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4. RESULTADOS E DISCUSSÃO

4.1. Dosagem hormonal

4.1.1.Perfis de flutuação hormonal

O perfil hormonal dos animais puros (PG1, PG2, PG3 e PN1) estão representados na figura 5. De maneira geral, as flutuações hormonais apresentadas por PG1, PG2 e PN1 mostraram picos consistentes, com concentrações máximas que alcançaram respectivamente 1521,75; 1451,37 e 1504,80 ng de testosterona/g de fezes. As concentrações médias destes mesmos animais também se mostraram próximas entre si (PG1:1258,96± 226,99; PG2: 988,54±318,30; PN1: 881,10±314,08), ainda que existam variações individuais e específicas que já eram esperadas. Em seus estudos em M.americana, Salviano (2011) atribuiu estas variações encontradas entre cruzamentos puros a não homogeinidade das respostas aos estímulos ambientais

Diferentemente de suas contrapartes específicas, PG3 apresentou um perfil de secreção marcado por flutuações hormonais que, em nenhum momento, se aproximaram das concentrações máximas dos outros PGs, chegando somente a 1037,58 ng/g de testosterona (15 meses de idade). A concentração média ao longo dos meses também foi numericamente menor tanto em comparação a PG1 e PG2 quanto em relação aos demais animais analisados (693,08± 274,45 ng/g).

A diferença marcante entre os níveis médios apresentados por PG3 em relação aos outros PGs, não pode ser justificada por mecanismos fisiológicos naturais tais como sazonalidade reprodutiva, uma vez que, diferentemente do que é observado na maioria das espécies de clima temperado, nos cervídeos neotropicais, em especial nas espécies do gênero Mazama, o fotoperíodo parece não ter nenhum efeito restritivo na manifestação do ciclo reprodutivo (BUBENICK et al.1991). Tal afirmação foi reforçada por Barozzo (2001) que avaliou cinco machos de M. gouazoubira e notou que estes animais não apresentaram variações cíclicas nos parâmetros endócrinos, morfológicos ou seminais ao longo do ano. De maneira similar, é possível notar que ao longo período analisado (15 meses) nenhum dos animais puros “normais”

Figura 5.Perfil dos metabólitos fecais da testosterona em machos puros de M.gouazoubira (PG) e M.

nemorivaga (PN). As concentrações são expressas em ng de testosterona/g de fezes.

0 500 1000 1500 2000 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 Idades (meses) PG2 Média (988,54±318,30) 0 500 1000 1500 2000 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 Idade (meses) PG3 Média(693,08±274,45) 0 500 1000 1500 2000 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 Idade (meses) PG1 Média (1258,96± 226,99) 0 500 1000 1500 2000 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 Idade (meses) PN1 Média(881,10±314,08)

apresentou grandes variações na concentração de testosterona, reforçando a falta de sazonalidade descrita tanto em M. gouazoubira quanto em M. nemorivaga.

Assim, é possível supor que o quadro apresentado por PG3 esteja relacionado com uma anormalidade fisiológica: baixas concentrações de testosterona geralmente estão associadas com anormalidades testiculares graves (LAWRENCE; SWYER, 1974) e podem ter efeito sobre o sucesso reprodutivo tanto por afetar libido quanto por causar redução no volume de ejaculado e na concentração espermática (AL- QARAWI, 2005).

A figura 6 apresenta os perfis hormonais dos híbridos H1 e H2, sendo o último avaliado por apenas 11 meses em decorrência de uma morte precoce. De maneira semelhante ao o que foi observado em PG3, ambos os híbridos apresentaram concentrações hormonais que, em grande parte dos meses, se mantiveram a baixo daquelas observadas para os animais puros normais. O pico máximo alcançado pelo animal H1 foi de apenas 957,90 ng/g e a sua concentração média foi a menor entre os híbridos (747,77±172,98 ng/g). Já H2 apresentou um desempenho ligeiramente superior tanto em relação ao outro híbrido quanto em relação a PG3, atingindo um pico máximo de 1163,86 ng/g. A sua média geral (815,82± 269) ficou mais próxima daquela apresentada pelo M. nemorivaga (PN1) do que em relação aos M.gouazoubira considerados fisiologicamente normais.

