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Capítulo 1: A Sibila Estrangeira

2. Dora e a recente poesia brasileira

Ao revelar em sua poesia a complexidade que caracteriza a modernidade poética, Dora Ferreira da Silva encontra alguns interlocutores na recente poesia brasileira, mas também parece se distanciar de algumas tendências. O crítico e filósofo Benedito Nunes busca traçar uma espécie de panorama para a recente poesia brasileira, incluindo o nome de Dora Ferreira da Silva, no ensaio “Recente poesia brasileira: expressão e forma”10. Ao falar sobre os traços unificadores da poesia nos

anos 80, depois de realizar um percurso histórico que vem desde os anos 50 com a poesia concreta, passando pelo que o autor chama de virada política de 64, marcada pela contracultura, tropicália e pela poesia marginal, Benedito Nunes elenca algumas características marcantes ou tendências principais da poesia na década de 80.

Em um primeiro momento, ele destaca as vozes da poesia recente que estão fora do ciclo histórico das vanguardas, “livres das arregimentações vanguardistas” do modernismo e do

10

NUNES, Benedito. “Recente poesia brasileira” in: A clave do poético. São Paulo: Companhia das Letras, 2009

concretismo. “Fora do ciclo histórico das vanguardas, já não se acham mais sob a urgente pressão da busca do novo – o império da tradição moderna – as melhores vozes reflexivas da poesia recente” (NUNES, 2009, p. 167). Entre essas vozes reflexivas, Benedito Nunes insere Dora Ferreira da Silva ao lado de outros nomes que conviveriam num regime de “pluralismo estético”.

No contexto desse pluralismo, ele busca apresentar as linhas características da poesia recente que configuram seu híbrido perfil poético. Seriam elas: a “tematização reflexiva da poesia ou a poesia sobre poesia, a técnica do fragmento, o estilo neorretórico e a configuração epigramática” (NUNES, 2009, p. 168).

No que diz respeito à tematização reflexiva da poesia recente, Benedito Nunes lembra que sendo herdeiros inevitáveis da tradição, os poetas recentes dialogam com ela e refletem sobre a palavra poética em termos específicos onde, em alguns desdobramentos, “retrai-se a reflexão ao fácil, e desconfiando do profundo, repudia-se os rituais literários, as motivações secretas e os alvos metafísicos” (NUNES, 2009, p. 169). Ocorreria assim uma transposição da poesia da poesia para a tônica do humor e a técnica do fragmento que se constitui na forma inacabada, no instantâneo lírico, no registro anedótico, configurando uma tendência lúdica apontada por Benedito Nunes como um dos aspectos mais ostensivos da poesia brasileira da década de 80. Em oposição a essa tendência lúdica, a poesia recente apresenta outros caminhos para refletir sobre a palavra poética e dialogar com a tradição, caminhos onde não há uma recusa dos alvos metafísicos e motivações secretas e, ao invés de uma desconfiança do profundo, o que se realiza é uma entrega a ele.

Por esses caminhos parece passar a poesia de Dora Ferreira da Silva, Orides Fontela, Hilda Hilst, e de alguns nomes anteriores aos anos 80, como Jorge de Lima, Cecília Meireles, dentre outros.

O diálogo com a tradição11, visto por Benedito Nunes como uma das características dos

poetas recentes, que se manifesta ou de forma lúdica ou de forma mais profunda e metafísica, também é lembrado por Goiandira Camargo no ensaio “Subjetividade e experiência de leitura na poesia lírica brasileira contemporânea”12, onde a autora constrói uma relação entre a experiência de

leitura do legado da tradição literária e a subjetividade na poesia lírica brasileira contemporânea.

11 No espaço de sua própria obra, Dora mantém um diálogo muito peculiar com a tradição literária, artística e de pensamento. Diversos poemas interpelam, desde o título, nomes como Clarice Lispector, Cecília Meirelles e Anaïs Nin, além de Guimarães Rosa, Rainer Maria Rilke, Friedrich Hölderlin, Fernando Pessoa , T. S. Eliot, Ezra Pound, Ingmar Bergman, C. G. Jung, entre outros. Esse diálogo parece indicar um espaço de interlocução mantido entre a obra poética de Dora e outras obras importantes da literatura ou das artes em geral, inclusive brasileiras, que tiveram certa influência na construção de sua poesia ou mesmo partilham de ideais e sensibilidades próximas.

12 CAMARGO, Goiandira de F. Ortiz. “Subjetividade e experiência de leitura na poesia lírica brasileira contemporânea” in: Célia Pedrosa e Ida Alves (org.) Subjetividades em devir: estudos de poesia moderna

Ao entender a poesia como podendo ser resultado de uma série de influências obtidas por intensa e continuada experiência de leitura, Goiandira solicita algumas ideias da tradição poética: a da poesia como construção, vinda de Mallarmé, da poesia como relação com a tradição, vinda principalmente de T.S. Eliot, de poesia como pesquisa, de Mário de Andrade, e do entendimento do poema como um corpo pulsante, que guarda “vozes outras”, como diz a autora, incluindo a do próprio poeta.

Pensar na leitura como algo que permite o “surgimento dialógico da historicidade literária no organismo do poema” (CAMARGO, 2008, p. 99) é tarefa à qual também se dedicou Célia Pedrosa em “Considerações anacrônicas: lirismo, subjetividade, resistência”, presente no livro

Poesia e contemporaneidade: leituras do presente. Ao falar sobre o diálogo dos poetas atuais com a

tradição, Pedrosa, lembrada por Goiandira, identifica um cenário no qual “o sujeito poético encena a memória do passado em pleno presente como forma de resistência [...] mesclando esses dois tempos no espaço da subjetividade, reduto ainda do lírico” (PEDROSA apud CAMARGO, 2008, p. 100). O ato de leitura do poeta deve assim ser entendido como “produção, reinvenção, apropriação criadora, o que implica também o comparecimento do mundo e suas circunstâncias, no resgate da 'qualidade histórica' que o poema deve ter” (CAMARGO, 2008, p. 100).

Alguns nomes da poesia lírica contemporânea brasileira como Manoel de Barros, Gerardo Melo Mourão, Orides Fontella e a própria Dora Ferreira da Silva, são lembrados pela autora para exemplificar essa poesia que se constrói a partir do diálogo com a tradição e da experiência de leitura. Esta última, “desde que não atrofie a poesia, privando-a de ser repositório das vivências do homem [...] constitui um material como qualquer outro na construção do poético” (CAMARGO, 2008, p. 106).

Uma experiência de leitura ajustada à experiência de vida é o que sugere Goiandira, sem esquecer que o ajuste entre uma coisa e outra é fino, delicado, mas, quando acontece, reserva obras literárias capazes de provocar tanto emoção (pela vida), quanto conhecimento (pela tradição que elas solicitam).