2.2 UMA ANÁLISE FÁTICA DO DESASTRE DO RIO DOCE
2.2.2 Dos danos verificados
2.2.2.1 Dos danos humanos, sociais e ambientais
39 Segundo exposição de Leandro Scalabrin, advogado, integrante da RENAAP e do MAB, no Painel III, Água e Mineração: Segurança de Barragens e Contaminação – O Caso Mariana (Desastre do Rio Doce), do IV Seminário Internacional, Água, Vida e Direitos Humanos à luz dos Riscos Socioambientais, realizado pelo CNMP em parceria com o MPF e a ESMP, nos dias 11 e 12 de dezembro de 2017, em Brasília: ―mais de 311 mil pessoas foram atingidas em escala microrregional e mais de 3 milhões de pessoas em uma perspectiva mais ampla‖. Para acessar essa informação, conferir: ZANETI JR., Hermes (Relator). Relatório painel III: água e mineração: segurança de barragens e contaminação. O caso ―Mariana‖ (Desastre do Rio Doce). Brasília, 2017. p. 13.
Além disso, de acordo com a ANA, 424 mil pessoas de 12 Municípios que captam água diretamente no Rio Doce foram afetadas pela interrupção total ou parcial do abastecimento: Encarte especial sobre a bacia do Rio Doce: rompimento da barragem em Mariana/MG. Superintendência de Planejamento de Recursos Hídricos da Agência Nacional de Águas: Brasília, 2016. p. 30. Disponível em: <http://arquivos.ana.gov.br/RioDoce/EncarteRioDoce_22_03_2016v2.pdf>. Acesso em: 6 nov.
2018. Destaque nosso.
Conforme notícia do portal do Ministério da Saúde: ―[...] 1,2 milhões de atingidos ao longo da bacia do Rio Doce‖. Disponível em: <http://portalms.saude.gov.br/noticias/svs/42662-defesa-do-sus-pauta-debates-na-1-cnvs>. Acesso em: dez. 2018. Destaque nosso.
Por fim, um relatório elaborado pela Justiça Global, organização não governamental de direitos humanos, salienta que: ―encontra-se em risco a dignidade humana de 3,2 milhões de pessoas, que é o número estimado de habitantes da bacia do Rio Doce, principal afetada pelo desastre socioambiental‖: GLOBAL, Justiça. Vale de lama: relatório de inspeção em Mariana após o rompimento da barragem de rejeitos do Fundão. p. 2. Disponível em: <http://www.global.org.br/wp-content/uploads/2016/03/Vale-de-Lama-Justi--a-Global.pdf>. Acesso em: jan. 2019. Destaque nosso.
40 Conforme pode ser corroborado em: <http://www.uerj.br/noticia/pesquisa-da-uerj-comprova-contaminacao-de-abrolhos-por-residuos-da-samarco/>. Acesso em: abr. 2019.
Quanto a danos humanos, a força e o grande volume de rejeitos de mineração de ferro, provenientes do rompimento da barragem Fundão, causaram a morte de 19 pessoas, sendo 13 funcionários da Samarco Mineração S/A e de empresas por ela contratadas, 4 moradores e 1 visitante do Subdistrito de Bento Rodrigues e 1 indivíduo cujo corpo nunca foi encontrado.41
No âmbito social, a devastação ocorrida em virtude da passagem da onda de lama e o consequente desalojamento das comunidades ocasionaram a desagregação dos vínculos sociais. O Ibama aponta a perda de identidade e de referências culturais e de lugar das pessoas residentes nas localidades destruídas, uma vez a separação física dos vizinhos e grupos pertencentes à determinada comunidade, gerando danos insanáveis, visto que os laços sociais construídos ao longo do tempo não serão reconstruídos a partir de indenizações e/ou realojamento dos atingidos em casas alugadas.42
Segundo o MPF, as pessoas atingidas pelo rompimento da barragem Fundão ―perderam o estilo de vida pacífico de que desfrutavam em comunidade e a tranquilidade que o convívio diário nas comunidades atingidas lhes propiciava‖. O Desastre do Rio Doce causou a destruição da ―história de vida de comunidades inteiras‖.43
Ademais, em decorrência da pluma de rejeitos de mineração, verificou-se a destruição de áreas de preservação permanente e de matas ciliares remanescentes (fragmentos/mosaicos); o soterramento da vegetação terrestre e aquática e de indivíduos de menor porte do sub-bosque; a supressão de indivíduos arbóreos; a mortandade da biodiversidade aquática e da fauna terrestre; a remoção da camada superficial do solo; o assoreamento de cursos d‘água; a contaminação das faixas marginais dos rios atingidos e da água; a alteração do fluxo hídrico e dos padrões de qualidade da água doce44, salobra e salgada; perda e fragmentação de habitats e
41 Rompimento de Fundão: entenda o rompimento. Disponível em:
<https://www.samarco.com/rompimento-de-fundao/>. Acesso em: fev. 2018.
