O mundo contemporâneo assiste a uma intensa deterioração das condições gerais de vida e saúde, de segmentos cada vez maiores da população. A relação entre saúde/doença e processo de produção sempre esteve presente como preocupação dos estudiosos, desde a época em que o homem deixou de ser artesão e dono de seu processo de trabalho.
A luta pela compreensão aprofundada sobre as queixas dos trabalhadores e suas consequências, inicialmente foco da atenção apenas de profissionais da segurança e da saúde do trabalho, no decorrer da evolução histórica, passa a ser preocupação também de sindicatos, empresários, governo, ONGs, pesquisadores, associações de trabalhadores lesados, poder judiciário, entre outros (LONGEN, 2003, p.21).
O processo saúde-doença dos grupos humanos, e sua relação com o trabalho, constitui-se no objeto de estudo/intervenção no que se convencionou chamar Saúde do Trabalhador, dentro de um determinado contexto histórico, no qual o papel dos trabalhadores é fundamental na produção de conhecimento a respeito desse processo. A Saúde do Trabalhador, ao compreender o trabalho como espaço de submissão e dominação do trabalhador pelo capital, mas também de resistência e luta por melhores condições de vida e trabalho, busca entender o processo de adoecimento ao qual estão submetidos os trabalhadores (SCHMIDT, 2002).
Na conceituação da OMS, saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social que não se caracteriza unicamente pela ausência de doenças. Singer (apud CHAIB, 2005) acredita que esta formulação inclui as circunstâncias econômicas, sociais e políticas, como também a discriminação social, religiosa ou sexual; as restrições aos direitos humanos, por exemplo, de ir e vir, ou de exprimir livremente o pensamento. O autor argumenta que a formulação da OMS relaciona a
saúde da pessoa com o atendimento de suas necessidades e as possibilidades do sistema socioeconômico e sociopolítico em atendê-las.
Sabe-se que inúmeras têm sido as ocorrências de agravos à saúde relacionadas com o trabalho. Suas causas básicas repousam em fatores materiais, subjetivos e psicossociais, identificados na análise de acidentes de trabalho, do absenteísmo e na busca de explicações para disfunções diversas que prejudicam o processo produtivo (SELIGMANN-SILVA,1992, apud SCHMIDT, 2002).
Avaliar os impactos para a saúde é uma tarefa de grande complexidade, pois depara-se com situações antigas que geram fatores nocivos à saúde do trabalhador e que ainda não foram debeladas. A estas, somam-se riscos novos que também não estão diagnosticados. Perceber o impacto à saúde, resultado do somatório de antigos e novos agentes, é o desafio colocado para todos os que se envolvem com o estudo desta questão na contemporaneidade.
Compreendendo-se a dinâmica da produção, as condições de trabalho e o modo de vida de cada trabalhador, é possível entender os processos de saúde, adoecimento e acidentes no ambiente de trabalho. Nas palavras de Mendes (2002, p. 327):
A saúde e a doença envolvem uma complexa interação entre os aspectos físicos, psicológicos, sociais e ambientais da condição humana e de atribuição de significados. Pois a saúde e doença exprimem agora e sempre uma relação que perpassa o corpo individual e social, confrontando com as turbulências do ser humano enquanto ser total.
Os distúrbios de saúde ou doenças relacionados ao trabalho, segundo a Organização Mundial de Saúde, dividem-se em duas categorias: doença profissional e doença do trabalho ou relacionada ao trabalho. De acordo com a concepção que norteia esta classificação, os exemplos de doenças profissionais correspondem a doenças inerentes às atividades laborais, pois, necessariamente, há exposição a esses agentes.
Para Settimi et al. (2000), o nexo causal entre atividades e patologias seria automático. Essa suposta inevitabilidade tem sido contestada, pois hoje se sabe que a ocorrência dessas doenças se associa, em geral, a situações de exposição descontrolada e que a inexistência de medidas de controle não decorre
de impossibilidades técnicas, mas sim de opções gerenciais e políticas por parte de empresários e seus prepostos.
Na categoria das doenças do trabalho ou relacionadas ao trabalho são enquadradas as afecções nas quais não se identifica apenas um agente causal, mas vários, entre os quais os laborais. Diferente, por exemplo, do infarto do miocárdio, cujo conhecimento científico incorpora-se com pouca interferência de fatores sociais, o reconhecimento de doenças que se relacionam ao trabalho depende de negociações entre os setores sociais e a legislação de cada país. Dependem, também, da maneira como se dá a incorporação do avanço do conhecimento sobre essas doenças, nas quais se inserem os distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (DORTS) e as lesões por esforços repetitivos (LER).
Inseridas no principal grupo de agravos à saúde, entre as doenças ocupacionais no Brasil emergidas nas últimas décadas, as LER/DORTS afetam diversas categorias profissionais, “apresentando-se sob diferentes formas clínicas, de difícil manejo por parte de equipes de saúde e de instituições previdenciárias” (LONGEN, 2003). Por essas características geram inquietações e, por vezes, questionamentos sobre os limites do papel dos profissionais de saúde para lidar com este fenômeno.
