Tomado pelo espírito de Glenn Miller - que nunca precisou estar morto para se "incorporar" nos mais talentosos band-leaders de todos os países - o maestro Nilo deu o sinal com as cinco batutas da mão direita e o Super-Som TA abriu o baile com "In the Moon". Em trinta segundos, mais de cem casais se esfregavam de olhos fechados no grande salão do Santo André, em noite de formatura e gala. O popular dançarino Ângelo Marins estava lá, mas sentado, de olhos tristes, sem poder exibir, como fizera por mais de quarenta anos, seus passos tão preciosos quanto os de um profissional daqueles dos filmes de Hollywood. Quando dançava - e muitas vezes os outros pares paravam para vê-lo e aplaudi-lo - Ângelo sentia-se como se fosse o próprio Fred Astaire, um Fred gordo demais, mas não menos elegante do que o grande astro.
Agora estava ali, sentado, só olhando os corpos colados dos outros casais e ouvindo o som que mexia com suas pernas. Ergueu os olhos para o palco, não viu Nilo, viu Glenn Miller, voltou os olhos para o salão, viu-se em seu habitat social, abraçando a sua Leonora, só que ela era a Rita Hayworth, e ele era de novo Fred Astaire, e todos estavam parados em círculo aplaudindo seus passos.
- Não vai dançar, Ângelo?
A voz do amigo trouxe de volta à realidade. Balançou a cabeça num sinal de "não", impossível de entender. Como alguém podia entender o Ângelo sentado num baile, sentado e não bailando, ele que chegava a dançar todas, sem parar, até o último acorde de uma longa noite? Quando outro amigo repetiu a pergunta, levantou-se com dificuldade:
- Venha, vou lhe mostrar uma coisa. - respondeu.
No banheiro, desabotoou a braguilha, abaixou as calças e exibiu o saco intumescido, cheio de manchas roxas. Estava com o dobro do tamanho normal.
- Não sei o que está acontecendo, - explicou - dói muito, cada dia amanhece mais inchado. Não posso mais nem andar, quanto mais dançar. Estou entrando em pânico, meu irmão!
Aquele baile passou. E muitos bailes passaram pela cidade e muita tristeza cresceu na alma bailarina de Ângelo Marins, o gordo e elegante par, que todas as mulheres esperavam em todas as danças. O mal foi se agravando, a tristeza crescendo na mesma proporção. Ângelo só não podia perder a esperança. Nele isso seria impossível, pelo espírito alegre que era a sua maior força, pelos sonhos, pelas fantasias hollywoodianas. Passava as tardes
ouvindo suas músicas dançantes, sempre se via no meio do salão, rodopiando, rodopiando e sabendo que todos espiavam seus passos e procuravam imitá-lo. Às vezes tentava uns passos sozinho, os braços postos como se enlaçassem a cintura de Rita Hayworth ou Leslie Caron - duas das suas grandes paixões, mas o devaneio durava um par de segundos, nada mais. O peso no meio das pernas e o volume, mais que o peso, obrigavam-no logo a sentar- se. Então, sua alma deixava de sorrir e ficava sem sonhos.
Mas, não desistia, nunca, nem com as frustrações dos diagnósticos apressados, dos remédios errados, das "simpatias", chás caseiros de ervas milagrosas, passes de médiuns vigaristas ... das decepções repetitivas que aumentavam a sua dor. Chegou a pensar que a doença era causada por um mal de nascença: tinha um testículo bem maior que o outro, porém dois médicos disseram que isso nada tinha a ver. Não afetava, nunca tinha afetado sequer seu desempenho sexual. Até os 52 anos, mais ou menos, quando começou a sentir de fato o problema nas partes baixas, sempre fora normal, muito bom de cama, assíduo e entusiasmado. Aos 53 anos teve que deixar o sexo de lado. Não tinha outro jeito. Na medida em que o saco inchava e crescia, o pênis ia encolhendo, sumindo, como se estivesse se desintegrando. Imaginou também que a culpa era de duas cirurgias de hérnia mais ou menos mal sucedidas. "Não, isso não causaria o edema. Seu problema é linfático" - disse-lhe um médico.
Um ano depois do último baile - aquele em que pela primeira vez na vida não saiu para dançar - Ângelo já estava com a bolsa escrotal tão grande, que nem podia mais disfarçá-la sob as largas bermudas feitas especialmente para esconder o aleijão. O edema tomara conta dos membros inferiores e o fardo pesava cada vez mais, assim como a obesidade provocada pela imobilidade forçada. O décimo primeiro médico da sua peregrinação por consultórios, clínicas e hospitais, resolveu operá-lo. Ligou os linfáticos, drenou a bolsa escrotal, fez o que pôde. Ângelo sentiu um certo alívio nos primeiros meses pós-operatórios, conseguiu andar um pouco mais, e até tentou dançar com a sua Leonora na sala de jantar. Foi um brevíssimo sonho. Mais um ano, mais outro, e o escroto cada vez maior: quatro quilos...cinco quilos...
