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Douglas Altamiro CONSOLO João Paulo VANI

UNESP – São José do Rio Preto

Este capítulo relata uma investigação sobre intera-ção em sala de aula, sobretudo sobre a relaintera-ção sócio-pedagógica entre professor e aluno, em contextos de Ensi-no Fundamental e Médio. O estudo foi realizado em duas etapas, constituindo-se a primeira de um estudo preliminar, o qual objetivou responder questões formuladas pelo alu-no-pesquisador (AP), a partir de sua própria experiência como aluno da Escola Fundamental e Média. Essas ques-tões preliminares (vide anexo) proporcionaram ao AP ini-ciar sua reflexão e desenvolver uma visão mais crítica sobre o cenário de ensino/aprendizagem e a relação pro-fessor-aluno, nesses contextos. Outro objetivo do estudo preliminar foi introduzir o AP à investigação em Lingüís-tica Aplicada, requerendo leituras teóricas, elaboração de

1 Artigo baseado em dados coletados para o Projeto Integrado de Pesquisa intitulado “Interação e Aquisição de Língua Estrangeira no Cenário da Sala de Aula”, apoiado pelo CNPq (1999-2001).

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resenhas críticas e familiarização com procedimentos de pesquisa em contextos de ensino.

O arcabouço teórico de nosso estudo apoia -se em Baghin (1997), Consolo (1997), Consolo & Viana (1997), e McDonough & McDonough (1997), cujos autores tratam de pesquisas de natureza qualitativa ou etnográfica, e de instrumentos de pesquisa envolvendo observações de au-las, diários de pesquisa e entrevistas. Refletimos também, a partir do estudo de Baghin (op.cit.), sobre a natureza da motivação na interação em sala de aula de língua estran-geira (LE), de uma classe de 5a série, e sobre as caracterís-ticas do discurso da sala de aula, com base em Consolo (op.cit.) e Lemke (1989).

Baghin constatou que, de vinte e oito alunos pesqui-sados, somente um não reconheceu a importância do a-prendizado da LE. Entre os argumentos utilizados para justificarem a importância da LE, os alunos destacaram:

“bonita”, “interessante”, que gostam dela, que “com ela se pode viajar para o exterior” e também “se comunicar com os estrangeiros. Das opções dadas aos alunos com relação à LE, “útil” ficou em primeiro lugar, “interessante” em segundo, “bonita” em terceiro, em quarto lugar, com inci-dência de quatro alunos ficou “difícil”. Um aluno rotulou o aprendizado de LE como “inútil”.

Passaremos em seguida à descrição de nossa inves-tigação, tratando dos contextos estudados, da metodologia de pesquisa e dos resultados.

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49 ESTUDO PRELIMINAR

DADOS E IMPRESSÕES

O estudo preliminar realizou-se em uma escola coo-perativa do interior do estado de São Paulo e os critérios de escolha das classes investigadas foram

a) disponibilidade do AP: a coleta de dados não po-deria coincidir com suas aulas na universidade;

b) a escolha pelas disciplinas pesquisadas: por tratar-se de um projeto interligando Língua Estrangeira (LE) e outras disciplinas da grade curricular, a pri-oridade seria assistir tanto aulas de Inglês como de outras matérias, nas mesmas classes. Verificou-se que somente duas turmas corresponderiam a esse requisito, uma de 7a série e uma de 2° colegial, cu-jos alunos tornaram-se, portanto, os participantes do nosso estudo;

c) as demais disciplinas pesquisadas foram escolhi-das de modo a serem disciplinas em comum para as respectivas classes da 7a série e do 2o colegial;

assim, definimos as aulas de Ciê ncias (somente para a 7a série) e Matemática (para ambas as cla s-ses) como contextos complementares de coleta de dados.

Os dados do estudo preliminar foram coletados por meio de diários, elaborados a partir de aulas assistidas, entrevistas com os alunos observados (com gravação em áudio), entrevistas com os alunos e com os professores (gravação em vídeo), e de questionários aos alunos.

Aplicamos um questionário, baseado nas perguntas preliminares de pesquisa, aos alunos das duas turmas,

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do dois questionários diferentes, um para cada série. Para os alunos da sétima série, o questionário era composto de treze questões de múltipla escolha e duas questões disser-tativas. O questionário do segundo colegial continha dez questões de múltipla escolha e oito questões dissertativas.

A diferença de formato e número de questões se devem, principalmente, à faixa etária, e a preocupação demonstra-da pela escola, com o vestibular, no caso do segundo cole-gial, refletida nas aulas.

