Disciplina da linguística que se ocupa do estudo da componente do significado de enunciados que é exclusivamente dependente do conhecimento lexical e gramatical.
Termos por ordem alfabética:
Aspecto
Categoria gramatical que exprime a estrutura temporal interna de uma situação. O valor aspectual de um enunciado é construído a partir de informação lexical e gramatical. A categoria aspecto, apesar de se relacionar com a categoria tempo, é independente desta.
Todas as situações expressas nas frases seguintes podem ser localizadas temporalmente como anteriores ao momento em que as frases são produzidas. No entanto, o seu valor aspectual é distinto: em (i), sabe-se que a leitura do livro está acabada (aspecto perfectivo); em (ii), não é dada informação sobre a culminação da leitura do livro (aspecto imperfectivo); a situação descrita em (iii) corresponde a um hábito (aspecto habitual):
(i) A Maria já leu o livro.
(ii) A Maria estava a ler o livro, quando a vi. (iii) Quando era nova, a Maria lia muitos livros.
Aspecto gramatical
Valor aspectual construído através da combinação entre a informação dada pelo aspecto lexical e valor dos tempos verbais, de verbos auxiliares, de estruturas de quantificação ou de modificadores. Através da combinação de elementos deste tipo, é possível representar uma situação como culminada (valor perfectivo) (i), não culminada (valor imperfectivo) (ii), habitual (iii), genérica (iv), iterativa (v), ou estabelecer diferenças relativas à duração de diferentes situações (vi).
(i) Já li o livro.
(ii) Estou a ler o livro. (iii) Eu fumo.
(iv) As crianças que se deitam cedo lêem mais. (v) A Ana tem tossido nos últimos dias.
(vi) a. Estive a ler durante duas horas. b. *Estive a ler naquele instante.
c. Acabei de ler o livro naquele instante. d. *Acabei de ler o livro durante duas horas.
Aspecto lexical
Valor aspectual expresso pelo significado de uma palavra. O aspecto lexical pode ser alterado em função do contexto gramatical em que a palavra ocorre (ver Aspecto gramatical). O aspecto lexical permite distinguir situações estativas (i), de situações dinâmicas (ii). Através do aspecto lexical, é ainda possível estabelecer diferenças relativas à duração interna de um evento, distinguindo-se eventos pontuais de eventos durativos (iii).
(i) O João sabe francês. (ii) O João abriu a porta.
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(iii) O João espirrou.
O João escreveu um livro.
Especificidade
Propriedade associada a expressões definidas ou indefinidas, através da qual é possível determinar se a expressão em causa refere uma entidade identificável num determinado contexto discursivo.
Nas frases em (i), os grupos nominais [o livro] e [um livro que tem fotografias bonitas] são interpretados como referindo objectos específicos. Na frase (ii), o grupo nominal [um livro que tenha fotografias bonitas] tem valor não específico. Esta diferença pode ser confirmada pela possibilidade de continuar a frase com uma estrutura de elipse como a apresentada:
(i) Quero comprar o livro, (*mas não sei qual).
Quero comprar um livro que tem fotografias bonitas, (*mas não sei qual). (ii) Quero comprar um livro que tenha fotografias bonitas, (mas não sei qual).
Genericidade
Propriedade dos enunciados em que se estabelece uma relação de predicação relativa a uma classe de entidades (i-iii) ou de situações (iv-v) e não a entidades ou situações específicas ou situações localizadas num tempo específico. O valor genérico de uma frase pode ser construído através da interacção entre elementos como os determinantes usados, advérbios ou o tempo verbal.
As seguintes frases são interpretadas genericamente:
(i) Gosto de cães. (esta frase é verdadeira, porque remete para a classe dos cães. É verdadeira, mesmo que haja um cão específico de que eu não gosto)
(ii) Os professores trabalham muito. (esta frase é verdadeira, porque remete para a classe dos professores. É verdadeira, mesmo que haja um professor específico que não trabalha muito)
(iii) O gato é um animal simpático. (esta frase é verdadeira, mesmo que haja um gato antipático)
(iv) Eu bebo muito café de manhã. (esta frase é verdadeira, mesmo que haja manhãs em que eu não bebo café)
(v) Geralmente, viajo de avião. (esta frase é verdadeira, mesmo que utilize, por vezes, outros meios de transporte)
Modalidade
Categoria gramatical que exprime a atitude do locutor face a um enunciado ou aos participantes do discurso. A modalidade permite expressar apreciações sobre o conteúdo de um enunciado (i) ou representar valores de probabilidade ou certeza (modalidade epistémica) (ii), ou de permissão ou obrigação (valor deôntico) (iii). A modalidade pode ser expressa de muitas formas diferentes: através da entoação, da variação no modo verbal, através de advérbios, etc.
