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Dona Bartira foi entrevistada em 25 de setembro de 2006, em sua residência num condomínio no bairro da Várzea, em Recife. Dona-de-casa, na época ela tinha 56 anos de idade e morava apenas com o filho Rodrigo, de 19 anos, estudante de Geografia em duas universidades. A filha mais velha, Carol, que enquanto fora casada havia morado a dois andares do apartamento da mãe, no mesmo prédio, morava então com o namorado no centro do Recife. Este apartamento na época era ocupado pela filha do meio, Bruna, que se mudou para lá junto do companheiro durante sua gravidez.

Nascida em Iraí, no Rio Grande do Sul, em 1950, Dona Bartira era filha de um imigrante alemão que se instalou no país no período da guerra, estabelecendo-se no serviço público (ele trabalhava na chamada Coletoria Estadual). A mãe, gaúcha, havia tido pouco estudo e era dona-de-casa, tendo tornado-se viúva precocemente.

Dona Bartira casou-se bastante jovem – ainda ia completar 18 anos. O marido, pernambucano, havia feito o curso de sargentos do Exército no Rio de Janeiro e foi transferido mais tarde para um batalhão no sul do país.

Dona Bartira: Ele foi pro Rio fazer curso de sargentos, (inaud.) de sargento. Aí lá ele foi

do Exército ele foi pra um batalhão servir um batalhão de construção, que faz estradas. Aí chegou lá no Rio Grande do Sul a gente se conheceu um pouco, em dois anos, casou, eu não tinha 18 anos, tinha 17, me casei, passei um ano e pouco por lá e aí fomos embora pra Mato Grosso, que ele foi transferido. Aí começou a... nunca tinha saído de casa, nunca tinha arrastado de perto da casa de mamãe. Aí vamo s’embora. Morei no Mato Grosso dois anos, foi quando Carol nasceu. Aí ele passou um tempo lá, depois fizeram a Transamazônica, aquela estrada, né, aí ele poderia escolher pra qualquer lugar, pra qualquer estado do Brasil, foi como assim uma compensação, por esse período que passou fora, sabe? É óbvio que ele pediu pra Pernambuco, não é, que ele era daqui. E eu vou te dizer, eu vim pra cá, meu choque foi muito grande, quando cheguei aqui. Por quê? Ele quando saiu daqui tinha 18 anos, deixou, tava na faculdade, amigos, namorada, tudo tava aqui. Quando ele chegou aqui eu acho que ele foi em busca, resgatar o que ele deixou, e aí eu fiquei, ele me deixou muito afastada, sabe? Ele me deixou muito de lado. E aí meu cabelo começou a cair, eu comecei a adoecer, e “vou-me embora, vou-me embora, vou-me embora”. Mas aí pra ir pelo Exército é muito, demorava entre 6 a 8 meses pra ter uma conscientização e aí o Exército pagar uma ajuda de custo pra ir embora pro Sul. Só que isso ia demorar tanto, eu digo “não, vou me... Esses 6 meses eu morro até chegar lá, então durante esses 6 meses deixa eu viver um pouquinho”. E aí eu comecei a me conscientizar de que eu tinha que me adaptar, e tinha que ficar, tinha que ficar, tinha que ficar durante esse período, né? E eu fiquei e gostei. E aí quem não queria mais ir era eu. Aí nesse meio tempo essas, essas, essa busca dele, ele foi muito longe, aí ele começou com violão, com barzinho, com amizade, não sei o que, e eu achei melhor cortar o mal pela raiz, sabe? Não deu certo, vamo desfazer nosso casamento.

Quando se separou, depois de aproximadamente 10 anos de casamento, Dona Bartira já tinha a segunda filha, Bruna, que nasceu em Recife. Ela conta que como foi ela que pediu o divórcio, não achou correto pedir pensão alimentícia para ela própria.

