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PARTE I – O espírito olímpico e trajetória da antidopagem

CAPÍTULO 1 – Entre tecnocracia e moralidade: a emergência e o desenvolvimento das

1.1. Dopagem e Antidopagem: diferenciar para controlar

Este capítulo tem como objetivo explicitar a emergência e os rumos da oposição entre dopagem e antidopagem por meio da trajetória dos distintos regimes técnico-científicos e burocráticos responsáveis por estabelecer a relação entre o corpo do atleta e a substância proibida, ou seja, os mecanismos utilizados na constituição da prova do uso de dopagem. Portanto, o foco do capítulo são as estratégias desenvolvidas para produzir e estabilizar essas associações sociotécnicas. Consequentemente, ao abordarmos como foram constituídos os diferentes conjuntos de ações da antidopagem, explicitamos como o uso de determinados fármacos realizado por atletas foi formulado como um problema tecnopolítico. Na constituição do argumento da tese este capítulo pretende, justamente, apresentar como este problema foi formulado de diferentes maneiras ao associar instituições esportivas e de especialistas, saberes e práticas tecnocientíficas emergentes com determinados valores morais. Com isso, a problematização desta trajetória tem como objetivo demonstrar essas distintas configurações de forma a expor as particularidades de suas configurações atuais analisadas no decorrer da tese.

O objetivo não é reconstituir os marcos de uma história da antidopagem dando ênfase às datas e aos eventos considerados determinantes para o desenvolvimento dessas ações de combate à dopagem13. O capítulo ressalta o caráter estratégico das mudanças ocorridas nas formas de conduzir e executar a antidopagem de forma a contextualizar o escopo das ações realizadas contemporaneamente pela World Anti-Doping Agency (doravante WADA). Ao sugerirmos o caráter processual e relacional da antidopagem realizamos um procedimento conceitual-metodológico, pois abrimos a possibilidade de estudar os dispositivos produzidos contemporaneamente em seu caráter sociotécnico de demarcação e reiteração desta oposição estabelecida entre dopagem e antidopagem.

13 Algumas importantes referências, tais como Dimeo (2007), Hanstad (2009), Hoberman (2005) e Kremenik (2006), utilizadas por essa pesquisa como dados secundários, constroem suas análises, por vezes, utilizando como referência alguns casos de dopagem como marcos históricos para estabelecer rupturas que modificaram a trajetória da antidopagem. Notadamente, os escândalos que teriam forçado grandes mudanças institucionais nas formas de organizar a luta antidopagem, como, por exemplo, as mortes dos ciclistas Tom Simpson e Knud Jensen, que teriam catalizado a formação da Comissão Médica do Comitê Olímpico Internacional, de forma a estruturar as ações contra o uso de substâncias dopantes nos Jogos Olímpicos, ou o “Caso Festina” no Tour de France de 1998, que teria como reação imediata o início dos debates para a formação da Agência Mundial Antidopagem.

A emergência e a consolidação da luta da antidopagem confundem-se com uma série de ações científicas e tecnológicas articuladas para determinar a dopagem e são produzidas ao longo dos cinquenta anos que compreendem as primeiras ações empreendidas pelo COI até as realizadas atualmente pela WADA, demarcando que em suas diferentes configurações, de sua origem à nova amplitude assumida pela WADA, o combate à dopagem baseou-se na articulação entre expertise científica e instituições políticas ao constituir regimes técnicos de detecção e acusação de atletas. De um ponto de vista concreto é necessário investir em pesquisa científica, montar bancos de dados com resultados de exames de controle de dopagem e garantir que essas informações circulem por diferentes instituições. Ainda assim, é preciso formar agentes de controle de dopagem, fazer com que os protocolos de coleta de amostras de atletas sejam obedecidos de forma criteriosa e frascos de urina e sangue sejam transportados sem qualquer violação.

