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Foto 7- Sem Terrinhas correndo para o amanhã!

1 A PRODUÇÃO DA EXISTÊNCIA E A PRODUÇÃO DA CULTURA – UMA

3.2 BALANÇO INICIAL SOBRE A CULTURA E A CULTURA CORPORAL NA

3.2.3 Dossiê – MST Escola: Documentos e Estudos 1990-2001

Adentraremos agora na análise do Dossiê MST Escola, um conjunto de textos e documentos sobre educação do movimento, especificamente relacionados à escola, no período entre 1990 e 2001. Estes retratam a trajetória das discussões e ações do MST no campo educacional, tendo como característica marcante sua produção por coletivos de educadores, e que apresentam como objetivo,

[...] voltar a discutir com toda nossa base “o que queremos com as escolas dos assentamentos e acampamentos do MST”, quais as tarefas

pedagógicas específicas da escola na formação dos Sem Terra e como organizar sua prática educativa para que contribua na construção do projeto de sociedade socialista que defendemos e na emancipação

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social e humana dos sujeitos (COLETIVO NACIONAL DE

EDUCAÇÃO DO MST, 2005, p.6, grifo nosso).

Pela dimensão da produção presente nesta obra e sua importância, faremos inicialmente uma análise geral sobre o processo de formação, em seguida um levantamento da discussão sobre cultura e, por fim, sobre os aspectos referentes aos elementos da cultura corporal.

Em seu conjunto, os textos se apresentam num processo de complementaridade, expressando o incremento das novas experiências e estudos do MST, no âmbito educacional. Um dos principais responsáveis pela orientação teórica é o caderno nº 08, que apresenta os princípios da educação do MST. Entre seus princípios destacamos o primeiro princípio filosófico, “Educação para transformação social”, onde fica demarcado seu projeto político, de homem e de sociedade, que orienta e deve orientar todas as atividades do MST,

Este é o horizonte que define o caráter da educação no MST: um processo pedagógico que assume como político, ou seja, que se vincula organicamente com os processos sociais que visam a transformação da sociedade atual, e a construção, desde já, de uma nova ordem social, cujos pilares principais sejam a justiça social, a radicalidade democrática, e os valores humanistas e socialistas (Ibid, p. 161).

Demarca como característica essencial a educação de classe, tratando-a como “uma educação que não esconde o seu compromisso em desenvolver a consciência de classe e consciência revolucionária, tanto nos educandos como nos educadores” (Ibid, p.161), apontando ainda nesse horizonte a perspectiva da formação omnilateral104.

Na sua trajetória pedagógica o MST utiliza de diversas perspectivas pedagógicas para o desenvolvimento das suas atividades de formação, o ecletismo teórico impera nas formulações, o que promove prejuízos na orientação da formação dos seus militantes. Percebe-se isso, quando no caderno nº 09 são apresentadas as pedagogias utilizadas pelo MST que, “em vez de assumir ou se “filiar” a uma delas, o MST acaba pondo todas elas em movimento, deixando que a própria situação educativa

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A palavra omnilateral vem de Marx, que usava a expressão “desenvolvimento omnilateral do ser humano”, para chamar a atenção de que uma práxis educativa revolucionária deveria dar conta de reintegrar as diversas esferas da vida humana que o modo de produção capitalista prima por separar (Ibid, p.163).

específica se encarregue de mostrar quais precisam ser mais enfatizadas, num momento ou outro” (Ibid, p.201). Defender essa opção teórica que mistura não apenas perspectivas diferentes, mas também antagônicas105, e que deixa à situação orientar a atividade, é um tanto perigoso para um movimento de forte ação política como o MST.

Nossa intenção nesse momento não é aprofundar a discussão sobre a opção teórica do MST106, por mais que seja importante, mas sim identificar a potencialidade emancipatória contida nas elaborações e ações do movimento, que servirão de princípios para as atividades culturais.

No que trata da cultura, o conjunto de textos do dossiê fazem referências constantes sobre a cultura e sua relação com a educação do movimento, tanto que dos catorze textos do dossiê, sete contém tópicos específicos vinculados a essa discussão. Todos têm como objetivo o desenvolvimento cultural específico do MST em contraposição ao modelo atual de cultura, privilegiando a identidade cultural camponesa e anticapitalista.

