2 CAMINHOS METODOLÓGICOS
2.5 DOS PROCEDIMENTOS ELEITOS
Com base no exposto de Graue e Walsh (2003, p. 10) que “Descobrir é trabalhoso e dispendioso. Requer muito trabalho de campo, olhos e ouvidos bem abertos, apreender, assimilar, esquadrinhar, uma e outra e outra vez”. Sendo assim houve uma preocupação em como captar as vivências, os modos de se relacionar e de se expressar dos sujeitos investigados. Optamos por utilizar instrumentos, tais como: observação participante, registros escritos, fotográficos e audiovisuais.
2.5.1 Observação participante
Utilizamos a observação participante, por considerar que ela permite um contato pessoal direto com os sujeitos da pesquisa, permitindo registrar e vivenciar junto o que acontece no cotidiano (COHN, 2005; CORSARO, 2011).
Segundo Schmitt (2014), a observação participante é comum nos estudos etnográficos, esta valoriza a interação social e apresenta-se como o meio mais provável de se aproximar das formas comunicativas das crianças pequenas, principalmente dos bebês, pois é improvável estas serem captadas por outros instrumentos, como as entrevistas, os desenhos, os questionários, que geralmente são utilizados com adultos ou crianças maiores.
Segundo Cohn (2005, p. 45), a observação participante “consiste em uma interação direta e contínua de quem pesquisa com quem é pesquisado, é certamente uma alternativa rica e enriquecedora, que permite uma abordagem dos universos das crianças em si”. Para tanto, a observação participante ao possibilitar um contato mais estreito entre o pesquisador e o contexto investigativo, permite registrar de forma detalhada os fenômenos ali ocorridos e, posteriormente, refletir sobre eles.
A etapa da pesquisa que envolveu a observação participante foi desenvolvida após a seleção do campo empírico, definição do horário e dia da semana a ser realizada as observações34 e a obtenção das devidas autorizações. Pelo fato da instituição,
recorrentemente, receber pesquisadores, estagiários que permanecem longos períodos com o grupo de crianças e com as profissionais, não evidenciamos desconfortos ao
34 A definição de horário e dia da semana ocorreu devido à presença de outros pesquisadores em campo, pois, no momento em que decidimos iniciar a observação havia outra pesquisadora que também estava fazendo pesquisa no mesmo grupo e período. Assim, as professoras acharam melhor fazermos em dias alternados para não prejudicar as relações com os bebês, devido a presença de muitos adultos.
entrar em campo. Avaliamos que as profissionais estavam acostumadas com a presença de outros adultos o que tornou esse processo tranquilo, devido a isso não vivenciamos situações tensas ou desconfortáveis. Iniciamos a observação das professoras e dos bebês do G I, no primeiro semestre de 2017, apenas no período vespertino35, no horário das 13h às 19h, durante os meses, maio, junho, julho e agosto.
Nesse período dirigimos o olhar e observações para as vivências, relações e interações em diversos momentos das professoras e do grupo de bebês escolhido para a pesquisa, não só na sala, mas em outros espaços em que os bebês também frequentavam. O tempo de permanência variou de duas a três horas, em dois dias da semana, terças-feiras e quintas-feiras. Não definimos a priori um horário fixo de entrada e saída no grupo, pois desejávamos estar com as professoras e com os bebês em diversas situações, realizando um acompanhamento mais amplo do período em que estavam no CEI, desta forma, teve dias que chegávamos às 13h30 saímos às 16h, como também, outros em que chegávamos às 15h e saíamos às18h.
O foco de atenção nas observações foi registrar as dinâmicas corporais das professoras, como também registrar as relações educativas entre as professoras e os bebês. Desta forma, ao entrar na sala, sempre nos posicionávamos em um local onde não atrapalhasse as movimentações do grupo, mas que possibilitasse ter uma visão geral das ações e relações das professoras e dos bebês, para assim podermos anotar os acontecimentos.
Durante as observações, sentávamos em um canto da sala no chão. Inicialmente, portando caderno de anotações e caneta e posteriormente a câmera fotográfica. Fazíamos anotações descritivas de acontecimentos gerais demarcando onde os sujeitos estavam e o que faziam simultaneamente com anotações de cenas particulares. Na maior parte do tempo sentávamos no chão, na altura dos bebês e dos adultos que também se encontravam em grande parte do tempo sentados no chão juntos aos bebês. Apenas ficávamos em pé em momentos que sentíamos necessidade de proximidade a determinado evento.
A escrita no caderno de anotações, na maioria das vezes, era feita na sala enquanto fazíamos as observações. Fora do campo de pesquisa, realizávamos algumas anotações que por determinado motivo não tínhamos conseguido fazer (retirada dos
35 A escolha de fazer a observação somente no período vespertino, se deu para conciliar o meu horário de trabalho no período matutino, com o horário das professoras observadas, que só trabalhavam no período vespertino das 13h às 19h.
materiais, interação com os bebês), organizávamos, digitávamos em arquivo digital para posteriores análises.
2.5.2 Registros fotográficos e audiovisuais
Após o envolvimento com os pesquisados durante a observação, introduzimos aos poucos a câmera fotográfica, que entrou no campo da pesquisa como uma possibilidade de ampliar as possibilidades de captação e compreensão das experiências dos bebês e das professoras no interior da instituição, proporcionando um diálogo entre a linguagem visual, oral e escrita. Por ser um instrumento muito útil para registrar acontecimentos, utilizamos junto com a observação participante o registro fotográfico e a gravação de vídeo.
