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Capítulo 1. Debates e questões

2. Dois modelos imperiais

A renovação da historiografia portuguesa sobre o sistema de poderes no Antigo Regime teve importância crucial na nova historiografia sobre o período colonial brasileiro, permitindo a construção efetiva de outro paradigma de análise em oposição à ideia de antigo sistema colonial. Tendo por base as contribuições anteriores de Maria Yedda Leite Linhares e Ciro Flammarion Cardoso, em um primeiro momento esse novo modelo esteve calcado em uma interpretação sócio-econômica dos determinantes endógenos da acumulação e da reprodução do poder das elites coloniais, destacando-se traços de continuidade com o caráter arcaico e tradicionalista da sociedade portuguesa. O acesso ao tráfico de escravos e à ampla oferta de alimentos e terras permitiria às elites coloniais obter uma autonomia relativa face às flutuações do mercado externo, em contraponto, segundo os autores, às interpretações de Caio Prado Jr., Celso Furtado e Fernando Novais que postulavam a dependência da economia colonial aos determinantes externos. Segundo os autores:

O mosaico descrito [de produções internas], conjugado a uma estrutura peculiar da produção da mão de obra e aos baixos custos do fator terra, permite às flutuações da economia assumirem uma relativa autonomia frente às do mercado externo.36

No entanto, a crítica dos autores não parece condizer com alguns aspectos das obras estudadas. Sem pretender nem de longe esgotar o assunto, podem ser feitas algumas observações muito breves que divergem da leitura realizada por Fragoso e Florentino. Com relação à obra de Fernando Novais, por exemplo, a ideia de antigo sistema colonial não implica uma concepção funcionalista tal como lida pelos seus críticos, mas dialética das relações entre a economia metropolitana e a colonial. Já em sua obra original, por exemplo, o autor indicava que o próprio desenvolvimento da colonização conduzira ao surgimento de comerciantes, no caso na Bahia e no Rio de Janeiro, envolvidos no tráfico de escravos e no comércio. Segundo Novais, esse desenvolvimento contrariava o sistema colonial e “ia invertendo as posições”. Assim como Fragoso e Florentino, o autor reconhece a tendência ao crescimento econômico e à

36 Por seu caráter de síntese, utilizo aqui: FRAGOSO, João; FLORENTINO, Manolo. O arcaísmo como projeto: mercado atlântico, sociedade agrária e elite mercantil no Rio de Janeiro, c. 1790-1840. 3 ed. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1998, p. 67.

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autonomização dos colonos face às diretrizes metropolitanas com o aprofundamento da colonização.

No entanto, de maneira diversa à historiografia atual, o autor destacava a importância dos mecanismos econômicos e dos controles políticos detidos pela Coroa, o que aqui se interpreta como as tendências extrativas da colonização. As medidas da Coroa tentavam controlar esse desenvolvimento fora do sistema mercantilista, mas apenas aumentavam a consciência e a crítica dos colonos acerca dos limites do regime de exclusivo. Diversamente da interpretação posterior de Fragoso e Florentino, Novais destaca a ideia marxista de contradição entre tendências extrativas e centrífugas de acumulação de poder, que iam se tornando cada vez mais aguçadas com o desenvolvimento do mercado interno e dos vínculos inter-coloniais. Para evitar o caminho da revolta, adotava-se a reforma de inspiração liberal e fisiocrata que restringia a elementos mínimos a sustentação do aparato mercantil de extração de recursos.37

Conforme um texto posterior do autor, seguindo o já apontado por Caio Prado Jr., a economia colonial ainda que voltada para o mercado externo, precisava desenvolver o mercado interno para funcionar, sendo daí decorrente a sua contradição principal.38

Assim, Fragoso e Florentino parecem mais aprofundar os estudos sobre a dinâmica do mercado interno colonial do que efetuar uma ruptura radical a respeito das interpretações criticadas.39 Não obstante estas distorções nas críticas realizadas, é

evidente que os estudos sobre a acumulação econômica endógena inspirados em Fragoso e Florentino permitiram um maior refinamento na abordagem das fontes empíricas e no detalhamento das formas de acumulação na economia colonial, especialmente na compreensão da influência das representações mentais do Antigo Regime português sobre os padrões econômicos coloniais. Também cabe recordar que os estudos sobre o mercado interno apresentam uma longa tradição na historiografia

37 NOVAIS, Fernando. Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial. 5. ed. São Paulo: Hucitec, 1989. p. 191-197.