O desempenho geral dos híbridos em relação aos animais puros normais é discrepante, sendo passível a observação de que o cruzamento híbrido pode ter efeito sobre as funções hormonais destes animais. Contudo, os possíveis efeitos práticos da hibridação sobre a esteroidogênese ainda permanecem pouco elucidados. Tendo em vista que o desbalanceamento meiótico é a provável causa de inaptidão em híbridos de espécies com cariótipos marcadamente diferentes como os Mazama cinza, de que maneira as células de Leydig, que fazem mitose (e, portanto, não sofrem com o desbalanceamento), são afetadas pela condição do híbrido?

Em um dos únicos estudos sobre o assunto, Chubb e Nolan (1987) buscaram elucidar a questão ao analisarem o efeito de genótipos portadores de genes ligados a esterilidade do híbrido sobre a esteroidogênese testicular em cruzamentos de M. m. domesticus e M. m. musculus. Os resultados experimentais indicaram uma clara redução da capacidade esteroidogênica nos testículos dos híbridos. Uma possível

explicação para esta defasagem na função das células de Leydig estaria em interações deletérias entre genes que poderiam desencadear defeitos primários nas enzimas esteroidogênicas, função pituitária alterada ou até mesmo interrupção da resposta celular estimulação pelo LH.

Figura 6. Perfil dos metabólitos fecais da testosterona em machos híbridos frutos de cruzamento entre

M. gouazoubira e M. nemorivaga. As concentrações são expressas em ng de testosterona/g

de fezes.

Em seu estudo comparando diferentes cruzamentos M.americana, Salviano (2011) também sugeriu um possível efeito da hibridação sobre a secreção de testosterona ao evidenciar diferenças significativas nos perfis hormonais de animais frutos de cruzamentos intra e intercitótipos de M. americana, ainda que nenhum dos híbridos intrercitótipos analisados tenha apresentado perfis de secreção de

0 500 1000 1500 2000 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 Idade (meses) H1 Média(747,77±172,98) 0 500 1000 1500 2000 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 Idade (meses) H2 Média(815,82±269,00)

testosterona marcadamente inferiores em relação aos animais puros, assim como foi observado nos híbridos analisados neste estudo.

4.2. Análise seminal

Os resultados dos parâmetros seminais dos animais frutos dos cruzamentos controlados, aos 12 meses e aos 20 meses de idade ou mais estão disponíveis na Tabela 2.

Inicialmente foi possível observar que todos os animais analisados aos 12 e aos 20 meses (PG2, PG3, PN1 e H1) mantiveram uma certa coerência quando suas características seminais foram comparadas entre idades: PG2 e PN1 mostraram características seminais dentro da normalidade em todos os aspectos em ambas as colheitas, sendo resguardadas, obviamente, diferenças inerentes a idade que serão discutidas a seguir ; PG3 manteve-se com um sêmen de concentração baixíssima (que não permitiu uma estimativa confiável da incidência de formas anormais) e células espermáticas imóveis; e H1 apresentou-se azoospérmico nas duas análises. Os resultados das análises feitas em PG2 e PN1 são um bom exemplo do efeito da idade sobre a qualidade espermática: em PG2 características como a concentração espermática, proporção de patologias secundárias (decorrentes de defeitos durante a maturação) e porcentagem e espermatozóides normais apresentaram sensíveis melhoras com o aumento da idade. De maneira similar, PN1 apresentou uma melhoria de volume, concentração, motilidade e porcentagem de espermatozóides normais.

A idade afeta todas as características relacionadas à eficiência reprodutiva, sendo observado que a motilidade dos espermatozóides, sua concentração e a porcentagem de espermatozóides com morfologia normal da cabeça, cauda e acrossoma aumentam com o avanço da puberdade (HAFEZ, 1995). A literatura coloca que os veados cinza atingem a maturidade aos 12 meses (DUARTE; MERINO, 1997), contudo os dados de PG2 e PN1 podem indicar que nessa idade, apesar dos animais estarem aptos à reprodução, ainda não atingiram a completa maturidade sexual, fase onde o animal apresentaria instinto sexual, capacidade de monta e condições espermáticas condizentes com a reprodução plena (SASA et al.2002).