As ações e estratégias da antidopagem estabelecem distintos agenciamentos (DELEUZE, 1992; DELEUZE; GUATARRI, 2003; HAGGERTY; ERICSSON, 2000; SLUGGETT, 2011) que operam na constituição e manutenção de uma ordem ao mesmo tempo tecnocientífica e moral. Ao desenvolver os meios para verificar os corpos de atletas e o nível de comprometimento de instituições sob a justificativa de defesa do fair play, estes agenciamentos demarcam a oposição entre dopagem e antidopagem. Bryan Sluggett usa esse conceito oriundo da filosofia de Deleuze e Guatarri para indicar que os mecanismos de controle desenvolvidos pelo combate à dopagem no esporte devem ser analisados como uma heterogeneidade de elementos que se organizam em fluxos. O que deve ser estudado são as maneiras como estes agenciamentos são configurados e quais são os processos utilizados para a manutenção de sua composição. A pergunta relevante a ser feita quando estudamos as ações e mecanismos de controle da antidopagem é: o que mantém estes agenciamentos unidos? Como essas ordens de elementos heterogêneos que distinguem dopagem e antidopagem tornam possível estabilizar esses elementos em fluxo? Em suas palavras, um agenciamento é um conceito que nos ajuda a entender esses ordenamentos não de maneira estática, mas a partir de suas transformações:

Um agenciamento é um fluxo distinto de qualquer coisa – tais como pessoas, químicos e instituições – que se unem. O conceito é voltado para identificar convergências emergentes e mutantes entre espaços e objetos que não são tipicamente capturados por visões estáticas de ordem, como o panóptico. Não há um agenciamento único, mas sim um conjunto de variações em evolução, em que “qualquer agenciamento particular é ele próprio composto por diferentes agenciamentos discretos que são eles próprios múltiplos” (HAGGERTY & ERICSON, 2000:608). Assim, o agenciamento é uma ferramenta conceitual para

entender como os objetos heterogêneos funcionam juntos - não uma declaração a priori sobre a natureza das coisas. (p. 393).

A multiplicidade dos agenciamentos, a sua capacidade de formular diferentes maneiras de relacionar os elementos, é ressaltada, questionando como esta heterogeneidade de elementos funciona. Os mecanismos de controle e os aparatos tecnoburocráticos da antidopagem são trazidos ao primeiro plano da análise; são agentes importantes mobilizados por esses agenciamentos para fazer emergir entidades materiais-discursivas como atletas “dopados” e “limpos”, entidades em “conformidade” e “não conformidade” com o Código Mundial Antidopagem. Os aparatos tecnocientíficos e burocráticos do combate à antidopagem funcionam como “aparatosmaterial-discursivos” (BARAD, 1998, 2003) que ao estabelecerem formas de demarcar os limites entre dopagem e antidopagem produzem essas entidades, materialidades diferenciadas por meio das estratégias tecnopolíticas da antidopagem.

Nesta tese, o conceito de aparato tecnocientífico e burocrático tem um uso bastante amplo: circunscreve uma variedade de produtos das ações antidopagem articulados no momento de formulá-las e realizá-las. São documentos oficiais e marcos regulatórios de abrangência internacional, mas, também, estão inclusos formulários de controle de dopagem e estações de coleta, nas quais atletas fornecem a oficiais de controle de dopagem amostras de urina e sangue para serem testadas, assim como os processos analíticos e os equipamentos utilizados para efetuar o controle de dopagem na realização de uma possível prova do uso de um fármaco proibido. Por isso, esses aparatos são conceitualizados como “materiais- discursivos”, como uma forma de ressaltar a impossibilidade de indissociar a materialidade das categorias discursivas e mesmo das relações de poder produzidas em sua efetuação.

Ao ressaltar que estas práticas implicadas no estabelecimento de diferenças, como o natural e o artificial, o humano e o não humano, são simultaneamente discursivas e materiais, Karen Barad pretende explicitar que a materialização dos corpos e objetos produzidos por esses aparatos é cingida por assimetrias e relações de poder. As teorias científicas e os aparatos técnicos aplicados em suas práticas experimentais não são neutras nem dissociadas dos fenômenos que elas tentam observar e ao mesmo tempo produzir. Tanto a materialidade dos corpos quanto as categorias de “humano” e “não humano”, “técnico” e “político”, “material” e “artificial” são constituídos a partir de processos que a autora denomina de “entrelaçamento”. Em suas palavras:

As teorias que focam exclusivamente na materialização de corpos “humanos” desconsideram o ponto crucial de que as próprias práticas, nas quais os limites diferenciais de “humano” e “não humano” são traçados estão sempre implicados em

materializações particulares. A constituição diferencial de “humano” (“não- humano”) é sempre acompanhada de exclusões específicas e sempre aberta para contestações. Esse é o resultado de uma natureza causal não determinista de intraações agenciais. (BARAD, 2003:824, tradução nossa).

