3 DOCUMENTOS OFICIAIS NORTEADORES DO ENSINO DA
3.1 Documentos Referenciais do Ensino da Língua Materna
Criada em 1996, a Lei de Diretrizes e Base da Educação Brasileira (LDB) tem por objetivo regulamentar o sistema educacional brasileiro, reafirmando o direito à educação e os deveres do Estado presentes na Constituição Federal. Ao longo dos anos, a LDB sofreu diversas alterações para garantir a redução de desigualdades de aprendizado no país.
Em 1997, foram criados os Parâmetros Curriculares Nacionais, que têm por finalidade orientar e garantir, não somente, os investimentos no sistema educacional, mas também socializar discussões, pesquisas e recomendações ao aluno brasileiro para a sua formação cidadã. Os PCNs apresentam uma proposta flexível, que garante a diversidade cultural, independentemente da região brasileira, promovendo, assim, a autonomia do professor e das equipes pedagógicas.
Os Parâmetros Curriculares Nacionais visam a formação comum ao estudante da Educação Básica, garantindo o pleno exercício de cidadania e os meios necessários para a progressão no mercado de trabalho e na continuidade da formação acadêmica.
Alinhados aos PCNs, foram criados em 2012 os Parâmetros Curriculares da Educação Básica de Pernambuco a partir de discussões, sugestões, análises e avaliações da comunidade acadêmica, de professores, de especialistas da diversas áreas do conhecimento, das secretarias municipais e estadual. Esses documentos têm por objetivo contribuir para o fortalecimento da Educação Básica em todas as etapas e modalidades de ensino do Estado de Pernambuco.
Em relação ao ensino da língua materna, os Parâmetros Curriculares de Pernambuco também visam garantir ao aluno o domínio do uso da língua escrita com autonomia e competência necessárias às práticas sociais. Os documentos oficiais que tratam do ensino da língua materna ressaltam a importância do uso de texto como objeto de ensino nas abordagens linguísticas em sala de aula e reforçam a natureza social e interacional da linguagem, possibilitando, assim, a construção de um currículo
mais voltado ao desenvolvimento das competências de leitura e escrita. Essa proposta de ensino sustenta um currículo integralizador e contextualizado, em que a prática do professor promove espaços de integração dos saberes e contextualização dos conhecimentos culturalmente constituídos.
Dos seis eixos propostos no desenvolvimento no documento dos Parâmetros Curriculares da Educação Básica do Estado de Pernambuco, destacamos dois: a análise linguística (AL) e a escrita, que embasam o nosso trabalho. Nesse documento, a análise linguística, como eixo vertical, deve ser envolvida em atividades de análise e reflexão sobre o uso da língua e seu funcionamento em textos e contextos diversos.
Os eixos do currículo contemplam expectativas de aprendizagem que relacionam os conhecimentos linguísticos a serem desenvolvidos pelos alunos em cada ano do ensino básico. De acordo com os Parâmetros Curriculares de Pernambuco, o estudo da língua não se esgota no Ano/Série, mas deve ser construído e aperfeiçoado progressivamente, ao longo da vida escolar do aluno, porém para que esse processo se materialize é preciso que os fenômenos linguísticos sejam abordados de forma reflexiva na sala de aula.
Quanto ao eixo da escrita, em consonância com estudiosos da linguagem, como Koch e Elias (2009), a proposta de ensino da língua de documentos oficiais, como PCNs e os Parâmetros Curriculares de Pernambuco, baseia-se numa concepção interacional, tendo como referência os gêneros textuais, também na esteira da concepção bakhtiniana, em que os gêneros do discurso materializam-se na forma de textos. Por isso, as expectativas de aprendizagem tomam como referência os gêneros textuais.
Assim, as expectativas de aprendizagem, presentes nos Parâmetros Curriculares do Estado de Pernambuco consideram importantes elementos como situação comunicativa, interlocutores, tema, relações estabelecidas entre as partes do texto que promovem a coesão e a coerência, os discursos narrativos, argumentativos, injuntivos, poéticos, dentre outros, que desenvolvem as competências de escrita do aluno. Assim, o professor pode articular os seus planejamentos de leitura, escrita, oralidade, letramento literário e análise linguística a partir desses documentos oficiais, ampliando a sua perspectiva holística de ensino/aprendizagem. O processo de construção e
reconstrução da escrita precisa ganhar espaço como instrumento de ensino da língua materna na sala de aula.
Além dos PCNs e dos Parâmetros Curriculares do Estado de Pernambuco, destacamos o papel da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) do ensino fundamental, aprovada no final de 2017, que trata a língua materna numa perspectiva dialógica e social, ressaltando esse documento norteador para um currículo voltado a conteúdos específicos e determinados. O processo de construção da BNCC iniciou-se em 2015 com uma consulta democrática até 2016 à sociedade civil, por especialistas das áreas de conhecimento e por professores. Em seguida, foi analisada por gestores, professores e alunos de todos os estados brasileiros. Por fim, o Ministério da Educação finalizou a terceira versão, que foi homologada num processo já não tão democrático em dezembro de 2017.