Tabela 2. Parâmetros seminais de M.gouazoubira (PG1, PG2, PG3 e PG4), M.nemorivaga (PN1 e PN2) e híbridos interespecíficos (H1 e H2) aos 12 meses e aos 20 meses ou mais de idade; e valores de referência para as espécies (sombreado).

Animal Volume (μl) Concentração (sptz x109/ml) Cor/Aspecto Motilidade (%) Vigor ( 0-5)

Patologias Primárias (%) Patologias Secundarias (%) Idade (meses) 12 ≥ 20 12 ≥20 12 ≥20 12 ≥20 12 ≥20 12 ≥ 20 12 ≥20 PG1 - 375 - 0,57 - Branco leitoso - 40 - 2 - 37,0 - 5,0

PG2 475 240 2,32 3,34 Branco leitoso Branco leitoso 70 65 4 4 21,0 29,5 47,0 13,5

PG3 220 330 0,007 0,002 Transparente Transparente 0 0 0 0 - - - -

PG4 - 270 - 2,32 - Branco leitoso - 60 3 - 13,5 - 13,0

PN1 35 375 0,87 2,25 Vermelho leitoso Vermelho leitoso 40 70 3 3 37,0 35,0 27,0 13,5

PN2 - 60 - 2,71 - Vermelho leitoso - 90 - 4 - 4,0 - 39,0

H1 535 160 -* -* Amarelo aquoso Transparente -* -* * -* -* -* -* -*

H2 50 - 0,02 - Branco leitoso - < 1 - - - 66,0 - 24,0 -

M.gouazoubira ** 50 - 1500 0,16 - 2,170 Branco leitoso - - - -

M.nemorivaga *** 80-705 0,05-0,62 Vermelho leitoso - - - -

* Animal azoospérmico. Entende-se “sptz” como abreviação de espermatozoides. ** De acordo com Barrozo (2001).

Em um interessante contraponto, foi observado nos resultados das avaliações seminais dos animais de 20 meses ou mais que, apesar de PG4 e PN2 possuírem idades muito maiores do que os demais animais (8 e 10 anos, respectivamente), aparentemente este aspecto não teve grande influência em seus parâmetros seminais, que permaneceram relativamente próximos aos valores descritos para os outros puros com 20 meses de idade.

Estima-se que a expectativa de vida dos veados cinza seja próxima aquela descrita para M. americana, ou seja, de 7 a 12 anos (MAFFEI, 2001; HUFFMAN,

2004;), portanto, PG4 e PN2 poderiam ser considerados animais senescentes. Apesar do envelhecimento reprodutivo em ambos os sexos incluir alterações funcionais, com uma perda abrupta da fertilidade em fêmeas e um declínio gradual nos machos, apenas uma única diferença marcante foi encontrada na análise seminal de PG4 e PN2 em relação aos animais mais jovens: as porcentagens de defeitos espermáticos de acordo com a estrutura morfológica em que ocorreram (Tabela 3) que, em PG4 e PN2, foram predominantemente de defeitos de flagelo ao invés de defeitos de cabeça como nos demais animais.

Tabela 3.Porcentagem de patologias de acordo com a sua localização na célula espermática em M.gouazoubira (PG), M. nemorivaga (PN) e híbridos entre as duas espécies (H) com diferentes idades.