Na perspectiva performativa desenvolvida pela autora, as materialidades dos corpos não são encaradas como realidades dadas e inertes à espera das definições e dos contornos estabelecidos por determinadas discursividades, mas como os produtos de distintos processos de “constituição diferencial” historicamente identificáveis. No caso da elaboração dos “limites diferenciais” produzidos pela luta da antidopagem na promoção de seu programa mundial não podem ser confundidos com o estabelecimento de um traçado entre o dentro e o fora do espírito esportivo, entre corpos e condutas que seriam identificados e ordenados pelas práticas e saberes tecnocientíficos da antidopagem como “dopados” e “limpos”, como “trapaça” e “esforço”. A partir deste ponto de vista performativo desenvolvido por Barad, a materialidade dos corpos demarcados como dopados é constituída processualmente a partir do momento que é colocada em relação aos novos dispositivos de monitoramento e vigilância implementados pela WADA. Esta conceitualização ajuda-nos a ampliar o escopo da análise das ações de antidopagem ao enfatizar como os limites que demarcam estas diferenças são articulados por processos que excedem o contexto esportivo colocando em relação com a ciência e a tecnologia.

Nessa direção, a formulação das ações da antidopagem como regimes técnoburocráticos não encerra, simplesmente, um caso no qual a autoridade do discurso médico-científico é invocada para dar sentido a uma série de ações políticas. Ou, como nas palavras de Henne (2013:885, tradução nossa), do “uso de ferramentas tecnocráticas como respostas a problemas culturais – como a dopagem – que depende da crença nessas verdades”, mas o estabelecimento de um limite diferencial específico, a produção de um binômio que opõe dopagem e antidopagem. Os processos de diferenciação formulados através dos mecanismos da Agência de verificação da fidelidade de atletas e instituições não apenas identificam “corpos dopados”, mas performam continuamente esta oposição.

Tanto dopagem quanto antidopagem passam a ser compreendidas como efeitos constituídos simultaneamente pelo estabelecimento e pela manutenção dessa ordem de ações e estratégias que demarca como opostos certas práticas, condutas e valores considerados por dirigentes esportivos, cientistas e agentes governamentais engajados no desenvolvimento das ações da antidopagem, como próprios do esporte. Quando afirmamos que a oposição entre dopagem e antidopagem é produzida processualmente como o efeito da constituição desses agenciamentos sociotécnicos, indicamos que as práticas, os saberes e as técnicas utilizadas em

sua realização criam novas entidades atravessadas por materialidades e relações de poder. Mesmo que esses processos de produção de limites diferenciais realizados pela antidopagem operem através da constituição de regimes de controle e de vigilância fazendo as vezes de uma espécie de polícia da conduta e dos corpos dos atletas, as ações da antidopagem são compreendidas como os artefatos tecnopolíticos que singularizam a oposição entre dopagem e antidopagem. Os “corpos dopados” detectados não são simplesmente governados por esse sistema através da constituição da prova do uso de dopagem, como sugeriria Park (2005), mas são produzidos e materializados no decorrer do estabelecimento desses agenciamentos de vigilância (SLUGGETT, 2011). Ao formular a dicotomia entre dopagem e antidopagem, uma variedade de novas entidades emerge da instituição dessas relações sociotécnicas, entidades formuladas a partir das práticas e saberes tecnocientíficos e burocráticos empreendidos pelo combate à dopagem.

O corpo do atleta identificado pelo resultado dos exames de controle de dopagem como dopado é um “objeto composito” (MOL, 2002:74). O atleta demarcado como dopado a partir da identificação do produto da metabolização de uma substância proibida na amostra biológica fornecida pelo próprio atleta por meio de análise bioquímica circunscreve uma maneira de realizar o binômio dopagem-antidopagem. Esta forma de materializar o binômio dopagem-antidopagem sob o corpo do atleta singulariza uma forma cristalizada da dopagem associada ao corpo do atleta, que quebra os fluxos de constituição dos agenciamentos sociotécnicos articulados em sua efetuação para apresentar uma versão singular do binômio.