38 NOVAIS, Fernando. Aproximações: estudos de história e historiografia. São Paulo: Cosac Naify, 2005. p. 368.

39 Para outras críticas ao modelo de economia colonial proposto por Fragoso e Florentino, ver: ARRUDA, José Jobson de Andrade. O império tripolar: Portugal, Angola, Brasil. In: SCHWARTZ, Stuart; MYRUP, Erik Lars (Orgs.). O Brasil no império marítimo português. Bauru: Edusc, 2009. p. 509-531. MARIUTTI, Eduardo; DANIELI NETO, Mário; NOGUEROL, Luiz Paulo. Mercado interno colonial e grau de autonomia: críticas às propostas de João Luís Fragoso e Manolo Florentino. Estudos Econômicos, São Paulo, v. 31, n. 2, p. 369-393, 2001. ARRUDA, José Jobson de Andrade. O sentido da colônia: revisitando a crise do antigo sistema colonial no Brasil. In: TENGARRINHA, José (Org.). História de Portugal. Bauru; São Paulo; Portugal: Edusc; Ed. Unesp; Instituto Camões, 2000. (Coleção História). p. 169-187.

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brasileira, com, por exemplo, os trabalhos de Sergio Buarque de Holanda, Alfredo Ellis Jr., Mafalda Zemella, Myriam Ellis, Alice Canabrava, José Roberto do Amaral Lapa e Maria Schörer Petrone, o que impede uma visão da obra de Caio Prado Jr. como hegemônica nos círculos acadêmicos após a década de 1940.

A despeito da contribuição para o estudo da dinâmica econômica, a interpretação de Fragoso e Florentino carecia ainda de um modelo político adequado. Se se havia pensado a autonomia relativa da economia colonial, cabia enfrentar a questão da autonomia relativa, ou mesmo absoluta, dos poderes políticos coloniais face ao controle da Coroa. Ademais, cumpria elucidar o papel ativo das elites coloniais no governo da América portuguesa e na conformação do império. Para os autores, havia um projeto de desconstruir a historiografia que pretendia enxergar o império de forma hierarquizada e rígida.

Nesse aspecto, os estudos de Maria Fernanda Bicalho e Maria de Fátima Gouvêa sobre a câmara do Rio de Janeiro, divulgados a partir de 1997, trariam uma importante contribuição para aqueles autores, bem como a adesão à renovada historiografia portuguesa sobre a época moderna, o resgate da historiografia institucional anglo-saxã sobre as colônias portuguesas e a aproximação com a historiografia norte-americana sobre as colônias ingleses, da qual se destaca a obra de Jack Greene. Ainda assim, apenas em 2000, com a publicação de diversos artigos, e em 2001, com a coletânea O Antigo Regime nos trópicos, é que se pode verificar o surgimento de outro paradigma de análise, com perspectivas alternativas que dessem conta do período colonial em sua totalidade.40

Por outro lado, contra a ideia de uma historiografia anterior monolítica e unidimensional, é igualmente salutar recordar a existência de uma longa e variada tradição do pensamento político e social brasileiro que continuamente sustentou a tese da proeminência do poder privado no período colonial, sobretudo Oliveira Vianna, Gilberto Freyre, Sergio Buarque de Holanda e Nestor Duarte. Evidentemente, estes autores possuem chaves interpretativas muito diferentes entre si e os conceitos e

40 FRAGOSO, João Luís; BICALHO, Maria Fernanda; GOUVÊA, Maria de Fátima (Orgs.). O Antigo Regime nos Trópicos: a dinâmica imperial portuguesa (séculos XVI-XVIII). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. BICALHO, Maria Fernanda Baptista; FRAGOSO, João Luís; GOUVÊA, Maria de Fátima Silva. Uma leitura do Brasil colonial: bases da materialidade e da governabilidade no Império. Penélope, Lisboa, v. 23, p. 67-88, 2000. BICALHO, Maria Fernanda. Centro e periferia: pacto e negociação política na administração do Brasil colonial. Leituras, Lisboa, 3ª sér., n. 6, p. 17-39, 2000. FRAGOSO, João. A nobreza da República: notas sobre a formação da primeira elite senhorial do Rio de Janeiro (séculos XVI e XVII). Topoi, Rio de Janeiro, n. 1, p. 45-122, 2000.

