dos dispositivos de territorialização
2.1. Dois tipos de análise dos documentos políticos
Na análise dos documentos políticos, de acordo com Jonh A. Codd (1988, 235-246) estão presentes duas grandes dimensões: a primeira, a análise para a política, ocupa-se dos processos que fornecem a base sobre a qual a política é construída , a segunda, a análise da
política visa a avaliação crítica das políticas existentes. O autor considera que a análise para a política tem como objectivo fornecer recomendações específicas aos políticos e ou dar
informação que ajudem à reformulação das políticas; a segunda procura determinar os processos de transformação que operam na construção das políticas públicas e também os
efeitos dessas políticas sobre vários grupos assim como a análise do conteúdo político no que concerne a valores, assunções e ideologias que estão subjacentes ao processo político.
Enquanto categoria social, a educação é objecto dos discursos políticos que nela colocam grandes expectativas de mudança social, de maior justiça e de desenvolvimento tecnológico e científico que melhore as condições de existência da população. Como refere António Teodoro (1994:69), quando confrontado com o facto de a educação não responder a tais expectativas, o discurso político centra-se na reforma, designado por Popkewitz como um ritual e uma
retórica, cujo objectivo é o de fazer crer que a instituição escolar é capaz de responder de
forma cabal aos seus desígnios, gerando na opinião pública a imagem de uma instituição forte, capaz de responder aos desafios da modernização e assim legitimar novas relações de poder. Por seu lado, Codd (com referência a Klaus Off), chama a atenção para o facto de o Estado não produzir políticas que favorecem apenas uma classe mas que favorecem o modo de produção capitalista, providenciando um contexto em que a expansão contínua de capital é aceite como legítima e da qual o próprio Estado depende indirectamente através dos impostos. O exercício deste poder é legitimado pelos processos democráticos de eleição e representação. Porém, o papel do Estado no processo de produção e acumulação de capital gera diversas contradições, sobretudo nas políticas sociais, que levam à sua falha e ocultação através da linguagem com que são elaboradas.
Assim, as políticas são produzidas em resposta à falha de outras políticas, numa lógica de gestão da crise, de que as políticas de descentralização, de promoção da participação social na educação, de reforço da avaliação, entre outras, são exemplo. Os Estados têm assim interesse particular em promover discussões públicas, levando as pessoas a acreditar que "as políticas do Estado não são formas de controlo social e gestão de crise, mas o resultado do consentimento público" (Codd, 1988:237). Acreditando que tomaram parte na decisão, as pessoas aceitam-nas mais facilmente, com todas as relações de poder que contém. Em virtude disso, os departamentos do Estado produzem diversos documentos políticos que constituem o discurso oficial do estado e onde a linguagem serve um objectivo político, através de sinais e signos que contribuem para mascarar o conflito social e alimentam o compromisso com o interesse público universal.
2.1.1. A perspectiva idealista e tecnico-empiricista da análise para a política
Os efeitos desta função legitimadora do discurso sobre a educação são irreconhecíveis através das formas de análise política baseadas numa visão idealista e tecnico-empiricista da linguagem que interpretam as declarações sobre as acções, como expressão de propósitos políticos, dando origem a relatos de intenções educativas, sob a forma de valores ou objectivos.
Nesta perspectiva, a análise do documento político visa descobrir a intenção dos autores que estão por detrás do texto, sendo esta uma forma de análise que faz uma aproximação instrumentalista ao processo de fazer política, no qual se atribuem diferentes funções ao investigador, ao político, e aos que implementam as políticas e em que o documento político é
visto como um veículo de comunicação neste processo. Espera-se assim que o investigador produza um corpo de conhecimento que contenha explicações factuais e estabeleça conexões causais para poderem ser usadas pelos políticos na formulação dos documentos políticos. A análise política é assim vista como uma função meramente instrumental e as decisões não são mais que um conjunto de meios para atingir determinados fins ou metas educacionais, que são do domínio dos valores. Assim, assume-se que existem diversos meios para atingir determinados fins e que o papel do investigador é fornecer o conhecimento científico acerca dos meios mais eficazes, consoante as circunstâncias, para tornar mais credíveis as opções políticas. O documento político é assim construído como a expressão de informações, ideias e intenções particulares, sendo a tarefa da análise estabelecer a interpretação correcta do texto. Se o significado do texto é polémico, assume-se que ele não foi bem entendido pelos receptores, cabendo ao analista político clarificar essas confusões, estabelecendo a interpretação "legítima"apoiando-se numa ideologia liberal humanista que, na opinião de Codd (1988:238) tem sido "bem sucedida em mascarar as contradições fundamentais que estão por detrás da retórica de muitas políticas de Estado".
Também Rui Grácio (1981:678) ao caracterizar as tendências do modelo neoliberal da política educativa portuguesa aos diversos níveis, refere que a sua consistência é assegurada por um discurso que oculta os seus efeitos, "um discurso humanístico exaltante da polivalência cultural e profissional, do primado do humano sobre o económico"
2.1.2. Uma concepção alternativa da linguagem na análise da política
Codd (1988:238) chama a atenção para a falácia da perspectiva que assume o texto político como prova certa das intenções do autor, apenas com base na relevância da intenção (que não é mais que uma declaração de intenção) considerando que é o sentido adverbial da intenção e não o nominal que é relevante, nada podendo ser dito sobre as intenções do autor além do texto em si e das condições em que ele é interpretado, colocando o ênfase nos destinatários dos textos. Esta perspectiva crítica rejeita a invocação do autor como ideia de que o texto tem um único significado, considerando-se antes o texto como uma variedade de escritas que suscita diversas leituras, tanto mais que muitos textos políticos não têm autores identificáveis e são dirigidos a uma multiplicidade de leitores.
Assim, como sugere Codd, em vez de procurar as intenções do autor,
"talvez a principal tarefa seja a de examinar os efeitos que os documentos têm na produção de significado pelos leitores"(o/?. cit. 1988:239).
A análise do discurso político terá então de apoia-se numa teoria materialista da linguagem, aproximação que exige que se considere as assunções linguísticas que estão por detrás da construção tecnico-empiricista do texto e que se baseiam no "idealismo linguístico"que relaciona palavras, pensamentos e coisas, consideradas como um facto, com o objectivo de
tomar a linguagem transparente pelo seu uso correcto de forma a que diferentes leitores do texto lhe atribuam o mesmo significado. Esta visão não tem em conta que a linguagem em si é uma esfera da prática social e, necessariamente, estruturada pelas condições materiais nas quais essa prática toma lugar.
Assim, a análise requer uma concepção alternativa da linguagem que reconheça que as palavras não se limitam a nomear coisas ou ideias que já existem, mas que o seu uso pode produzir efeitos sociais reais. Por outro lado, o uso das palavras , além de se referir aos eventos políticos, torna-se ele próprio, num instrumento e objecto de poder.
Neste sentido, a análise da política requer uma concepção de como a linguagem produz efeitos ideológicos que visam suprimir as contradições da experiência das pessoas, no interesse de preservar a formação social existente. Nesta concepção materialista30 a linguagem é ao mesmo
tempo um produto de forças sociais, um sistema arbitrário de sinais e um domínio de práticas construídas socialmente que mudam com o tempo e o contexto social. Tais limites ou estruturas, tanto permitem como limitam as escolhas disponíveis a uma sociedade que usa uma determinada linguagem, de acordo com o tempo e o contexto.