42 OLIVEIRA et al, 2015, p. 4 e 28.
43 Ação civil pública com pedido de liminar inaudita altera pars proposta em 28 de abril de 2016 pelo Ministério Público Federal em razão dos múltiplos danos provocados pelo rompimento da barragem Fundão em Mariana/MG. p. 62. Disponível em: <http://www.mpf.mp.br/mg/sala-de-imprensa/docs/acp-samarco>. Acesso em: abr. 2019.
44 ―A qualidade da água do Rio Doce estará sujeita a variações decorrentes da liberação da massa de rejeitos acumulada em sua calha quando da ocorrência de chuvas e consequente aumento da vazão, intervenções físicas abruptas no rio e outras ações antrópicas. Nesse contexto, poderão ocorrer novos picos de turbidez, queda de oxigênio dissolvido, aumento temporário da concentração de metais e prejuízos para os diversos usos de água da bacia, por períodos indeterminados e, ainda,
restrição ou enfraquecimento dos serviços ambientais dos ecossistemas. Foram impactados 663,2 km de cursos d‘água.45
O ICMBio, por meio da nota técnica n.º 24/2015, apontou como consequências ambientais decorrentes da pluma de lama e mineração proveniente do rompimento da barragem Fundão:
a) Destruição de habitat; b) Contaminação da água com lama de rejeitos; c) Assoreamento do leito dos rios; d) Soterramento das lagoas e nascentes adjacentes ao leito dos rios; e) Destruição da vegetação ripária e aquática;
f) Interrupção da conexão com tributários e lagoas marginais; g) Alteração do fluxo hídrico; h) Impacto sobre estuários e manguezais na foz do Rio Doce; i) Destruição de áreas de reprodução de peixes; j) Destruição de áreas ―berçários‖ de reposição da ictiofauna (áreas de alimentação de larvas e juvenis); k) Alteração e empobrecimento da cadeia trófica em toda a extensão do dano; l) Interrupção do fluxo gênico de espécies entre corpos d'água; m) Perda de espécies com especificidade de habitat (corredeiras, locas, poços, remansos, etc.); n) Mortandade de espécimes em toda a cadeia trófica; o) Piora no estado de conservação de espécies já listadas como ameaçadas e ingresso de novas espécies no rol de ameaçadas; p) Comprometimento da estrutura e função dos ecossistemas; q) Comprometimento do estoque pesqueiro - Impacto sobre a pesca.46
De acordo com a nota técnica n.º 02001.002155/2015-91, do Centro de Sensoriamento Remoto (CSR) do Ibama, cujo objetivo é calcular a área atingida pela pluma de rejeitos de mineração, no tocante às bacias dos Rios Gualaxo do Norte e do Carmo, em Minas Gerais, ―o rompimento da barragem de Fundão causou a destruição de 1.469 hectares ao longo de 77 km de cursos d´água, incluindo áreas de preservação permanente‖.47 Por sua vez, o Instituto Estadual de Florestas (IEF)
―concluiu que a área total impactada pelos rejeitos corresponde a 1.587,005
imprevisíveis. A recuperação da qualidade das águas será, portanto, um processo longo e persistente, que deverá ser acompanhado por monitoramento quali-quantitativo consistente e minuciosa investigação dos vários aspectos envolvidos‖: Encarte especial sobre a bacia do Rio Doce: rompimento da barragem em Mariana/MG. Superintendência de Planejamento de Recursos Hídricos da Agência Nacional de Águas: Brasília, 2016. p. 49. Disponível em:
<http://arquivos.ana.gov.br/RioDoce/EncarteRioDoce_22_03_2016v2.pdf>. Acesso em: mar. 2019.