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análises utilizados hoje em dia são bastante diversos aos da primeira metade do século XX, sendo necessário um estudo aprofundado sobre as similitudes e diferenças entre as perspectivas atuais e aquelas obras. Porém, nunca é demais lembrar que as mudanças nas interpretações históricas raramente são feitas ex-nihilo.

O artigo “Uma leitura do Brasil colonial: bases da materialidade e da governabilidade do Império” pode ser tomado como um manifesto e uma síntese das ideias do grupo capitaneado por Fragoso. A crítica principal dos autores residia no caráter dicotômico ou dual na abordagem da historiografia sobre as relações entre a metrópole e a colônia, por um lado, e a visão centrada sobre a exploração e a dominação metropolitanas, por outro. Segundo os autores, seria preciso superar a oposição entre colonizadores e colonos. Desta forma, colocavam as ideias de pacto, consenso, negociação e reciprocidade no centro de sua análise.

Nota-se, também, outra conceituação sobre a economia colonial, que a subjuga ao primado da política, indo um pouco mais além da análise da dinâmica econômica endógena. Os autores recorrem à ideia de “economia do bem comum” e, no campo político, ao conceito de “economia política de privilégios”. No primeiro caso, haveria uma série de bens e serviços obtidos por meios políticos, ou seja, fora dos mecanismos de mercado. Os monopólios detidos pelas câmaras, no plano local, ou pelo rei, no plano imperial, seriam “retirados” do mercado e colocados à disposição de setores privilegiados das “elites senhoriais”. A utilização destes bens e serviços permitiria a esses grupos manterem redes clientelares hierarquizadas pela formação de alianças com seus favorecidos, proporcionando, assim, uma posição de destaque às elites na hierarquia social. Trata-se, portanto, de pensar os mecanismos não-concorrenciais e clientelísticos presentes na dinâmica econômica colonial.

Em outro artigo, João Fragoso define melhor o que entende por economia do bem comum:

34 A Câmara, os ofícios da coroa e as mercês, em geral, criavam para seus titulares possibilidades de acumulação de riquezas à margem da produção e do comércio. Isto formava o que chamo de economia do bem comum, ou seja, em nome da República, uma elite se apropriava de recursos do público, não somente dos escravos, mas também dos lavradores e dos comerciantes, entre outros grupos sociais. Por meio destes mecanismos, a nobreza da terra foi capaz de adquirir parte do excedente colonial e realizar suas fortunas.41

Ao contrário do primeiro conceito de “economia do bem comum”, a ideia de “economia política de privilégios” não se encontra tão bem definida pelos autores, mas pode ser compreendida em seu contexto. Da mesma forma que a primeira ideia, o conceito de “economia política de privilégios” enfatiza as relações de reciprocidade, porém entre o rei e as “elites senhoriais”. Em um primeiro momento, os colonos foram membros ativos na conquista, povoamento e defesa da colônia. Posteriormente, o ônus converteu-se em moeda de troca com a Coroa na obtenção de honras, mercês e privilégios. Decorreria desta concessão um “pacto” entre o rei e as “elites senhoriais”, formando redes de reciprocidade que sustentavam o império e aumentavam sua coesão. Neste processo, as câmaras seriam os principais espaços de negociação e órgãos de representação das elites em suas relações com a Coroa. Pode-se mesmo dizer que às câmaras se reduz a abordagem dos autores, concebendo-se um império formado apenas por instituições do poder local em relação com as do poder central, sendo estas últimas bastante enfraquecidas frente às primeiras.

Nos dois conceitos, a governabilidade do império seria garantida por uma lógica recíproca de prestação de serviços e de concessão de mercês e privilégios. Na interpretação dos autores, as câmaras seriam pilares essenciais de boa parte da estruturação do poder político e econômico do universo colonial. Os vínculos intercoloniais entre a América, África e Ásia, tanto nas relações mercantis das “elites senhoriais” quanto nas trajetórias dos administradores coloniais, apenas reforçariam a ênfase e ampliariam a extensão dos vínculos consensuais existentes no império. Ademais, há um grande esforço para se pensar a cultura econômica e política colonial nas especificidades do Antigo Regime português.

Esta perspectiva centrada na força dos poderes locais e na lógica das negociações e consensos buscava deliberadamente abandonar a análise dos poderes centrais, em

41 FRAGOSO, João. A nobreza vive em bandos: a economia política das melhores famílias da terra do Rio de Janeiro, século XVII. Algumas notas de pesquisa. Tempo, Rio de Janeiro, n. 15, p. 11-35, 2003, ver p. 16.