Segundo Lopes (2004), a fotografia é mais do que um instrumento de registro. É um recurso de documentação, um objeto de análise e mediação da relação dos sujeitos com o conhecimento do mundo e de si mesmo. A autora considera que “Além do visível captado pela lente da câmera, das inúmeras informações contidas na fotografia em si, existe a rica experiência que precede e a que é posterior ao momento de captação da imagem pela câmera” (LOPES, 2004, p. 105). Ou seja, a fotografia não é um instrumento neutro de representação da realidade, fotografar envolve todo um processo para a produção da imagem com sentidos e significados. É na e pela fotografia que se pode resgatar experiências vividas e compartilhadas durante a pesquisa de campo.
Para Guimarães e Kramer (2009, p. 87) “a foto traz sempre um querer dizer não fixo que possibilita atribuir outros sentidos: a interpretação depende do diálogo entre fotógrafo, fotografia e observador”. Desta forma, além de construir uma descrição visual dos episódios observados, as fotos revelam detalhes que aprimoram o registro escrito, podendo ser observadas muitas e muitas vezes, obtendo diferentes interpretações e ao revê-las é possível recordar situações vivenciadas no passado.
Outro instrumento utilizado para a geração de dados foi a gravação de vídeo, que segundo Graue e Walsh (2003) possibilita captar algo além da fala, oportuniza que a imagem gravada seja observada várias vezes e a perceber detalhes que inicialmente passam despercebidos. Mas, o uso de câmera pode interferir e influenciar no campo, pois “usar uma câmera de vídeo é muito mais intrusivo do que usar uma caneta e um bloco de notas” (GRAUE e WALSH 2003, p. 179).
A câmera fotográfica não gerou tanta curiosidade, quanto a caneta. Os bebês pouco a procuraram. Apenas Bento e Vicente se mostraram curiosos quanto a sua presença. Quando se aproximavam mostrávamos a câmera a eles, deixávamos que tocassem, mas não de forma autônoma afinal, diferente do caderno de anotações e da caneta, a câmera é um instrumento mais frágil na questão do manuseio.
Optamos por inserir a câmera fotográfica a partir da segunda semana. Utilizamos incialmente só registros fotográficos e após a terceira semana de pesquisa inserimos também o registro audiovisual. Os registros fotográficos e audiovisuais foram utilizados de forma concomitante. Sendo que este último foi mais recorrente, visto que também possibilita a transformação das cenas em fotografias. As sequências de imagens também foram de grande utilidade para a pesquisa, estas forneceram mais detalhes para a escrita que não tinham sido registrados só com as anotações, bem como uma melhor visualização do contexto das cenas registradas.
Assim como o registro escrito, as fotografias e vídeos foram, após a saída do campo de pesquisa, salvos em um arquivo digital, em ordem cronológica, para posteriores análises. No mesmo dia da observação ou no decorrer da semana assistíamos os vídeos e fotografias e utilizávamos algumas imagens para incrementar o registro escrito ou para acrescentar algo que não fora captado só com a observação, cenas que eram importantes de acordo com os objetivos da pesquisa.
A utilização de vídeo foi muito importante devido ao fato da dificuldade de registrar falas, tirar fotos e observar as movimentações das professoras com os bebês ao mesmo tempo. Por meio do vídeo, observamos com mais calma as movimentações das professoras com os bebês, capturamos fotos e registramos falas completas. Ao assistirmos aos vídeos e verificarmos alguma cena interessante para esta pesquisa, primeiramente, fazíamos o registro escrito, congelávamos a imagem do vídeo e em seguida fazíamos a captura, conseguindo sequências de imagens que aprimoravam o registro escrito.
Acerca dos recursos metodológicos usados para a geração dos dados desta pesquisa, cabe uma reflexão, como encaminhamentos metodológicos, com base no conceito de envolvimento principal e lateral de Goffman (2010 apud SABBAG 2017)36. A utilização da câmera fotográfica em campo, facilitou o registro das ações e relações que ocorriam. Com seu uso foi possível captar todo um conjunto de movimentos e
36 No capítulo das análises, na categoria o corpo da professora no atendimento às singularidades em um contexto coletivo abordaremos o conceito de envolvimento principal e lateral.
dinâmicas que o registro feito com a caneta e papel não permitiam captar, potencializando os registros, todavia, ao mesmo tempo que esse recurso potencializou os registros ele também pode ter nos afastado dos sujeitos e do campo, pois a relação com os sujeitos, nesses momentos era sempre intermediada pela câmera.
Ao usar a caneta e papel para registrar estávamos em um envolvimento principal, estando mais presentes nas relações e com o campo, porém ao usar a câmera fotográfica perdíamos um pouco essa relação, revelando um envolvimento lateral com os sujeitos e o campo, pois havia uma preocupação maior em registrar o que a câmera iria captar no momento, afastando de fato a pesquisadora. Assim, cabe refletir sobre a adoção de determinados recursos metodológicos, pois, por meio deles, corremos o risco de por um lado potencializar os registros e, por outro, limitar as relações com os sujeitos e com o campo de pesquisa.