A associação entre o atleta e uma conduta considerada imoral por essas instituições é formulada pelos procedimentos relativos ao controle de dopagem. No entanto, concretamente, não existe uma relação linear entre o atleta e o fármaco; o que existe é a constituição desses fluxos de informação, estratégias de controle, procedimentos de coleta e práticas burocráticas necessárias para regulamentar as ações antidopagem em diferentes países, práticas de saber científico, rotinas organizacionais e arranjos logísticos utilizados para performar o binômio dopagem-antidopagem que a partir da constituição da WADA passaram a buscar a manutenção de um padrão de execução estabelecido internacionalmente.

No lugar de uma relação linear entre o teste e o consumo de uma substância proibida pelo regulamento internacional, temos um processo de emergência de uma versão singular do binômio dopagem-antidopagem. Uma forma de realizar a “coerência tecnopolítica” articulada para possibilitar que os mecanismos de controle de dopagem produzam provas do uso de substâncias proibidas.

Como reforçado por Mol, a singularidade, uma unidade compreendida como distinta dos processos que a constituem é o resultado da coordenação e adição de elementos heterogêneos. Em suas palavras sobre os processos de constituição da ateroesclerose não é um objeto presente no corpo do paciente a espera do diagnóstico médico, mas a adição de uma série de práticas de saber e relações pessoais que a formulam como uma unidade:

Assim, o fato de que diferentes objetos podem ser somados e, portanto, transformados em um, não depende da existência projetada de um único objeto que estava esperando no corpo. Singularidade também pode ser deliberadamente buscada depois. Pode ser produzida. O resultado da adição é um único objeto. (MOL, 2002:36, tradução nossa).

Os distintos elementos e associações são agrupados durante o processo de controle de dopagem para estabelecer essa versão singular do binômio, que passa a ser apresentado como uma entidade independente e separada dos processos engajados em sua produção. São estes processos de singularização que permitem, enfim, relacionar o atleta à substância proibida e um tipo de conduta condenado e demarcar esta relação no próprio corpo do atleta.

A constituição dos agenciamentos engajados no estabelecimento e na manutenção desta ordem que hierarquiza atletas, práticas de treinamento e fármacos a partir da oposição entre dopagem e antidopagem é sempre compreendida como um processo à procura de estabilização e reiteração. Para isso, uma multiplicidade de relações precisa ser continuamente instaurada e reiterada de forma a produzir a impressão de que a oposição dopagem- antidopagem promovida pelas políticas da antidopagem é uma realidade estável, permanente e objetiva. O binômio dopagem-antidopagem é um efeito destas relações entre uma multiplicidade de agentes que atuam uns sobre os outros. Os agentes humanos e não humanos, os artefatos, o conhecimento e as práticas de controle engajadas na elaboração e operacionalização das ações antidopagem estão em constante transformação e geram novas entidades e assimetrias por meio das relações e dos processos de singularização em que estão articulados. “Dopado” e “limpo”, “conformidade” e “não conformidade” não são diferenças extrínsecas a essas relações; elas ganham especificidade e materialidade, são transformadas no decorrer dos seus processos de realização.

Se o binômio dopagem-antidopagem pode ser afirmado como um efeito concreto destas redes de relações e agenciamentos, cabe questionarmos como esses processos de produção de diferenças passam a ser realizados pelo regime transnacional da agência. Quais são as novas entidades materializadas por uma tecnopolítica de padronização das ações de antidopagem? A constituição desse binômio trata-se de um processo contínuo de produção de

um problema tecnopolítico, que engaja essa heterogeneidade de práticas e saberes científ icos, instituições esportivas e governamentais. O produto do desenvolvimento de diferentes

formações históricas engajadas em traçar o limite entre dopagem e antidopagem por meio de práticas e mecanismos de controle de atletas e instituições. Ressaltar os processos e as transformações ao longo do tempo dos agenciamentos de saberes e práticas médico- científicas, marcos regulatórios e instituições constituídos como ações de combate à dopagem no esporte é uma forma de analisarmos os processos de singularização que possibilitam a produção e a reiteração dos limites diferenciais entre dopagem e antidopagem. Como indicado por Barad (1998), reconhecer o caráter processual desses aparatos semióticos-materiais significa indicar que através do tempo esses aparatos passam por diferentes processos de singularização e materialização. Essas modificações acontecem no decorrer do estabelecimento de novas e muitas vezes improváveis relações sociotécnicas. Para a autora:

A materialização de um aparato é um processo temporal: os aparatos não mudam simplesmente com o tempo, mas eles são materializados através do tempo. Aparatos são eles mesmos fenômenos materiais-discursivos, materializando em intra-ação com outros aparatos materiais-discursivos (BARAD, 1998:102).

