1.5 O uso racional dos antibióticos – problemas e desafios
1.5.1 Doentes e público em geral
Os doentes e a população em geral têm um papel fundamental na problemática do uso dos antibióticos e da resistência antimicrobiana (120). Os comportamentos evidenciados relativamente a estes medicamentos, nomeadamente a automedicação, a guarda de antibióticos em casa e a não adesão à terapêutica prescrita, são alguns dos problemas com que a antibioterapia se depara na atualidade (121)(122). Por vezes, estes três fenómenos convertem-se num autêntico círculo vicioso, visto que a não adesão à terapêutica dá lugar ao armazenamento e este, por sua vez, propicia a automedicação. Esta realiza-se na maioria das vezes de forma inadequada relativamente à seleção do fármaco, à duração do tratamento, e à posologia, voltando a iniciar-se o círculo vicioso (Figura 13) (121).
Introdução
Figura 13: Comportamento do doente perante os antibióticos; adaptado de González et al (121).
A falta de conhecimento sobre medicamentos em geral torna mais provável o seu uso incorreto. Vários estudos mostram que existe ainda confusão no que respeita à ação dos antibióticos nos microrganismos e sobre o uso prudente destes medicamentos (123) (124) (125). Para os doentes, a toma do antibiótico é recorrentemente identificada com um rápido restabelecimento e, por conseguinte, com a possibilidade de retomar a atividade normal mais rapidamente, o que, que aliado a experiências anteriores, conduz à criação de expetativas e pressões para a sua prescrição (111) (126) (127) (128). No mesmo sentido, a incorreta perceção do risco e as crenças sobre a ação do antibiótico levam a que muitas vezes os pais recorram aos serviços de saúde e solicitem abertamente a prescrição de antibióticos aos médicos dos seus filhos (129).
Com o objetivo de avaliar o nível de conhecimento dos europeus sobre os antibióticos, foi realizado um estudo pelo Eurobarómetro, que envolveu 26761 inquiridos, dos quais 1038 portugueses. Os resultados observados variaram consideravelmente entre os diversos países europeus. Os inquiridos do norte da Europa demonstraram claramente estar mais bem informados sobre os efeitos dos antibióticos, em contraste com os resultados da Roménia, Portugal, Hungria, Áustria e Bulgária. De acordo com o mesmo estudo, 78% dos portugueses acreditavam que os antibióticos têm sucesso em infeções causadas por vírus, tais como gripes e constipações, nas quais, de facto, são completamente ineficazes. Por outro lado, refira-se que cerca de 95% dos inquiridos (da União Europeia a 27) afirmaram terem obtido o antibiótico através de prescrição médica ou dado por médico (98% em Portugal) (130).
Automedicação Aquisição direta na farmácia Prescrição médica Armazenamento Não adesão à terapêutica
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Apesar da mudança de comportamentos ser um processo complexo e afetado por diversos fatores, incluindo crenças, expetativas, motivações e o próprio ambiente psicossocial (114), vários estudos de intervenção a nível da comunidade, principalmente nos EUA, têm mostrado benefícios com a educação dos doentes sobre o uso dos antibióticos (131) (132) (133). O decréscimo das taxas de consumo de antibióticos ocorrido em alguns países, de que a Bélgica e a França são exemplos, tem sido atribuído a campanhas nacionais de educação para a saúde sobre o uso racional de antibióticos (134).
Em várias regiões do mundo têm sido desenvolvidos programas para promover a adesão ao uso racional dos antibióticos. O Dia Europeu dos Antibióticos é uma iniciativa de Saúde Pública da União Europeia, celebrada anualmente, desde 2008, por toda a Europa com o propósito de apoiar ações nacionais para alertar o público e os profissionais de saúde sobre os riscos associados ao uso inadequado de antibióticos (135).
A International iniciatives to control antimicrobial resistance (I Care) é uma estratégia multifacetada para melhorar o conhecimento sobre os antibióticos na Região da Ásia (Pacífico), patrocinada pela Asia Pacific Foundation for Infectious Diseases (APFID), com a intenção de impulsionar políticas e intervenções que possam contribuir para a redução da resistência antimicrobiana; reúne esforços dos profissionais de saúde, governos, população em geral e outros parceiros. Para as populações este programa fornece informação sobre a resistência antimicrobiana e encoraja o uso apropriado dos antibióticos, práticas de higiene pessoal e a vacinação (136).
