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DOS BICHOS BRASILEIROS), BY PLÍNIO MARCOS

No documento Estudos Literários (páginas 92-107)

Ana Paula Menoti Dyonisio (UFMS-PG) [email protected]

Resumo: Com este trabalho objetiva-se fazer um estudo das relações dialógicas das

personagens contidas na peça infantil O coelho e a onça (história dos bichos brasileiros), de 1988, do dramaturgo contemporâneo Plínio Marcos, de modo a estabelecer homologias entre a estrutura artística e a estrutura social das personagens, ressaltando ligações entre os artifícios discursivos e a ideologia subjacente no objeto da análise. A peça, composta de apenas um ato, conta com sete personagens (metaforizados por meio de animais) e relata a história de quando não havia discórdia no planeta Terra e todos os seres eram vegetarianos e, por isso, não precisavam saciar a fome com a morte do outro. Ocorre, todavia, que a Onça resolveu sentir uma nova vontade e, estimulada pelo Gato, começou uma intriga entre seus pares, o que resultou no fim da paz no Universo. Logo, parte-se do pressuposto de que a obra, ainda que direcionada ao público infantil, não tenha perdido o conteúdo crítico e a qualidade artística das obras anteriores de Plínio Marcos, as quais eram destinadas aos adultos, o que denota a manutenção, nessa peça, de seu projeto estético inicial. Lembrando o sentido pejorativo a que muitas vezes o “infantil” adquiriu, principalmente nas manifestações artísticas.

Palavras-chave: Teatro brasileiro contemporâneo; Teatro infantil; Plínio Marcos.

Abstract: This work aims to make a study of the dialogic relations of the characters

contained in children's play O Coelho e a Onça (história dos bichos brasileiros), 1988, written by Plinio Marcos, contemporary dramaturge, in order to establish homologies between the artistic and social structure the characters, emphasizing links between the devices and the underlying ideology in the discursive object of analysis. The play, composed of only one act, has seven characters (metaphorized by animals) and tells the story of when there was disagreement on the planet Earth and all creatures were

however, decided that the Onça will feel a new and, stimulated by the Gato, began an intrigue among its peers, which resulted in the end of peace in the universe. Soon, it starts from the assumption that the work, although aimed at children, has not lost its critical content and artistic quality of the earlier works of Plinio Marcos, which were aimed at adults, demonstrating the maintenance on that part, its initial design aesthetic. Remembering the pejorative sense that is often the "children" acquired, mainly in the arts.

Key-words: Brazilian contemporary theater; Children’s theater; Plínio Marcos.

Introdução

Este ensaio tem como objetivo fazer uma breve análise das personagens da peça infantil de autoria de Plínio Marcos O Coelho e a Onça (história dos bichos brasileiros), de 1988, levando em consideração a importância do estudo de suas falas e ações para a maior compreensão da obra. “De fato, parece que a ficção teatral tem necessidade da personagem na escrita, como uma marca unificadora dos procedimentos de enunciação, como um vetor essencial da ação, como uma encruzilhada do sentido”.(RYNGAERT, 1996, p. 129).

Por meio do estudo das personagens, procurar-se-á encontrar semelhanças nas peças teatrais do dramaturgo, que, embora esta seja infantil, o conteúdo politizado não tenha ficado esquecido, “Plínio optou por escrever sobre temas e personagens que estão à margem da sociedade. Essa opção lhe custou o rótulo de “escritor marginal”. Um rótulo sem dúvida equivocado, uma vez que o coloca à margem por algo que era sobretudo uma atitude estética.”( CONTRERAS; MAIA; PINHEIRO, 2002; p. 30).

Para tal, far-se-á uma rápida retomada biográfica em que se confirmará a importância da dramaturgia de Plínio Marcos para o cenário atual no Brasil, inserindo a peça no contexto de produção de textos dramáticos para crianças na década de 1980.

O Coelho e a Onça (história dos bichos brasileiros), de autoria de Plínio Marcos, escrita no ano de 1988, ainda não foi publicada. O texto foi gentilmente digitado e cedido ao professor Wagner Corsino Enedino11 por Vera Artaxo, segunda esposa de Plínio Marcos.

11 O Dr. Wagner Corsino Enedino é professor no curso de graduação em Letras - CPTL, no Mestrado em Estudos da Linguagem – CCHS e no Mestrado em Letras – CPTL, todos na UFMS.