Animal Idade

Patologias Espermátidas (%)

Flagelo citoplasmáticas Cabeça Gotas Intermediária Acrossoma Peça Ausência de defeitos PG1 meses 20 6,5 4,5 21,0 6,5 3,5 58,0 PG2 meses 20 0,5 9,0 21,0 11,0 1,5 57,0 PG3 meses 20 - - - - PG4 8 anos 11,5 2,0 6,5 2,5 4,0 73,5 PN1 meses 20 6,5 4,0 19,5 17,0 1,5 51,5 PN2 10 anos 36,5 2,5 3,5 0,5 0,0 57,0 H1 meses 20 - - - - H2 meses 12 27,0 8,5 42,0 8,5 4,0 10,0

Estas alterações morfológicas, de acordo com Kavamoto et al. (1999), provocam movimentos circulares e oscilatórios dos espermatozóides, o que leva, por exemplo, à redução da taxa de fertilização. Contudo, a porcentagem de espermatozóides normais dos animais mais velhos manteve-se bem próxima ou até superior àquelas apresentadas pelos animais de 20 meses, indicando a manutenção de uma fertilidade adequada.

Através da análise seminal ainda foi constatado que a grande maioria dos animais puros (PG1, PG2, PG4, PN1, PN2), apresentaram características seminais qualitativas e quantitativas dentro do que é normalmente observado para suas respectivas espécies (BARROZO, 2001; CURSINO, 2014). Estas características podem se relacionar com os perfis hormonais de PG1, PG2 e PN1, possivelmente indicando níveis de testosterona fisiologicamente normais uma vez que, entre as muitas funções atribuídas a este hormônio, está o estímulo dos estágios finais da espermatogênese (HAFEZ,1995).

Apesar de puro, PG3 foi considerado um espécime anormal se comparado aos demais M. gouazoubira, uma vez que suas análises seminais mantiveram péssima qualidade nas duas coletas. O fato da qualidade seminal não ter sofrido grandes alterações entre coletas (diferentemente do que aconteceu com outros animais como PG2), exclui um possível efeito da imaturidade sobre a capacidade reprodutiva. A concentração seminal extremamente baixa e ausência de movimento espermático podem estar ligadas aos níveis baixos de testosterona evidenciada no perfil hormonal do animal, o que caracteriza um quadro de infertilidade.

Alterações espermáticas como as observadas em PG3 geralmente são fruto de alterações testiculares graves, tais como degeneração testicular e hipoplasia testicular (NASCIMENTO e SANTOS, 2003). Levando em conta que a degeneração testicular é causa adquirida de origem multi-fatorial (KASTELIC et al. 1997), enquanto que a hipoplasia relaciona-se com distúrbios de desenvolvimento, genéticos e cromossômicos (JONES et al. 2000), o diagnóstico diferencial in vivo entre estas duas afecções geralmente se dá pela realização de espermogramas periódicos e a retirada dos possíveis agentes causais da degeneração, ou seja: variações térmicas, radiação, deficiências nutricionais, administração exógena de anabolizantes e idade avançada (NASCIMENTO e SANTOS, 2003; JACOB et al. 2008).

Nenhuma destas condições parece ter influenciado o animal em questão, uma vez que todos os animais experimentais foram submetidos ás mesmas condições térmicas e tiveram uma dieta comprovadamente eficiente para seu grupo taxonômico (DUARTE, 2010). Além disso, PG3 não foi submetido a administração exógena de hormônios e era um animal jovem (20 meses). A diferença de 6 meses entre as coletas não demonstrou indícios de uma possível recuperação testicular, mas sim uma piora em relação a concentração, o que nos leva a concluir que, muito provavelmente, a condição de PG3 está associada a perturbações de desenvolvimento.

A performance de H1 nas coletas de 12 e 20 meses foram basicamente iguais. Foi o único animal onde a azoospermia foi constatada, comprovando sua infertilidade. A azoospermia é um quadro decorrente de duas situações: a obstrução de ductos testiculares (azoospermia obstrutiva), onde existe espermatogênese completa e níveis hormonais normais (WOSNITZER; GOLDSTEIN, 2014); e azoospermia resultante de falha na espermatogênese, decorrente de defeitos aberrantes na meiose.