Em Portugal, uma campanha nacional de educação, informação e sensibilização pública, promovida pelo Ministério da Saúde, com participação da Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde I.P. (INFARMED), Direção Geral da Saúde (DGS), Ordem dos Médicos, Ordem dos Farmacêuticos e Laboratórios Pfizer, teve como objetivo melhorar o uso dos antibióticos, incluindo a redução da automedicação. Esta campanha, que tinha como público-alvo utentes, médicos e farmácias, foi iniciada em novembro de 2004 e terminou em março de 2007. Tendo decorrido em três fases (anualmente nos meses de inverno), conseguiu uma larga divulgação pública, nomeadamente na imprensa escrita, rádio e internet (137). Mais recentemente, a DGS e o Grupo de Infeção e Sepsis (GIS) lançaram uma campanha de sensibilização a nível nacional para a correta utilização de antibióticos, entre setembro de 2011 e março de 2012, dirigida a todos os portugueses. Esta campanha pretendeu sensibilizar a população para a correta utilização dos antibióticos, a fim de conseguir a diminuição
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da taxa de bactérias multirresistentes e a necessidade de restringir o uso de antibióticos através de duas estratégias fundamentais: a prevenção de infeções e a limitação da automedicação (138).
O objetivo destas campanhas é mudar a cultura sobre o uso dos antibióticos, de tal forma que profissionais de saúde e doentes reconheçam que os antibióticos são um recurso que deve ser reservado para as infeções mais graves, em que há evidência de que o seu uso trará benefícios significativos para a saúde do doente (122). Os doentes e o público em geral recebem informação dos profissionais de saúde, mas são também influenciados pelas redes sociais e outros grupos informais. Por isso, para alterar comportamentos há que alterar as normas sociais subjetivas. Uma boa forma de o conseguir é através da educação das crianças (114). Contudo, este investimento na educação das crianças e jovens tem sido reduzido. A e-Bug é uma iniciativa educativa, financiada pela Comissão Europeia, que tem como objetivo desenvolver e distribuir, pelas escolas da Europa, um pack de ensino para as salas de aula e um sítio na internet para crianças e jovens. Estes recursos educativos visam fornecer conhecimentos sobre o benefício dos antibióticos, a sua utilização prudente, os efeitos adversos sobre a flora saprófita, e a resistência aos antibióticos na comunidade que a sua utilização inapropriada pode desenvolver (120) (139) (140).
A educação do público neste âmbito permite melhorar o conhecimento sobre a existência e a natureza da resistência antimicrobiana, e sobre a ameaça que ela constitui. O desafio é converter a perceção da resistência antimicrobiana considerado um problema simples de risco mal definido (similar à poluição e ao aquecimento global), num problema capaz de afetar indivíduos (semelhante ao tabagismo ou ao uso do cinto de segurança) (114). Na maior parte dos casos, estas campanhas fazem parte de uma estratégia nacional para reduzir a resistência antimicrobiana, focam-se principalmente nas infeções respiratórias e são orientadas para os sintomas das doenças. Os canais de divulgação destas campanhas variam largamente, recorrendo praticamente a todos os meios de comunicação existentes, desde a internet aos canais de comunicação social (44).
Os resultados das campanhas de educação sobre o uso dos antibióticos sugerem um efeito positivo no uso destes medicamentos. No entanto, a melhoria do conhecimento
sobre estes medicamentos poderá resultar num efeito paradoxal (44) (122). Um estudo
no Reino Unido mostrou que uma campanha educativa, foi associada à melhoria do conhecimento sobre antibióticos, mas também aumentou a probabilidade da automedicação (125). Uma outra campanha inglesa, em 2008, por sua vez, não se
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mostrou efetiva relativamente à melhoria dos conhecimentos sobre os antibióticos (135).
As campanhas que têm sido desenvolvidas em França e na Bélgica parecem ser as que obtiveram mais sucesso na redução das elevadas taxas de consumo de antibióticos. Na Bélgica, o impacto das atividades desenvolvidas foi avaliado com entrevistas antes e depois da campanha, inquéritos junto dos médicos, análises das vendas e das prescrições nas farmácias comunitárias e a evolução da resistência aos antibióticos, assim como dos agentes patogénicos mais frequentes na comunidade. As vendas de antibióticos diminuíram 36% entre o inverno de 1997-1998 e o inverno 2006-2007. Verificou-se também uma alteração significativa na resistência antimicrobiana: por exemplo, a resistência do Streptococcus piogenes aos macrólidos reduziu-se de 17% em 2001 para 2% em 2007, resultados estes avaliados com base em estudos ecológicos (59). Em França, verificou-se um decréscimo de 26,5% na prescrição de antibióticos entre 2002 e 2007, com uma redução mais evidente nas crianças (44).
Da análise dos resultados disponíveis, as campanhas multifacetadas, repetidas durante vários anos e com recurso aos meios de comunicação como a rádio e a televisão, têm uma maior probabilidade de sucesso (122). Para que tenham realmente um impacto positivo, as campanhas educativas devem ser acompanhadas simultaneamente pelo reforço da informação nas consultas médicas e nas farmácias comunitárias (134) (141).