De origem grega, onde “ergon” significa trabalho e “nomos” norma, a palavra ergonomia, segundo o dicionário Michaelis, significa a “adequação da tecnologia, da arquitetura e do desenho industrial em benefício do trabalhador e de suas condições ideais de trabalho”. Em outras palavras, é dizer que o ambiente de trabalho deve proporcionar aos seus trabalhadores segurança, conforto e bem-estar no desempenho de suas atividades.
A questão a ser verificada neste quesito do presente estudo diz respeito à adequação dos mobiliários às características físicas dos usuários e servidores com
8Disponível em: <www.tjgo.jus.br/index.php/tribunal/tribunal-portaldatransparencia/tribunal-portalda transparencia - anexos/tribunal-portaldatransparencia-anexoii>. Acesso em: 18 de jun. 2018.
algum tipo de limitação, como idosos, pessoas obesas e/ou com mobilidade física reduzida, a teor do que estabelecem a Norma Regulamentadora nº 17 do Ministério do Trabalho e a NBR 9050:2015.
Atualmente, cerca de 18,9% da população brasileira é obesa, enquanto 54% têm sobrepeso. Dados da Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), de 2017, realizada pelo Ministério da Saúde, revela que 50,7% dos habitantes de Goiânia estão com excesso de peso e 17,9% são obesos. Tal situação assemelha-se às demais capitais brasileiras, em que 54% da população, em média, está com excesso de peso9. A pesquisa ainda mostra que o Centro-Oeste figura entre as regiões que possuem maior índice de pessoas acima do peso, conforme se verifica da Tabela 5:
Tabela 5 - Capitais brasileiras com maior índice de obesidade INDÍCE DE PESSOAS OBESAS POR CAPITAL
Manaus Macapá GrandeCampo Cuiabá VelhoPorto Recife
23,8% 23,6% 23,4% 22,7% 22,4% 21,00%
Fonte: elaborada pela autora (2018) a partir de dados da Agência Brasil. (Disponível em:
http://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2018-06/regioes-norte-e-centro-oeste-tem-os-maiores- indices-de-obesidade).
Esses dados demonstram a imprescindibilidade do cumprimento da legislação para garantir às pessoas obesas ou com sobrepeso a liberdade, o respeito e a dignidade no seu direito de estar e permanecer nos espaços públicos, sem que lhes seja imposto qualquer tipo de constrangimento em razão de seu peso. Assim, com o objetivo de verificar se o ambiente laboral é acessível sob o aspecto da ergonomia, perguntou-se: Existe na unidade judiciária servidor(es) com algum tipo de deficiência ou mobilidade reduzida? Em caso afirmativo, os móveis e equipamentos estão adaptados para esse(s) servidor(es)? Na sala do Tribunal do Júri, existem assentos adaptados para pessoas obesas?
4.2.1 Resultado dosclustersdo grupo dos mobiliários das unidades judiciárias Pela análise dos clusters, observa-se que das 95 unidades pesquisadas, em 10 existem servidores com algum tipo de deficiência ou mobilidade reduzida. Desse
9 Disponível em: <http://www.brasil.gov.br/noticias/saude/2018/06/em-goiania-69-da-populacao-esta-com-excesso- de-peso-ou-obesa>. Acesso em: 10 de out. 2018.
quantitativo, quatro estão inseridos nos clusters 1 e 2 e dois no cluster 3. Em relação à adaptação dos mobiliários, em 50% das unidades onde há servidor com algum tipo de deficiência, as respostas indicam que os móveis são adequados ao desenvolvimento das atividades laborais. Esse resultado evidencia uma diferença inexpressiva na média entre os três clusters, como apontam as Tabelas 6 e 7.
Tabela 6 - Servidores com deficiência
Questão Resultados
Cluster Sim Não N/A Média (-1 a 1)
1 4 39 2 -0,77
2 4 14 1 -0,53
Existe na unidade judiciária servidor com algum tipo de deficiência ou mobilidade reduzida?
3 2 26 1 -0,83
Fonte: elaborada pela autora (2018).
Tabela 7 – Móveis adaptados
Questão Resultados
Cluster Sim Não N/A Média (-1 a 1)
1 6 15 22 -0,21
2 2 9 4 -0,46
Em caso afirmativo, os móveis e equipamentos estão adaptados a
esses servidores?
3 4 7 13 -0,19
Fonte: elaborada pela autora (2018).
Diferentemente dos resultados acima apresentados, os da Tabela 8 apontam a existência de assentos para pessoas obesas (PO) em nove Comarcas, sendo que oito estão inseridas no cluster 1, nenhuma no cluster 2 e somente uma no cluster 3.