Levantamos informações pertinentes para responde-rem-se às seguintes perguntas, dentre as dezessete ques-tões iniciais:

a) Por que o aluno tem dúvidas mas não pergunta?

b) Porque o aluno se interessa mais pelas disciplinas da grade curricular dos Ensino Fundamental e Médio nas quais existe maior male abilidade do professor?

c) Qual a melhor maneira de tornar a aula de Inglês envolvente?

d) Existe a possibilidade de se utilizar o livro didáti-co didáti-com menos freqüência, mesclando técnicas como jogos, brincadeiras e atividades de outras á-reas na aula de LE?

e) O principal objetivo do aprendizado de LE nas sé-ries do Ensino Fundamental e Médio é o vestibu-lar?

f) A introdução de um maior número de aulas de conversação, colocando os alunos em situações mais próximas do real, não seria um estímulo a mais nas aulas de LE?

g) A aula de LE tem que se restringir ao espaço físico convencional da sala de aula? Por que?

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51 h) Qual o melhor método para fixação de vocabulário

na LE?

i) Atividades feitas em casa, a leitura de revistas, jornais e revistas em quadrinhos, os jogos de vide-ogame e computador, as histórias interativas, os chats da Internet, são bons recursos extra-sala para fazer com que o aluno busque um maior conheci-mento da LE?

j) Será que, nas escolas que possuem um centro mul-timídia, a utilização do equipamento nas aulas de LE, em aulas especiais, não seria um estímulo a mais para o aluno?

Os questionários revelaram que os alunos, em sua maioria, estavam descontentes com a atuação dos profes-sores em sala de aula, principalmente dos profesprofes-sores de LE (Inglês). Esse descontentamento devia-se sempre à conduta dos professores, e deixava transparecer a assime-tria social por eles imposta entre professor e aluno.2

Foram realizadas também entrevistas individuais com alguns dos alunos das classes investigadas. No segun-do colegial, foram entrevistasegun-dos alguns alunos que não pertenciam à classe observada, mas que a todo momento eram citados pela coordenação pedagógica ou pela direção do colégio, seja por seu comportamento e participação exemplar, seja por indisciplina e desinteresse apresentados em sala.

2 Segundo os alunos, essa assimetria se deve ao fato de que os professore s, por dominarem bem o conteúdo de suas disciplinas, não respondiam às dúvidas mais elementares que eles, alunos, tinham. Os alunos se sentiam inibidos e, algumas vezes, enver-gonhados por terem suas dúvidas banalizadas.

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As figuras 1 e 2 ilustram os contextos das classes investigadas e os grupos de alunos entrevistados:

Legenda das figuras:

Figura 1

1) Alunos de sétima série (Ensino Fundamental);

2) 06 alunos da sétima série “A” que não tinham au-las com P1;

3) 06 alunos da sétima série “B” que não tinham au-las com P1;

4) 12 alunos das sétimas séries “A” e “B” que tinham aulas com P1.

Figura 1

1) Alunos de segundo colegial (Ensino Médio);

2) 06 alunos do segundo colegial “C” que não tinham aulas com P4;

3) 02 alunos do segundo colegial “A”, 04 alunos do segundo colegial “B” e 06 alunos do segundo co-legial “A” que tinham aulas com P4.

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53 Os dados coletados, sobretudo as entrevistas e os questionários, revelaram que a maioria dos alunos tem dificuldade de compreensão do conteúdo abordado em aula e vocabulário inferior ao requerido pelo nível que o professor demanda em sala, e apresentam problemas de relacionamento com professores e com os colegas de sala, o que torna as aulas cansativas para os professores e para os alunos em geral. Além disso, os alunos reclamaram bastante do material didático e da maneira como as aulas eram ministradas. De acordo com o relato dos alunos, as professoras de Inglês adotavam uma “postura superior” em sala de aula, o que revela uma relação nitidamente assimé-trica. Os trechos de fala de P4, abaixo, exemplificam o que os alunos chamaram de “superioridade”, postura aqui tra-tada como assimetria -professor-aluno:

(1) P4:

vocês estão aqui pra aprender coisas que eu já sei e + pra mim + não fará diferença se vocês tiverem boa vontade ou não + porque além de já saber o que estou falando + o azar vai ser todo de vocês em não apren-der (1) eu não vou me desgastar com vocês

(2) P4:

olha, vocês falam demais e não prestam atenção em nada + depois não adianta reclamar que não entendeu + eu não vou explicar de novo + eu já sei isso + já conheço isso + não preciso de ninguém pra me ensi-nar

Sobre a assimetria professor-aluno, observada em sala de aula, alguns alunos relataram que, como conse-qüência da mesma, não fazem perguntas durante as aulas.

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Atribuem esse comportamento à possibilidade de reação do professor, o qual, ao responder às suas dúvidas, tam-bém faz algum tipo de comentário que os desagrada, ou que faz com que esses alunos se sintam desconfortáveis (vide nota 2).

Outro fator que chamou bastante a atenção