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1 REFLEXÕES CONCEITUAIS, METODOLÓGICAS E ALGUMAS CONSTATAÇÕES PRELIMINARES

1.7 Pistas de complexidade: identificando cargos.

1.7.9 Dona/o da Boca: o poder sob a mira da/o rival.

Ser dona/o de uma boca, ou seja, responsável pelo local onde a droga é vendida (e, por vezes, até mesmo produzida e/ou embalada), é um cargo em permanente estado transitório, porque existe um percurso de conquistas a serem trilhadas até se chegar a ele, o qual, após ter sido conquistado, está permanentemente em risco.

Estas conquistas dependem de habilidades adquiridas com os anos, incluindo questões tais como o conhecimento do que é o tráfico de drogas, contatos, suas regras internas, seus riscos, suas/seus fornecedoras/es e consumidoras/es. Ainda incluem questões relativas a disputas por território, realizadas contra outras pessoas que também almejam ser donas/os do ponto de venda de um determinado local considerado estratégico. Assim, ser dona/o de boca pressupõe uma carreira dentro do tráfico e, também, estratégias de manutenção do status recém-adquirido, o que por vezes não ocorre e acaba por colaborar para a transitoriedade do cargo. Aline (presa em Brasília- DF, Brasil) expressa bem em sua fala essa transitoriedade e os critérios necessários para a conquista de uma boca: “E sabe que na malandragem neguim sempre quer ser mais que o outro, né? Manter é difícil...”

Portanto, a questão é ter o “perfil” que alcancea referida conquista, mesmo que a perca algum tempo depois, seja em disputas com grupos rivais, seja por meio de

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intervenção policial. Este “perfil” estaria ligado a características tais como não ter medo, não sentir pena, ser assertiva/o, vingativa/o, ter facilidade para usar a força, a violência e até mesmo matar outra pessoa. Sobre ter este perfil, fala Luciana (presa em Brasília-DF, Brasil), que havia sido dona de uma grande boca: “Eu sempre fui considerada, entendeu? Sempre tive procedência. Então a boca já foi mina. Já briguei, já matei. Eu não tinha medo. Brigava igual homem”.

A probabilidade de mulheres alcançarem o cargo de donas da boca é muito pequena, pois além da feminização dos baixos cargos e da masculinização dos altos dentro do tráfico de drogas, a figura de dona/o da boca só existe mediante toda uma estrutura organizacional subserviente a qual as mulheres não estão acostumadas a gerir nas estruturas trabalhistas, incluindo a do tráfico de drogas, ainda que haja exceções ou ainda que a escolarização das mulheres seja mais alta. Ou seja, a capacitação das mulheres não necessariamente reverbera de forma positiva na sua alocação nas estruturas trabalhistas ou do tráfico de drogas.

Um aspecto interessante é o fato de as mulheres acreditarem que, ao serem muito boas ou capacitadas em algo, estão agindo “como homens”, principalmente quando realizam ações consideradas tipicamente masculinas, como a luta, a disputa, a violência ou ao assumirem cargos tipicamente masculinos, como donas de uma boca. Luciana realiza esta relação ao ressaltar: “brigava igual homem”.

Vários depoimentos registram a dificuldade das mulheres em manterem seus negócios/bocas, pois sempre são vistas como frágeis para este tipo de serviço, já que muitas vezes é pressuposta a violência física, seja com consumidora/r, polícia, rival, funcionárias/os da boca… Elas são suspostamente alvos fáceis pelos homens que encabeçam outras bocas. Sobre este aspecto se falará mais no capítulo V.

Outro fato interessante a se sublinhar é que, na Cidade do México, a/o dona/o da boca é chamada de mama choncha. Apesar de o cargo ser predominantemente masculino, assim como a mamá57da hierarquia penitenciária (PARRINI, 2007), o termo utilizado é feminino, na medida em que significa mãe.

57 Alcunha dada no México, nas penitenciárias masculinas, ao preso mais antigo do sistema e, por isto, geralmente mais respeitado.

111 1.7.10 Chefa/e: quem é que manda?

Ser chefa/e está muito além de ser dona/o de uma boca, porque não necessariamente é ter o comando apenas sobre um ponto de venda de drogas, mas sobre toda uma determinada rede de tráfico de drogas que, por vezes, envolve a produção ou a importação de matérias-primas, seu processamento, sua embalagem e, posteriormente, venda (geralmente em grandes quantidades, para donas/os de boca ou vapores).

A/O chefe (ou jefa/e, na Cidade do México) é o mais alto cargo a que uma pessoa pode chegar na hierarquia interna do tráfico de drogas, não só porque é a pessoa que mais lucra com todas as atividades do tráfico, mas porque é a cabeça logística das atividades criminalizadas, além de ser a pessoa que tem contatos com outras esferas necessárias para a execução do tráfico de drogas em larga escala, tal como o relacionamento com financiadoras/es e empresárias/os e, principalmente, altos escalões da política, polícias, fronteiras e migrações, aeroportos, portos, rodovias, ferrovias etc.

O contato direto da/o chefa/e com a droga ou com as provas do crime são mínimos, o que faz com que este cargo seja pouco transitório, pois raramente se é pega/o e, ao contrário da/o dona/o da boca, raramente grandes chefas/es se arriscam lutando por praças, já que sua atuação se dá mais no âmbito das grandes negociações e de acordos. Outro motivo que mantém os cargos de chefa/e estável é o poder financeiro e político alcançado, o que permite o exercício de grandes subornos ou de ameaças.

Apesar de haver estudos que demonstram o crescimento do número de mulheres nas altas esferas do tráfico de drogas (GÓMEZ, 2012), encontrar uma mulher chefa não é comum. Há mais evidências históricas de que elas estariam mais presentes no México do que no Brasil, mesmo porque este país tem uma história mais antiga em relação ao tráfico de drogas (VALDÉS, 2013).

Como mostrado, nenhuma das duas capitais estudadas é um grande expoente do tráfico de drogas mais organizado, que envolve escalas mais amplas de importação ou produção de matérias-primas, cozimento, preparação, embalamento e venda. Tanto Brasília-DF como a Cidade do México são cidades caracterizadas pelo consumo em comparação com estados produtores (polígono da maconha no Brasil e Sinaloa no México, por exemplo) ou de passagem (Rio de Janeiro e São Paulo, no Brasil e Estado

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do México, no México, por exemplo), locais estes que possuem um maior número de chefas/es.

A grande diferença entre chefas/es no Brasil e no México é o local onde se encontram, além da forma como assumem este cargo dentro das hierarquias do tráfico. Justamente pelas características de envolvimento dos dois países com o tráfico de drogas internacional, as/os chefas/es mexicanos costumam estar nos estados com caráter mais camponês, onde as drogas ou as suas matérias-primas são plantadas.

Já no Brasil, as/os grandes chefas/es são as/os principais fornecedoras/es de uma demanda internacada vez maior, além de serem organizadoras/es da passagem destas drogas do Brasil para a Europa. Assim, se no México preponderantemente o perfil da/o chefa/a mais se assemelha a uma/m grande fazendeira/o pelo perfil produtor destas substâncias, no Brasil mais se parece à/ao dona/o de uma grande boca (no caso das pessoas responsáveis pelas demandas de consumo) ou a uma empresária/o (no caso das pessoas responsáveis por grandes negociações de envio destas drogas para a Europa), ainda que tenhamos todos os tipos em menor número em ambos os países.