Muitas das questões apontadas são realmente polêmicas e se referem aos aspectos de quadros clínicos de feições subjetivas, às formas de avaliação de fatores de risco do trabalho, à interferência de fatores extralaborais, à existência de pressões de organismos empresariais ou de burocracia previdenciária e a outras influências do contexto social, político e cultural (SETTIMI et al., 2000).
Para Borges (apud LONGEN, 2003), este fenômeno chamou mais atenção quando adquiriu a característica de ocorrer em diferentes processos produtivos, particularmente a partir das mudanças tecnológicas e organizacionais dos últimos 30 anos. Tais transformações foram induzidas pela automatização e informatização da produção, além das diferentes formas de gestão da força de trabalho que acompanham os processos de reestruturação produtiva no mundo globalizado, com consequências marcantes para aqueles que desenham o trabalho e, sobretudo, para quem o executa.
De fato, após a Segunda Guerra Mundial, o desenvolvimento de novas tecnologias com engrenagens pesadas, novos instrumentos, a chegada de produtos químicos e a fragmentação crescente das tarefas trazem em seu bojo uma
crescente demanda por intervenção no ambiente de trabalho.
Sobre as diferentes variáveis que interferem na saúde do trabalhador, Dejours et al. (1993, p. 103) afirmam que:
O organismo do trabalhador não é um motor banal submetido a um só tipo de excitação. Ele deve gerenciar, ao mesmo tempo, excitações exteriores e interiores. O trabalhador não chega ao seu trabalho como uma máquina nova. Ele tem uma história pessoal, que se concretiza por uma certa qualidade de suas aspirações, de seus desejos, de suas motivações e de suas necessidades psicológicas. Isto confere a cada indivíduo, características únicas e pessoais, que combatem o mito do ‘trabalhador médio’ tão ao gosto do taylorismo. Em função de sua história, dispõe de vias de descarga preferenciais, que não são as mesmas para todos e que participam na formação daquilo que se chama estrutura da personalidade.
Por outro lado, abordar a questão da doença ocupacional significa considerá-la como produto das interações das condições de vida social com o trajeto histórico do trabalhador. As condições externas podem ser determinantes ou desencadeadoras da doença mental ou propiciadora e promotora da saúde mental, isto é, da possibilidade de realização pessoal do trabalhador em todos os aspectos de sua capacidade.
Na relação existente entre doença e trabalho, verifica-se que para o homem a doença corresponde sempre à ideologia da vergonha de parar de trabalhar. Da teoria de Dejours (7) deduz-se que, com efeito, não se encontra nunca, no decurso do subproletariado, uma angústia específica relativa à saúde, à doença ou à morte. A doença é vivida como um fenômeno totalmente exterior, resultante do destino e dependente da intervenção exterior.
O principal instrumento metodológico adotado por Dejours em suas obras é a análise do discurso dos trabalhadores sobre a realidade do trabalho. A mudança se processa na medida em que o trabalhador encontra novas formas de significar o trabalho. Assim, o desenvolvimento da atividade produtiva tem como pressuposto básico a concorrência econômica, uma vez que na sociedade capitalista o trabalho representa o status quo para a vida humana, seus valores são moldados pelos produtos e serviços que puder oferecer para uma sociedade centrada no mercado e no consumo.
(7)
Dejours começou suas atividades na França em meados de 1968 e continua produzindo até hoje. Suas duas principais obras são: A loucura do trabalho – estudo de psicopatologia do trabalho (1992) e Psicodinâmica do Trabalho – contribuições da escola Dejouriana à análise da Relação Prazer, Sofrimento e Trabalho.
Sob o enfoque da Psicopatologia do Trabalho, Dejours (1992) ensina que o grande enigma na relação saúde/doença não é a doença mental e sim a normalidade, isto é, o que importa realmente é compreender as estratégias defensivas (individuais e/ou coletivas) adotas pelos trabalhadores com a finalidade de evitar a doença e preservar, ainda que precariamente, seu equilíbrio psíquico.
Na visão de Arendt (apud WIECZYNSKI, 2002, p.13), a sociedade de mercado molda os trabalhadores para serem animais laborais, ou seja, o trabalhador deve desempenhar suas funções profissionais incessantemente a partir de uma economia de desperdício, na qual todos os produtos devem ser devorados e abandonados assim que não servirem mais para os padrões da sociedade de consumo.
Entende-se que a sociedade atual, ao moldar seus membros, demonstra a definição de papéis que o ser humano deve desempenhar; sendo este pautado, especificamente, no dever de consumir. Portanto, há um paradoxo quanto aos objetivos de produção. No mundo externo à instituição existe a promessa de felicidade e a promessa de satisfação pessoal e material do trabalhador; já no seu interior ocorre, com frequência, a infelicidade e, na maioria das vezes, a insatisfação pessoal e profissional do trabalhador desencadeia o sofrimento humano nas organizações.
