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CAPÍTULO I I – FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

1. Funcionalismo Lingüístico

1.2 Domínio Funcional da modalidade

Focalizamos nessa seção a proposta funcionalista de linha givoniana na consideração da modalidade, considerando a correlação entre as modalidades realis e irrealis, sob a

perspectiva funcional, definindo o contraste no paradigma modal entre os modos indicativo e subjuntivo, codificados por estados/eventos reais e irreais.

Compete à modalidade assinalar a atitude do falante em relação ao conteúdo proposicional (Givón, 1993:169). Por “atitude” o autor significa dois tipos principais de julgamento, perspectiva ou atitudes concernentes à informação dada na oração, denominados sub-modos irrealis epistêmico e deôntico (avaliativo):

a) atitudes epistêmicas (verdade, crença, probabilidade, certeza, evidência); b) atitudes avaliativas (desejo, preferência, intenção, habilidade, obrigação,

manipulação)19 (Givón, 1995:112).

Pelo legado da tradição lógica, a modalidade é considerada uma propriedade de proposições, desconectada de seu contexto comunicativo natural. As quatro modalidades epistêmicas tradicionais são: verdade necessária, verdade factual, verdade possível e não verdade. A interpretação comunicativo-pragmática dessas modalidades redistribui papéis em termos de estados epistêmicos e objetivos comunicativos do falante e ouvinte na situação comunicativa. Essas modalidades são interpretadas e redefinidas por Givón respectivamente em pressuposição, asserção do realis, asserção do irrealis e negação da asserção (Givón,1995:114).

Ao redefinir modalidade em termos de realis e irrealis, o autor muda a perspectiva de análise em dois aspectos importantes:

a) cognitivamente: de verdade para certeza subjetiva;

b) comunicativamente: de sentido voltado para o falante para sentido interativo, socialmente negociado (cf. Givón, 1995)

Para Givón (1995:114), a asserção do realis tem a propriedade de afirmar fortemente a proposição como verdadeira, em que o desafio do ouvinte é julgá-la apropriada, embora o falante possua evidências para defender suas crenças. Por outro lado, na asserção do irrealis a proposição é fracamente asserida como sendo possível, provável, incerta, (sub-modos epistêmicos) ou necessária, desejada (sub-modos deônticos). Nesse caso, o falante não possui

19

Epistemic attitudes: truth, belief, probability, certainty, evidence. Valuative attitudes: desirability, preference, intent, ability, obligation, manipulation (Givón, 1995:112)

evidências para defender a informação proposicional e o desafio do ouvinte é esperado ou até mesmo solicitado.

A distinção das modalidades realis e irrealis está no julgamento que o falante ou ouvinte atribui à realidade. Dessa forma, diferentes atitudes dos falantes em relação ao conteúdo proposicional do enunciado podem incitar mudanças nos usos dos modos verbais.

O contraste realis e irrealis pode ser distinguido nas três áreas do critério da marcação de Givón:

a) Complexidade estrutural: a estrutura marcada tende a ser mais complexa que a correspondente não marcada;

b) Distribuição de freqüência: a categoria marcada tende a ser menos freqüente, portanto mais saliente cognitivamente que a correspondente não- marcada;

c) Complexidade cognitiva: a categoria marcada tende a ser cognitivamente mais complexa que a não marcada, em termos de: esforço mental, de demanda de atenção ou de tempo de processamento (cf. Givón, 1995:28).

Esses três critérios para definir um item como marcado se entrelaçam e interatuam. O item marcado é mais complexo em termos estruturais e cognitivos e menos freqüente que seus pares.

Givón (1995) admite que uma mesma estrutura pode ser marcada num contexto e não- marcada em outro, e acrescenta que, desse modo, a marcação é um fenômeno dependente do contexto, devendo, portanto, ser explicada com base em fatores comunicativos, socioculturais, cognitivos ou biológicos20.

De acordo com Givón (1990:964, 1993:180) o status cognitivo não-marcado da modalidade realis é provavelmente explicado por fatores cognitivos e sócio-culturais. Se realis é cognitivamente a modalidade não-marcada, deve, então, assumir que eventos que ocorrem em tempo e espaço reais, ou estejam ocorrendo no tempo da fala, são mais salientes na mente do que eventos que não ocorreram ou podem ocorrer em tempo futuro (irrealis). A base para essa consideração está em propriedades da percepção e memória humanas.

Nesse sentido, eventos já transcorridos ou simultâneos ao momento da fala (eventos reais) são mais salientes e são facilmente acessados na memória do falante. Em contraposição, eventos futuros, hipotéticos, ainda não vivenciados não podem ser ativados da mesma forma.

20

Segundo Givón (1995) a marcação não se restringe apenas às categorias lingüísticas, mas pode estender-se a outros fenômenos, como a distinção entre discurso formal e a conversação espontânea.

A modalidade irrealis exige recursos lingüísticos complexos. Givón estabelece uma conexão entre os componentes tempo-aspecto-modalidade (categorias do TAM) e a modalidade epistêmica, representados da seguinte forma (Givón, 1993:171; Givón, 1995:116):

a) passado/perfectivo => realis (ou pressuposição) b) perfeito => realis (ou pressuposição)

c) presente-progressivo => realis d) futuro => irrealis

e) habitual => irrealis ou realis 21

Como podemos observar através das correlações feitas pelo autor, passado e presente estão relacionados à modalidade realis por assinalarem eventos experenciados, em seqüência ou já concluídos. Por outro lado, o futuro, ligado à modalidade do irrealis, identifica os eventos ainda não experenciados.

Verifica-se uma conexão intrínseca entre modalidade deôntica e futuridade, já que os julgamentos deônticos sempre estão relacionados com o futuro, desde que somente o futuro pode ser mudado ou afetado como resultado. Diferentemente da modalidade epistêmica que não exibe traço de futuridade, podendo indicar o grau de comprometimento do falante com a verdade da proposição (cf. Palmer 1986:97).

Para Givón (1993:172, 1995:121) há um traço em comum entre os dois sub-modos epistêmicos e deôntico - o traço da incerteza epistêmica. Segundo o autor, esse traço se caracteriza na modalidade epistêmica por apresentar baixa probabilidade e na modalidade deôntica por carregar um significado inerente de futuridade, ou seja, de incerteza epistêmica, já que segundo o autor “o futuro é por definição um modo irrealis”.

O estudo desenvolvido nesta dissertação apresenta-se sob a ótica funcionalista de linha givoniana em que consideramos a modalidade irrealis como um contexto favorecedor ao uso do modo subjuntivo, e evidenciamos a motivação pragmática e o critério da marcação como mecanismos pertinentes na análise do uso dos modos.

21

Past/perfective => realis (or pressuposition) Perfect => realis (or pressuposition) Present-progressive => realis Future => irrealis

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