As falhas de pareamento cromossômico durante a meiose são a principal causa da esterilidade em híbridos F1 de mamíferos, constituindo em uma importante barreira para especiação. A esterilidade nestes casos, é amplamente atribuída a múltiplas falhas de pareamento, sendo que, quanto maior a diferença cariotípica entre duas espécies mais severas serão as falhas e maior será a redução de fertilidade. Em grande parte dos casos a morte celular associada a meiose ocorre entre o paquíteno e a espermiogênese, com altas taxas de desgaste no paquíteno da meiose I (ASHLEY,2000). A forte relação entre a hibridação e a interrupção da espermatogênese (OKA et al. 2010) conta como principal justificativa para os parâmetros seminais de H1.

Por conta da morte inesperada, H2 contou apenas com uma avaliação, aos 12 meses de idade. A coleta revelou um sêmen com concentração baixa, esparsas células espermáticas móveis e elevada porcentagem de defeitos espermáticos (90%), a maioria deles prejudiciais a fecundação. A localização da maioria dos defeitos espermáticos observados em H2 foi na cabeça (42%) e estavam relacionados com o seu formato. Na análise seminal de híbridos adultos entre O. virginianus e O. hemionus, Wishart et al. (1987) encontraram alta incidência de defeitos semelhantes.

A presença de espermatozoides em ejaculado híbrido já foi descrita em vários cruzamentos entre diferentes espécies, entre eles burros (E. asinus X E. caballus), bardotos (E. caballus X E. asinus ) (TRUJILLO et al.1969; CHANDLEY et al. 1974); Veado-da-cauda-branca (O. virginianus) e veado-mula (O. hemionus) (WISHART et al.1988); Uapiti (Cervus canadensis) e veado-vermelho (Cervus elaphus) (GRAY, 1954); e entre espécies crípticas de musaranho (Sorex araneus) (JADWISZCZAK; BANASZEK, 2006). É importante observar que a presença de espermatozoides não garante a fertilidade do híbrido: a não-disjunção cromossômica durante a anáfase I, é a segunda maior causa de fertilidade reduzida nestes animais. As configurações heterozigóticas própria dos híbridos passam por um processo de separação anômala levando à formação de gametas desbalanceados (aneuploidia) e embriões não viáveis

(JADWISZCZAK; BANASZEK, 2006).

A análise reprodutiva de H2 é compatível com quadro de subfertilidade grave. Como já foi demonstrado, as características reprodutivas são amplamente afetadas pela idade imatura, porém, o quadro seminal apresentado por H2, assim como seu perfil hormonal, marcado por poucos picos acima da linha basal podem indicar que o animal possui algum tipo distúrbio testicular com origens semelhantes ás discutidas em PG3 e H1. Qualquer alteração nos níveis de testosterona pode comprometer a reprodução como um todo, levando a diminuição da concentração espermática e consequente diminuição no volume seminal assim como observado em H2 (AL- QARAWI, 2005).

Híbridos de diferentes citótipos de M.americana apresentaram resultados bem semelhantes aos encontrados no presente trabalho, sendo que os frutos de linhagens evolutivas diferentes foram complemente azoospérmicos, assim como H1, e híbridos da mesma linhagem evolutiva apresentaram quadro de subfertilidade grave, assim como encontrado em H2. Estes parâmetros foram um dos principais indicadores para o autor atestar a existência de isolamento reprodutivo entre as duas linhagens evolutivas de M.americana, além da possível existência de subespécies em processo de especiação dentro de uma das linhagens reprodutivas (SALVIANO 2011).

Os resultados das análises morfométricas dos túbulos seminíferos de todos os animais experimentais encontram-se disponíveis nas Figuras 7 (diâmetro) e 8 (altura epitélio seminífero).

Primeiramente, em relação ao diâmetro tubular médio, é possível observar que houveram médias similares entre os animais PG1 (221,18±44,17μm), PG2 (217,56±35,70μm) e PG4 (229,61±31,128μm), sendo os valores alcançados por estes os mais altos entre todos, um grande indicio da funcionalidade tubular (NEVES et al. 2005). Uma disposição semelhante ocorre em relação aos valores médios de altura do epitélio seminífero, com PG4 se destacando mais que os outros (70,12±9,60 μm em PG1, 68,21±13,63 μm em PG2 e 81,025±18,07μm em PG4). Tanto os valores de diâmetro tubular quanto altura de epitélio são semelhantes as médias encontradas por Costa (2009) em uma análise morfofuncional de testículos de sete veados- catingueiros adultos mantidos em cativeiro (224,43±39,21 µm para diâmetro e 69,58±9,67 µm para altura).