Por ser um documento de caráter normativo que define o conjunto orgânico e progressivo de aprendizagens essenciais, garantidas a todos os alunos da Educação Básica, a BNCC está ancorada na Constituição Federal do Brasil, na Lei de Diretrizes e Bases Nacional (LDB), nas Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Básica (DCNEB), na Conferência Nacional de Educação (CNE) e no Plano Nacional de Educação (PNE). A BNCC deve ser um instrumento norteador que ofereça subsídios para a formulação e a reformulação das propostas curriculares dos sistemas de ensino dos municípios e estados, em diálogo com as diferenças presentes na escola, pactuando, assim, a equidade e a igualdade no contexto socioeducacional.
Como a BNCC do ensino fundamental foi homologada em 2017, ainda estamos no momento de implementação até 2020. Não se trata de um documento curricular, mas de um referencial norteador para a elaboração do currículo pelas redes de ensino dos municípios, dos Estados e do Distrito Federal pautado nas aprendizagens essenciais, as quais devem promover a mobilização de conhecimentos (conceitos e procedimentos), habilidades (práticas cognitivas e socioemocionais), atitudes e valores para que o aluno consiga resolver situações-problema da vida cotidiana, do exercício de cidadania e do mundo do trabalho.
No que diz respeito ao componente Língua Portuguesa, a BNCC visa proporcionar ao aluno experiências que podem contribuir para a ampliação dos
letramentos, capazes de promover cidadãos participativos e críticos na pluralidade das práticas sociais, permeadas/constituídas pela oralidade, pela escrita e por outras linguagens.
Destacamos a importância do ensino da língua materna na sala de aula e o desenvolvimento do domínio das competências linguísticas presentes na BNCC. Especificamente, no que diz respeito às habilidades e competências para o ensino de leitura e escrita e suas implicações para o ensino e a aprendizagem da língua portuguesa, o documento destaca a abordagem enunciativo-discursiva em que a interação entre sujeitos e linguagens é privilegiada numa perspectiva social da língua.
Assim como os Parâmetros Curriculares Nacionais, a BNCC organiza o ensino da língua em eixos: oralidade, leitura/escrita, produção (escrita e multissemiótica), análise linguística/semiótica (conhecimentos linguísticos). Por se tratar de um documento que apresenta proposições para o ensino/aprendizagem, consideramos relevante uma reflexão sobre esses eixos, assim, embasamos o nosso trabalho nos eixos leitura/escrita, produção de textos e análise linguística/semiótica e suas implicações numa perspectiva enunciativo-discursiva, que consolida as interações sociais entre linguagem e sujeito, abordagem defendida por Bakhtin. Dessa forma, ressaltamos os seus objetivos. Primeiro, o eixo leitura/escrita está voltado para a compreensão das práticas de linguagens resultantes da interação ativa do leitor/ouvinte com textos escritos, orais e multissemióticos, que contribuem para a formação leitora e produtora do aluno. É importante depreender o contexto de produção em que os textos estão imersos e as condições de produção de um texto em várias mídias e semioses. Vale ressaltar a mobilização dos conhecimentos dos gêneros em favor do desenvolvimento das capacidades de reconstrução e reflexão tanto sobre as condições de produção, como também sobre a recepção dos textos pertencentes aos mais diversos gêneros que circulam nas esferas de atividade humana.
O eixo de leitura espera do aluno não somente uma reflexão crítica sobre as temáticas tratadas e a validade das informações, mas também recuperação e análise da organização textual, da progressão temática e do estabelecimento entre as partes do texto, além da compreensão dos efeitos de sentido provocados pelos usos linguísticos e multissemióticos. As estratégias e os procedimentos de leitura também
constituem esse eixo, considerando os objetivos de leitura e estabelecendo relações entre o texto e os conhecimentos prévios do aluno.
Segundo, o eixo da Produção de Textos compreende as práticas de linguagem relacionadas à interação e à autoria do texto com objetivos enunciativos diversos. A produção de texto compreende as dimensões inter-relacionadas à prática de uso e reflexão da língua, como as habilidades de produção contextualizadas, resultantes de situações efetivas de produção dos mais diversos gêneros que permeiam as atividades humanas, os princípios de organização, de uso dos recursos estilísticos e coesivos, a autonomia de planejar, produzir e revisar as produções realizadas. Nesse eixo, a construção da textualidade deve assegurar as competências e as habilidades de organizar informações, a variedade linguística e/ou as semioses apropriadas ao contexto de produção, o uso de recursos linguísticos e multissemióticos de modo adequado, considerando a composição, o estilo e os efeitos de sentido pretendidos.