Destaque nosso.
No mais, a ANA elaborou relatório pormenorizado sobre os cursos de água doce, sobretudo, acerca da qualidade da água na bacia hidrográfica do Rio Doce. Para informações técnicas detalhadas, conferir as páginas 5, 31 e seguintes do referido encarte.
45 OLIVEIRA et al, 2015, p. 3, 4, 5, 10 e 11.
46 SENHORINI, José Augusto; CECCARELLI, Paulo Sergio; PERES, Wellington Adriano Moreira.
Nota Técnica n.º 24/2015/CEPTA/DIBIO/ICMBIO: consequências parciais na biodiversidade aquática da bacia do Rio Doce, provocadas pelo rompimento das barragens de rejeitos de mineração da Samarco Mineradora S.A, no município de Mariana, MG. Pirassununga: Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio, 2015. p. 4 e 5. Disponível em:<http://www.icmbio.gov.br/portal/images/stories/comunicacao/publicacoes/Documentos/nota_tecni ca__24_2015_CEPTA_ICMBio.pdf>. Acesso em: abr. 2019.
47 Conforme OLIVEIRA et al, 2015, p. 10. O inteiro teor da nota técnica n.º 02001.002155/2015-91, do CSR/IBAMA pode ser encontrado em: OLIVEIRA et al, 2015, p. 39-55.
hectares. Desse total, a área de vegetação de Mata Atlântica afetada ou impactada equivale a 511,087 hectares‖.48
De acordo com o MPF, 240,88 hectares da Mata Atlântica e 45 hectares de Mata Atlântica com eucalipto foram devastados, sendo coletadas 29.300 carcaças de peixes ao longo dos Rios do Carmo e Doce, o que equivale a uma mortandade de 14 toneladas.49 Segundo o Ibama, ―[...] até o dia 26/12/2015, foram [...] retirados do Rio Doce mais de 28.000 exemplares de peixes mortos, pertencentes a dezenas de espécies que utilizam os mais diversos ambientes do ecossistema aquático‖.50 Além disso, em todo o percurso entre o Município de Aimorés/MG e o Distrito de Regência, em Linhares/ES, foi constatada a morte de 7.410 peixes de 21 espécies, entre elas, curimbatás, mandis, tucunaré, dourado, traíra, tilápia, cascudo, piranha, peixe cachorro, pacu e lambari.51
O MPF salienta que, em visita realizada no dia 9 de novembro de 2015, foram encontrados peixes mortos às margens do Rio Doce, no Município de Ipatinga, em local conhecido como Ponte Metálica. Os impactos do rompimento da barragem Fundão também recaíram sobre a reprodução de animais aquáticos, visto que ―diversos peixes e camarões de água doce estavam prontos para desova‖, o que foi confirmado através das ―necropsias realizadas em espécies coletadas no Rio Doce‖.52
No que diz respeito aos impactos sobre a ictiofauna, o IEF destacou a
―indução na migração de peixes para afluentes do Rio Doce com menos recursos
48 Ação civil pública com pedido de liminar inaudita altera pars proposta em 28 de abril de 2016 pelo Ministério Público Federal em razão dos múltiplos danos provocados pelo rompimento da barragem Fundão em Mariana/MG. p. 36. Disponível em: <http://www.mpf.mp.br/mg/sala-de-imprensa/docs/acp-samarco>. Acesso em: set. 2018. Não foi possível acesso ao relatório do IEF.
