As considerações sobre o programa eu sou paisagem, em concreto o projecto Biografias e Identidades – BIOS 2011 e 2012, necessitam, por uma questão de aproximação ao assunto e para melhor contextualização ao que é exposto, que suspenda momentaneamente a leitura e possa visualizar o trabalho em vídeo realizado a partir da documentação e do material gerado neste projecto, bem como a sua publicação em formato de fanzine, que aqui se apresenta, sendo eles parte integrante desta investigação.
72 Passagem ‘e’ Mistura – Práticas de Educação Artística | Samuel Guimarães
73 Passagem ‘e’ Mistura – Práticas de Educação Artística | Samuel Guimarães
B
“Quando, por exemplo, me apercebo do vento que sopra através dos ramos da faia, sou incapaz, de início, de distinguir a visão dessas folhas trementes do seu delicado murmúrio. Também os meus músculos sentem a torção desses ramos quando se dobram tão levemente ao vento e isto impregna o encontro de uma certa tensão táctil. O encontro é influencia- do, também, pelo cheiro fresco do vento outonal, e até pelo sabor de uma maçã que ainda se demora na minha língua. (…) a percepção envolve também o tacto, a audição, o olfacto e o gosto. Com o termo “percepção” quere- mos significar a actividade concertada de todos os sentidos do corpo tal como funcionam e se desenvolvem conjuntamente. Na verdade, se eu atentar de perto na minha experiência não verbal da mutável paisagem que me cerca, tenho de reconhecer que os assim chamados sentidos separados estão inteiramente misturados uns com os outros, e é somente depois do facto que sou capaz de voltar atrás e isolar as contribuições específi- cas dos meus olhos, dos meus ouvidos e da minha pele. Assim que tento distinguir a parte que cabe a um sentido qualquer da parte que cabe aos outros, inevitavelmente corto a total participação do meu corpo sencien- te no terreno do sensível.” David Abram, (2007). A magia do sensível. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, Serviço Educação e Bolsas, p. 61.
“O mundo no qual eu nasço, morro, existo, não é o mundo dos “outros” uma vez que é igualmente o “meu”. É o mundo dos corpos. O mundo do fora. O mundo dos fora. O mundo onde dentro e fora, cima e baixo se baralham. O mundo da contrariedade. O mundo do contra. Um encontro imenso, intermi- nável: cada corpo, cada massa retirada de um corpo é imensa, desmedida, infinita a percorrer, a tocar, a sopesar, olhar, a deixar-se pousar, difundir, infundir, a deixar pesar, a suster, a resistir, a suster como um peso e como um olhar, como o olhar de um peso.
Porque é que existe isto, a vista, e não antes qualquer coisa que mistu- rasse o ver e o ouvir? Mas de uma tal mistura, haverá sequer sentido falar? E em que sentido? Porque é existe esta vista que não vê os infra vermelhos? Estes ouvidos que não ouvem os ultra-sons? Porque é que em cada sentido há limites, e entre todos os sentidos um muro? Mais ainda: não serão os sentidos universos separados? Ou melhor: a deslocação de todo e qualquer universo possível? O que é a separação dos sentidos? E porquê cinco dedos? Porquê este sinal do rosto? Porquê este vinco no canto dos lábios? Porquê este sulco aqui? Porquê este ar, esta medida, esta desmedida? Porque este corpo, porque este mundo, porquê absoluta- mente e exclusivamente ele?”. Jean Luc Nancy,(2000) Corpus.
SC HU IT EN & PE ET ER S (20 02 ). A s ci dade s O bs cur as - A F ro nt ei ra In vi sí ve l. Li sb oa : W it lo of , p .28
BIOS – Biografias e Identidades. Projeto Anual 2011|2012 Ao longo do ano letivo 2011/2012, o Serviço Educativo, em parceria com professores, crianças, jovens e adultos bem como outros agentes educativos e culturais, implementa o Projeto BIOS – Biografias e Identidades. Projeto Anual 2011|2012.
A criação de biografias é aqui entendida como um modo de criar e refletir sobre a realidade de hoje pensando e agindo sobre o binómio indivíduo - paisagem.
