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2.2. A comunidade de leitores

2.2.1. Dos anseios compartilhados

Os professores dos iniciantes demonstram em suas falas que compartilham de algumas preocupações, entre elas, a motivação dos alunos, uma educação integral que transcenda objetivos musicais, a escolha e o acesso aos materiais didáticos e, sobretudo, a realização de um trabalho que se constitua em uma base sólida para a formação do futuro instrumentista. Essa preocupação inclui perceber que o aluno precisa ir adiante e em que momento deve mudar de professor.

Tenho cuidado quando vejo que um aluno está adiantado, que está muito bem. Agora “[...] vai ter aula com outro professor, vai conhecer outras coisas, vai fazer uma oficina”. Porque tem isso também de você ficar com o aluno e o aluno se acostumar com você. O aluno até [pode] ter vícios, você se acostuma tanto com ele que você não vê mais os vícios que ele tem, então eu acho que você não pode ser egoísta. (LUÍSA)

Apesar de lidarem com um público que não está certo quanto à escolha da profissão de músico, os professores estão preocupados com o desenvolvimento de um bom instrumentista. Essa preocupação independe do aluno manifestar interesse em vir a se profissionalizar na área, até porque, “[...] até hoje ninguém chegou para mim e disse: eu quero ser um violoncelista, quero tocar no Carnegie Hall” (CIPRIANO). Para Hallan (1998) é importante que o professor da criança iniciante seja positivo, incentivador, brincalhão, procure envolver os pais no processo de

ensino e ofereça condições para que o aluno se torne um bom instrumentista, independe da possibilidade do aluno vir a profissionalizar-se na música. Isso porque as crianças podem vir a se tornarem músicos profissionais, embora na etapa inicial do estudo não demonstrem o desejo de se profissionalizar. Além disso, é necessário que o relacionamento entre o aluno e o professor ultrapasse o espaço da aula e que o professor acompanhe o aluno em outras atividades como recitais, concursos, master-classes (HALLAN, 1998, p. 230).

Percebo a preocupação que Luísa demonstra em seu papel de professora de criança, a consciência a respeito dos aspectos do desenvolvimento técnico e musical.

Porque se ela resolver [se profissionalizar], que ela não tenha problemas lá na frente: “Mas eu fiquei dez anos, ou oito anos, estudando violoncelo e agora eu troquei de professor porque eu quero fazer [curso superior em] música e o professor disse que o arco está errado, que tudo que eu estou fazendo está muito desafinado, que a minha postura...” (LUÍSA)

A partir do relato, a professora demonstra a grande responsabilidade que há no trabalho junto ao iniciante, no sentido de que pode depender do professor o futuro profissional de uma pessoa. Além da preocupação com o desenvolvimento técnico e musical, Luísa concorda com Paulo Bosísio (BOSÍSIO apud ROMANELLI, et al., 2008) ao afirmar que o professor do iniciante precisa ser um “pouquinho psicólogo”, até porque ser músico mexe “com sentimento, uma coisa muito além do contato com o instrumento” (LUÍSA).

Para Paulo Bosísio (BOSÍSIO apud ROMANELLI et al., 2008), ser “um pouquinho psicólogo” é uma entre as características que o professor do iniciante precisa ter. Para ele, a tarefa de educar musicalmente uma criança não é fácil, pois,

[...] além de ter que conhecer bem o instrumento, que é muito importante, sobretudo em relação à afinação, à postura e à produção sonora [porque afinal, ele (o professor) dá o exemplo e a criança copia], ele tem que ser, evidentemente, um professor que [ainda que não seja um profissional da psicologia], possa usar a “psicologia caseira” mas bem aplicada. E, sobretudo, tem que ser extremamente inventivo. Eu acho que esta é a coisa mais difícil, porque se você coloca cinco crianças juntas e pede para elas ficarem imóveis por três minutos, não vai conseguir. Mas, se você pôr, como já se fez, cinco crianças juntas e disser: - “vamos brincar de soldado”, elas são capazes de ficar três minutos imóveis. Então, esta coisa lúdica, que não pode ser também em excesso porque senão vira só brincadeira, é complicada. Isto não é qualquer um que sabe fazer. (BOSÍSIO apud ROMANELLI et. al., 2008, p. 2)

Para Pleeth (1982, p. 175), na relação aluno-professor há uma ligação emocional, sem a qual não se pode ensinar. Isto porque cada criança aprende e reage de modo diferente aos estímulos. Assim, a aproximação do professor possibilita que ele compreenda as características do aluno, planeje suas ações e as direcione de modo a estabelecer um diálogo produtivo.

Neste sentido, João lembra que o método Suzuki abrange objetivos extra musicais,

[...] não é só um método para ensinar música, [...] ele tem como objetivo o bem estar, a satisfação, a realização da pessoa, da criança, de qualquer idade que seja. Isso eu acho uma coisa muito importante. Então cada um dentro do seu ritmo, sua capacidade, tem que se sentir realizado. Isso ajuda a pessoa a se tornar auto-suficiente, ou uma pessoa mais equilibrada. (JOÃO)

Percebo que os professores entrevistados se preocupam em estabelecer relações ‘saudáveis’ com seu alunos, de modo a incentivá-los e a fortalecê-los emocionalmente, acompanhando-os nos momentos de performance e buscando atender às suas necessidades. Os momentos de performance são considerados momentos delicados, pois essas experiências podem determinar motivação para aprender ou decepções em relação ao aprendizado do instrumento.

Assim, percebo que as preocupações dos professores dos iniciantes estão fortemente relacionadas às especificidades da prática docente, à própria formação e ao futuro dos alunos. Neste sentido, acredito que a projeção dos alunos no meio musical como ‘futuros bons instrumentistas’ é relevante para estes profissionais.

A atividade docente, quando se trata da iniciação das crianças, parece também ter algumas peculiaridades que evidenciam o grande envolvimento e responsabilidade do professor no processo educativo, influenciando e sendo influenciado por aspectos extra musicais. No trabalho com crianças, os professores precisam considerar características individuais como limitações e facilidades, preferências, anseio dos pais e motivação para o estudo. Diante dessas características precisam escolher materiais didáticos e metodologias adequadas para cada situação, de modo a realizar um trabalho que contemple seus anseios compartilhados com a comunidade de leitores.

Por essas características, a comunidade em questão, constitui-se de leitores capazes de inúmeras diferentes leituras e usos acerca dos métodos. Observei uma grande flexibilidade de alguns dos colaboradores em utilizar os livros de modo a

contemplar uma grande gama de diferentes situações. As estruturas propostas pelos autores são, nesse sentido, caminhos trilhados de várias maneiras, adaptáveis ao ritmo de trabalho dos alunos. Salienta-se que os professores em questão, mesmo aqueles que trabalham em escolas de música, não parecem pressionados a cumprirem um programa específico em um tempo determinado.

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