Como era esperado por se tratarem de animais puros, os M. gouazoubira PG1, PG2 e PG4 apresentaram boas qualidades seminais e os perfis hormonais de PG1 e PG2 obtiveram as maiores médias gerais entre todos os animais analisados. Todas estas características se relacionam diretamente com os dados disponíveis na Tabela 4 , que compara a porcentagem de tipos celulares observados no epitélio seminífero: PG1, PG2 e PG4 apresentaram túbulos seminíferos com espermatogênese ativa e uniforme em todas as secções transversais observadas.

Assim como ocorreu com a maioria dos M. gouazoubira puros, os M. nemorivaga puros (PN1 e PN2) obtiveram resultados dentro do esperado. O diâmetro tubular médio de PN1 foi de 162,17 ±12,37μm e o de PN2 195,10 ±31,06μm, enquanto que a altura de epitélio alcançou valores de 71,80±9,29μm para PN1 e 66,140±17,61μm para PN2. A partir destes dados é possível sugerir que os túbulos dos M. nemorivaga podem ser morfologicamente menores do que os de M. gouazoubira normais, contudo esta caraterística não influencia sua capacidade reprodutiva uma vez que estes animais também apresentaram distribuição de células germinativas compatíveis a uma espermatogênese completa e normal, além de bons níveis hormonais (demonstrados por PN1) e qualidade seminal adequada (PN1 e

Figura 7. Diâmetro tubular médio (μm) de M. gouazoubira (PG), M. nemorivaga (PN) e híbridos entre as duas espécies (H) com diferentes idades: PG1, PG2, PG3, PN1, H1 aos 20 meses; H2 aos 16 meses; e PG4 e PN2 aos 8 e 10 anos, respectivamente.

Figura 8. Altura de epitélio seminífero média (μm) de M. gouazoubira (PG), M. nemorivaga (PN) e híbridos entre as duas espécies (H) com diferentes idades: PG1, PG2, PG3, PN1, H1 aos 20 meses; H2 aos 16 meses; e PG4 e PN2 aos 8 e 10 anos, respectivamente

0,000 20,000 40,000 60,000 80,000 100,000 PG1 PG2 PG3 PG4 PN1 PN2 H1 H2 μm Animais experimentais

Altura do epitélio seminífero

0,000 50,000 100,000 150,000 200,000 250,000 300,000 PG1 PG2 PG3 PG4 PN1 PN2 H1 H2 μm Animais experimentais Diâmetro Tubular

M.gouazoubira M.nemorivaga H1(♂ M. gouazoubira /

♀ M. nemorivaga) H2 (♂M. nemorivaga / M. gouazoubira)

M.gouazoubira M.nemorivaga H1(♂ M. gouazoubira /

PN2). Aparentemente, não houve influência da idade de PN2 e PG4, sobre sua estrutura tubular e capacidade gametogênica.

Assim como era suspeitado a partir das características seminais e endócrinas, o estudo dos núcleos e nucléolos presentes dentro dos túbulos seminíferos de PG3, H1 e H2, revelaram que estes animais compartilham uma característica em comum: a presença de hipoplasia testicular. A hipoplasia testicular é uma alteração que se caracteriza pela ausência ou diminuição do potencial de desenvolvimento do epitélio germinativo (JAINUDEEN; HAFEZ, 2004; JACOB et al. 2008). É a possível consequência de um amplo número de anormalidades que podem ocorrer em nível sistêmico ou local (MCENTEE, 1990; FOSTER; LADDS, 2007).