Dona Bartira: e eu fiquei de fora, “não quero”. Inclusive na minha, outro dia eu tirei até

uma brincadeira, porque na nossa nossa separação tem assim: “a mulher abdica de pensão enquanto trabalhar”. Eu digo: “olha, tu fique na tua porque eu não tô trabalhando, tu pode (inaud.) minha pensão”40. Bom, mas aí eu não achei que tinha que ter uma, que só a pensão

das meninas não dava pra gente ter uma uma vida razoável, porque eu queria botá-las estudando num colégio particular. Todas duas. E dava muito mal pro colégio delas. Aí comecei a trabalhar pra isso, sabe?

Embora tenha feito o curso Magistério, ela nunca chegou a lecionar. Neste período de separação, ela trabalhou nas mais diversas áreas: com vendas (de centrais telefônicas e para a Tupperware), incentivos fiscais (na Audiplan), marcas e patentes, como aprovadora de crédito da Fininvest etc.

De todas estas atividades, a que parece ter sido a mais marcante para Dona Bartira é a de promotora da Tupperware. É a atividade sobre a qual ela mais fala, e aquela que parece ter repercutido mais em sua vida, financeira e pessoalmente. A Tupperware é uma empresa de embalagens e produtos para o lar, conhecida pelo seu método de vendas porta-a-porta, mais especificamente, por fazer as vendas através de reuniões domiciliares nas quais as suas vendedoras recebem em sua casa um grupo de conhecidos e faz demonstrações dos produtos.

Não se tratam de produtos muito baratos, mas Dona Bartira fala de sua qualidade e de como podem representar economia para quem investe neles, pois os mesmos ajudam a conservar melhor os alimentos, além de serem úteis para diversas finalidades. De fato Dona Bartira fala da necessidade que sente de acreditar naquilo que faz, ou seja, se for para vender produtos, há de ser produtos que ela goste e que possa atestar a qualidade:

Dona Bartira: Então eu gostava, e eu acho assim que as coisas que eu entro, eu entro de

cabeça, sabe. Eu visto a camisa sabe, então eu defendo aquilo como se fosse meu, o produto que eu tô usando, eu gosto, eu tenho que gostar do produto, se não não consigo. A Herbalife me chamou pra eu ir trabalhar, mas eu não gostei, não serviu pra mim, como é que eu vou passar uma coisa pra você que não deu certo pra mim, quer dizer, a partir do momento que eu vou fazer um regime e dá certo, então eu aproveito aquilo ali eu tenho que passar pra você, eu tenho prova, tá aqui, eu sou uma prova. Mas não deu pra mim (inaud.) não dá não.

40 Dona Bartira diz ter um bom relacionamento com seu ex-marido hoje, que ela considera um amigo. Inclusive

ele lhe disse que ainda casa com ela novamente, mas que ela não cogita a possibilidade:

Dona Bartira: não, não tem, não tem, não tem como é, eu acho que não tem condição. Acho, não vejo, não

consigo, que houve muito desgaste, sabe? Muita, muita queima de cartucho. A gente desencanta. E hoje, eu acho que a idade da gente, muita, eu acho que quando que gente tem uma idade, a gente tem muitos ideais, muito sonho, muitas coisa que a gente procura ver se alcança, né, a gente fica muito realista, cai na real, né? Não tem mais essas coisas de “pode ser? Será que vai dar certo?” não. Não caio mais nessa não.

Na Tupperware, Dona Bartira coordenou um grupo com mais de quarenta mulheres – um grupo de sucesso, segundo ela, pois sempre atingia as metas estipuladas pela empresa. Para Dona Bartira era não apenas o trabalho mais tranqüilo que ela teve, pois ela é que fazia seus horários, como também onde ela conseguiu reconhecimento pelo seu esforço. Assim, ela montou sua casa com prêmios recebidos como recompensa pelos objetivos cumpridos, incluindo aí viagens, festas, eletrodomésticos e até um automóvel.

Com relação ao trabalho na Tupperware, pode-se pensar em uma ponte com o que percebemos no trabalho de Dona Estela como promotora da Natura. Em primeiro lugar pela importância da experiência das mulheres em atividades tradicionalmente femininas, que são articuladas no desempenho da profissão (no caso de Dona Bartira, a importância de sua vida como dona-de-casa na venda de produtos para o lar).

