio às diretrizes tomadas nesse encontro. O Brasil providenciou imediatamente a publicação e divulgação das diretrizes aprovadas, através da Coordenação Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência (CORDE), vinculada à Secretaria de Justiça. A partir desse momento, o atendimento à pessoa com deficiência passou a ser oferecido inicialmente por instituições organizadas pela sociedade civil e em parceria com o Estado, ainda com forte influencia do modelo médico/terapêutico e assistencial.

Nessas instituições especializadas, o trabalho era organizado com base a oferecer um conjunto de terapias individuais (fisioterapia, fonoaudiologia, psicologia, psicopedagogia, etc.) e pouca ênfase era dada à atividade acadêmica, que não ocupava mais que uma pequena fração do horário dos estudantes. A educação não era considerada como necessária, ou mesmo possível, principalmente para aquelas com deficiências cognitivas e/ou

sensoriais severas. O trabalho educacional era relegado a um interminável processo de “prontidão para a alfabetização”, sem maiores perspectivas já que não havia expectativas quanto à capacidade desses indivíduos desenvolverem-se academicamente e ingressar na cultura formal. (GLAT, 2005, p. 2)

No final da década de 90, precisamente em 1999, a Convenção da Guatemala, promulgada no Brasil pelo Decreto N.º 3.956/2001, assegura que as pessoas com deficiência têm os mesmos direitos humanos e liberdades fundamentais que as demais pessoas, definindo como discriminação com base na deficiência, toda diferenciação, ou exclusão que possa impedir ou anular o exercício dos direitos humanos e de suas liberdades fundamentais. O documento produzido nesta Convenção contribuiu significativamente para despertar na sociedade, a necessidade da eliminação das barreiras que impedem o acesso à escolarização.