(i) a. Felizmente, está a chover. b. Lamento que tenhas reprovado.
c. Francamente, esta situação não é clara. (ii) a. Talvez esteja a chover.
b. A Maria, certamente, não sabe do que está a falar. c. Duvido que chova.
b. Podes sair esta noite. c. Não entres!
Polaridade
Valor afirmativo ou negativo de um enunciado. A polaridade negativa pode ser expressa através do advérbio de negação (i) ou de outras palavras ou expressões com valor negativo (ii-v).
(i) O João não voltou. (ii) Ninguém veio. (iii) Nada se decidiu.
(iv) Eles nunca foram ao teatro.
(v) Cansado como estou, eu quero lá ir ao cinema hoje!
Predicação
Atribuição de uma propriedade a uma entidade (i) ou estabelecimento de uma relação entre entidades (ii).
(i) o João é alto. (atribui-se ao João a propriedade de "ser alto", i.e., faz-se uma predicação sobre "o João")
(ii) a Ana viu o cometa. (estabelece-se uma relação entre "a Ana" e "o cometa", i.e., estabelece-se uma relação predicativa entre estas duas expressões).
Referência
Relação que une uma expressão linguística a uma entidade ou a uma localização temporal ou espacial reconhecíveis num determinado contexto discursivo. A referência de uma expressão pode ser constante (por exemplo "D. Afonso Henriques") ou variável (por exemplo "eu", "hoje", "isso"), sendo, neste caso, fixada através de processos de deixis ou anáfora.
Numa frase como "O João comeu a maçã", os grupos nominais "o João" e "a maçã" podem ter valor referencial, uma vez que designam entidades reconhecíveis num determinado contexto discursivo.
Significado
Sentido ou conteúdo semântico veiculado por uma expressão linguística. Os constituintes morfológicos são as unidades mínimas portadoras de significado; os textos são as unidades máximas portadoras de significado.
Tempo
Categoria gramatical que exprime o momento em que se verifica o que é expresso numa predicação. A categoria tempo pode ser expressa de diferentes formas: através da flexão verbal (i), de verbos auxiliares (ii), de grupos adverbiais ou preposicionais (iii), de orações temporais (iv), da ordem relativa entre orações coordenadas copulativas (v), etc. A localização temporal pode ser estabelecida em função do momento em que um enunciado é produzido (vi) (funcionando deicticamente), ou em função de um valor temporal expresso que é tomado como ponto de referência ou perspectiva (vii) (funcionando anaforicamente). Através desta categoria, é possível estabelecer relações de ordem cronológica de simultaneidade (viii), anterioridade (ix) ou posterioridade (x) face ao tempo que é tomado como referência.
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(i) Localização temporal (oposição presente/passado) expressa através da morfologia verbal: A Maria está em casa.
A Maria esteve em casa.
(ii) Localização temporal (oposição presente/futuro) expressa através de verbo auxiliar: A Maria está em casa.
A Maria vai estar em casa.
(iii) Localização temporal (oposição presente/futuro) expressa através de grupos preposicionais e adverbiais:
A Maria está em casa [agora/neste momento].
A Maria está em casa [amanhã à tarde/na próxima sexta]. (iv) Localização temporal expressa através de oração temporal: A Maria nasceu [quando os alemães entraram em Paris]. A Maria nasceu [antes de os alemães entrarem em Paris].
(v) Localização temporal (ordenação entre situações) expressa através da ordenação de orações: O Pedro chamou-me e eu olhei.
Eu olhei e o Pedro chamou-me.
(vi) Localização temporal expressa deicticamente:
Amanhã não há aula. (a referência de "amanhã" só é identificável se se conhecer o momento em que o enunciado é produzido)
A Maria está em casa.
(vii) Localização temporal expressa anaforicamente:
Em 2004, deu-se uma revolução. Mas não foi apenas isso o que aconteceu nesse ano. (a referência de "nesse ano" é determinada pela ocorrência da expressão "em 2004")
(viii) Relação de sobreposição ou simultaneidade entre duas situações ou face ao momento em que o enunciado é produzido:
Tu entraste na sala, quando eu estava a falar. A Maria está a sair de casa agora.
A Maria está em casa agora.
(ix) Relação de anterioridade entre uma situação e outra: Eu discursei antes de o Pedro chegar ao jantar.
Relação de anterioridade face ao tempo em que o enunciado é produzido: A Maria esteve em casa ontem.
Em 1974, dá-se uma revolução em Portugal.
(x): Relação de posterioridade entre uma situação e outra: Vou sair depois de te ires embora.
Relação de posterioridade face ao tempo em que o enunciado é produzido: Vou ao cinema hoje.