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A Constituição Federal dispõe no artigo 1º, inciso III, o princípio da dignidade da pessoa humana, o qual serve de alicerce para toda as relações existentes na sociedade, o qual garante à todos os indivíduos a preservação da sua “integridade física e psíquica”, sua autonomia e seu direito de decisão, sendo inerente ao mesmo só pelo fato de ser pessoa.80

Além disso, a Síndrome da Alienação Parental também está relacionada com o princípio constitucional do melhor interesse da criança e do adolescente, os quais são considerados seres em desenvolvimento, ou seja, que ainda não têm a capacidade necessária para responder por si mesmos, mas ainda assim detêm a condição de “pessoa” como qualquer outro ser humano.

Sendo assim, o respeito de seus interesses e da sua dignidade em todas as relações que permeiam sua vida serve como garantia para seu pleno desenvolvimento físico e emocional.81 Este princípio está disposto nos artigos 226 § 8º e 227, caput da Constituição Federal, os quais norteiam também os direitos da criança e do adolescente dentro do Direito de Família, garantindo-lhes seu pleno desenvolvimento e os meios para que isso seja alcançado.

O princípio do melhor interesse da criança e do adolescente foi consolidado com a aprovação da Convenção Internacional dos Direitos da Criança em 1989, a qual elucida as garantias fundamentais e indispensáveis que devem a sociedade deve fornecer às suas crianças.82 Os países que ratificaram essa convenção83 comprometeram-se a zelar pelo bem-estar das crianças:

Art.3 - Convenção Internacional dos Direitos da Criança

1 – Todas as ações relativas às crianças, levadas a efeito por instituições públicas ou privadas de bem-estar social, tribunais, autoridades administrativas ou órgãos legislativos, devem considerar, primordialmente, o melhor interesse da criança.

2 – Os Estados Partes comprometem-se a assegurar à criança a proteção e o cuidado que sejam necessários ao seu bem-estar, levando em consideração os direitos e deveres de seus pais, tutores ou outras pessoas responsáveis por ela perante a lei e,

80 NUNES, Rizzatto. O princípio constitucional da dignidade da pessoa humana: doutrina e jurisprudência. São Paulo: Saraiva, 2007. p.49-52.

81 MARQUES, Jacqueline Bittencourt. A absoluta prioridade da criança e do adolescente sob a ótica do princípio da dignidade da pessoa humana. Jus Navegandi. 2011. Disponível em: < https://jus.com.br/artigos/18861/a-absoluta-prioridade-da-crianca-e-do-adolescente-sob-a-otica-do-principio-da-dignidade-da-pessoa-humana>.

Acesso em 30 maio 2020.

82 PEREIRA, Tânia da Silva. O Princípio do Melhor Interesse da Criança - da Teoria à Prática. 2008. P. 1.

Disponível em:

<http://www.gontijo-familia.adv.br/2008/artigos_pdf/Tania_da_Silva_Pereira/MelhorInteresse.pdf>. Acesso em: 20 de abril de 2020

83 BRASIL, Unicef. Convenção sobre os Direitos da Criança e do Adolescente. Assinada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 20 de novembro de 1989. Parte I. Disponível em: <

https://www.unicef.org/brazil/convencao-sobre-os-direitos-da-crianca>. Acesso em 20 de abril 2020.

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com essa finalidade, tomarão todas as medidas legislativas e administrativas adequadas.

Para garantir a aplicação do Princípio do Melhor Interesse da Criança e do Adolescente e ampliar os efeitos da Convenção Internacional dos Direitos da Criança, em 1990 foi criado o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/90). O estatuto destaca a condição peculiar de pessoa em desenvolvimento e sua titularidade de direitos fundamentais, devendo ser protegida integral e incondicionalmente.

O principal objetivo do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) é garantir os direitos do menor, atendendo ao disposto no artigo 227 da Constituição Federal,84 que foi modificado pela Emenda Constitucional nº 65, de 2010:

Art. 227.É dever da família, da sociedade, e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de coloca-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.

O ECA define, em seu artigo 2°, que criança é a pessoa de até 12 anos de idade incompletos e adolescente é a pessoa entre 12 e 18 anos de idade. As garantias estabelecidas por este estatuto ampliam o cumprimento do princípio constitucional do melhor interesse do menor, buscando sempre protegê-lo e assegurar seu desenvolvimento saudável.

Conforme disposto no artigo 4º, caput, do ECA,85 cabe destacar o princípio da prioridade absoluta:

Art. 4º: É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.

Ademais, o princípio da proteção integral da criança e do adolescente está previsto no artigo 1° do ECA e no artigo 6° da Constituição Federal, determinando a proteção da infância como direito social, devendo ser garantida pela família, pela sociedade e pelo Estado.

