Gestão de informação
GESTORA DE MARKETING EM COMUNICAÇÃO Função
4.4.1.1 Dois departamentos, um processo produtivo
Quanto à atuação conjunta da área jornalística e operacional no mesmo processo produtivo, se dá pelo fato de essa última concentrar profissionais que atuam no processo de construção da notícia, como cinegrafistas que são membros indispensáveis das equipes de reportagem, e ainda outros profissionais necessários à edição das matérias, veiculação do programa, e que imprimem elementos de composição da mensagem (como os de sonoplastia). O próprio gestor operacional confirma essa participação intensa de sua área:
Sim, metade do programa é criado por nós. Até a gente estava falando: as pessoas gostam mais das “palhaçadas” que a gente faz do que da matéria mesmo. As pessoas comentam mais sobre o mãozinha do que sobre a notícia mesmo. [...] Lógico que a notícia tem que ir, ela é essencial, mas o estilo do nosso programa é isso, né, não só passar a notícia, mas também ter esse toque de entretenimento. O programa é mesclado, não é só jornalismo, é um programa que mescla os dois. (Informação oral do gestor operacional) Ambos os gestores, o de jornalismo e o da área operacional, foram questionados sobre esse trabalho em sinergia. O primeiro posteriormente à entrevista e informalmente por ocasião de uma visita técnica para entrega dos questionários. Ele apontou a existência de algumas incompatibilidades entre as prioridades do jornalismo e do operacional, quanto ao atendimento das demandas da redação. Colaboradores do jornalismo também comentaram com a pesquisadora que essa divisão causava problemas à cobertura jornalística, no sentido de que o jornalismo desejava cobrir determinada pauta e não podia fazê-lo de imediato porque a saída dos cinegrafistas depende da aprovação de outro gestor (o da área operacional).
O gestor operacional fez apontamentos semelhantes, porém com ponto de vista oposto, quando respondeu sobre a efetividade desse tipo de organização do processo produtivo entre departamentos:
Depende muito da empresa, porque o jornalismo, eles acham que tudo que tem de fazer deve ser instantâneo. Eles acham que tudo é possível. Isso é um problema sério entre a área operacional e o jornalismo porque não adianta você querer: “ah eu quero fazer três matérias ao mesmo tempo”. Ué, se você tem uma câmera só, um carro só, como quer fazer três matérias, entendeu? Então, você precisa ter alguém para barrar isso porque se tiver três câmeras e três carros, eles vão querer colocar todos na rua ao mesmo tempo. O custo disso é altíssimo. E jornalismo é uma coisa que só dá prejuízo para a empresa porque é caro – uma hora extra para um repórter, não importa o dia, é 100%, entendeu? Então, se todo dia ele fizer uma hora extra, no final do mês, esse dinheiro já dá para contratar outro jornalista. Com essa concentração, ela [empresa] consegue inibir um pouco essa atitude do jornalista, porque tudo que ele tem que fazer, ele tem que pedir para mim. E o jornalista dificilmente entende da área operacional, se ele for gestor [do jornalismo e da área operacional também], ele vai chegar aqui para o cara e vai dizer: “eu quero que você faça”. O funcionário vai falar assim: “oh não dá”; “mas eu quero porque sou seu chefe”. Então essa divisão nossa aqui inibe esse tipo de coisa. Se ele chegar aqui, pedir, vou falar que não dá para fazer. Ele pode até falar com o diretor da TV, ele [o diretor] vai vir aqui falar comigo, vou explicar que vai gerar um custo assim, assim, assim e o resultado vai ser esse, entendeu? Se deixar na mão do cara [do jornalista], ele manda, ele vai fazer sem pedir para ninguém, daí o resultado final vai ser prejudicial à empresa, mas ele já fez. [...] A forma da Emissora 1 é bom para barrar isso e o relacionamento depende do nosso relacionamento. (Informação oral do gestor operacional)
Portanto, a partir de duas óticas distintas, idêntico problema aparece: a diferença de concepções entre as áreas dentro de um mesmo processo produtivo, especialmente quanto à etapa de busca da informação, essencial para o processo de gestão da informação, em que é preciso, sem dúvida, avaliar o custo-benefício dessa busca da informação. Mas, nesse caso, a questão que se coloca é: qual departamento está mais apto a atribuir esse valor e fazer tais determinações? E qual é o posicionamento da empresa em relação aos limites de cada área?
Para os jornalistas, por exemplo, seguir de forma exaustiva as notícias faz parte de sua atribuição (KOVACH;ROSENSTIEL, 2003). Mas para a área operacional, nesse caso, a premissa é diversa dessa e está condicionada muito mais à contenção de despesas e à deficiência na estrutura atual da equipe.
Geralmente a utilização dos recursos econômicos gera problema entre redação e área administrativa porque os jornalistas acham que os administradores pensam só em números e não consideram as particularidades da geração de conteúdo, enquanto os administradores acham os jornalistas desorganizados em sua contabilidade (JORNET, 2006). E esse autor conclui:
Una y outra parte quizá tengan parte de razón y por ello es vital que [...] los responsables de la Redacción participen de la gestión, no para hacer las tareas que corresponden a la administración dentro de um sano principio de división de tareas, sino para aportar la necesaria visión editorial a las tareas de presupuestación y control de gastos22 (p.129)
Essa diretriz sobre a administração de recursos e a busca da informação precisa estar clara, especialmente enquanto os gestores das áreas apresentam bom relacionamento e para evitar o desgaste futuro. Mesmo porque a diferença de parâmetros entre eles influi em outras fases da gestão da informação, além da aquisição da informação, como no tratamento e disseminação dela. Em relação ao tratamento porque a produção do conteúdo (qualidade de imagem, sonorização, formatos) passa pela equipe operacional, tanto quanto a distribuição da informação, ao vivo, em que os dois gestores trabalham juntos, lado a lado. Nesse último caso, Jornet (2006) enfatiza a necessidade de a redação e a produção estabelecerem objetivos comuns para que o produto seja oportuno e de qualidade, considerando seu trabalho de estreita colaboração.
22 Tradução livre da autora. Uma e outra parte talvez tenham parte de razão e por isso é vital que [...] os responsáveis pela redação participem da gestão, não para desempenhar as tarefas que correspondem à administração dentro de um princípio coerente de divisão de tarefas, mas para permitir a necessária visão editorial às tarefas de orçamento e controle de gastos.