3 MATERIAL E MÉTODOS
4.2. Doenças
4.2.1. Hemograma
Os valores médios dos constituintes da série vermelha do hemograma, do fibrinogênio e das proteínas plasmáticas totais (PPT) estão representados no Quadro 01. Análise dos dados relativos à série vermelha do sangue indica que, na média, a contagem de hemácias e o VG foram normais enquanto a taxa de hemoglobina foi baixa. Também foram normais o VCM e a CHCM, sendo elevada a HCM.
Quadro 01: Média e desvio padrão da contagem de hemácias (Hem), hemoglobina (HB),
hematócrito (HTC), volume corpuscular médio (VCM), concentração de hemoglobina corpuscular média (CHCM), hemoglobina corpuscular média (HCM), fibrinogênio (FB) e proteínas plasmáticas totais (PPT) de sete cabras com sinais clínicos respiratórios, 12 horas após o transporte da propriedade no Recreio dos Bandeirantes, RJ para a UFRRJ em Seropédica, RJ. Hem (x106/µL) HB (g/dL) HTC (%) VCM (fL) CHCM (%) HCM (pg) FB (mg/dL) PPT (g/dL) Média ± DP 10,1 ± 1,46 7,5 ± 1,2 24,1 ± 4,2 22 ± 0,6 33,7 ± 3,8 7,4 ± 0,9 914 ± 760 7,6 ± 0,6 Referência 8,0 – 18,0 8,0 – 14,0 19 - 38 15 - 30 35 - 42 5,0 – 7,4 100 - 400 6,0 – 7,5
22 Individualmente cinco cabras apresentaram valores subnormais de hemácias, hematócrito e/ou hemoglobina. Os valores individuais do VCM e CHCM indicam anemia do tipo normocítica e normocrômica (ANN) nas cinco cabras com anemia.
Os resultados das contagens de leucócitos (leucometria global), neutrófilos, linfócitos, monócitos e eosinófilos (leucometria específica), e da relação neutrófilos:linfócitos (N:Lin) estão representados pela média e desvio padrão no Quadro 02.
Na leucometria específica as alterações mais frequentes foram linfopenia (6/7), neutrofilia (5/7) e monocitose (2/7), sendo apenas uma cabra com todos os parâmetros do leucograma normais. Duas cabras (01 e 07) apresentaram leucocitose.
Quadro 02: Média e desvio padrão da contagem de leucócitos (x103/µL) e leucometria específica (valores relativos - %) de sete cabras com sinais clínicos respiratórios 12 horas após o transporte da propriedade localizada no Recreio dos Bandeirantes, cidade do Rio de Janeiro, RJ para a UFRRJ em Seropédica, RJ.
Leucócitos Bastões Neutrófilos Linfócitos Monócitos Eosinófilos Basófilos Média ±
DP 8,96 ± 5,2 0 ± 0 57 ± 16,7 37 ± 15,4 4,3 ± 2,8 0,9 ± 1,1 1 ± 0,6 Referência 4,0 – 13,0 Raros 30-48 50-70 0-4 1-8 0-2 Relação Neutrófilo/Linfócito = 1,99.
4.2.2. Exame Parasitológico de Fezes
Oocistos de protozoários não foram observados em nenhuma das amostras de fezes avaliadas e a contagem de ovos nas fezes revelou amostras negativas (7/7) ou contagem muito baixa de ovos de helmintos (50 OPG). O exame parasitológico foi realizado cerca de 20 dias após a última vermifugação, a qual era realizada de forma aleatória e sem orientação técnica.
A não observação de oocistos de protozoários e a maioria das amostras negativas na pesquisa de ovos de helmintos confirmam a informação de uso frequente de antiparasitários na propriedade, contudo contrariam as condições gerais de debilidade em alguns animais e o histórico de enfermidades no rebanho. As infecções por helmintos gastrintestinais impactam sobre a saúde de pequenos ruminantes, e podem interagir negativamente com o desempenho produtivo, e em alguns casos, induzir a mortalidade nos rebanhos (HOSTE et al., 2005).
A criação conjunta de cabras e ovelhas é um fator a mais na suspeita de parasitose nos animais. Conforme Manfredi et al. (2010), caprinos são mais suscetíveis do que ovinos a verminoses gastrintestinais, e com frequência apresentam maior produção de ovos nas fezes e maior parasitemia. Adicionalmente, os tratamentos anti-helmínticos são menos eficazes em caprinos e podem contribuir para a resistência de nematóides. Estes resultados são particularmente importantes porque, na propriedade em estudo, doses similares eram usadas para tratamento de cabras e ovelhas, sendo as cabras tratadas com doses inferiores ao necessário segundo Jackson; Coop (2000) e Torina et al. (2004).