Em segundo lugar, a dimensão do “encantamento”, seja o encantamento da promotora, que vê na empresa na qual trabalha uma excelente oportunidade de crescimento e estabelecimento profissional, seja a atmosfera criada nas reuniões com as vendedoras. Cria-se então, um ambiente de brincadeiras e fantasias, com o objetivo de estimular as vendedoras a atingirem suas metas.

Dois relatos de Dona Bartira dizem respeito a este encantamento. Quando lhe perguntei sobre qual o evento que teria sido o mais marcante em sua vida (seja por ter desencadeado mudanças, por ter trazido fortes emoções ou outro motivo), ela lembrou primeiramente de uma festa promovida pela empresa:

Dona Bartira: Eu tive tantas coisas... eu vou te dizer uma coisa. Por exemplo, nesse agora,

que eu me lembro nesses meus trabalhos de Tupperware, eu fui a um evento aonde a gente foi recebida com tapete vermelho, aonde foi eu mais cinco monitoras, aonde nós fomos convidadas, fomos convidadas para jantar, num jantar de gala, aonde sentou na cabeceira, no nosso lado, Júlio Iglesias!

Elaine: Nossa!

Dona Bartira: É... cantando pra gente, com orquestra de violino, no hotel, no Copacabana

Palace. Então a gente era assim, entre esses teve outros também que foi Roni Von, onde foi aquele menino, como é... Roni Von, Wanderlei Cardoso, Roberto Carlos. Então tem muita coisa assim extraordinária, aquelas coisas assim que só parecia sonho, sabe? Parecia um sonho.

No segundo relato, Dona Bartira fala um pouco sobre uma das reuniões que organizou para as suas vendedoras, e das estratégias para mantê-las motivadas:

Elaine: [...] a senhora acha que combinava com a senhora mesmo?

Dona Bartira:Combina, combinava sabe por quê? Porque eu tinha, eu liderava um grupo,

vender tantos mil, vamo dizer, eu não podia vender sozinha, eu tinha que distribuir com o grupo, mas eu tinha que distribuir com esse grupo estimulando cada uma dessas 42 mulheres a cada uma chegar primeiro, né. E eu, mas eu não podia ficar naquela “não, vocês tem que fazer”, “não, vocês não tem que fazer, vocês fazem se quiserem fazer”. Agora quem cumprir vai ter premiação, inclusive de finais de semana com a família, com o marido, quem não tinha filho ia com o marido em hotel, essas coisas, pago por mim, não com a Tupperware, eu quem dava o prêmio, então quer dizer, eu não dizia que eu ia dar o prêmio, “a Tupperware ia dar, a Tupperware vai oferecer”. Dizia não, “vocês vão fazer que eu pago”, não, “vocês façam que a Tupperware vai oferecer um final de semana diferente, e realmente sempre me propus a fazer uma coisa boa, diferente, pra marcar. Por exemplo, numa Reunião de Lançamento, Lançamento era quando a gente ia fazer a menina ia entrar no meu grupo, então programava uma reunião de show, inclusive um show de de de, pô, nunca me esqueço, que a gente fez um lá em Camaragibe, que houve um, a menina chegou vestida de Cinderela. Mas foi tão surpreendente, tão surpreendente que ela chegou tava todo mundo conversando, [...] apareceu, escureceu e apareceu a menina que apareceu vestida de bailarina, de fada. Então foi sorteio, criava assim uma brincadeira, uma coisa assim muito diferenciada, sabe, de de de você brincar, você participar, aonde eu passava receitas, receitas onde mostrava pra minhas, pra pessoas o quanto era necessário um Tupperware em casa. Porque você vai guardar um produto que não vai se perder, por exemplo, no Bom Preço tem similares muito muito mais bonitos que uma peça de Tupperware, só que Tupperware era o [maxi], eu tinha que acreditar pra passar pra você, que Tupperware era... por isso que era um produto caro, que era um produto de primeira qualidade, era polipropileno, parará, parará, que não estragava os alimentos, aí eu fazia a receita e ensinava por exemplo um pão, um sorvete, uma coisa que ela ia usar com o produto e ia guardar. Então o produto não se tornava caro, se torna caro até onde você começa a pesar o quanto ele vale pra você, o quanto ele economiza pra você, sabe? E foi bom, foi bom porque eu conheci muita gente, eu fiz muitas amigas aqui em Recife. E criei, criei a minha vida hoje aqui em Recife hoje eu não troco, não volto pro Rio Grande do Sul. Porque eu me dei muito bem aqui, e apesar de não trabalhar eu conheço Deus e o mundo, né, eu conheço Deus e o mundo porque eu tive muita gente, muita amizade, sabe.