Não se trata de matar a cultura camponesa e introduzir a cultura da sociedade capitalista urbanizada. Muito ao contrário. Se trata, de promover o desenvolvimento cultural nos assentamentos através da construção da cultura camponesa. Isto quer dizer, rever as tradições, recuperar o saber sobre o próprio trabalho, mas também incorporar no jeito de viver as lições da luta e os elementos de um conhecimento cada vez mais amplo da sociedade e do mundo como um todo (Ibid, p.43).

Nesta obra não há precisão acerca da compreensão de cultura. Este se altera de acordo com o contexto e a necessidade e acaba por servir como explicação de várias coisas. Para percebermos a abrangência que o termo cultura adquire na produção do MST, apresentaremos dois trechos, um do Caderno de educação nº 01 e o outro do Caderno de educação nº 08.

Cultura quer dizer: jeito de viver. Num assentamento se juntam grupos com diferentes origens, diferentes costumes, religiões, gostos diversos

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Há uma constante presença do aprender a ser nos textos, um dos quatro pilares educacionais do relatório Jacques Delors (UNESCO), organização de mediação do imperialismo capitalista, nesse sentido inimigo de classe do MST, por isso a preocupação com rigorosidade teórica, pois dessa forma fica comprometida as ações do movimento. “... estamos no âmbito do aprender a ser, ou se preferimos, da formação do caráter de nossos/nossas estudantes que, dizíamos antes, tem que ser omnilateral”(Ibid, p.174). Tratar o aprender a ser do Delors como sinônimo do omnilateral de Marx é um grande equívoco. 106

Urge cada vez mais a necessidade de uma elaboração crítica que trate desta questão, o que por conta de nossos limites não poderá ser feito nesse estudo.

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sobre música, comida, divertimentos, e até com jeitos diferentes de trabalhar e de encarar o trabalho [...] As crianças precisam aprender a entender e valorizar sua cultura [...] Estas são algumas coisas que a escola pode fazer, ao mesmo tempo, para valorizar a cultura existente no assentamento e promover a nova cultura que alimenta e é exigida pela luta maior do MST [...] (Ibid, p.69-70).

E ainda,

Entendemos por cultura tudo aquilo que as pessoas, os grupos e as sociedades produzem para representar ou expressar o seu jeito de viver, de entender e de sonhar o mundo. É a cultura que permite a comunicação humana e, portanto, permite a própria educação. São expressões culturais: a linguagem, os costumes, as tradições, a arte, os rituais, a religiosidade, os comportamentos, as normas, os saberes, o jeito de se relacionar com as outras pessoas no cotidiano, os valores éticos [...] (Ibid, p. 172).

As elaborações sobre cultura nesses textos se concentram em discutir a relação da cultura com a educação e, particularmente, com as atividades da escola. Por isso são predominantes as propostas de atividades durantes as aulas, da sua participação como componente curricular e sua responsabilidade no processo de consolidação da identidade dos militantes, ressaltando peculiaridades e diferenças de hábitos e costumes.

É o espaço para pesquisar sobre a origem geográfica, étnica e cultural dos assentados envolvidos com a escola, seja de um ou de mais assentamentos; discutir sobre o problema dos choques de culturas; conhecer manifestações culturais diversas; pesquisar sobre as diferentes religiões que existem nos assentamentos e em que diferem; hábitos alimentares, costumes, festas populares; discutir sobre as mudanças que a luta e a conquista da terra trouxe para as famílias [...](Ibid, p. 145).

