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O preconceito contra pessoas doentes não é novo em nossa cultura, do mesmo modo ações de estigma e discriminação contra essas pessoas são comuns em várias culturas. Estas ações apontam suas baterias não só para a doença, mas também para todo o imaginário que a envolve, potencializando outros preconceitos a partir de diversas outras categorias como gênero, classe, raça/etnia e orientação sexual. Os limites desse estudo, no entanto, e seu foco na categoria preconceito contra as pessoas soropositivas durante os processos educativos nos levaram a focar na categoria AIDS, o que pode nos conduzir a discutir outras categorias a partir do momento em que elas surjam em nossos dados junto às pessoas soropositivas. Interessa-nos, neste momento, o preconceito contra os doentes de AIDS, o que nos leva assim a buscar em outros estudos pistas acerca do preconceito contra outras doenças, para, com base nelas, chegar à AIDS.

Desse modo iremos caminhar brevemente sobre estudos que tratam da Hanseníase, da Tuberculose e do Câncer, buscando entender nessas doenças como se processaram o preconceito contra as pessoas que foram infectadas por elas.

A hanseníase é uma doença infecto-contagiosa causada pela bactéria mycobacterium leprae. O nome mais conhecido desta doença é lepra que já carrega um grande estigma; assim, embora esta doença tenha tratamento e cura, ainda é carregada de preconceito.

A história dessa enfermidade foi marcada por dois procedimentos muito comuns contra as pessoas doentes, o isolamento em “cidades de leprosos”, e o forte julgamento religioso contra as pessoas que contraíram a doença. Essas duas características são tão fortes que dificilmente qualquer estudo sobre este tema pode ignorar essas questões.

Durante sua pesquisa, Câmara (2009) buscou analisar os estigmas causados pelo isolamento compulsório de homens, mulheres e crianças num asilo-colônia da cidade de São Luís do Maranhão, entre os anos de 1937 e 1965. Foram entrevistados egressos dessa instituição. A pesquisadora demonstrou também como a doença é tratada na Bíblia, sempre associada ao pecado e à exclusão. O período escolhido pela pesquisadora marca o início das intervenções estatais na política de saúde no Brasil com foco nos “leprosos”, em que a fórmula medieval da segregação por um lado e do reforço à ideia do pecado por outro foi a principal resposta governamental.

O denominado leproso quase sempre foi visto como um misto de corpo doente e alma pecadora. A doença era entendida como um castigo divino, e isso agravava ainda mais a situação do doente, uma vez que sendo ele pecador deveria pagar por seus pecados e resignar-se ao confinamento nos leprosários. (CÂMARA, 2009, p. 46)

O estudo é rico em depoimentos que demonstram fartamente o caráter discriminatório e produtor de estigmas dessa política e seus efeitos graves na vida dessas pessoas, além de apontar também as estratégias de resistência que aconteciam entre raros momentos de enfrentamento do preconceito e muitos momentos em que a negação da doença evitava o enfrentamento e a consequente discriminação. Os resultados dessa pesquisa apontam, ainda, a compreensão dos ex-doentes de hanseníase de que a cura física não se reflete na cura “moral” e, assim, em decorrência das várias experiências de segregação vividas ainda hoje, o segredo sobre o diagnóstico precisa ser regra.

A tuberculose é uma infecção causada pelo microorganismo mycobacterium

tuberculosis, também conhecido por bacilo de Koch. Esta doença, atualmente, tem tratamento

e cura. Assim como a Hanseníase, a Tuberculose – TB, é uma doença muito antiga. “Existem relatos de evidência de TB em ossos humanos pré-históricos encontrados na Alemanha e

datados de 8.000 antes de Cristo.”7

Segundo Rosembergue (2008), em sua pesquisa de mestrado, apesar da existência da tuberculose na América pré-colombiana entre o povo inca, no Brasil, sua disseminação aconteceu através dos colonizadores portugueses, em especial, os padres jesuítas. Conhecida como “Peste Branca”, a tuberculose dizimou populações inteiras até começar a ser combatida com antibióticos.

Outro ponto apontado na pesquisa foi a crença, entre as autoridades do governo brasileiro, de que a tísica (outro nome da tuberculose) era uma doença da modernidade, sobre o que nada se podia fazer, afinal, se até na Europa havia a Peste Branca, o que um país como o Brasil poderia fazer?