Em relação à Declaração Universal dos Direitos da Criança, tratado internacional ratificado pelo Brasil, podemos destacar a garantia de que toda criança gozará de proteção social

84BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, 1988. Acesso em 21 abril 2020.

85 BRASIL. Lei nº 8.069, de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8069.htm>. Acesso em 01 maio 2020

39 e lhe devem ser proporcionadas oportunidades e facilidades a fim de lhe facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, de forma sadia e normal e em condições de liberdade e dignidade. Para tanto, o tratado dispõe que na instituição das leis visando este objetivo levar-se-ão em conta sobretudo, os melhores interesses da criança.

A Declaração Universal dos Direitos da Criança reconhece a necessidade biopsicossocial da pessoa em desenvolvimento em contar com um ambiente de afeto e segurança moral e material, o que compete primordialmente aos genitores conceder a sua prole.

Conforme dispõe o princípio 6 do tratado:86

Para o desenvolvimento completo e harmonioso de sua personalidade, a criança precisa de amor e compreensão. Criar-se-á, sempre que possível, aos cuidados e sob a responsabilidade dos pais e, em qualquer hipótese, num ambiente de afeto e de segurança moral e material, salvo circunstâncias excepcionais, a criança da tenra idade não será apartada da mãe. À sociedade e às autoridades públicas caberá a obrigação de propiciar cuidados especiais às crianças sem família e àquelas que carecem de meios adequados de subsistência. É desejável a prestação de ajuda oficial e de outra natureza em prol da manutenção dos filhos de famílias numerosas.

O direito fundamental de possuir uma convivência familiar saudável ultrapassa a mera convivência em uma família estruturada e presente, pois a criança ou adolescente também tem direito de formar um laço afetivo com seus responsáveis e familiares, receber e dar amor.

Aquele que prejudica injustificadamente a manutenção desse laço familiar, limitando o convívio da criança com determinados familiares poderá enquadrar-se na prática de alienação parental.

Em seu livro “Direitos fundamentais da criança na violência intrafamiliar”, Elisabeth Schreiber87 preleciona o seguinte entendimento:

Os maus tratos emocionais são divididos em abuso psicológico, consistente na constante exposição da criança e do adolescente e a situações de humilhação e constrangimento, advindas de agressões verbais, ameaças, cobranças e punições, que conduzem a vítima a sentimentos de rejeição e desvalia, além de impedi-las de estabelecer com os adultos uma relação de confiança, ao passo que o abuso emocional ocorre quando os adultos são incapazes de proporcionar carinho, estimulo, apoio e proteção para a criança e o adolescente em seus diferentes estágios de desenvolvimento, inibindo seu bom funcionamento.

86 Declaração Universal dos Direitos da Criança. Adotada pela Assembléia das Nações Unidas de 20 de novembro de 1959 e ratificada pelo Brasil. Disponível em < http://www.crianca.mppr.mp.br/pagina-1069.html>. Acesso em 01 maio 2020.

87 SCHREIBER, Elisabeth. Os direitos fundamentais da criança na violência intrafamiliar. Porto Alegre: Ricardo Lenz, 2011. P. 94

40 Os fragmentos dessa manipulação psicológica e desse egoísmo do alienante com a sua prole de fato vai ficar marcado na personalidade da criança e adolescente que sofreu a alienação, mesmo que indiretamente, conforme expõe Paulo Lépore88 sobre a importância de uma convivência saudável no seio familiar:

O direito à convivência familiar tem fundamento na necessidade de proteção a crianças e adolescentes como pessoas em desenvolvimento, e que imprescidem de valores éticos, morais e cívicos, para complementarem a sua jornada em busca da vida adulta. Os laços familiares têm o condão de manter crianças e adolescentes amparados emocionalmente, para que possam livre e felizmente trilhar o caminho da estruturação de sua personalidade.

Portanto, aquele que prejudica propositalmente a formação do laço afetivo nas relações familiares incorrerá na prática de abuso moral contra a criança ou o adolescente. Além disso, essa prática viola diversos princípios garantidos tanto na Constituição Federal como por tratados internacionais ratificados pelo Brasil, descumprindo assim os deveres imputados àqueles que possuem a autoridade parental ou decorrentes do exercício de guarda ou tutela, sejam os próprios genitores ou seus familiares.

88 LEPORE, Paulo Eduardo, ROSSATO, Luciano, Alves. Alienacao-parental-qual-o-limite-de-interferencia-dos-pais-sobre-a-formacao-psicologica-de-seus-filho 2011. Disponível em

https://paulolepore.jusbrasil.com.br/artigos/121816325/alienacao-parental-qual-o-limite-de-interferencia-dos-pais-sobre-a-formacao-psicologica-de-seus-filhos?ref=serp. Acesso em 28/05/2020

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