Por fim, destacamos também o eixo da análise linguística/semiótica que envolve procedimentos e estratégias (meta)cognitivas de análise e avaliação consciente, responsáveis pela situação comunicativa e pelos efeitos de sentido, nas formas de composição do texto, como coesão, coerência e organização da progressão temática, influenciadas pela organização típica do gênero. Consideramos importante discutir a inserção da semiótica na BNCC que se volta ao estudo de textos em múltiplas linguagens, incluindo as digitais, pois é inegável o seu valor no ensino da língua materna, não somente pela evolução dos estudos da linguagem, mas também pelas grandes mudanças tecnológicas que devem ser discutidas em sala de aula.
Como já exposto nesse trabalho, a presença de textos multimodais é de conhecimento do aluno antes mesmo do seu ingresso à escola, por isso, é necessário contextualizar a análise da língua às práticas sociais, isto é, compreender as formas de uso de acordo com a situação. Além disso, o ensino da língua na perspectiva da semiótica permite ao aluno o empoderamento do seu uso, mobilizando os diferentes saberes. Nesse caso, a proposta é que a gramática seja compreendida em seu funcionamento, e não mais, de forma isolada ou conteudística. Para a BNCC, os conhecimentos linguísticos, semióticos, sintáticos, discursivos, sociolinguísticos,
morfológicos necessários à compreensão, à produção de textos e ao domínio dos gêneros textuais são construídos durante o ensino fundamental.
Em relação aos gêneros discursivos, a BNCC privilegia o espaço para o ensino da língua portuguesa, destacando não somente os gêneros impressos, mas também gêneros da esfera jornalístico-midiática, gêneros legais e normativos, como o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), o Código Nacional de Trânsito, a Declaração dos Direitos Humanos, dentre outros, que ganham relevância com o objetivo de promover uma consciência dos direitos e valorização da vida humana.
Ainda estão presentes na BNCC os gêneros reivindicatórios e propositivos, inclusive os digitais, como propostas de análise linguística. Os gêneros didático- expositivos impressos ou digitais também são abordados na BNCC com o objetivo de possibilitar ao aluno ―trato crítico e criterioso das informações e dados‖ (BNCC, 2017. p. 136). Quanto ao campo artístico-literário, os gêneros devem contribuir para a formação do leitor literário, evidenciando a condição estética desse tipo de leitura e de escrita, garantindo a formação de um leitor-fruidor, capaz de compreender e interpretar as múltiplas camadas de sentido do texto literário. Como a BNCC não é um currículo, mas um conjunto de referenciais, outros gêneros não abordados no documento devem ser incorporados ao currículo escolar.
Para a BNCC, há uma articulação entre os conhecimentos da língua, as semioses, a gramática, a análise linguística e os demais eixos de aprendizagens e desenvolvimento da língua materna. Nesse caso, as abordagens linguísticas, metalinguística e reflexiva devem ocorrer a favor da prática da linguagem, evidenciadas nos eixos de leitura, escrita, análise linguística/semiótica e oralidade.
Vale destacar alguns pontos de convergência entre os Parâmetros Curriculares e a BNCC, especialmente nos eixos de escrita e AL em que a língua deve ser considerada em situações de uso, porém os documentos divergem em outros aspectos. No que diz respeito à escrita, os PCNs já a abordava numa perspectiva discursiva, isto é, como produto da interação social. Entretanto, enquanto nos PCNs a produção de textos é vista como um conteúdo procedimental, a BNCC privilegia o gênero, o interlocutor, o campo de produção, a variação linguística e outros determinantes sociais da escrita no momento da produção textual. Dessa forma, para a BNCC, as habilidades
de produção estão articuladas a outras práticas linguísticas como as de leitura e análise linguística/semiótica. Além disso, ainda ressalta as especificidades da leitura e da escrita em ambientes virtuais.
Em relação ao eixo gramática, análise linguística e semiótica, os PCNs não tratam as questões gramaticais de forma objetiva, ou seja, essas questões foram minimizadas. Por outro lado, a BNCC trata a gramática mais explicitada e propõe uma análise da língua mais contextualizada às práticas sociais e ressalta a AL nos textos multimodais e multissemióticos.
Em suma, os PCNs, os Parâmetros Curriculares do Estado de Pernambuco e a BNCC tratam o ensino da língua materna como práticas de linguagens, objetos de conhecimentos e habilidades. Além disso, ainda ressaltam a importância das estratégias de produção textual, como o planejamento, a textualização, a revisão e a adição como elementos relevantes ao ensino da língua materna. Para especialistas como Geraldi, Passareli, Oliveira, dentre outros, a refacção do texto e as prática de leitura/escrita fazem parte do desenvolvimento da competência linguística do aluno.
Portanto, os eixos acima discutidos foram importantes para a nossa pesquisa, pois como já afirmamos, buscamos investigar como se dão a construção e a modificação dos objetos do discurso no processo de recategorização referencial na escrita de alunos. A seguir, apresentamos o percurso metodológico que adotamos para a coleta de dados.