49 De acordo com informações colhidas no site do MPF: MPF denuncia 26 por tragédia em Mariana (MG): alguns números do desastre. Disponível em: <http://www.mpf.mp.br/mg/sala-de-imprensa/noticias-mg/mpf-denuncia-26-por-tragedia-em-mariana-mg>. Acesso em: 9 fev. 2018.
50 Nota Técnica n.º 02001.000088/2016-51 da Coordenação Geral de Autorização de Uso da Flora e Floresta (CGAUF) do IBAMA: análise do plano apresentado pela empresa Samarco em
atendimento à notificação 8261/E. p. 4. Disponível em:
<https://www.ibama.gov.br/phocadownload/barragemdefundao/notastecnicas/2016-01-nota_tecnica_plano_recuperacao.pdf>. Acesso em: abr. 2019.
Ademais, a referida nota técnica, ainda na página 4, registra: ―é muito provável que uma quantidade imensuravelmente maior de peixes morreu decorrente das alterações causadas nos cursos de água pela ruptura da barragem, mas não foi devidamente identificada e recolhida por questões de logística‖.
51 SENHORINI et al, 2015, p. 5.
52 Ação civil pública com pedido de liminar inaudita altera pars proposta em 28 de abril de 2016 pelo Ministério Público Federal em razão dos múltiplos danos provocados pelo rompimento da barragem Fundão em Mariana/MG. p. 46 e 50. Disponível em: <http://www.mpf.mp.br/mg/sala-de-imprensa/docs/acp-samarco>. Acesso em: set. 2018.
em função da má qualidade das águas deste curso d'água, comprometendo sobremaneira a sua sobrevivência‖. Ademais, organismos aquáticos produtores, tais como, fitoplâncton, perifíton e macrófitas aquáticas submersas também foram afetados, já que o aumento dos níveis de turbidez dos cursos d‘água inviabiliza o processo de fotossíntese devido ao bloqueio da entrada de luz solar.53
O morticínio de animais também foi verificado nos Parques Estaduais do Rio Doce e Sete Salões, uma vez que ―exemplares da mastofauna, como lontra e capivara‖ foram encontrados mortos. Nesses parques, foi constatada a
―impossibilidade de dessedentação e travessia de animais silvestres entre a unidade de conservação e os remanescentes florestais no seu entorno‖, bem como houve o
―comprometimento da dinâmica de metapopulação de espécies, especialmente da fauna, que efetivamente cruza o Rio Doce para garantir a viabilidade de suas populações, comprometendo processos estruturantes de colonização e extinção‖, o que acarretou ―graves distúrbios nessa dinâmica‖.54
No mais, o Município de Bom Jesus do Galho/MG constatou ―a morte de bovinos que eram criados nas proximidades do Rio Doce, bem como a ocorrência de abortamento de várias vacas da raça nelore [...]‖. A onda de rejeitos de mineração ainda causou a morte de exemplares de répteis e anfíbios. Para esses animais, o principal impacto observado trata-se do ―comprometimento do substrato dos cursos d‘água atingidos e do seu ambiente bentônico, afetando a reprodução das espécies e mesmo a sobrevivência dos exemplares remanescentes‖.55
O Ibama ressalta que a pluma de lama e mineração proveniente do rompimento da barragem Fundão provocou ―alterações físico-químicas‖, que impactaram ―toda a cadeia trófica, que envolve desde a comunidade planctônica,
53 Ação civil pública com pedido de liminar inaudita altera pars proposta em 28 de abril de 2016 pelo Ministério Público Federal em razão dos múltiplos danos provocados pelo rompimento da barragem Fundão em Mariana/MG. p. 48. Disponível em: <http://www.mpf.mp.br/mg/sala-de-imprensa/docs/acp-samarco>. Acesso em: set. 2018. Não foi possível acesso ao relatório do IEF.
