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CAPÍTULO I: DA DISPOSIÇÃO AO BEM À PROPENSÃO AO MAL

3. A propensão para o mal

3.2. A propensão para o mal enquanto ato do arbítrio

3.2.2. Dois significados para o termo "ato"

Segundo Kant, "uma propensão ao mal só pode ser vinculada ao poder moral do arbítrio"42 (SMRb, p.281). E deve ser concebida de tal modo, visto que, não sendo associada ao arbítrio, a propensão para o mal seria fruto de uma causalidade determinística e, portanto, não poderia ser imputada ao homem. No entanto (seguindo essa afirmação) Kant acrescenta que "nada é moralmemte (i.e. imputavelmente) mau exceto o que é nosso próprio ato" (Rel, p.37). A par dessa última declaração ele ainda escreve que a propensão para o mal diz respeito a "um fundamento subjetivo de determinação do arbítrio, fundamento que precede todo o

ato, portanto, ele não é ainda um ato" (Rel, p.37).

Retomando o que Kant diz acerca da propensão (segundo as definições mencionadas acima) a sua argumentação segue a seguinte trajetória: ele parte do pressuposto de que a propensão está vinculada ao arbítrio (o que assegura a sua imputabilidade), logo acrescenta que o ato é a única coisa passível de imputabilidade (o que leva a crer que sendo a propensão imputável, logo ela deve ser um ato). Com efeito, a sua argumentação parece ser destituída de coerência quando Kant afirma que a propensão não é um ato, mas algo que o antecede. Ora, a idéia de que a propensão não é um ato associada àquela de que a imputabilidade reside no ato, leva à conclusão de que a propensão não é imputável e, portanto, inviabiliza a primeira afirmação de Kant: aquela que diz que a propensão está ligada ao poder moral do arbítrio.

Poder-se-ia, pois, constatar uma contradição entre o que é dito como moralmente imputável ao homem (isto é, o seu ato) e a propensão para o mal definida como um fundamento que antecede todo o ato (Tat) e, no entanto, imputável ao homem. No sentido de evitar tal contradição, Kant distingue, quanto ao termo ato, dois significados, os quais, segundo ele, se deixam unir pelo conceito de liberdade. O primeiro significado, Kant especifica como algo que pode aplicar-se ao "uso da liberdade, pelo qual é acolhida pelo arbítrio uma máxima suprema

42 Novamente a tradução de Artur Morão apresenta o termo "inclinação" no lugar de "propensão": "uma

(conforme ou adversa à lei)" (Rel, p.37). Trata-se do ato do livre-arbítrio de adotar a máxima suprema que dará origem a uma série de máximas dela decorrentes. O segundo significado para o termo ato, Kant o define como "aquele em que as próprias ações (segundo a sua matéria, i.e., no tocante aos objetos do arbítrio) se levam a cabo de acordo com aquela máxima" (Rel, p.37). Ato, nesse segundo sentido, refere-se à ação propriamente dita, àquela que se constata na experiência. Tal ação, por sua vez, se orientou por uma máxima derivada de um ato na sua primeira significação, a saber, da adoção de máximas pelo livre-arbítrio. Enfim, no primeiro caso trata-se da liberdade do arbítrio de adotar máximas que irão guiar as ações; no segundo, da liberdade prática, aquela que se manifesta nas ações "visíveis", do fazer ou deixar de fazer algo. A partir dessa distinção podemos dizer que a propensão para o mal é um ato, sim, mas na primeira acepção, ou seja, relativo ao ato do arbítrio de adotar a máxima suprema.

Com efeito, uma questão ainda fica pendente. Michel Renaud a enuncia nos seguintes termos: "A propensão para o mal é ou não é ainda o mal?" Nesse caso, para responder a esse questionamento, é necessário recorrer ao fundamento da propensão, investigando se ela provém da liberdade ou de uma determinação natural. Kant relaciona a propensão com a liberdade na medida em que diz que "a propensão para o mal é, pois, ato na primeira significação (peccatum originarium) e,

ao mesmo tempo fundamento formal do ato contrário à lei no segundo sentido"43

(SMRb, p.281). Visto o que diz Kant, é forçoso admitir que a propensão para o mal já é o mal propriamente dito44. Mas, segundo a argumentação de Renaud, a distinção se: "Also kann ein Hang zum Bösen nur dem moralischen Vermögen der Willkür ankleben" (SMRa, p.30).