Tal situação ocorreu com mais intensidade, segundo Dejours (1992), após o ano de 1968, quando houve uma aceleração desigual das forças produtivas, das ciências, das técnicas, e das máquinas. Todos estes fatores, aliados com as novas condições de trabalho, que podem ser entendidas por meio do ambiente físico (luminosidade, temperatura, barulho, etc.); do ambiente químico (poeiras, vapores, gases e fumaças, etc.); do ambiente biológico (presença de vírus, bactérias, fungos, parasitas, etc.); pelas condições de higiene, de segurança e as características antropométricas (8) do posto de trabalho nas indústrias, facilitaram o aparecimento de sofrimentos insuspeitos na vida dos operários.
Na área de saúde do trabalhador vem se incorporando, ainda, gradativamente, o conceito de carga de trabalho. Este conceito busca sintetizar a ideia de que, no processo de trabalho, a saúde dos trabalhadores é uma consequência da relação complexa e dinâmica entre o trabalhador e sua atividade
(8) Significa processo ou técnica de mensuração do corpo humano ou de suas várias partes.
de trabalho. Ao realizar uma atividade específica o trabalhador enfrenta uma série de dificuldades, gerando processos de adaptação que se traduziriam em desgaste (BRITO; PORTO, 1991).
Numa visão mais crítica, o conceito de carga de trabalho pode ser instrumental para o planejamento e desenvolvimento de ações em saúde do trabalhador. Elas podem ser consideradas como o resultado da interação entre as exigências da tarefa e, por outro lado, a capacidade do indivíduo, o estado físico e mental, onde o efeito dessa interação torna-se evidente durante e após o trabalho, com o aparecimento da fadiga por exposição prolongada ou recuperação insuficiente, queixas de dores musculares, estresses e a possibilidade de erros no trabalho.
Laurell e Noriega (1989, p. 110) descrevem cargas de trabalho como “[...]
os elementos do processo de trabalho que interatuam entre si e com o corpo do trabalhador, gerando processos de adaptação que se traduzem em desgaste, entendido como perda da capacidade potencial e/ou efetiva corporal e psíquica”.
Mais tarde, o conceito de cargas de trabalho foi discutido por Facchini (1993) como uma nova categoria na compreensão dos impactos do processo de trabalho sobre a saúde do trabalhador, tanto daqueles oriundos do próprio objeto de trabalho, da tecnologia, como da organização e divisão do trabalho. As exigências da tarefa têm de estar em equilíbrio com o estado e a capacidade de cada trabalhador, pois eles são expostos à exigências de diferentes origens que podem proporcionar danos a sua saúde ou promover seu bem-estar.
Entretanto, o número de doenças ocupacionais no Brasil ainda é muito alto. Segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), esse aumento se deve a diversos fatores, entre eles o aumento do número de empregos formais no Brasil, o que acarreta um maior número de trabalhadores expostos. Em todo o ano de 2003 foram admitidos com carteira assinada 9,8 milhões de trabalhadores. Em 2004, esse número subiu para 11,2 milhões e em 2005, para 12,1 milhões.
Os Quadros 5 e 6 mostram a evolução de emprego no Brasil e no Centro- Oeste de 2000 a 2007.
Quadro 5 - Evolução de emprego no Brasil – 2000-2007
Ano admissão Total de desligamento Total de Saldo % de variação de emprego
2000 9.668.132 9.010.536 657.596 3,2 2001 10.351.643 9.760.564 591.079 2,72 2002 9.812.379 9.049.965 762.414 3,59 2003 9.809.343 9.163.910 645.433 2,89 2004 11.296.496 9.773.220 1.523.276 6,55 2005 12.179.001 10.925.020 1.253.981 5,09 2006 12.831.149 11.602.463 1.228.686 4,72 2007 14.341.289 12.723.897 1.617.392 5,85 Fonte: CAGED–EEC–MTE, 2008.
Quadro 6 - Evolução de emprego no Centro-Oeste – 2000-2007
Ano Total de
admissão desligamento Total de Saldo % de variação de emprego
2000 698.716 650.877 47.839 3,75 2001 779.847 722.981 56.866 4,14 2002 768.586 707.993 60.593 4,35 2003 802.759 744.756 58.003 3,83 2004 942.396 831.094 111.302 6,92 2005 979.893 924.029 55.864 3,22 2006 984.378 939.305 45.073 2,43 2007 1134.401 1040.406 93.995 4,84 FONTE: CAGED–EEC–MTE, 2008.
Contudo, como uma vida saudável pressupõe a ausência de doenças físicas ou psíquicas, o texto da Constituição Federal do Brasil (1988) impõe ao Poder Público a obrigação de garanti-la "mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação." (Art.196). Isto significa que a integridade física e mental dos trabalhadores depende da tutela da saúde, higiene e segurança, inerentes ao meio em que realizam suas atividades laborais e também ao meio externo, como propagado na Política Nacional de Saúde e Segurança do Trabalhador, descrita no próximo tópico.