54 Ação civil pública com pedido de liminar inaudita altera pars proposta em 28 de abril de 2016 pelo Ministério Público Federal em razão dos múltiplos danos provocados pelo rompimento da barragem Fundão em Mariana/MG. p. 43. Disponível em: <http://www.mpf.mp.br/mg/sala-de-imprensa/docs/acp-samarco>. Acesso em: set. 2018. Não foi possível acesso ao relatório do IEF que analisou os impactos sofridos pela mastofauna na região dos Parques Estaduais do Rio Doce e Sete Salões.
55 Ação civil pública com pedido de liminar inaudita altera pars proposta em 28 de abril de 2016 pelo Ministério Público Federal em razão dos múltiplos danos provocados pelo rompimento da barragem Fundão em Mariana/MG. p. 45. Disponível em: <http://www.mpf.mp.br/mg/sala-de-imprensa/docs/acp-samarco>. Acesso em: set. 2018.
invertebrados aquáticos, peixes, anfíbios, répteis e mamíferos que dependem direta e indiretamente das águas do Rio Doce‖.56
Ademais, ―a ruptura da barragem causou a criação de um novo canal para o córrego em elevação inferior àquele anterior ao desastre [...]‖. O Córrego Santarém, localizado nas proximidades da barragem Fundão, foi completamente devastado pela onda de rejeitos de mineração e pelo arraste de objetos diversos para sua calha. ―Houve, ainda, assoreamento drástico dos Rios Gualaxo do Norte, Carmo e parte do Rio Doce até a barragem de Candonga, no primeiro momento de impacto da lama‖.57
A bacia hidrográfica do Rio Doce também foi gravemente afetada pela pluma de sedimentos de minério de ferro:
Conforme o Relatório n.º RT_001-159-515-2282-02-J, elaborado pela Golder Associates, p. 02, ―os impactos identificados incluíram mudanças em habitats físicos, em particular na parte mais a montante da bacia hidrográfica do Rio Doce, alterações na qualidade da água e em ambientes terrestres adjacentes ao sistema fluvial, e efeitos potenciais para organismos aquáticos de água doce e para espécies costeiras‖ [...].58
Ainda em decorrência da onda de lama, foram observadas alterações no aspecto de todo o curso do Rio Doce em virtude dos altos níveis de turbidez apresentados,59 o que foi decisivo para ocorrência dos impactos verificados, ―‗[...]
inclusive na mortandade de peixes, na operação de equipamentos hidromecânicos e
56 OLIVEIRA et al, 2015, p. 16.
57 Ação civil pública com pedido de liminar inaudita altera pars proposta em 28 de abril de 2016 pelo Ministério Público Federal em razão dos múltiplos danos provocados pelo rompimento da barragem Fundão em Mariana/MG. p. 16. Disponível em: <http://www.mpf.mp.br/mg/sala-de-imprensa/docs/acp-samarco>. Acesso em: set. 2018.
58 Ação civil pública com pedido de liminar inaudita altera pars proposta em 28 de abril de 2016 pelo Ministério Público Federal em razão dos múltiplos danos provocados pelo rompimento da barragem Fundão em Mariana/MG. p. 17. Disponível em: <http://www.mpf.mp.br/mg/sala-de-imprensa/docs/acp-samarco>. Acesso em: set. 2018. sobre os Usos da Água, produzido pela Agência Nacional de Águas – ANA, a turbidez da água atingiu valores acima de 100.000 NTU, chegando a ficar acima de 500.000 NTU em Belo Oriente, em 08/11/2015. Posteriormente à passagem da onda de lama, o valor de turbidez reduziu-se significativamente, mantendo-se, porém, em valores superiores a 5.000 NTU [...]‖. Contudo, em nota de rodapé, o MPF esclarece que, ―de acordo com a Resolução CONAMA n.º 357/2005, o limite de turbidez de águas doces classe 2 é de até 100 NTU‖: Ação civil pública com pedido de liminar inaudita altera pars proposta em 28 de abril de 2016 pelo Ministério Público Federal em razão dos múltiplos danos provocados pelo rompimento da barragem Fundão em Mariana/MG. p. 18.
