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Capítulo III. Da reza às plantas de poder: a trajetória da cura

3. Doenças e receitas segundo os comunitários

Seu Barroso tem 67 anos e faz de tudo: é pescador, agricultor, carpinteiro e artesão. Tem especial interesse por plantas medicinais, apesar de alegar que sabe muito pouco. Para ele a saracura (Ampelozizyphus amazonicus Ducke) é o sara-tudo, cura qualquer doença que dê febre alta. A sucuuba (Himatanthus drasticus (Mart.) Plumel) é ótima para tirar o inchaço e especialmente indicada para o pós-operatório. O leite do amapá (Brosimum parinarioides Ducke)

80 é um ótimo remédio para tuberculose e outras doenças de pulmão. Orelha-de-cachorro (Crudia

amazonica Spruce ex Benth.) é um remédio muito forte para matar vermes, ele indica que esta

planta ocorre no vargeado e é muito comum para os lados do Igarapé do Atucurá. Quando consome ele sente moleza e sono, mas diz que não toma esse remédio porque ao tomar pensa que vai morrer: “bocado cruel esse daí...”.

O golpe é um tipo de machucado que dá quando o caboclo se fere com terçado ou machado. Para este mal Seu Barroso indica o óleo extraído do tronco do louro-namuí (Ocotea aciphylla (Nees & Mart.) Mez), encontrado no vargeado por todo canto do Jauaperi. Nunca se aplica o óleo em cima do ferimento, mas ao redor, a semelhança da banha de sucurijú, do óleo da andiroba e do óleo de motor. Para tirar o óleo do louro-namuí, que é inflamável, é preciso derrubar a árvore, pois no corte da casca não sai muita coisa. É possível tirar até três litros de óleo de uma árvore grande.

A rasgadura, diferentemente do golpe, é um tipo de machucado que dá dentro da carne da pessoa e ninguém vê, podendo ser oriundo de um mau-jeito. Para Seu Barroso, a maneira tradicional de curar rasgadura é ir ao mato com mais uma pessoa, a pessoa com a rasgadura vai à frente procurando um apuizeiro (não coletado), enquanto o outro vai atrás. Quando encontra o apuizeiro a pessoa abre uma passagem em meio as suas raízes aéreas e passa por dentro, enquanto que a pessoa que vier atrás fica responsável por encontrar uma fibra na mata para costurar a passagem da pessoa com rasgadura. A pessoa com rasgadura não pode mais voltar àquele local e o seu machucado vai sarar à medida que o apuizeiro sarar também.

Guri tem 45 anos, filho de Seu Barroso, possui um grande interesse por plantas medicinais, mas acha difícil trabalhar com isso porque não sabe ler nem escrever. Gostaria de ir ao médico mais frequentemente, mas “aqui para esses lado é um pouco mais difícil, a enfermeira não vem

mais e médico dificilmente vem, quando vem eu não to doente”, alega. Às vezes tem que se tratar

sozinho, então procura aprender sobre os remédios caseiros, como quando o falecido Antonio Martins veio a sua comunidade e o curou de pneumonia, ainda garoto, receitando uma mistura de banha de anta e querosene branca para beber. Guri foi o primeiro comunitário a citar um uso na farmacopeia local para um musgo (não coletado), que estancou um grave ferimento no seu braço ao cair sobre uma garrafa quebrada. Bastava cobrir o ferimento de musgo e fazer um curativo por cima.

Para Seu Carlito, as plantas mais importantes de sua farmacopeia são o jacaré-café ou carauaçú (Symmeria paniculata Benth.), para dor de barriga, o cipó-ambé (Philodendron

solimoesense A.C.Sm.), para picada de bicho, e a raiz do açaí (Euterpe precatoria Mart.), para

anemia. Tanto o cipó-ambé como o jacaré-café são plantas mais relacionadas com o vargeado, o que revela a intimidade deste exímio pescador com esse tipo de ambiente de floresta alagada.

81 Seu Carlito também já teve rasgadura, uma enfermidade que ele chama de carne trilhada. Segundo ele, é outro tipo de problema que se cura com reza. Trata-se de um mau jeito que a pessoa dá quando faz algum esforço repetitivo, mas segundo ele “pode dar deitado na rede

também”. Uma rezadeira pode ir orando na pessoa com rasgadura enquanto costura algum tecido

qualquer com uma agulha, “assim a pessoa vai curando”. Uma planta que pode ajudar no tratamento é a sucuuba, “pega o leite e mela onde é a rasgadura da pessoa, ai vai sarando...”. Hérnia também é uma carne rasgada, uma carne trilhada, ou simplesmente “um vento”. Um arroto pode virar uma hérnia, porque rasga a carne. Tem muitos tipos de hérnia. O leite (ou látex) do apuizeiro é um bom remédio e deve ser aplicado em cima da hérnia.

“O velho Bibiano, falecido, era metido a curador. Morava no Arara, pertinho de Manaus.

No tempo da Castanha vinha pra cá”. Foi daí que veio o interesse de Seu Carlito por plantas

medicinais. Para ele a malária é a doença mais comum no rio Jauaperi, uma vez que como um dos moradores mais antigos do Xixuaú, viu de perto as sucessivas epidemias que assolaram o rio até poucos anos atrás. Muitos ribeirinhos se referem à malária também como cesão ou paludismo. Para Carlito, assim como para a maioria dos jauaperinos, as plantas medicinais constituem uma forma de autonomia em relação à carência de tratamento médico na região.

Algumas doenças de pele recebem designações curiosas, como é o caso da impingia e da

coruba. Uma impingia braba é uma coceira proveniente de uma micose de fungo que dá na pele.

Coruba é uma alergia, tipo pereba, mais por conta de uma bactéria, possivelmente. Às vezes golpes e ferimentos também recebem a denominação de cizura, tida por muitos como uma espécie de ferida que pode ser provocada por ferrada de bicho. Além destas o panadiço também contempla a categoria de doenças de pele, se tratando na verdade de uma vermelha muito forte.