A peça foi encenada pela primeira e, ao que se tem conhecimento, última vez, no mesmo ano de sua autoria, no Teatro Brasileiro de Comédia, com a direção de Elisabeth Hartman. Sobre a encenação, a crítica destacou que:

(...) Plínio Marcos, aproveitando a história popular, que é curta, acrescentou elementos de ecologia e de crítica à violência entre os seres. Naturalmente, o início que coloca todos animais como vegetarianos, se não tem fundamento na realidade, apresenta uma conotacão simbólica, admissível na ficção. (GARCIA, 1988).

O autor: Plínio Marcos

Plínio Marcos12, nascido na cidade litorânea de Santos, São Paulo, cresceu entre o cais, as prostitutas e os boêmios da cidade, virou artista circense por ter se apaixonado por uma moça do circo, escreveu sua primeira peça: Barrela, em 1958, aos 23 anos. Foi descoberto por Patrícia Galvão, a Pagu, para encenar em substituição a uma peça de autoria de Maria Clara Machado, Puft, o Fantasminha, a partir daí, ela foi a incentivadora para que Plínio Marcos pudesse montar sua primeira peça, encenada pela primeira vez em sua cidade natal, em 1959, sendo proibida posteriormente pela censura. Foi para a cidade de São Paulo, onde sua carreira foi marcada pela censura de suas polêmicas peças, em que retratava o submundo, que até então não era encenado nos palcos brasileiros.

Passados mais de dez anos da morte do dramaturgo, ator, palhaço de circo, tarólogo e camelô Plínio Marcos, é inegável a sua contribuição para a cultura nacional, mais especificamente para a dramaturgia brasileira.

Conforme Enedino (2009), Plínio Marcos, desde a década de 1980, já foi estudado por diversos críticos, sendo considerado, ao lado de Nelson Rodrigues, como fundamental à dramaturgia brasileira, como por Décio de Almeida Prado, Anatol Rosenfeld e Sábato Magaldi. Vem sendo objeto de estudo em diversas teses e dissertações nas mais renomadas universidades do Brasil e as peças de sua autoria vêem sendo montadas por grandes companhias, nacionais e internacionais.

O dramaturgo também escreveu peças para crianças, As aventuras do coelho Gabriel, de 1965, O coelho e a Onça, objeto desse estudo, em 1988, Assembléia dos ratos, de 1989, e Seja você mesmo, que deixou inacabada.

As peças infantis escritas por Plínio Marcos, mais especificamente O Coelho e a Onça (a história dos bichos brasileiros), apresentam em seu enredo a retomada de histórias da cultura oral, com várias cenas em que o texto são as cantigas, as brincadeiras e os ditos populares.

Numa entrevista em 1978, concedida à Cláudia de Alencar e ao Carlos Eugênio de Marcondes de Moura, Plínio Marcos afirmava a importância da cultura popular

Mas o povo tem a sua cultura. Então tem que estar junto do povo e aprender a cultura dele. Porque só achando que ele tem uma cultura, é que eu vou poder respeitá-lo integramente e amá-lo, então, integralmente, porque você não ama uma pessoa que você não respeita integralmente. (ALENCAR; MOURA; 1978, p. 09)

Talvez, venha daí a necessidade de escrever obras às crianças, sempre retomando a cultura popular, em que, como será visto mais adiante, não fica perdido o conteúdo crítico em que se acostumou a ver em suas obras destinadas ao público adulto.

O teatro para crianças no Brasil e a obra: O Coelho e a Onça (a história dos bichos

brasileiros)

Partindo do pressuposto de que praticamente após a década de 1970 é que a produção em maior escala de teatro infantil e juvenil acontece no país, dado que até então, com exceção de Maria Clara Machado, as peças tinham essencialmente o cunho pedagógico e moralizante, Coelho (2006) em seu Dicionário crítico da literatura infantil e juvenil brasileira, obra em que aborda desde o Brasil colonial autores que escreveram aos públicos infantil e juvenil, fazendo uma breve exploração sobre estes muitos anos de história, coloca as manifestações teatrais como expandida em grande escala após a década de 1970. “A explosão de criatividade que, na década anterior se dá na área da música popular brasileira, em meados dos anos 1970 vai-se dar com a literatura infantil e juvenil (e também com o teatro infantil) cujo valor repercute além-fronteiras.” (COELHO, 2006, p. 52).