23 Os resultados são também contraditórios com as condições de manejo dos animais, principalmente o nutricional e a não separação por faixa etária, sendo provável nestas condições alta infecção por protozoários e alta carga parasitária. Vários fatores conhecidos por afetar o nível de contaminação das pastagens e os padrões sazonais de larvas infectantes estavam presentes no rebanho, destacando-se acesso a áreas alagadas, temperatura elevada e umidade, manejo deficiente, higiene precária, aglomeração de animais de diferentes idades e nutrição (STEAR et al., 2000; GITHIGIA; THAMSBORG; LARSEN, 2001; HOSTE et al., 2005). Ahid et al. (2008) chamam a atenção para a contribuição da taxa elevada de lotação dos apriscos para justificar índices elevados de OPG, que é típico de criação semi-intensiva.
4.2.3. Exames Sorológicos
Do soro (sete cabras) enviado para pesquisa de anticorpos no Instituto Biológico em São Paulo obteve-se resultado positivo para o vírus da Artrite Encefalite Caprina (CAE) e para Toxoplasmose em sete amostras. Foram negativas as amostras para Neosporose Caprina, Brucelose e Leptospirose.
4.2.4. Líquido Sinovial
Punção do líquido sinovial da articulação de uma cabra com aumento do volume da articulação revelou líquido claro, sem a presença de grumos ou material sólido, de aspecto translúcido (Figura 14).
Figura 14: Cabra com aumento da articulação cárpica e deformidade das unhas dos quatro
membros, com destaque para o membro torácico esquerdo. Punção de líquido sinovial (direita). UFRRJ, abril de 2013.
24 O material foi avaliado em esfregaço em superfície de lâmina corado com Panóptico não sendo evidenciadas estruturas sugestivas de microrganismos, mas foram observadas escassas células inflamatórias. Os achados macroscópicos não foram relevantes para o diagnóstico, não sendo investigada a causa por métodos mais específicos como PCR.
Gregory et al. (2006) ao relatarem os aspectos diferenciais entre artrite viral (CAE) e bacteriana (Mycoplasma spp.) em dois casos atendidos no hospital veterinário da FMVZ- USP, descreveram além do aumento da articulação, flutuação e atitude de dor, com flexão da articulação, estes últimos não evidenciados no animal deste estudo, porém semelhantes aos casos clínicos observados na propriedade. Pode-se suspeitar especificamente neste caso que a doença estava em fase inicial, com a possibilidade de desenvolvimento de quadro semelhante com a progressão da doença. Os autores indicam a postura deficiente como causa de deformidades nos cascos, o que dificultava a movimentação.
No relato de Gregory et al. (2006) as características do líquido sinovial do animal acometido por micoplasmose, mais amarelado, com odor, mais denso e quadro celular do tipo inflamatório neutrofílico, bem como do animal acometido pela CAE, mais esbranquiçado com a presença de grânulos brancos livres, com aspecto de grão de arroz e consistência firme não coincidem com a punção sinovial do animal deste estudo.
Lara et al. (2005) descreveram sobre os aspectos clínicos da CAE e confirmaram o desenvolvimento insidioso da doença, com progressão de meses a anos, constatando-se o aumento de volume da articulação, claudicação intensa e dificuldade de locomoção. Outra forma descrita caracteriza-se por pneumonia intersticial progressiva, cujos sinais clínicos mais significativos de são o aumento da frequência respiratória, intolerância ao exercício, dispneia e tosse seca, sinais presentes em muitos animais do rebanho e nos animais deste estudo.
Todos os animais apresentavam deformidades nos cascos atribuídas ao crescimento excessivo por falta de desgaste como consequência do manejo inadequado. Os sinais observados e a grande frequência de caprinos acometidos pela artrite crônica em alguns plantéis levaram à suspeita da presença do vírus da artrite-encefalite dos caprinos (CAE) nesse rebanho. A CAE, uma enfermidade infecciosa multissistêmica, infecta caprinos em várias fases do desenvolvimento etário, independente do sexo e raça, com prevalência variável, sendo mais frequente em animais adultos (CRAWFORD et al., 1980), coincidindo com as observações na propriedade. O sistema respiratório dos caprinos (SIMS et al., 1983) e a glândula mamária (LERONDELLE et al., 1995) também estão relacionados como passíveis de comprometimento durante a evolução da CAE e justificam o histórico e os sinais observados em outros animais do rebanho.
25