2. O SETOR DE CULTIVO
2.10. Dos embricamentos humanos e não-humanos na ABRACE: Entre compostos,
Quanto aos objetivos expostos na parte introdutória desta dissertação, vale colocar em destaque os procedimentos técnicos e operatórios envolvendo os humanos e não-humanos emaranhados neste processo de cultivo. Tendo já descrito as etapas que compõem a cadeia operatória em que está circunscrito o processo de cultivo de plantas na ABRACE, agora tentarei inferir reflexões pertinentes às práticas estabelecidas neste contexto à luz dos desdobramentos teóricos elucidados na introdução do texto e que dizem respeito às técnicas pelos cultivadores e sua necessária relação com outros atores que não humanos para o desdobramento efetivo das atividades desenvolvidas ao longo das unidades de cultivo do “Galpão” e da “Sede
dos Ipês”. Nesse caso, darei destaque apenas para aquelas atividades mais recorrentes neste contexto e que se validam das inflexões teóricas sobre as quais teria se apoiado o autor desta dissertação para a realização da pesquisa e obtenção dos dados etnográficos aqui elucidados.
Nessa breve recapitulação, tentarei enfatizar como que as atividades desenvolvidas no entre os setores de cultivo da ABRACE expressam um amálgama de relações que envolvem cultivadores, plantas, compostos dentre outros fatores e elementos sem os quais não seria possível obter a matéria-prima para a posterior produção laboratorial de medicamentos. Não obstante, tentarei também apontar para o fato de que a rede sociotécnica formada entre os setores de cultivo e seus actantes humanos e não-humanos estão diretamente conectadas aquela formada pelo setor de laboratório. Ou melhor, ambos os setores conformam a mesma rede, sendo impossível atribuir a eficácia quanto ao processo de fabricação de medicamentos de maconha a um único setor e de compreendê-los como resultando de uma etapa que se considere a mais importante, seja esta desenvolvida no cultivo ou no laboratório.
No que diz respeito especificamente às etapas que antecedem os estágios
“vegetativo” e de “floração” das plantas, chama atenção à capacidade técnica que os cultivadores esbanjam quando na condução de processos mecânicos e aparentemente simples (como acontece nos casos da seleção de sementes e manejo de estacas para a reprodução de plantas), mas que trazem resultados satisfatórios e eficazes quanto aos objetivos de sua aplicação. Como vimos no início deste capítulo, a seleção de sementes junto às etapas de germinação e clonagem de plantas conjuntam a etapa que antecede o processo de cultivo de plantas em seus distintos estágios de desenvolvimento (“vegetativo” e de “floração”) e nas diferentes estufas (“indoor” e “outdoor”) que compõem este cenário a partir das unidades de cultivo da ABRACE.
Ao selecionarem sementes e plantas específicas para a reprodução e propagação de suas linhagens (as “strains”), os “colaboradores” alocados na unidade de cultivo do “Galpão” têm por objetivo fornecer aos demais setores (de cultivo e de laboratório) uma variedade de plantas que se mostrem capazes de produzir proporções elevadas de canabinoides (mais especificamente de CBD e/ou de THC),
terpenos e flavonoides, unidades moleculares mais comumente relacionadas à capacidade terapêutica da maconha. Neste sentido, devemo-nos atentar para o fato de que essas plantas não podem ser compreendidas como lançadas inertes à natureza natural e independentes dos diferentes agenciamentos humanos e não-humanos que lhes circundam e que fazem-fazer (no sentido latouriano da expressão) com que alcancem o almejado status de “maconha medicinal”, cuja identificação será demarcada pela produção em grandes quantidades de uma gama variável daquelas estruturas moleculares que fazem da maconha uma planta medicinal. Dito de outro modo, é por intermédio desse coletivo de actantes de natureza múltipla, através de suas ações e a partir de seus movimentos, que se torna possível cultivar plantas que sejam capazes de se transformarem (no sentido sociotécnico do termo) em medicamentos.
Para tanto, é preciso que os cultivadores envolvidos nas estufas “indoor” e
“outdoor” de plantas também estabeleçam técnicas que se considerem eficazes de cultivo. Em síntese, esses “colaboradores” deverão regar (com ou sem nutrientes) diariamente as plantas, fazer limpezas periódicas em suas estruturas foliares (incluindo-se ou não estacas e galhos) e pulverizá-las com diferentes compostos (em composição líquida ou seca). Dependendo do tipo de cultivo (“indoor” ou “outdoor”) e de acordo com o estágio de desenvolvimento em que estiverem localizadas (se
“vegetativo” ou em “floração”), essas plantas também demandarão dos cultivadores a aplicação de técnicas específicas e de diferentes compostos (como, por exemplo, reduzir a pulverização de compostos líquidos entre as plantas em período de
“floração”, quando pretendendo-se prevenir as flores do ataque de fungos decompositores cuja capacidade de reprodução e proliferação se dá em ambiente úmido).
Apenas após terem atingido determinado nível de crescimento (no estágio de
“vegetação”) e alcançado certo nível de maturação de suas flores é que essas plantas serão colhidas (considerando-se aqui que apenas as mais saudáveis seguirão para as próximas etapas, sendo as contaminadas pelas pragas descartadas para sua posterior coleta realizada por uma empresa específica). Uma vez que forem colhidas, essas plantas são submetidas a novos processos de limpeza (por trimagem), postas
em secagem para que finalmente sejam repassadas ao setor de laboratório. Não obstante, somente depois de serem realizadas as análises no setor de laboratório é que se poderá efetivamente inferir conclusões sobre quais linhagens de plantas deverão ser reproduzidas para a propagação de suas espécies a partir do “Galpão”.
Isso sem nos esquecermos do fato de que nem sempre essas plantas irão corresponder às linhagens a partir das quais foram originadas, sobretudo em função das imprevisibilidades que ocorrem durante o cultivo e que podem comprometer no desenvolvimento desses vegetais, afetando diretamente na produção daquelas unidades moleculares (em especial, os canabinoides) e, portanto, “desconfigurar” as características que lhes são geneticamente associadas pelos cultivadores (“Verde”,
“Laranja” ou “Azul”), sendo o fator temperatura um dos principais responsáveis por essas alterações internas à estrutura vegetal. E é sobre as atividades processadas no interior deste setor a que reservo o próximo capítulo desta dissertação, momento em que acompanharemos técnicas laboratoriais específicas, consideradas necessárias para que plantas de maconha transformem-se em medicamentos.