Com relação à publicação de textos dramáticos e, mais especificamente, os infantis, Leão (2010) cita a falta de interesse do mercado editorial como um dos maiores problemas

Com relação à publicação de peças, o problema se torna maior. O mercado editorial brasileiro reserva pouco espaço para os autores de dramaturgia para crianças. Na verdade de um modo geral, as editoras não primam por publicar as peças teatrais. Não sabemos ao certo quais os motivos, mas é possível apontar um: a alegação de que o público consumidor é pequeno para que se possa investir em uma área que o mercado considera restritiva. Assim, os textos se perdem nas gavetas. Mesmo os textos levados à cena, em sua maioria, não recebem a chancela do imprima-se. (LEÃO, 2010, p. 86).

Logo, somente após os anos 2000 está havendo uma preocupação mais efetiva em se registrar a história do teatro infantil brasileiro, inclusive com a criação de órgãos responsáveis pelo gerenciamento, organização de festivais, sítios na internet que divulgam produções, estudos e eventos sobre o tema, premiações específicas para as obras e a criação de uma disciplina específica em universidade pública.

Também não ficaram de fora as conquistas já alcançadas: a presença – até então inédita – de uma disciplina específica sobre o teatro infantil dentro de uma universidade pública (UNIRIO), a criação do Centro de Referência do Teatro Infantil (em vias de ser ampliado como Centro de Referência Cultura Infância), a existência nestes últimos sete anos do FIL (Festival Internacional Intercâmbio de Linguagens), a acolhida, pela primeira vez, do Ministério da Cultura (por meio da Secretaria da Identidade e da Diversidade Cultural) à causa da cultura da infância e a nominação dos 215 pontinhos de cultura. (ACIOLY, 2009, p. 09).

O termo teatro infantil ou teatro para crianças foi discutido por Camarotti (2005), A linguagem do teatro infantil, em que o autor define teatro para crianças como aquele destinado para este público específico e teatro infantil o que é feito ou escrito pelos pequenos. Mesmo assim, enxerga este como não sendo um problema crucial, já que a inferioridade que a palavra infantil representa socialmente não amenizará nem sanará o problema.13

Por outro lado, se levarmos em conta que uma denominação substitutiva como “teatro para crianças”, por exemplo, como querem alguns, possa por si só resolver a questão do tom pejorativo e minimizador que o adjetivo “infantil” infelizmente adquiriu em nossa cultura, estaremos no mínimo ingênuos, pois que o problema que gerou essa pejoração, a raiz desse mal, está na própria visão distorcida que a sociedade em geral e o homem de teatro em particular têm da criança e do que lhe é pertinente. Não cabe ao vocábulo, portanto, a culpa desse erro. (CAMAROTTI, 2005, p. 13- 14).

Sobre como deve ser o teatro para as crianças, Camarotti (2005) afirma que deve ser pensado na criança em todos os momentos, principalmente sem esquecer da sua inteligência e criatividade.

O requisito indispensável para que se tenha teatro infantil é colocar a criança como elemento prioritário, respeitando-a em toda a dimensão de sua realidade. Teatro infantil é, pois, aquele em que a criança ou é responsável pela atividade como um todo ou se constitui na fonte principal de sua alimentação, isto é, um teatro no qual é a linguagem da criança o seu ponto de vista que predominam e orientam todos os setores de sua realização.”(CAMAROTTI, 2005, p. 161).

Neste contexto, é escrita a peça infantil O Coelho e a Onça (a história dos bichos brasileiros), por Plínio Marcos, no ano de 1988, para Mendes, 2009, tratava-se de uma

13 - Neste trabalho, o termo a ser usado será teatro infantil, devido a sua maior utilização em trabalhos já desenvolvidos ou em desenvolvimento, tanto pelos órgãos que trabalham na produção artística para as crianças, como para os estudiosos de teatro e de textos dramáticos.

homenagem ao seu neto Guilherme, então com 1 ano de idade. Foi encenada no mesmo ano na Sala de Arte do TBC e valeu a indicação de Melhor Direção - Categoria Teatro Infantil – Prêmio APETESP/88 à atriz Elizabeth Hartman.

A peça de um único ato tem sete personagens: Gato, Onça, Tartaruga, Tatu, Macaco, Cachorro e Coelho. O drama se inicia com várias cantigas de roda e brincadeiras populares, em que todas as personagens se divertem. Os jogos infantis são interrompidos quando o Macaco, que tem na peça o papel de um narrador, começa com um prólogo, explicando como era o tempo em que ninguém matava o outro para comer:

MACACO

[...] Que tempo bom!

A terra, a mãe terra dava tudo pra nós.... Havia muitas e muitas árvores frutíferas À disposição de todos os bichos.

