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DOCUMENTOS UTILIZADOS PARA PROVAR UMA RELAÇÃO CONJUGAL ENTRE PESSOAS DO MESMO SEXO.

O JUDICIÁRIO E A QUESTÃO DA PROVA: ESTRATÉGIAS DE RECONHECIMENTO.

5.2 DOCUMENTOS UTILIZADOS PARA PROVAR UMA RELAÇÃO CONJUGAL ENTRE PESSOAS DO MESMO SEXO.

M.H.L.M e E.M.B.J. viveram um relacionamento afetivo conjugal até o ano de 1991. Com o fim da relação, M.H.L.M entrou com uma ação buscando o recebimento de uma pensão alimentícia de sua ex- companheira, tendo em vista a união estável havida entre o casal. Com o falecimento de E.M.B.J., M.H.L.M recorre novamente à Justiça para receber agora a pensão por morte, já que na ação anterior foi reconhecida como dependente da ex-companheira, pois recebia pensão alimentícia da mesma. A decisão faz menção à determinação imposta ao INSS devido ao julgamento da Ação Civil Pública nº 2000.71.00.009347-0, já comentada no quarto capítulo, onde o órgão previdenciário é obrigado a acolher “os pedidos administrativos requeridos por parceiros homossexuais, desde que lograssem êxito em comprovar os mesmo requisitos exigidos na Lei nº 8.213/91 aos parceiros heterossexuais”200

. No processo ajuizado por M.H.L.M, foram utilizadas categorias como parceiro homossexual e união estável.

L.F.S.M buscou o Instituto de Previdência Social no ano de 2006 para requerer a pensão em decorrência do falecimento de seu companheiro. Para comprovar a relação, juntou cópia das partes principais da ação declaratória que ajuizou junto à Vara de Família e Sucessões de um das capitais do sul do Brasil, para declarar a união estável e participar da divisão da herança deixado por seu companheiro, juntamente com seus pais e irmãos. Anteriormente ao óbito do companheiro, L.F.S.M também ajuizou outra ação, em 1989, que buscava declarar a união estável. Além destas duas ações, L.F.S.M ajuizou uma medida cautelar de justificação judicial, processada perante a Vara Federal Previdenciária da mesma capital, que teve como objetivo

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TRF 4 Região, Apelação Cível n. 2002.71.00.053659-4, Autora: M.H.L.M. e Réu : INSS.

produzir provas e ouvir testemunhas para comprovar a relação estável com seu companheiro C.F.B., para fins previdenciários e posteriormente requerer o benefício de pensão por morte. Todas estas decisões que versavam sobre a comprovação da união estável entre o casal de mesmo sexo foram utilizadas como comprovatórias da relação pelo juiz que julgou este processo.201

Já no processo ajuizado por M.H.L.M, esta levou ao conhecimento do judiciário os seguintes documentos, com intuito de comprovar a união estável vivenciada com sua ex-companheira:

Peça inicial da ação ordinária de reconhecimento e dissolução de união estável, cumulada com pedido de direito sucessórios e patrimoniais, em que a autora busca o reconhecimento da união estável com a extinta (fl. 09/18); b) Declaração da extinta, em que a mesma contrai obrigações frente à autora, principalmente a de pagar equivalente a 30% de seus rendimentos, datada em 19-11-1991, visto que a extinta havia deixado de morar com a autora (fl. 23); c) Cédula Hipotecária Integral, em que a autora e a extinta foram devedoras, referente ao imóvel localizado na Avenida Jacuí, nº 1.095 (fl. 28), imóvel em que a autora morava e que, por ocasião do acordo na ação ordinária de reconhecimento e dissolução de união estável, cumulada com pedido de direitos sucessórios e patrimoniais, ficou para a parte autora (fl. 126); d) Recibo de pagamento de Indenização, referente ao seguro de vida deixado pela extinta em favor da parte autora (fl. 29).