43 Na tradução de Artur Morão lê-se: "a inclinação para o mal é ..." (Rel, p.37). Na edição alemã temos: "der

Hang zum Bösen ..."(SMRa, p.32).

44 É claro que parece estranho definir a propensão para alguma coisa como sendo essa coisa mesma, no caso,

a propensão para o mal como sendo o próprio mal. A questão, porém, torna-se mais complexa ainda, na medida em que observamos que a disposição originária para o bem não é o próprio bem. Mesmo sendo originária, a disposição para o bem requer uma admissão do livre-arbítrio para ser efetivada. Ela inicialmente não está ligada à liberdade, por ser originária, mas depende, posteriormente, de uma decisão do livre-arbítrio para ser vigente. Ou seja, ela não depende da liberdade para existir, no entanto, precisa dela para ser ativada. Michel Renaud não citou a possibilidade de a argumentação kantiana estar, por assim dizer, dando mais crédito à existência do mal do que a do bem; questão, que a nosso ver, parece ser mais problemática do que a de que a propensão para o mal ser considerada como o próprio mal. A idéia de a propensão para o mal ser

que Kant faz entre os significados do termo ato repousa sobre um equívoco, a saber: "o desejo (ou a propensão para o mal) já seria um ato inteligível mau, mesmo se não passasse para o ato materialmente posto" (RENAUD, p. 523). Segundo ele, Kant foi obrigado a aceitar essa tese "quando, mesmo antes dessa discussão, tinha definido a propensão para o mal como sendo moral, isto é, <<como devendo surgir da liberdade>> e não da natureza" (RENAUD, p.523).

Ora, sem dúvida, o conceito de propensão para o mal, enquanto chave da temática do mal radical, é complexo e problemático sob muitos aspectos, sendo que esse aspecto apontado por Renaud é um deles. Todavia, a justificativa apresentada por Renaud não acompanha a grandiosidade da elucidação do problema. Podemos, inclusive, constatar no argumento de Renaud dois momentos cruciais, que, mesmo explicitando o problema, ainda não o justificam: a) Quando Renaud escreve: "mesmo que não passasse para o ato materialmente posto" parece isentar a propensão como sendo um ato inteligível mau devido ao fato de a propensão não ter, por assim dizer, se concretizado na ação. No entanto, apesar da observação de Renaud, fica difícil não concordar com Kant, visto que, na medida em que desvinculamos a intenção (ou ato inteligível pelo qual o arbítrio adota uma máxima suprema) da ação, não estamos mais tratando de questões referentes à Ética, mas de assuntos que competem ao vasto campo da legalidade. A questão que se refere ao ato inteligível e ao ato sensível, ou à intenção e à ação, foi exaustivamente tratada na Filosofia Prática kantiana como um todo. Kant não poderia no caso da propensão para o mal, ainda considerando-se que ele a situa no campo da moralidade (o qual requer um ato livre), se abstrair dos fundamentos de sua Ética; b) Renaud argumenta que Kant se viu obrigado a aceitar as duas significações do termo "ato" porque anteriormente tinha definido a propensão para o mal como devendo surgir da liberdade e não da natureza enquanto determinação. Ora, se houve alguma obrigação considerada o próprio mal associada à idéia de que a disposição para o bem não é ainda o bem inviabiliza a proposta de Kant de que o homem é originariamente bom e dificulta ainda mais a concepção de um progresso moral da humanidade. Na sua propensão à maldade o homem já é mau, de modo que o próprio mal se constitui como algo, por assim dizer, proveniente do homem.

por parte de Kant, ela residiu justamente em situar o fundamento da propensão para o mal no uso da liberdade. Se o tivesse situado numa determinação natural não haveria mais o que fazer e o homem não poderia ser imputado moralmente.