Elaine: Que ótimo. E eu vejo então assim que senhora também usava os conhecimentos da

senhora de dona de casa, pra ser uma boa profissional, né?

Dona Bartira: Era sim, ah, tem. E aí você mostrando você prova, você faz, e prova por A +

B que aquilo que você tá fazendo é econômico, como você economiza, porque você economiza.

O trabalho de Dona Bartira representou na época mais do que um meio de sustento. Foi também uma forma dela conhecer pessoas, fazer amizades. Sem dúvidas, estas relações contribuíram para a adaptação de Dona Bartira em Recife após sua separação, a ponto dela não cogitar a hipótese de voltar para o Sul.

Outros fatores também contribuíram para que ela não retornasse ao Rio Grande do Sul. Dona Bartira diz que recebeu dos pais uma educação muito rígida e autoritária, um modelo que ela considerava ultrapassado e que não gostaria de repetir com sua família. Ficando em Recife, ela teria a oportunidade de dar a educação que ela considerava mais adequada para suas filhas.

Dona Bartira: Quando eu me separei eu pensei assim, eu fui criada num ritmo, numa vida,

minha maneira que eu fui criada, graças, adoro a minha mãe, mas eu achava que já tava muito antecipada, minha... muito atrasada, então pra mim levar as meninas no mesmo ritmo que eu fui criada eu não queria pra elas. Eu fui muito presa, muito trancada, sabe, eu não queria, eu achava horrível aquilo. Então eu não queria que as meninas fossem criadas da

mesma maneira que eu fui. Mas também se eu fosse morar no Rio Grande do Sul, que daí eu tava separada, com elas, elas iam entrar no ritmo, e eu não queria agredir [a mãe]. Então eu digo “eu vou ficar aqui, eu crio a minha maneira”.

Apesar de toda a gratificação com as vendas de Tupperware e do reconhecimento pelo seu trabalho, Dona Bartira permaneceu na empresa apenas enquanto sentiu necessidade. Por volta dos 29 anos, ela conheceu seu segundo marido, e com 36 anos teve sua última gravidez, que inspirava cuidados por conta de seus problemas cardíacos. Foi quando nasceu Rodrigo, seu filho mais novo, e quando deixou definitivamente de trabalhar fora.

Seu segundo marido faleceu, e hoje Dona Bartira vive da pensão que recebe do Ministério Público Federal. É o suficiente para que ela mantenha uma vida que considera como sendo de classe média, pois tem sua casa própria e seu carro.

Elaine: E depois a senhora não ficava pensando em voltar? Nunca, não tinha saudade do

tempo?

Dona Bartira: não, porque veja bem, era, porque essa história de trabalhar por prazer isso não existe...

Elaine: (risos)

Dona Bartira: então eu via uma necessidade, uma necessidade que eu tinha de manter a

mim mesma. Aquela coisa toda que eu precisava de dinheiro. Mas, agora, graças a Deus hoje em dia eu tô bem, se eu não preciso me preocupar com esse lado, de, primeiro que eu tô na minha casa, eu não tenho despesas extras, meu filho faz faculdade, mas é na universidade, é em Nazaré da Mata, na Federal, passou em terceiro lugar, pra nós isso foi uma glória, então pra que que eu vou me preocupar em trabalhar, Elaine?

Elaine: é. tá certo.

Dona Bartira: não sinto falta não.