M.H.L.M utilizou a decisão anterior proferida em outro processo judicial que tinha como objetivo a dissolução de união estável. A autora juntou também declaração da companheira falecida, que estabelecia o pagamento de uma pensão de 30% de seus rendimentos. Esta declaração foi utilizada pelo desembargador que decidiu o processo em segundo grau, considerou o referido documento como prova hábil para a comprovação da conjugalidade, destacando a inexistência de legislação que regulamente as uniões entre pessoas do mesmo sexo: “[...] pelo fato de que as relações homoafetivas ainda lutam por um melhor regramento

201

TRF 4 Região, N. 2008.71.00.004210-1, Autor: L.F.S.M. e Réu: INSS. Data da decisão : 23.04.2009.

dentro do ordenamento jurídico brasileiro, tenho que este documento, apesar de precário, poderá ser considerado como prova de que a extinta pagava pensão alimentícia à autora, todos os meses. Assim, concluo como comprovada a dependência econômica entre a parte autora e a extinta”.202

Outra prova que deve ser destacada é o fato da falecida companheira de M.H.L.M, ter deixado um seguro de vida em seu favor que, por certo, fez menção à condição de conjugalidade vivida pelo casal de mulheres.

No caso de A.L.B., para manter o direito de receber a pensão previdenciária de seu companheiro J.E.S, ele anexou documentos como cópia do extrato de conta-corrente conjunta, cadastro hospitalar, em que o companheiro aparece como responsável pelo doente em suas internações, faturas telefônicas que comprovam a realização de ligações pelo falecido ao seu companheiro, correspondências dirigidas a A.L.B. para o mesmo endereço do falecido203. Neste exemplo, podemos observar como a necessidade do domicílio comum se torna quase que uma obrigação para a comprovação de uma conjugalidade e a obtenção de direitos em relação à união estável estabelecida pelo casal.

No processo interposto por C.A.M.L, a discussão quanto à prova documental foi em torno do número de documentos que devem ser apresentados junto à Previdência Social para a comprovação da relação conjugal entre pessoas do mesmo sexo como união estável. O desembargador federal que julgou a decisão em grau de recurso, afirma que o número de três documentos, “como exige o §3º do art. 22 do RPS - Decreto nº 3.048, de 1999” [...] “é necessário apenas para dispensar a justificação administrativa”204

. O juiz explica que se aquele que pretende o benefício não tiver todos os documento ou parte deles este convívio poderia ter sido comprovado por testemunhas na via administrativa.

[...] cabia ao INSS, até mesmo de ofício, por força do artigo 29 da Lei do Processo Administrativo Federal (Lei nº 9.784, de 1999), ter promovido justificação (instrução do processo administrativo de pensão), intimando o interessado para que indicasse testemunhas. Como quer que seja, em se

202

TRF 4 Região, N. 2002.71.00.053659-4, Autora: M.H.L.M. e Réu: INSS. 203

TRF 4 Região, N. 2001.70.00.027992-0, Autora: I.M.S. e Réus : INSS e A.L.B.

204

tratando de requerimento de pensão por morte, não há necessidade de provas materiais, à diferença do que ocorre com a qualidade de segurado ou o tempo de serviço, bastando a prova testemunhal205.

O que o juiz afirma é que o órgão administrativo teria o dever de promover esta prova, no âmbito administrativo, quando o beneficiário, no caso, a companheira ou o companheiro homossexual não tivesse toda a documentação necessária (ou mesmo parte dela) para requer o benefício de pensão por morte.

J.B.O ingressou na justiça buscando o reconhecimento da condição de companheiro de ex-servidor público federal com percepção da "pensão por morte". Afirmou que manteve relacionamento afetivo estável e duradouro com P.M.S, entre 1986 e a morte de seu companheiro, ocorrida em 28.06.2004. Para confirmar seu direito, confirmou, nos moldes da legislação que regra a união estável entre casais heterossexuais, que mantiveram relacionamento público e notório, sendo de conhecimento inclusive de colegas de trabalho do servidor. Para comprovar que a relação possuía animus de entidade familiar, comprovou no processo que o casal adquiriu em conjunto um imóvel, no ano de 1991, destinado à residência de ambos206. Neste caso, a ex-esposa de P.M.S. já recebia a pensão e J.B.O pleiteia na justiça a divisão desta pensão, assim como é realizado quando em um processo há o recebimento de pensão alimentícia referente a um relacionamento anterior e um companheiro/companheira que vive em união estável ou mesmo um novo casamento, no momento do óbito do segurado da previdência ou servidor. Diante das provas apresentadas por J.B.O, a sentença foi favorável ao mesmo. Entretanto, M.J.C.M recorre da decisão, pois entende que é