Ninguém era dono de nada,

Nenhum bicho matava o outro pra comer: Todos tinham frutas, ervas, legumes...

A gente brincava, brincava... (PLÍNIO MARCOS, 1988, p. 6)

A intriga começa quando a Onça, para de brincar, e sente fome de algo, que não sabe o que é, e acaba sendo estimulada pelo Gato a pensar que a fome poderia ser de carne de bicho

GATO

Onça, algum dia você comeu carne?

ONÇA Carne? GATO Carne. ONÇA Carne de quê?

GATO

Carne de bicho.

ONÇA

Carne de gato?

GATO (assustado)

Não, não, não, de gato não... Gato é uma onça pequena... Carne de coelho, de cachorro, De tatu, de tartaruga, de macaco...

ONÇA (com cara de gula) Nunca comi carne.

GATO

Podia provar.

ONÇA

Taí, podia! Se for bom, passo a comer sempre...

GATO

Eu acho que achei o remédio. (PLÍNIO MARCOS, 1988, p. 14-15)

O Gato chama todas as personagens, explica qual é o mal da onça e cada uma tenta se livrar de virar refeição, até que o Coelho dá uma bela resposta sobre o porquê de não ser comido

COELHO [...]

Você, seu gato estúpido

E você, onça cretina, acabaram com a paz na terra. De agora em diante, vai ser sempre assim:

Um querendo comer o outro. Uma loucura! Mas coelho, onça não come.

Ela é forte, brava, ficou feroz.

Mas continua estúpida e vai morrer estúpida. Porque os que querem comer os outros, Os que querem ganhar dos outros,

São estúpidos carnívoros, bebedores de sangue. Quer comer carne, onça?

Coma o próprio rabo

Se é que você, sua estúpida, vai conseguir pegá-lo.

A mim, coelho esperto, você não pega. (PLÍNIO MARCOS, 1988, p.17)

A Onça ficou muito brava com o Gato por não ter conseguido comer nenhum animal, resolve então, que o Gato deveria encontrar uma forma dela saciar sua fome, na verdade, seu desejo de carne animal. O Gato, muito esperto, resolve fazer de conta que a Onça está morta e chamar todos os animais para o enterro, onde se dá o quiprocó, com direito a diversas cenas típicas circenses

GATO

Morreu, não está aí morta pra quem quiser ver? Vá ver de perto, coelho, escute o coração dela: Vê como não bate mais, não faz barulho. Morreu. (Coelho ameaça ir, faz visagem;

Outros bichos tentam avisar, Crianças provavelmente também)

LEBRE (fingindo que vai ver)

Espera ai, gato: a onça já espirrou?

GATO

Ela está mortinha da silva.

COELHO

Foi, foi de fome.

COELHO

Então tem que espirrar.

Onça, quando morre de fome, Espirra três vezes.

Não é assim, tartaruga?

[...]

COELHO

Onça estúpida! Gato idiota! Quem morre não espirra! Quer ver como não morreu?

(pega uma vela e queima o rabo da onça; Onça urra de dor e corre atrás dos bichos; Todos fogem, rodam pela platéia

Até saírem de cena; só fica o macaco). (MARCOS, 1988, p.25-26)

Ao final, o epílogo fica por conta do Macaco, utilizando-se mais uma vez de ditos e quadrinhas populares

MACACO

E foi por essas e outras que acabou a paz na terra. Acabou a história, morreu a vitória,

Entrou pela perna do pato, saiu pela perna do pinto, Acabou o que era doce, quem comeu arregalou-se, Acabou a história. Quem quiser que conte outra.

(Macaco dá cambalhotas e sai de cena. Luz apaga). (PLÍNIO MARCOS, 1988, p.27).

As personagens de O Coelho e a Onça (a história dos bichos brasileiros), ação e discurso

Far-se-á algumas considerações com relação às personagens, levantando traços característicos, a quantidade de falas e suas ações, observando sempre que “Definir o que a personagem faz nem sempre é simples, pois também aí é preciso levar em conta idéias feitas, avaliar as relações entre a fala e a ação, as diferenças entre a vontade ou o desejo de ação e o que realmente é efetuado” (RYNGAERT, 1996, p. 137).

Abaixo, segue uma tabela com a contagem das falas de cada personagem

Personagem Quantidade de falas

Gato 93 Onça 59 Macaco 30 Tartaruga 28 Coelho/Lebre 21 Tatu 19 Cachorro 15 Todos 13

Como já lido, a personagem que apresenta o maior número de falas é o Gato, e é ele quem provoca a confusão e desperta o desejo da Onça em comer carne. Tanto a Onça, como o Coelho, que dão o nome à peça, são manipulados pelas ações do Gato.