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particular o estudo dos conflitos e contradições que permeavam as relações entre colônia e metrópole. Em última instância, tomava-se a colônia em suas relações de convergência com o modelo pré-estadualista reinol tal como descrito por Hespanha, sustentando-se a continuidade das práticas políticas. Assim, não era incomum nesta perspectiva que a colônia fosse lida como uma extensão espacial do Antigo Regime português.

Em 2007, a coletânea Conquistadores e Negociantes manteria o mesmo tom do início da década, aprofundando algumas questões sem alterações significativas. Os autores passam a distinguir as elites coloniais entre uma nobreza principal da terra, cuja legitimidade residiria na conquista, e os negociantes de grosso trato, com maior atuação no século XVIII. Os modelos sociais e de representação oriundos do reino encontrariam ressonância e difusão na colônia, nas ideias de conquista, casa e bando, redesenhando de forma mais ampla a hierarquia da sociedade de ordens do Antigo Regime português.42

Em 2010, uma nova coletânea, intitulada Na trama das redes, traria outros conceitos e algumas modificações à proposta de interpretação divulgada no início da década. Aprofundando perspectivas anteriores, os autores buscavam pensar o papel da agência dos diversos indivíduos e das instituições locais no processo negociado de tomada de decisões nas configurações do império. Neste sentido, a obra completa um longo percurso de refutação da ideia de estrutura como instrumento de compreensão das relações coloniais, para além da ênfase na autonomia da política colonial como expressa na obra anterior.

Diversamente d’O Antigo Regime nos trópicos, esta coletânea não reitera a ideia de continuidade entre o modelo pré-estadualista reinol e o sistema de poderes na América portuguesa. Embora ainda considerem o predomínio da concepção corporativa da sociedade e autonomia do poder local tal como existente no reino, admite-se a influência dos grupos sociais, em particular africanos e indígenas, na configuração de um modelo político sui generis na América portuguesa. A inclusão desta participação na moldagem do governo imperial leva a crer na assimilação da crítica de Laura de Mello e Souza à

42 FRAGOSO, João Luís; SAMPAIO, Antonio Carlos Jucá; ALMEIDA, Carla Maria Carvalho de (Orgs.). Conquistadores e Negociantes: Histórias de elites no Antigo regime nos trópicos. América Lusa, séculos XVI a XVIII. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.

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aplicação irrestrita da análise de Hespanha à América portuguesa sem considerar o papel da escravidão.43

Em segundo lugar, Fragoso e Gouvêa recorrem à ideia de monarquia pluricontinental, formulada inicialmente por Nuno Gonçalo Monteiro e distinta à ideia de monarquia compósita, desenvolvida por John H. Elliot para o estudo da monarquia hispânica. Ao contrário desta última, a monarquia pluricontinental seria composta por apenas um reino, uma única aristocracia e diversas conquistas, unificadas por leis, regras e diversas corporações. Se na monarquia compósita, a autonomia local e regional decorria da anterioridade de reinos e instituições à união imperial, no caso da monarquia pluricontinental, onde inexistiam poderes senhoriais, esta autonomia era assegurada pelo primado do auto-governo dos poderes locais, expresso pela ideia de “república”. As câmaras municipais, em particular, deviam cuidar da administração do abastecimento, do comércio externo e da justiça ordinária. Porém os autores consideram que o governo da “república” podia abarcar o escopo mais amplo e geral do império. Por sua vez, este poder era reforçado pela dependência da Coroa e da nobreza do reino dos proventos materiais da colônia. Assim, na monarquia pluricontinental, a Coroa seria incapaz de se impor pela coerção devido à fraqueza do poder central, “mas forte o suficiente para negociar seus interesses com os múltiplos poderes existentes no reino e nas conquistas”.44

Enfatizando uma tendência anteriormente observada, outro aspecto de importância na obra Na trama das redes é a compreensão do império a partir das redes, ou seja, dos vínculos interpessoais estabelecidos entre diversos agentes e instituições da monarquia. Reflexo do prestígio internacional do estudo das redes entre os historiadores, este enfoque permitiria avançar nas dinâmicas relacionais que denotavam trajetórias diversas na construção do império. Fátima Gouvêa ainda aponta a ideia de “rede governativa entendida como uma articulação estratégica de indivíduos no âmbito

43 FRAGOSO, João; GOUVÊA, Maria de Fátima. Desenhando perspectivas e ampliando abordagens – De O Antigo Regime nos trópicos a Na trama das redes. In: FRAGOSO, João; GOUVÊA, Maria de Fátima (Orgs.). Na trama das redes: política e negócios no império português, séculos XVI-XVIII. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010. p. 11-40. SOUZA, O sol e a sombra, op. cit., p. 56-57.

