2.3 “UMA CIDADE EM CHAMAS ”
3. MANIFESTAÇÕES DE RESISTÊNCIA X REPRESSÃO
3.1 DOPS O "VIGIAR E PUNIR"186 TUPINIQUIM
O período que estou pesquisando, década de 60 e 70, é de tempo violento, de forte repressão policial e ideológica. Tempo de sonhos e pesadelos para o povo brasileiro. Tempo propício para as repressões organizadas e administradas pelo Estado autoritário. Tempo de aparelhos policiais de informação. Tempo de agentes infiltrados nas organizações de esquerda. Tempo de prisões, porões e torturas. Tempo de controle absoluto sobre a nação.
Tempos assim construíram órgãos de repressão política e policial em quase todos os estados brasileiros. Em Santa Catarina, o Departamento de Ordem Política e Social estava ligado ao DOPS do Estado do Paraná. Todo o procedimento de fichamento dos “comunistas”, “terroristas”, eram feitos e informados à polícia do Paraná. Vários órgãos faziam parte deste
185 Ibidem, p.91.
186 “Vigiar e punir”, expressão utilizada por Michel Foucault, referindo-se ao processo de controle vivido pela sociedade.
aparelho repressor: a Polícia Federal de Santa Catarina, Divisão Central de Informações de Santa Catarina, Delegacia Regional do PR e SC e a 5o Região Militar. A centralização das informações ocorria no DOPS - Paraná, tanto que os indiciados em Inquéritos Militares em Santa Catarina, prestavam depoimentos no referido Estado.
O departamento de informações do Exército - DOPS - mantinha em seu poder todas as informações detalhadas dos passos de cada militante do PCB/SC, que constavam de inquérito policial detalhando a participação de cada um, assim como, a organização do partido em cada cidade do Estado.
Criados no início do século XX, os Departamentos de Ordem Política e Social (DOPS) - mantiveram-se sempre como polícias políticas a serviço do Estado repressor brasileiro. Considerado como um dos mais importantes aparelhos do Estado autoritário, seu papel principal era o de manter a ordem pública, como escreve Beatriz Kushmir187, citando o decreto que regulamenta o DOPS, como organismo de execução.
“(...) coletar, fichar, anotar e arquivar, os informes obtidos, pelos órgãos de busca (...) ou constantes da correspondência sigilosa, realizar a coleta complementar, preparar pedidos de busca; elaborar informações; preparar a difusão de informes e informações; instruir pedidos de passaporte e de ‘vistos’ de saída do território nacional; fornecer certidões negativas de antecedentes políticos e sociais; realizar as atividades administrativas correntes.” 188
Diz a pesquisadora: “No papel de acumulador e gerenciador de informações,
fazendo-as circular e abastecendo os órgãos de inteligência de dados, os DOPS estaduais
187 KUSHNIR, Beatriz. O Acesso à Informação e as Fontes - uma análise da leitura e organização dos arquivos: o caso dos Departamentos de Ordem Política e Social (DOPS) no R.J. e em S.P. Comunicação apresentada no Encontro da ANPUH em Belo Horizonte - Julho/97.
188 GUANABARA. Decreto “e”, n° 3002, de 15/08/1969. Relatório da Divisão de Informações, de 1972. Fundo DGIE. Série: Pasta temática, Sub-série Administrativa, n° 104 (Pereira, Márcia Guerra).
FIGUEIREDO, Miriam Beatriz Collares e REZNIK, Luís; 1983, p.26. nota 20, citado no trabalho mencionado à cima.
viveram em uma só década - 1968 a 1979 - (...) seu apogeu, crise e início do processo de extinção. ”189
Os anos da ditadura no Brasil, foram permeados de vigilância e censura. Os órgãos de repressão agiram de forma violenta proibindo idéias e ações. A censura, como diz Maria Luiza Tucci Carneiro “(...) assim como a violência física e simbólica, fizeram parte dos projetos
políticos articulados em diferentes momentos da nossa história. ”m
Mantidos como suspeitos de atentarem contra a segurança nacional, milhares de pessoas foram “fichadas” pelos DOPS, nos mais diferentes lugares do Brasil nos anos da ditadura. Suas vidas sofriam uma reviravolta completa a partir do momento que davam entrada na lista dos terroristas, subversivos e comunistas. Organizações, entidades, partidos, igrejas, enfim, os mais variados grupos da sociedade possuíam seu cadastro junto à esta organização repressora.
Ao folhear os documentos ligados ao DOPS do período do Regime Militar, senti calafrios. A impressão era de estar submergindo num mundo que se manteve “confidencial”, “sigiloso” e “restrito” por muito tempo. O mundo do repressor, aquele que serviu como argumento para prisões, torturas, desaparecimentos e mortes.
Os órgãos de informação da repressão não poupavam seus opositores. Fichava-os, inseria-os em inquéritos policiais, prendia-os e matava-os. Comunistas, subversivos ou terroristas, eram os qualificativos à pessoas que possuíam seu nome fichado, às vezes por terem sido flagrados comprando livros ou assistindo uma peça de teatro. Perigoso, criminoso ou traidor da pátria eram outras qualificações àqueles que participavam de uma organização de esquerda, de um partido clandestino ou de um grupo armado.
189 Idem.
190 CARNEIRO, Maria Luiza Tucci. Livros Proibidos. Idéias Malditas: O DEOPS e as minorias silenciadas. São Paulo: Estação Liberdade, Arquivo do Estado/SEC, 1997. p. 15.
Pesquisar os arquivos do DOPS é deparar-se com o poder que desmantelou organizações que se opunham ao regime. Todos os arquivos, documentos e fontes originárias dos órgãos de repressão podem ter sofrido uma "limpeza" antes de terem sido entregues a órgãos de arquivo público. Esta hipótese precisa ser levada em conta ao se analisar tal material.
Um olhar atencioso e cuidadoso sobre o estudo das formas de repressão, nos revela as estratégias de resistência para burlar ações repressivas.
As fontes são variadas, não possuem uma única verdade, mas apontam alternativas de análise que vão depender da postura de quem as investiga. No caso das fontes dos aparelhos repressivos, meu objetivo é encontrar as ações desenvolvidas contra organizações da sociedade que se contrapunham a ordem autoritária naqueles anos de ditadura. Principalmente em Joinville, os registros das resistências só existem na memória daqueles que resistiram.