2. A ARBITRAGEM EM SEUS ASPECTOS GERAIS
2.7 Do procedimento arbitral
2.7.4. Dos poderes do árbitro
O art. 13 da lei de arbitragem determina que somente pode ser árbitro quem for capaz e tiver confiança das partes, logo se revela pela manutenção do interesse público. Essa manutenção do interesse público se manifesta em um duplo aspecto: o primeiro momento reside na esfera do direito privado em que a vontade das partes
atua com vigor. Contudo, em um segundo momento o juízo arbitral transcende a esfera exclusivamente privada para atender a um valor superior de justiça da decisão, nesse momento residindo o seu caráter público. (FURTADO; BULOS,1997, p. 61).
Esse artigo deve ser interpretado com os arts. 3 e 4 do código civil, que trazem as situações de incapacidade relativa e absoluta das pessoas. O legislador entendeu que não sendo o árbitro apto para a prática dos atos da vida civil, ele não poderia também exercer os compromissos da atividade arbitral. Ante a ausência de disposição com relação ao estrangeiro, a doutrina acredita que esse silêncio eficaz permite que o árbitro possa ser cidadão estrangeiro, não exigindo a legislação a nacionalidade brasileira como pré-requisito.
Um questionamento pertinente diz respeito a possibilidade de pessoa jurídica ser ou não árbitro nesse tipo de procedimento. Contudo, a doutrina brasileira tende a não reconhecer essa possibilidade, visto que a capacidade das pessoas naturais é ilimitada, algo que não é observado na capacidade das pessoas jurídicas. Logo, as pessoas jurídicas devem seguir os fins perseguidos no estatuto de funcionamento e às limitações estruturais, coisa que não se observa nas pessoas naturais.
Indaga-se sobre a possibilidade de recair a nomeação em pessoas jurídicas. Dividem-se, na doutrina, os autores franceses e os italianos. Os primeiros são a favor; os últimos, contra. De qualquer forma, é forçoso reconhecer que as pessoas jurídicas possuem poder jurídico limitado quanto aos direitos de natureza patrimonial, faltando-lhes a titularidade daqueles que a transcendem. (FURTADO; BULOS, 1997, p. 62).
Há uma tendência na lei de arbitragem principalmente nos parágrafos do art. 13 de que as partes nomeiem árbitros na quantidade de número ímpar para evitar o impasse. Bem como a possibilidade de nomeação de suplentes com o intuito de não faltar árbitros para decidir a respeito das questões extrajudiciais entre as partes. Quando não havendo consenso quanto à nomeação de mais um árbitro, as partes podem recorrer ao judiciário para resolver os impasses. Além disso, as partes podem tomar por escolha dos árbitros instituições ou entidades especializadas em arbitragem, a fim de determinar a forma de seleção e escolha dos juízes arbitrais.
O §6º do art. 13 determina os requisitos que o árbitro deverá possuir para bem desempenhar as suas funções, são eles: imparcialidade, independência, competência, diligência e discrição. Essas garantias visam a dar uma índole funcional, pois visam a assegurar uma produção firme e coerente da sentença arbitral.
O art. 14 da lei de arbitragem determinar os requisitos para que um árbitro seja considerado impedido no procedimento arbitral. Logo, o artigo faz referência até os arts. 134 e 135 do CPC de 1973, os quais correspondem aos arts. 144 ao 148 do CPC de 2015. Contudo, importa lembrar que os laços de amizade nada têm que ver com a hipótese de suspeição, muito menos de impedimento, haja vista que o fato de o árbitro ser íntimo das partes, decorrendo daí o sentimento de confiança, é algo recomendável para o pacífico deslinde da questão submetida ao juízo arbitral.
Inclusive o §1º torna exigível a obrigação de se prestar esclarecimentos a respeito da probidade, do caráter, da vida pregressa, dos atributos da personalidade, da reputação ilibada e etc. das pessoas que serão indicadas para atuar como árbitros.
A regra geral prevista no §2º é de que o árbitro antes de ser nomeado não poderá ser recusado. Contudo, o legislador especificou duas exceções e ambas por motivo anterior à sua nomeação: nos casos em que as partes não manifestem livremente a sua vontade na escolha dos árbitros, os quais são designados de forma indireta, quando na verdade deveriam ser nomeados diretamente, bem como nas hipóteses de se descobrir que a pessoa designada como árbitro não preenchida as condições para intermediar o litígio, decorrendo daí a sua recusa.
O art. 15 e seguintes dispõe como é o procedimento para arguição da suspeição ou do impedimento do árbitro que deverá ser arguido na primeira oportunidade, logo após a instituição do juízo arbitral. Caso seja aceita a exceção, o árbitro suspeito ou impedido já não poderá examinar o litígio entre as partes.
O art. 18 é o artigo mais importante que serve de contra-argumento para aqueles que acreditam em uma separação e independência do procedimento arbitral com a jurisdição. A redação do artigo determina que o árbitro é juiz de fato e de direito, e a sentença que proferir não fica sujeita a recurso ou a homologação pelo Poder Judiciário. O árbitro é juiz de fato quanto ao poder de pesquisá-lo, apurá-lo, dando-lhe a devida valorização. São juízes de direito, porquanto lhes cabe formular o comando concreto da lei que vai se traduzir e expressar na sentença arbitral.
A sentença arbitral, em termos gerais, também não necessita de homologação pelo Poder Judiciário. Finalmente, reconheceu-se a natureza jurisdicional da arbitragem, propondo-se, assim, uma reavaliação do entendimento clássico da jurisdição. Deram ao laudo a mesma importância e vigor da sentença emanada de um juiz togado, estabelecendo-se que a sentença dos árbitros tem os mesmos efeitos da sentença estatal. Em suma, ao dispensar a homologação, conferiu-se força executória à conferiu-sentença arbitral, equiparando-conferiu-se à conferiu-sentença judicial transitada em julgado, porque o que se levou em conta foi a
natureza de contrato da arbitragem, não podendo romper com o que foi pactuado. (FURTADO; BULOS, 1997, p. 72).