Sua penúltima grande esperança foi uma internação no conceituado Hospital São Paulo. Após 15 dias, exames e reexames, testes e "n" outras coisas, a junta médica decidiu que a cirurgia era contra-indicada. Seria extremamente perigoso tirar a bolsa, em razão também da obesidade e de problemas cardíacos. Assim disseram os doutores.
Já houve quem se atirasse de um precipício com uma possibilidade em cem de sobreviver só pela "honra" de ver seu nome impresso no Guiness, o livro dos absurdos, do
esdrúxulo e das loucuras humanas. Outros, presos a fortes correntes, fizeram-se trancar num barril hermético e descer pelas cataratas do Niagara, pela mesma razão - se é que possa haver uma só gota de razão em extravagâncias mortais como essas e tantas outras que a televisão mostra de tempos em tempos, a milhões de tele-espectadores de pelos eriçados.
Ângelo Marins chegou aos 61 anos de idade - após mais de 8 anos de desespero - com uma grande chance de ganhar um verbete no Guiness sem arriscar nada. Era só mandar uma foto e o atestado médico do seu incrível recorde mundial: uma bolsa escrotal com 35 cm de altura, 32 de largura e 77 de perímetro. Seu saco estava do tamanho de uma bola de basquete e pesava 17 quilos, o peso médio de uma criança de 1 ano de idade.
Mas ele nem sabia o que era o Guiness. Só sabia - e sentia muito - que para andar precisava escorar o saco num pano forte que era amarrado em volta do pescoço como uma insólita tipóia. Para ver televisão, precisava colocar a bolsa escrotal sobre um banquinho colocado a frente, entre suas pernas. E até para virar-se na cama ou sentar-se na bacia da privada, precisava da ajuda da sua Leonora. Um intelectual do bairro falou-lhe do Guiness, disse que era uma honra ter o nome registrado nesse livro.
- Honra! isso é uma honra? - respondeu-lhe Marins mostrando a "bola de basquete" pendurada entre as duas pernas como um troféu maldito, tão grande e estufada, que engolira o pênis, do qual não se via sequer uma pontinha da glande
Ângelo não foi para as páginas do Guiness, mas foi para a primeira página do jornal "Notícias Populares", um diário de língua desaforada editado em São Paulo. Com foto e tudo. A manchete despertou o interesse científico de várias equipes médicas, mas Marins foi encaminhado pelo próprio jornalista para a clínica do Dr. Alfredo Romero, que aceitou o desafio. Apesar de que o diagnóstico já era conhecido - "caso de elefantíase da bolsa escrotal, provocado por uma deficiência nos vasos linfáticos" - dezenas de exames foram necessários, além de testes e discussões em grupo dos médicos da equipe. Por fim, a decisão: cirurgia em duas etapas.
A primeira foi realizada no Hospital São Camilo, em São Paulo, em janeiro de 1991. Em duas horas, a bolsa foi retirada e posteriormente encaminhada a um museu/laboratório de anatomia, por se tratar de um caso raro, um dos poucos de que se tem notícias no Brasil.
Dez meses depois, no mesmo hospital, o paciente voltou à mesa de operação, para uma plástica de restauração abdominal e peniana. E desta vez, a surpresa, quando o médico começou a manusear o pênis de Ângelo, que ainda permanecia envolvido e quase sumido, ficou perplexo com a dimensão: 23 centímetros, um dos maiores que já tinha visto.
Já após a primeira cirurgia, Ângelo Marins era outro. Podia andar e até dançar um pouco. E mal podia esperar a segunda, porque queria mais, muito mais. "Eu ainda sou novo, - dizia - ainda posso voltar a transar como antigamente. Sabe, nem é por mim, é pela Leonora. Estou lhe devendo nove anos de amor".
A segunda etapa foi igualmente feliz. O pênis, restaurado, apresentava um visual normal, descontando-se, é claro, as naturais inflamações pós-operatórias, que neste tipo de cirurgia podem levar até dois meses para desaparecer.
Agora, ele só tem que esperar a recuperação total para saber se vai poder ou não voltar à atividade sexual. Dificilmente ocorrerá um problema de ordem emocional, por ser Marins um homem extrovertido, alegre, sem medos e sem ansiedades. Ele mesmo diz: "Tudo que vier será lucro". Contudo, mesmo que não consiga ereção natural, ainda assim terá uma chance: o implante de próteses penianas, com a qual poderá pelo menos dar à esposa os nove anos de prazer que lhe está devendo.
Ângelo não perde a fé. Nem o espírito brincalhão:
- Quando chegar a hora, boto o Glenn Miller na vitrola e vou dançar com a Leonora na cama.
Comentário
Apesar de extremamente rara, a elefantíase da bolsa escrotal é relatada em livros médicos como uma doença incapacitante para o portador. O Sr. Ângelo teve resolvido o seu caso, através da extirpação da gigantesca bolsa escrotal, reconstruindo a anatomia da região e necessitando da colocação de próteses penianas para recuperar a sua função sexual, pois o pênis sofreu danos irreversíveis pela tração que o peso da bolsa escrotal exerceu sobre ele durante tantos anos.
Recuperou plenamente as suas funções sexuais e apesar da sua obesidade voltou a fazer o que ele mais gostava: dançar e amar a sua Leonora.