O Coelho aparece menos em cena que o Macaco e a Tartaruga, mas tem as falas que definem a história (21 falas), sempre enfático, demonstra inteligência e agilidade nas respostas

COELHO

Morreu? Bem feito! Quero dizer, escafedeu... Olha bem, bicharada: Onça morta não se mexe,

Nem quando leva pontapé. Vejam!

(chuta a onça, vira de costas, onça dá um tapa no coelho mas ele entra pra frente; onça erra o bote) (MARCOS, 1988, p. 26).

Outro ponto a ser investigado são os palavrões, tão comuns nas obras de Plínio Marcos destinadas ao público adulto, inclusive, a linguagem que utiliza em suas peças, é

é necessário ler mais de dois parágrafos. Sua linguagem é tão peculiar quanto seu teatro, e também quanto sua vida”.(CONTRERAS; MAIA; PINHEIRO, 2002; p. 30).

Mas, nesta peça, provavelmente por se tratar de uma obra destinada às crianças, o autor não usa os palavrões, mas xingamentos que, no universo infantil, talvez tenham o mesmo efeito. Na sequência, a tabela com a quantidade de xingamentos emitidos por cada personagem

Personagem Xingamento (repetição)

Coelho Gato Tartaruga Onça Macaco

Estúpido 7 1 4 2 Cretino 2 4 Idiota 2 2 4 Paspalho 1 2 Imprestável 2 Molenga 1 Imbecil 1 TOTAL (por personagem) 12 2 1 18 2

O Coelho, personagem com as falas decisivas no enredo, só perde no que se refere aos xingamentos, para a Onça.

No início, as falas são coletivas, ora nas brincadeiras ou funcionando como um “coro”, ao final da peça, só há duas falas de todos, talvez mostrando um processo de individualização da sociedade, considerando esta uma temática já abordada em outras peças do dramaturgo “A verdade é que as ”populações” marginais que Plínio Marcos põe em cena não são personalidades desviantes, mas sim seres que se caracterizam pela falta de integração na sociedade e pelas limitações em seus direitos reais de cidadania.” (ENEDINO, 2009, p. 38).

Num trecho dessa entrevista, Plínio Marcos já coloca a sua grande preocupação social, que tenta transmitir em todas as suas peças:

PM – A minha grande preocupação sempre foi o...o...da solidão do homem na sociedade de consumo. Todas elas quase abordam esse tema, com variações. Dois perdidos, Navalha na carne, Homens de papel, a...a...a competição da sociedade de consumo nos leva a ficar

cada um cada um, né, e isso é o que realmente me angustia um pouco, sabe? (ALENCAR; MOURA, 1978, p. 11).

Partindo deste pressuposto, a peça O Coelho e a Onça (história dos bichos brasileiros) seria, talvez, um prólogo a tudo o que o Plínio Marcos escreveu. Ou seja: “o antes”, quando todos participavam da sociedade, ninguém estava à margem, no tempo em que: “MACACO: [...] Ninguém era dono de nada, nenhum bicho matava o outro pra comer” (p. 06).

Em Quando as Máquinas Param há esse trecho:

ZÉ: Não ganhar nem pra comer é fogo, Nina. Deixa o sujeito ruim. Ou ele vira um cara de pau, nunca mais nada com nada e vai só no “me dá, me dá”, ou vira lobisomem e come os outros. Te juro por essa luz que me alumia, que estou para embarcar numa dessas. (MARCOS, s.d, p. 54).

No trecho de Quando as máquinas param, a personagem Zé pensa “em comer” os outros porque não encontra emprego, está numa situação de miséria, sub-humana, em que as suas necessidade básica de comer, por exemplo, não está sendo suprida. Diferentemente do Coelho e a Onça, em que a Onça tem o que comer, mas sente necessidade de algo a mais (é gananciosa) e, para satisfazer sua vontade, que ela mesma afirma não ser fome, precisa “comer os outros”, causando a desarmonia na Terra.

Considerações finais

Pode-se analisar neste ensaio a obra infantil de Plínio Marcos O Coelho e o Onça (história dos bichos brasileiros), em que o dramaturgo desenvolve o enredo com as personagens animais vegetarianos, no mundo onde o que importava era brincar e todos

No documento Estudos Literários (páginas 92-107)