Disponível em: <http://www.mpf.mp.br/mg/sala-de-imprensa/docs/acp-samarco>. Acesso em: set.
2018. Não foi possível acesso ao relatório técnico Análise Preliminar sobre a Qualidade D'água e seus Reflexos sobre os Usos da Água, elaborado pela Agência Nacional de Águas.
na viabilidade do tratamento da água bruta para abastecimento urbano [...]‘‖.
Ademais, ―[...] o oxigênio presente nas águas do Rio Doce também foi diretamente afetado [...]. Em vários pontos monitorados, chegou-se a zero, o que impactou negativamente a ictiofauna‖.60
A unidade de conservação do Parque Estadual do Rio Doce foi gravemente atingida pela pluma de sedimentos de mineração provenientes do rompimento da barragem Fundão, tendo acontecido:
i) invasão da lama de rejeitos de minério de ferro em 42,39 km, no Rio Doce, no interior do Parque Estadual do Rio Doce e em 16,78 km na sua zona de amortecimento; ii) transbordamento da lama para o interior do Ribeirão do Belém, afluente do rio Doce que passa pelo interior da UC, em cerca de 30 metros, contaminando este importante curso d'água e prejudicando a fauna do Parque Estadual do Rio Doce; iii) acentuação do processo de assoreamento do Rio Doce e de degradação de sua margem que divisa com a UC, o que compromete o substrato do rio e seu ambiente bentônico, que, pela presença desta camada inerte, pode impedir o uso e reprodução da ictiofauna, anteriormente existente.61
O Rio Doce, no trecho que atravessa o Parque Estadual Sete Salões, também sofreu com os impactos oriundos da ruptura da barragem. A onda de lama acentuou o assoreamento do rio e, em decorrência disso, agravou a situação de enchentes e inundações na região; danificou a vegetação de preservação permanente e alterou as ―condições estéticas do meio‖ e a ―paisagem do Rio Doce que está diretamente ligada a identidade da unidade de conservação‖.62
Grandemente afetada pela pluma de minério de ferro, ―a bacia aérea de Barra Longa também se tornou tóxica devido ao pó proveniente da lama seca, exacerbado pelas obras de reconstrução da cidade‖, de modo que ―os níveis de particulados chegaram a atingir níveis de concentração altos, superiores aos
60 Ação civil pública com pedido de liminar inaudita altera pars proposta em 28 de abril de 2016 pelo Ministério Público Federal em razão dos múltiplos danos provocados pelo rompimento da barragem Fundão em Mariana/MG. p. 18. Disponível em: <http://www.mpf.mp.br/mg/sala-de-imprensa/docs/acp-samarco>. Acesso em: set. 2018.
61 Segundo informações disponibilizadas na página 2, do Relatório n.º 4/2015, de autoria do Instituto Estadual de Florestas do Estado de Minas Gerais (IEF/MG) e referenciadas na ação civil pública com pedido de liminar inaudita altera pars proposta em 28 de abril de 2016 pelo Ministério Público Federal em razão dos múltiplos danos provocados pelo rompimento da barragem Fundão em Mariana/MG. p. 19. Disponível em: <http://www.mpf.mp.br/mg/sala-de-imprensa/docs/acp-samarco>. Acesso em: set. 2018. Destaque nosso. Não foi possível acesso ao relatório supramencionado.
62 De acordo com o Relatório Técnico n.º 01/2015, da Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável do Estado de Minas Gerais, que foi citado na ação civil pública com
62 De acordo com o Relatório Técnico n.º 01/2015, da Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável do Estado de Minas Gerais, que foi citado na ação civil pública com