Dona Bartira coloca com muita clareza a relação que faz entre “trabalho” e “necessidade” – o trabalho representando uma forma de se sustentar ou de melhorar a situação financeira. Hoje ela sente que tem uma situação confortável, e que a atingiu graças ao seu esforço. Assim, ela não tem pudores em desconstruir alguns discursos recorrentes sobre o valor do trabalho:

Dona Bartira: não, eu acho assim, ah, não, trabalhar por prazer eu acho que é conversa, ninguém trabalha por prazer. Trabalha por necessidade. Você levantar de

manhã quando você pode tá dormindo até 8 horas, levantar às 7, pra ir trabalhar? Pra ir responder, bater ponto? Por prazer? Isso não existe não. Não existe. Então que eu digo, porque que hoje vou me desfazer de uma mordomia que eu adquiri depois de muito esforço pra bater ponto?

Com relação à sua vida social, a conhecer e encontrar pessoas, ela aponta a liberdade que tem para sair sempre que estiver entediada em casa e encontrar antigas amigas ou freqüentar um barzinho, independente de uma vida profissional.

seus filhos estão seguindo, ela falou de habilidade, ou melhor, da “falta de dom” deles para vendas, o que faz com que eles sigam outros caminhos. Dona Bartira diz que não se viria mais numa atividade com horário regular, atrás de um balcão. Também não pareceu muito entusiasmada com a rotina da filha mais velha, que naquele dia havia chegado à casa da mãe já à noite, depois de um dia inteiro de trabalho, mesmo estando de férias.

Embora Dona Bartira não faça uma comparação entre as situações do mercado de trabalho das duas gerações, certamente houve uma série de mudanças nas últimas décadas, especialmente para as mulheres. Dona Bartira, como tantas outras de sua geração e de sua classe social, talvez tenha sido preparada principalmente para o trabalho doméstico (tanto que só começou a trabalhar fora após a sua separação, quando percebeu que precisaria complementar a renda familiar). Talvez pudéssemos dizer que o trabalho fora de casa era algo até mesmo “opcional” nesta primeira geração, ou pelo menos no seu caso. Em todas as suas gravidezes, Dona Bartira não estava trabalhando fora, nem o fez enquanto teve os filhos pequenos. Esta não era, na época, a realidade de sua filha Bruna, que trabalhava oito horas diárias desde antes do nascimento de seu filho. Para a geração das filhas, a inserção no mercado de trabalho é praticamente a situação mais esperada.

Dona Bartira, no entanto, questionava se esta era a melhor opção para a filha, até mesmo financeiramente falando, já que para trabalhar fora ela precisava contratar alguém para atender o seu filho.

Elaine: E essa coisa assim, a senhora de optar não sei se pode dizer que pode optar, por não

trabalhar quando tava com os filhos, né. Mas parece que com, por exemplo, Bruna tá com menino pequeno e trabalhando, né? A senhora vê... é uma diferença, como é que é assim...

Dona Bartira: não, mas ela é, é porque ela não quer sair, eu inclusive disse a ela outro dia

eu “filha, faça as contas pra ver se não sai mais barato você ficar em casa. Porque de repente você paga uma babá, uma empregada, e será que não vale a pena você ficar em casa?” Mas ela não quer, ela quer trabalhar, parece que, eu acho que não sei, hoje o pessoal não gosta muito de ficar em casa não, sabe? Acho que quer correr mais, ela não quer. Carol também. Trabalhar, e sair pra fora de casa trabalhando, mas num num, num é, num é, num vejo elas parada em casa não. Muita, muito agitada pra trabalhar em casa.

Aqui, Dona Bartira retoma a comparação entre disposições, ou temperamentos individuais para pensar as mudanças entre a sua trajetória e a de suas filhas: “hoje o pessoal não gosta muito de ficar em casa não”, as filhas são “muito agitadas pra trabalhar em casa”.

Embora empregadas, as filhas de Dona Bartira pensavam em se dedicar a um tipo de atividade diferente daquelas que realizavam. Bruna não tinha um emprego muito estável, pois era contratada por uma empresa que prestava serviços à Prefeitura, emprego, portanto,

que dependia da situação político-partidária local41. Carol já estava há 17 anos trabalhando para uma multinacional, mas sua mãe deu a entender que ela estaria cansada do trabalho puxado.