(...) a tuberculose foi integrada ao romantismo por ter ferido prostitutas, escritores, pintores, músicos, literatos e poetas das altas classes sociais. Por isso esteve presente em todas as formas de manifestação humana. Seu apogeu, através dos dramas e lirismos dos tísicos célebres, ocorreu no século XIX e primeira metade do século XX e teve Paris como palco. (ROSEMBERGUE, 2008, p. 144)

No início da república, a saúde pública preocupou-se com doenças que denunciavam o atraso do país. Apesar de a tuberculose fazer mais vítimas do que a febre amarela, febre tifóide, varíola, entre outras, essas doenças tiveram muito mais atenção governamental. É importante acrescentar também que havia a crença na hereditariedade da doença, de modo que, sendo assim, reforçava-se a tese de que nada se podia fazer. Quando se compreendeu que a tuberculose era contagiosa, começou-se a entender o motivo do grande número de vítimas entre as pessoas pobres. Declarou-se guerra aos cortiços e aos escarros! Surgem então medidas higienistas e de internações compulsórias! A tuberculose deixa de ser uma doença da elite intelectual e passa a ser a doença da pobreza, da falta de higiene. A partir do final da década de 40 do século XX, o tratamento quimioterápico deu a impressão de vitória contra a tuberculose.

Com o aparecimento da pandemia de HIV/AIDS, houve um aumento significativo do número de novos casos de tuberculose. Isso ocorre devido à destruição do sistema imunológico dos pacientes com HIV o que leva à ativação do bacilo da tuberculose. Segundo Pimenta (2008), uma pessoa doente de AIDS tem 50 (cinquenta) vezes mais chances de contrair tuberculose do que alguém que não tenha AIDS.

O relatório da Organização Mundial de Saúde (WHO, 2010) aponta que em 2009 surgiram mais de 9,4 milhões de novos casos de tuberculose no mundo. Dados que apontam a

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maior vulnerabilidade de pessoas pobres, com baixa escolaridade e da raça negra podem ser atribuídas tanto à AIDS quanto à tuberculose. A coinfecção Tuberculose/AIDS tem sido responsável por um significativo número de mortes no mundo inteiro.

O imaginário em torno da morte, inclusive, acompanha fortemente a pandemia de AIDS, fruto de sua grande letalidade até meados dos anos de 1990 e da forte exposição de artistas que definharam sob os holofotes da mídia.

Outra doença que carrega muito fortemente o estigma de ser fatal é o câncer, o nome dado a um conjunto de mais de 100 doenças que têm em comum o crescimento desordenado (maligno) de células que invadem os tecidos e órgãos, podendo espalhar-se (metástase) para outras regiões do corpo (grifo nosso)8 Receber o diagnóstico de estar doente com câncer não é fácil, já que sobre esta doença paira o imaginário da morte prévia e apressada. Apesar dos avanços no tratamento e no diagnóstico cada vez mais preciso e prematuro, o câncer ainda ocupa os primeiros lugares entre as causas de mortes provocadas por doenças no mundo.

Este quadro faz do câncer uma doença que atinge toda a família, tendo em vista que o iminente desaparecimento daquela pessoa em um curto espaço de tempo (assim depõe o imaginário popular) desestabiliza a própria pessoa e sua família.

As responsabilidades relacionadas aos aspectos emocionais, à educação dos filhos, às atividades domésticas e ao sustento da família acabam sobrecarregando um dos pais. Por sua vez o genitor doente sofre diante da possibilidade de não ver os filhos crescerem e preocupa-se com o futuro deles e da família. (GIRARDON-PERLINI, 2009, p. 37)

Desse modo a doença assume um poder, uma áurea, que faz dela um ser quase sobrenatural que paira sobre as cabeças dos seres humanos. Tanto que, de sigla de uso médico como subterfúgio para evitar a menção explícita ao diagnóstico, o termo “CA” passa a ser utilizado como instrumento popular que afastaria a própria doença da vida das pessoas. Em sua recentemente lançada “Biografia do câncer”, Siddhartha Mukherjee (2010) apresenta uma linha do tempo em que afirma que há evidências não conclusivas do câncer desde 4.000 a. C., idade de um maxilar encontrado com linfomas. A descrição médica mais antiga sobre a doença ocorreu em 2.500 a. C. e teria sido feita pelo sacerdote egípcio Imhotep. O estudioso acredita, inclusive, que o fato das pessoas viverem mais tempo é um dos principais fatores para o aumento do número de casos de câncer.

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O câncer, assim como a AIDS, ainda figura como doenças que, embora o tratamento tenha avançado muito, ainda são consideradas incuráveis. O câncer por representar várias doenças (mais de cem) que têm em comum o fato de terem células malignas, reduzindo a questão da cura a diversos fatores que incluem o tipo, a precocidade da descoberta em relação ao avanço da doença, fatores genéticos e de estilo de vida, entre outros. A AIDS, por sua vez, continua sendo incurável em todas as suas formas tendo, no entanto, grandes avanços no tratamento, chegando, inclusive, a aproximar-se do status de doença crônica.