Souza (2018, pg. 177), em seu capítulo “ Dados Tributários: modos de usar”, apresenta inicialmente uma afirmação bem controversa no referido capítulo: tomando como base uma afirmação de Lord Kelvin, o autor apresenta a crença de que somente se pode propriamente criar um conhecimento quando se pode quantificar o mesmo. Sem essa condição está se falando de algo que só pode ser classificado como anterior ao conhecimento propriamente dito. Essa questão muito se aproxima do exercício de se positivar as ciências humanas, como afirmado por Pierre Bourdieu (2005). Deve-se ver também o reflexo de tal posicionamento na parte final do texto de Thomas Kuhn (1998) quando ele se questiona sobre o caráter científico das ciências econômicas. Há sempre um exercício de legitimação científica por meio da absorção do discurso científico das ciências exatas. Ou seja, a economia acaba por se legitimar pela produção de uma formalização matemática.
O mesmo autor, no seu exercício de demonstrar o valor dos dados reunidos por conta da coleta de informações tributárias, mostra que de muita importância foram os microdados de coleta domiciliar para o avanço da sociologia como ciência (deve-se lembrar os surveys operários do século XIX), mas atualmente está se pensando nas novas formas de se fazer pesquisas e de se chegar a conclusões válidas por meio de novas formas de se chegar os dados (KUHN, 1998, pg. 178-179).
Como o próprio pesquisador afirma, devido a uma grande quantidade de dificuldades de se coletar dados, ou até mesmo a coleta de dados que não condizem com a realidade devido à relação entre o entrevistado e o entrevistador, há um movimento de retorno ao uso de dados tributários para se analisar melhor as informações sobre a população – no caso do autor: quando o objeto de pesquisa são os mais ricos. Vários fatores ajudam na assunção dos dados tributários como uma boa fonte, por exemplo, a obrigatoriedade de declaração de dados, a possibilidade de punição no caso de não declaração correta (KUHN, 1998, pg. 181-182). É claro que os dados tributários por si só não são capazes de suprir todas as lacunas que o pesquisador enfrenta em sua pesquisa, mas, o uso conjunto com surveys, têm se mostrado um ótimo meio de avaliação das situações estudadas.
O mesmo desafio se fez presente na presente pesquisa. O contanto direto com as fontes tanto dos relatos quanto o acesso aos dados de multas produzidas permite uma melhor visualização dos fenômenos. No entanto, devido a lógica própria do procedimento fiscal administrativo não há como ter uma fotografia real do momento fiscal que se encontra. Isso se dá em razão das etapas da formação do crédito fiscal, sua contestação e de sua liquidação. Ou
seja, muitas das vezes as multas que são aplicadas em um determinado momento somente resultam em um recurso para os cofres públicos após o devido tempo de contestação e os devidos julgamentos, que podem se restringir apenas ao âmbito e, no caso de não aceitação, partir para contestação junto ao Judiciário.
Por isso, fica o alerta prático de que ao se olhar os dados fiscais em um momento o mais próximo possível do presente, pode não se estar lidando com fatos necessariamente presentes, mas sim com o resultado de batalhas judiciais ou administrativas antigas, ou até mesmo com o próprio tempo de se firma um entendimento interno no órgão fazendário sobre uma determinada exação.
Ao lado desse desafio de tentar interpretar o dado e “seu tempo”, há questão do sigilo de dados. Logo, deve haver um duplo caráter para aquele que pesquisa a questão fiscal estando dentro de um órgão fazendário: 1) o compromisso de se tentar buscar uma verdade aos moldes científicos para que o assunto fiscal possa ter sua compreensão melhor delineada para fora dos muros do órgão; e 2) o dever ético e funcional de não ferir nenhum direito de sigilo que é dado aos contribuintes.
Desta feita, pode-se estabelecer como fontes dos dados apresentados nesse trabalho:
1) O sistema PILAS, já anteriormente citado. De sua base de dados se pode retirar informações sobre as receitas e despesas estaduais e suas dotações orçamentárias.
2) O relatório mensal de arrecadação de ICMS59 tem como principal informação discriminar o total da arrecadação do referido imposto, o montante de autos de lançamentos feitos no respectivo mês, bem como as multas aplicadas.
3) Os relatórios de atividades publicados a cada ano pela Secretaria de Fazenda. Apesar do pouco detalhamento dos dados nesses relatórios, normalmente as formas como o órgão lida com os dados denota muito sobre uma determinada informação. Como, por exemplo, os relatórios sobre as isenções.
Os dados foram compilados por meio de Excel e planilhados. Devido a um limite temporal da base de dados de Autos de Lançamento e a sua discriminação de multas do ano de 2016 aos dias atuais, foi utilizado na maioria das análises o lapso temporal de 2014-2019. Os dados depois de compilados foram transformados em gráficos para facilitar a visualização das séries históricas. Os dados quanto aos servidores também foram devidamente planilhados e transformados em gráficos de pizza como forma de mostrar a diversidade da categoria. Os
59 SEFAZ. Disponível em: <https://www.sefaz.rs.gov.br/SAR/CAR-TOT-DEM-ICMS.aspx>. Acesso em 08.08.2020. 14h.
gráficos de colunas agrupadas serviram como forma visual para se compreender as relações entre os montantes de receitas e despesas.
4 A CONSTRUÇÃO DA REPRESENTAÇÃO SOCIAL DO RISCO FISCAL