O ato de contar a vida de uma pessoa, de um objeto, de uma planta ou animal permite perspetivar singularidades e necessariamente interrogar o seu tempo e o tempo histórico. Da fauna à flora, às tipologias das paisagens, o projeto permitirá a
construção de uma coleção de BIOS que falam sobre tensão entre novo e antigo, entre memória e futuro e como a construção de património imaterial (como produção de conhecimento) é um foco incontornável de discussão entre instrumentalização e emancipação.
O projeto permitirá ao professor e educador, agente cultural ou social, desenvolver o projeto com o seu grupo de trabalho, adequando-o às suas especificidades e interpretações.
O projeto conclui-se com a apresentação pública de uma coleção de BIOS de pessoas, objetos, coisas, elementos naturais ou culturais que caracterizam e tecem as dinâmi- cas do indivíduo com a paisagem tendo como base de trabalho as paisagens, as pes- soas, os lugares, a Região Demarcada do Douro.
Programa Base do Projeto: Setembro a dezembro|2011 Lançamento do projeto.
Sessões preparatórias com professores para desenvolvimento do projeto (tempestade de ideias; apresentação dos suportes e materiais do produto final).
Visitas às escolas para atividades do projeto. Janeiro a abril|2012
Oficinas do projeto – para professores e outros agentes educativos e oficinas para grupos participantes.
O projeto BIOS recebe no edifício sede do Museu do Douro, alunos e professores e outros educadores para a realização de oficinas experimentais.
Desenvolvimento do projeto de cada grupo Criação do BIOS síntese de cada grupo de trabalho em suporte escrito, fotográfico ou 3D.
Visitas às escolas para atividades do projeto. Maio a junho|2012
Síntese do projeto.
21 de maio | Entrega do Bios do projeto.
Público-alvo:
Professores e alunos de todos os graus de ensino: Educação Pré-Escolar.
Ensino Básico – 1º, 2º e 3º Ciclos. Ensino Profissional.
Ensino Secundário. Objetivos do Projeto
Motivar e explorar a diversidade de relações entre o indivíduo e os lugares em que vive a partir de uma Vida/BIO.
Descobrir pontos de vista diferenciados sobre a mesma realidade. Desenvolver a criatividade na resolução de problemas.
Expressar ideias e modos de as concretizar.
Saber trocar, partilhar, gerir recursos materiais e humanos. Eixos do Projeto
Numa lógica sequencial o projeto tem como etapas principais:
O trabalho de preparação do projeto, em sessões de trabalho específicas para professores e outros educadores.
A implementação e desenvolvimento do projeto pelo professor com os seus alunos.
A realização de oficinas do projeto específicas para professores.
A vinda ao museu das crianças e jovens para a realização de oficinas do projeto. A apresentação pública dos diferentes resultados dos processos
de trabalho do projeto.
O correio do projeto. O correio do projeto permite o acompanhamento de todas as etapas do projeto. Este correio propõe a troca das descobertas, pesquisas, ideias, ima- gens, notícias e atividades realizadas pelos participantes e os desafios colocados pelo Serviço Educativo.
Todos os professores de todas as disciplinas podem participar já que a temáti- ca da identidade é transversal às várias áreas do conhecimento e da expressão.
A implementação e desenvolvimento do projeto têm em atenção a diversidade de narrativas e experiências de acordo com as várias faixas etárias implicadas na sua construção. Podem ser parceiros, crianças, jovens e professores das escolas do ensino público ou privado, associações recreativas e culturais e outras institui- ções educativas ou sociais.
Inscrições e Lotação
Data limite de inscrição no projeto: 14 de outubro de 2011 As inscrições são aceites por ordem de chegada até ao número limite de 70 (setenta) grupos.
Gén ero Social NACIONAL SÍMBOLO Port ugal Ritmo Vida História Percurso Traço Pessoa / coisa Vivên cia Património
Tempestade de ideias – 1ª Sessão de Trabalho Professores e Equipa GERA ÇÕE S T RA DI ÇÕE S OBRA Digital Único Obra Reflexão SER
SER – PESSOA – TEMPO – ESPAÇO – PERCURSO
Tempo Pessoa EU / T U NÓS / O UTRO S CAMINHO PERSO NALID ADE
BIOS
25 out|2011P ed ra re colh id a no Ca is d a Ju nq u ei ra, P es o d a R égu a.