No caso dos limites diferenciais traçados pela oposição “dopagem e antidopagem” as distintas materializações desses agenciamentos sociotécnicos estão mutuamente relacionadas com diferentes formas de fazer emergir “corpos dopados” em oposição aos corpos de atletas considerados “limpos”. Nesse sentido, este capítulo busca cumprir a tarefa de descrever essas relações e por meio delas analisar as formas pelas quais esses regimes tecnoburocráticos da antidopagem tomam forma e são formulados a partir de sua relação com esses valores morais e burocráticos que articulam as ações da antidopagem. É dessa maneira que encontramos uma variedade de processos de materialização em que limites diferenciais são traçados na emergência de materialidades diferenciadas pelo limite dopagem e antidopagem.

Para isso, realizamos uma pesquisa documental com dados primários disponíveis na internet, em particular, nos sites das instituições estudadas, Comitê Olímpico Internacional (COI), WADA e International Association of Athletics Federations (IAAF), como estatutos, discursos de dirigentes, protocolos de operações procedimentais, códigos da elaboração de regras da antidopagem, bem como documentos secundários como artigos e livros que abordam a história da dopagem e das políticas da antidopagem. A análise documental é complementada com dados primários obtidos por meio de entrevistas semi-estruturadas e realizadas com agentes brasileiros como dirigentes da WADA e do COI, dirigentes de

federações esportivas brasileiras e cientistas com experiência na análise de controles de dopagem.

O período apresentado pelo capítulo é dividido em três fases. A primeira compreende o período anterior à atuação da Comissão Médica do Comitê Olímpico Internacional, momento no qual a dopagem ainda não era postulada como o principal problema do esporte. Apesar da existência de alguns debates e legislações sobre a dopagem, a fase é marcada pela falta de articulação e de interesse de alguns atores. A segunda fase inicia-se por volta do ano de 1967 com o papel de centralidade que a Comissão Médica do COI adquire e passa a enfatizar a realização de testes de controle de dopagem. Este período compreende a emergência de novas estratégias de detecção de dopagem realizada nas décadas de 1980 e 1990 e que ganharam novo estatuto com a criação da Agência Mundial Antidopagem no início dos anos 2000. A última fase descreve o nascimento desta instituição transnacional e os principais dispositivos desenvolvidos por ela na aplicação de seu Programa Mundial Antidopagem, ao enfatizar as mudanças realizadas nas formas pelas quais a dopagem foi definida e combatida por agenciamentos sociotécnicos que articulam agentes governamentais e esportivos e saberes e práticas tecnocientíficas.

Historicamente, as competições esportivas foram relacionadas ao consumo de drogas utilizadas para o aumento do desempenho atlético. A sua utilização no esporte teria acompanhado os desenvolvimentos da bioquímica nas primeiras décadas do século XX. Do consumo de estricnina e cocaína ao uso de anfetaminas e anabolizantes uma variedade grande de substâncias foi associada com a progressiva quebra de recordes esportivos. No entanto, apenas no final da década de 1950 que o uso de substâncias consideradas dopantes começou, quasede forma unânime, a ser apresentado e intensamente debatido em meios esportivos e científicos. Isto não quer dizer que a dopagemnão era considerada uma forma injusta de obter vantagens competitivas, mas que os termos que fundamentaram a sua gravidade, como riscos à saúde, trapaça e imoralidade, ainda não estavam suficientemente articulados, nem os agentes capazes de promoverem as mudanças institucionais necessárias mobilizados para dar início a uma sistemática luta contra a dopagem no esporte.

De acordo com Dimeo (2007) e Waddington e Smith (2009), a consolidação de um consenso sobre a imoralidade e os riscos do uso de dopagem entre atletas ocorreu na década seguinte com a emergência de regulações e campanhas antidopagem acompanhadas do desenvolvimento dos primeiros métodos de detecção de anfetaminas. Segundo Dimeo (2007), esta foi a maior mudança institucional no esporte ocorrida na segunda metade do século