A defesa da importância da cultura na luta contra o aparato ideológico capitalista é reforçado frequentemente nos textos, destacando a árdua tarefa de formar militantes sobre outros pilares ideológicos que primem pela defesa da classe trabalhadora e pela sua emancipação, já que o capital emprega grande parte de sua força no seu sistema de interiorização. Essa preocupação pode ser observada quando

Aprendemos com a história, que as lutas culturais são parte importante dos processos de transformação social. Alguém já disse até que representam o cimento que liga as lutas econômicas e políticas. Então não podemos considerar menos importante esta dimensão

quando pensamos na educação das pessoas. Coisas do tipo: que canções são entoadas pelos nossos jovens, que heróis povoam os sonhos de nossas crianças, que tipo de relações se cultivam entre homens e mulheres, entre pais e filhos, que tipo de religiosidade se pratica em nossos acampamentos e assentamentos, que festas nos congregam [...] não são apenas questões do cotidiano sobre as quais não é necessário pensar ou influir. Por estes e outros detalhes podem passar a nossa resistência ou afirmação dos valores e da ideologia da sociedade capitalista; e também nestes detalhes pode aumentar ou diminuir a nossa pertença à organização, nosso próprio amor e gosto por participar e continuar participando desta luta coletiva (Ibid, p. 172-173).

Daí a insistência por parte do MST de preconizar a produção cultural em todas as atividades de formação auxiliando na construção de outro padrão cultural,

Nossas escolas, nossos cursos de formação, precisam ser espaços privilegiados para a vivência e a produção de cultura. Seja através da comunicação, da arte, do estudo da própria história do grupo, da festa, do convívio comunitário como antídoto ao individualismo que é o valor absoluto no capitalismo; seja também pelo acesso às manifestações culturais que compõem o patrimônio cultural da humanidade, seja pelo enfrentamento dos conflitos culturais que aparecem no dia-a-dia do nosso movimento. O que não podemos perder de vista é o objetivo maior de tudo isso, e que diz respeito não a um simples resgate da chamada cultura popular, mas principalmente, ao produzir uma nova cultura; uma cultura da mudança, que tem o passado como referência, o presente como a vivência que ao mesmo tempo em que pode ser plena em si mesma, é também antecipação do futuro, nosso projeto utópico, nosso horizonte (Ibid, p.173).

Entre as pedagogias utilizadas pelo MST em seu cotidiano, destacamos a pedagogia da cultura, que valoriza os gestos, valores, o jeito de lutar dos Sem-Terra e os símbolos produzidos que ele vai aprendendo a significar e ressignificar.

A pedagogia da cultura tem como uma de suas dimensões fortes a

pedagogia do gesto, que é também pedagogia do símbolo e pedagogia do exemplo. O ser humano se educa mexendo, manuseando as

ferramentas que a humanidade produziu ao longo dos anos. Elas são portadoras da memória objetivada (as coisas falam, têm história). É a cultura material que simboliza a vida. O ser humano também se educa com as relações, com o diálogo que é mais do que troca de palavras. Ele aprende com o exemplo, aprende a fazer e aprende a ser, olhando como os outros fazem e o jeito como os outros são. E os educandos olham especialmente para as educadoras; são sua referência como modo de vida (Ibid, p.203).

114 A existência de uma pedagogia específica da cultura confirma a fragmentação do conhecimento no processo de ensino-aprendizagem, e essa fragmentação é algo que deve ser ressaltado diante dos problemas que pode acarretar a formação. Os textos destacam a necessidade da simbiose entre cultura e educação, e sua importância no processo de formação dos militantes do MST,

Podemos refletir então que educar é também partilhar significados e

ferramentas de cultura; é ajudar as pessoas no aprendizado de significar ou ressiginificar suas ações, de maneira a transformá-las em

valores, comportamentos, convicções, costumes, gestos, símbolos, arte, ou seja, em um modo de vida escolhido e refletido pela coletividade de que fazem parte. Isto quer dizer, entre outras coisas, que educar as pessoas é ajudar a cultivar sua memória, é conhecer e reconhecer seus símbolos, gestos, palavras; é situá-las num universo cultural e histórico mais amplo, é trabalhar com diferentes linguagens, é organizar diferentes momentos e jeitos para que as pessoas reflitam sobre suas práticas, suas raízes, seu projeto, sua vida [...] (Ibid, p.243).

A imprecisão da compreensão da cultura, o ecletismo teórico e a ausência de um maior aprofundamento da relação capital-trabalho com a educação e a cultura, são questões que precisam de maior esforço crítico, de atenção especial, principalmente, pelos prejuízos que essa orientação pode promover na prática social.