[...] a única pessoa legitimada à percepção da pensão em debate, nos termos da Lei n.º 8.112/90. Argumenta que a lei civil somente considera como união estável aquela existente entre pessoas de sexos opostos, referindo que o caso retratado nos autos é apenas uma sociedade de fato, onde apenas deverão ser partilhados os bens havidos ao

205 Idem. 206

TRF 4 Região, N. 2004.71.07.006747-6, Autor: J.B.O. e Réus :INSS e M.J.C.M.

tempo da convivência. Discorda da proporção de rateio da pensão definida pela sentença, aduzindo que o valor da pensão alimentícia foi estipulado através de acordo com o de cujus, sujeito a alterações a qualquer tempo. Fundamenta sua pretensão no que estabelece o art. 218 e § único da Lei n.º 8.112/90207.

Por outro lado, a União Federal se posicionou contrária ao pedido feito por J.B.O, pois se trata de caso em que está configurada a “impossibilidade jurídica do pedido, diante da falta de previsão legal de pensão para companheiro do mesmo sexo do titular”. Da mesma forma, considera que não se trata de uma entidade familiar, pois somente é aceita no ordenamento jurídico brasileiro a “união estável formada por pessoas de sexos distintos”208

. Quanto aos documentos apresentados destaco: conta bancária conjunta, aquisição de imóvel em conjunto, plano de previdência privada em que o J.B.O aparece como único beneficiário do instituidor (P.M.S), propostas de contrato de seguro de vida em que consta o nome de J.B.O como único beneficiário. Da mesma forma, como apontei nos documentos anexados nos processos ajuizados contra o Instituto Nacional de Previdência Social -INSS, neste caso, foi anexada uma declaração do pai de P.M.S, realizada no curso da denominada “ação declaratória de reconhecimento de união sócio- afetiva” movida por J.B.O, na qual o pai do companheiro afirma que a relação conjugal havida entre os companheiro teve início no ano de 1986.209

I.S.R e R.P.C começaram a luta pelo reconhecimento da conjugalidade quando ambos estavam vivos, o que foi intensificado com a morte de R.P.C. Assim, foram utilizadas as provas produzidas durante a tramitação das ações anteriores. Desta forma não foi necessária a produção de prova testemunhal pois “o caso dos autos é peculiar, porquanto houve ação declaratória ajuizada na Justiça Estadual com o fito de reconhecer a união estável entre o autor e o falecido, julgada procedente e transitada em julgado” 210

. A partir do voto contrário de dos

207

TRF 4 Região, N. 2004.71.07.006747-6, Autor: J.B.O. e Réus : INSS e M.J.C.M.

208

TRF 4 Região, N. 2004.71.07.006747-6, Autor: J.B.O. e Réus : INSS e M.J.C.M.

209 Idem. 210

STJ, Nº 238.715, Relator Desembargador. Data da Decisão 02/10/2006. Autor: I.S.R. e Réu : INSS.

desembargadores, proferido durante o julgamento no TRF, este entendeu que as provas apresentadas são “insuficientes para convencimento judicial quanto aos quatro requisitos exigíveis à união homossexual ad familiam (objetivo de constituir família, convivência duradoura, convivência contínua e convivência pública)”. Vale lembrar que foram anexados por I.S.R: “sentença declaratória de união estável”, “uma declaração dos pais do apontado, o companheiro do autor”, e a “decisão judicial, deste último como dependente daquele no plano de saúde da empresa211. Este juiz ignorou os efeitos das decisões proferidas por outros juízes e, ao se referir à declaração dos pais de R.P.C, afirmou se tratar de “apenas uma declaração dos pais do apontado companheiro do autor”, desconsiderando a comprovação da família de origem do companheiro falecido, de que ambos vivenciam um relacionamento

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