44 Além da introdução ao livro Na trama das redes, ver também: FRAGOSO, João; GOUVÊA, Maria de Fátima. Monarquia pluricontinental e repúblicas: algumas reflexões sobre a América lusa nos séculos XVI-XVIII. Tempo, Rio de Janeiro, n. 27, p. 49-63, 2010, citação da p. 55.

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da administração”,45 articulação esta dependente de trajetórias administrativas e

atribuições de jurisdição.

Implicitamente, o estudo das redes aprofundava a crítica de um império rígido, formalizado e hierarquizado, substituindo-o por uma monarquia com relações de poder plásticas, informais e relativamente igualitárias. Ressoando certa influência de Foucault, o poder já não seria mais exercido em um local determinado, mas se encontrava disperso por todo o império e acessível a todos os seus integrantes. Também é bastante interessante como as redes são vistas como algo mais duradouro do que as instituições, ressaltando a fraqueza do Estado em relação à força dos vínculos interpessoais. Embora de fato a abordagem de redes permita compreender melhor os aspectos informais do poder, fica em suspenso se tal perspectiva permite investigar adequadamente as instituições formais e os respectivos processos de decisão política. Há o risco de uma visão bastante parcial, ao substituir a ideia de um império composto por instituições pela ideia de um império de redes interpessoais.

Nesta nova coletânea, nota-se o surgimento de algumas preocupações anteriormente bastante criticadas na historiografia. Em outro texto, também causa enorme estranheza o retorno da questão da “transferência do excedente colonial para a sociedade reinol”. Ainda que Fragoso e Gouvêa busquem explicar o tema de outra perspectiva, a partir das redes ultramarinas, o tema havia sido mais do que condenado por Fragoso em textos anteriores.46 Na introdução da coletânea Na trama das redes, um

primeiro aspecto é relativo à existência de conflitos, incoerências e fraturas na organização dos poderes nas sociedades “ultramarinas”.47 Assim, por exemplo, Gouvêa

ressalta a importância das dinâmicas de negociação e conflito nos domínios e entre o centro e a periferia do império.48 Já em um texto publicado em 2006, Fragoso e Gouvêa

enfatizavam a necessidade de compreender “as tensões e as negociações existentes entre os dois lados do Atlântico” das redes ultramarinas, bem como a ideia de que estas

45 GOUVÊA, Maria de Fátima. Redes governativas portuguesas e centralidades régias no mundo português, c.1680-1730. In: FRAGOSO, João; GOUVÊA, Maria de Fátima (Orgs.). Na trama das redes: política e negócios no império português, séculos XVI-XVIII. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010. p. 155-202, ver p. 179. Grifos originais.

46 FRAGOSO, João; GOUVÊA, Maria de Fátima. Nas rotas da governação portuguesa: Rio de Janeiro e Costa da Mina, séculos XVII e XVIII. In: FRAGOSO, João et alia. Nas rotas do império: eixos mercantis, tráfico e relações sociais no mundo português. Vitória; Lisboa: Edufes; IICT, 2006. p. 25-72, ver p. 25-26.

47 FRAGOSO; GOUVÊA. Desenhando perspectivas e ampliando abordagens, op. cit., p. 14-15.

48 GOUVÊA, Redes governativas portuguesas e centralidades régias no mundo português, op. cit., p. 158, 181.

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redes podiam apresentar-se como “díspares e conflitantes”.49 Contudo, na prática,

prevalece a perspectiva da negociação e do consenso. Quando há espaço para os conflitos, especialmente os de jurisdição, estes são posteriormente harmonizados pelos agentes de governo, em particular, ou pela Coroa, em geral, restaurando-se a antiga ordem corporativa.50 Assim, os conflitos e fissuras não alteram os pressupostos do

modelo pré-estadualista aplicado à análise da América portuguesa, apenas introduzem desequilíbrios temporários.

Também se observa que a transformação do sistema de poderes pré-estadualista no reino, a partir do reinado de d. Pedro II e com maior ênfase no governo de d. João V, é