A origem da hipoplasia varia de caso a caso, podendo ser congênita (de caráter genético ou não) ou adquirida após o nascimento. Os fatores externos que poderiam provocar a hipoplasia são: distúrbios hormonais, deficiências vitamínicas, toxinas, metais pesados, doenças ocorridas durante a vida intrauterina e a subnutrição, principalmente no período púbere. A nível cromossômico, a hipoplasia está ligada a ocorrência de um cromossomo X extra (síndrome de Klinefelter) (MCENTEE,1990) , a presença de translocações Robertsonianas (BRUÈRE; MILLS, 1971) , a falha de pareamento cromossômico e a presença de cromossomos “pegajosos” (que falham em separar durante a mitose e meiose) (MCENTEE, 1990; FOSTER; LADDS, 2007).

Sob o ponto de vista anátomo-patológico a hopoplasia testicular pode ser dividida em três tipos: total (grave), na qual a totalidade ou quase a totalidade dos túbulos é hipoplásica; intermediária, em que metade a 2/3 dos túbulos seminíferos são hipoplásicos e o restante apresenta graus variáveis de atividade espermatogênica, havendo, ocasionalmente ,espermatozóides; e parcial (suave) na qual poucos túbulos são hipoplásicos, mas a espermatogênese ocorre menos ativamente (NASCIMENTO; SANTOS,2003; JACOB,2008;).

PG3 foi o animal que demonstrou menor diâmetro tubular e altura de epitélio seminífero entre os M. gouazoubira (152,49± 21,99 μm e 53,66±10,76 μm respectivamente) e entre animais puros de maneira geral. A análise das células dentro dos túbulos evidenciou uma espermatogênese ativa, porém desigual, abrangendo apenas 30% dos túbulos analisados. Por apresentar um sêmen marcado por

Tabela 4. Médias ±desvios padrão das porcentagens dos tipos celulares do epitélio seminífero da prole de veado-catingueiro (M. gouazoubira) e veado-cinza (M. nemorivaga).

Animal EspermatogôniasA (%) EspermatogôniasB (%) Leptóteno/ Zigóteno(%) Paquíteno (%) Espermátides arredondadas (%) Células de Sertoli (%) PG1 17,36±12,70 22,63±10,49 9,61±4,30 10,53±2,75 21,45±12,34 18,42±2,91 PG2 6,34±2,20 12,67±7,08 21,42±22,00 16,16±5,81 33,40±15,23 10,01±2,46 PG3 39,20±4,16 14,77±2,90 4,55±2,17 4,83±2,06 8,52±4,42 28,13±3,35 PG4 11,03±7,98 12,76±7,44 16,77±31,65 14,54±14,46 33,36±23,08 11,53±4,00 PN1 15,61±4,69 13,33±6,81 22,28±10,90 15,70±4,43 23,86±14,72 9,22±1,43 PN2 9,42 ±7,04 8,22±2,45 16,38±13,49 10,47±5,72 43,95±20,33 11,56 ±4,12 H1 41,64±4,55 29,79±2,39 9,42±0,00 0,00 0,00 19,15±3,65 H2 15,52±3,39 15,64±6,82 22,79 ±8,36 18,18 ±5,23 15,27±6,17 12,60±2,01

concentração muito baixa e ausência de motilidade, fica evidente que a atividade espermatogênica nos túbulos ativos não é normal. De fato, as células germinativas de parte dos túbulos investigados apresentavam sinais de desgaste, principalmente durante a fase de espermiogênese, o que se refletiu num número reduzido de espermátides maduras (8,52±4,42μm). Todos estes fatores, nos levaram a classificar a hipoplasia apresentada pelo animal como intermediária. Assim como propuseram Foster e Ladds (2008), é possível que as baixas concentrações de testosterona evidenciadas no perfil do animal, decorram da condição hipoplásica das gônadas.

Outro ponto interessante a ser ressaltado na análise histológica de PG3 foi a presença de células de Sertoli em porcentagem elevada, se comparado com os outros M. gouazoubira. Segundo Russel e Peterson (1984) o número de células de Sertoli é fixado durante o desenvolvimento inicial e sua presença em altas porcentagens está relacionada com perturbações durante este desenvolvimento como por exemplo, assim como sugerem Cook (2002) e Chubb (1992), na expressão disfuncional do gene

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