Verifica-se ainda que, em comparação aos demais, o cluster 1 é o que apresenta melhor resultado; entretanto, em uma análise crítica, há que se reconhecer que esse quantitativo é inexpressivo diante da quantidade de unidades pesquisadas, visto que menos de 10% dessas unidades contam com assentos diferenciados.
Assim, em que pese haver uma variação significativa da média do cluster 1 em relação aos clusters 2 e 3, pode-se afirmar que o grupo de mobiliários não influenciou na classificação das unidades judiciárias em razão do equilíbrio entre as médias desse grupo.
Tabela 8 - Assentos para pessoas obesas
Questão Resultados
Cluster Sim Não N/A Média (-1 a 1)
1 8 33 4 -0,55
2 -- 18 -- -0,96
Na sala do Tribunal do Júri, existem assentos destinados às pessoas
obesa?
3 1 24 1 -0,84
Fonte: elaborada pela autora (2018).
4.2.2 Discussão dos resultados do grupo dos mobiliários das unidades judiciárias
Como já aludido, no ano de 1990, o Ministério do Trabalho editou a Norma Regulamentadora nº 17, que regulamenta a utilização de materiais e mobiliários ergonômicos para adaptação das condições de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores, de modo a proporcionar o máximo de conforto, segurança e desempenho eficiente, prevendo recomendações para adequação dos mobiliários, entre elas:
17.3.1. Sempre que o trabalho puder ser executado na posição sentada, o posto de trabalho deve ser planejado ou adaptado para esta posição. 17.3.2. Para trabalho manual sentado ou que tenha de ser feito em pé, as bancadas, mesas, escrivaninhas e os painéis devem proporcionar ao trabalhador condições de boa postura, visualização e operação [...].
17.3.3. Os assentos utilizados nos postos de trabalho devem atender aos seguintes requisitos mínimos de conforto: a) altura ajustável à estatura do trabalhador e à natureza da função exercida; b) características de pouca ou nenhuma conformação na base do assento; c) borda frontal arredondada; d) encosto com forma levemente adaptada ao corpo para proteção da região lombar.
17.3.4. Para as atividades em que os trabalhos devam ser realizados sentados, a partir da análise ergonômica do trabalho, poderá ser exigido suporte para os pés, que se adapte ao comprimento da perna do trabalhador.
17.3.5. Para as atividades em que os trabalhos devam ser realizados de pé, devem ser colocados assentos para descanso em locais em que possam ser utilizados por todos os trabalhadores durante as pausas.
17.4.1. Todos os equipamentos que compõem um posto de trabalho devem estar adequados às características psicofisiológicas dos trabalhadores e à natureza do trabalho a ser executado.
Já as normas ABNT NBR 13962:2006 e 15786:2010 disciplinam as características físicas, dimensionais e ergonômicas de móveis para escritório, bem como os métodos para definição da estabilidade, resistência e durabilidade desses equipamentos.
Ainda que as normas citadas não sejam específicas para trabalhadores com algum tipo de deficiência ou mobilidade reduzida, estas podem ser utilizadas como parâmetro a ser observado pela Administração Pública, em razão de que sua finalidade é tornar o ambiente laboral mais seguro, confortável e produtivo, levando em consideração as características do trabalhador.
Neste sentido, importante destacar o item 8.2.1 da NBR 9050:2015, que prevê a obrigatoriedade dos cinemas, teatros, auditórios e similares disponibilizar assentos para pessoas obesas com a observância dos seguintes critérios: profundidade mínima de 0,47m e máxima de 0,51m; largura mínima de 0,75m; altura mínima de 0,41m e máxima de 0,45m; e que suportem até 250 kg. Assim, em decorrência dessa determinação, os auditórios dos Tribunais do Júri das unidades judiciárias devem se adequar ao que estabelece a norma.
Em inspeção no Fórum da Comarca de Corumbá de Goiás, foi possível confirmar a ausência desse item. A imagem a seguir (Figura 7) mostra que no auditório do Tribunal do Júri não existem assentos reservados às pessoas obesas.
Figura 7 – Auditório do Fórum de Corumbá, sem assentos para P.O.
Fonte: elaborada pela autora (2018).
Ressalte-se que essa ausência poderá dificultar o atendimento ou até mesmo impedir o acesso da pessoa com mobilidade reduzida às dependências do judiciário, em razão de que menos de 10% das unidades judiciárias disponibilizam assentos diferenciados para essas pessoas.