• Nenhum resultado encontrado

A era dourada (The Gilded Age), a era progressiva (Progressive Era) e o movimento

4. A tributação das doações e sucessões causa mortis no mundo – O caso

4.2. O caso norte-americano

4.2.2. A era dourada (The Gilded Age), a era progressiva (Progressive Era) e o movimento

Na chamada era dourada (The Gilded Age), época dos barões ladrões (robber barons), no último quartel do século XIX, os Estados Unidos assistiram à criação de cartéis e uma violenta consolidação de patrimônio, como relata William Gates Sr. e Chuck Collins (2003, p. 32-33), que asseveram que, entre 1897 e 1904, 4.277 empresas foram consolidadas em 256 grandes corporações, nos setores bancário, industrial e ferroviário, abalando os ideais da república, fazendo surgir os gritos de monopólio e intervenção antitrustes.

Em paralelo à situação acima, parcela da sociedade americana reagiu com adesão ao movimento populista no final da década de 1880, gerando inclusive uma força política que enviou representantes a Washington na década de 1890, funcionando como terceira força política do país (ao lado dos Republicanos e Democratas), a exigir melhoria nas condições de vida das classes trabalhadoras e imposição de tributação respeitando a capacidade contributiva dos contribuintes (princípio do ability to pay), porém o partido populista não colocou a tributação de herança em sua plataforma de campanha. Isso levou a uma mudança na posição política do Partido Democrata na linha defendida pelos populistas, o que levou os Democratas a ganharem as eleições legislativas de 1892, com 71,1% dos assentos da Câmara de representantes (STEINMO, 1993, p. 70-71; BECKERT, 2008, p. 175 e 325).

Com o controle de ambas as Casas do Congresso, os Democratas, como parte do

Wilson-Forman Tariff Act de 1894, instituíram o imposto de renda, nos moldes daquele do

período da guerra da secessão, e um imposto sobre herança. Com a oposição dos Democratas do nordeste dos Estados Unidos e dos Republicanos, apenas foi instituído um imposto de renda com alta faixa de isenção ($4.00062) e com baixa alíquota, de apenas 2%, sobre as rendas e

lucros das empresas. Esse ano é lembrado com amargura pelos opositores da instituição do imposto de renda e de herança, como Charles Adams:

O ano de 1894 pode ter sido o ano fiscal mais importante da civilização. A Grã-Bretanha adotou nova imposição sobre herança com taxas progressivas, e os Estados Unidos adotaram um imposto de renda. As taxas progressivas na Grã-Bretanha logo se aplicaram à tributação de renda em todos os lugares. Nos Estados Unidos, o imposto de renda e o imposto sobre herança logo

62 De acordo com Charles Adams (2001, p. 364), tal valor representava o equivalente a 80 mil dólares (em moeda de meados dos anos 1990) e, assim, ficavam isentos 98% dos contribuintes.

revolucionariam a sociedade. A conexão entre o real de 1894 e o 1984 fictício de Orwell pode se tornar mais do que uma transposição de números. Se a sociedade de Orwell, com seu Big Brother que tudo vê, chegar à civilização ocidental, as raízes desse monstro podem estar relacionadas às leis tributárias de 189463. (ADAMS, 2001, p. 361, tradução nossa)

Em todo caso, em 1895, a Suprema Corte norte-americana declarou a inconstitucionalidade de toda a inovação, no caso Pollock v. Farmers’ Loan and Trust Co., forte na impossibilidade de o Congresso instituir tributação direta e progressiva em desfavor dos Contribuintes, sem respeitar as balizas do art. 1º, seção 9,4 da Constituição norte-americana, pois alguns estados tinham mais pessoas ricas do que outros e o ônus deveria ser repartido de acordo com a população de cada estado (STEINMO, 1993, p. 72). Apesar de não haver vício de constitucionalidade no imposto de herança, a Corte asseverou que não havia como separar do ato legislativo do imposto de herança daquele do imposto de renda, pois doações e heranças eram classificadas como renda e tributadas à alíquota de 2% sobre o que excedia $4.000 dólares, e então a Corte anulou as normas como um todo (BECKERT, 2008, p. 326; JOULFAIAN, 2013, 2-1).

Como agravante, o candidato Democrata populista William Jennings Bryan perdeu as eleições presidenciais de 1896 para o incumbente Republicano William McKinley, e os Republicanos então passaram a entender que não haveria urgência em instituir uma tributação direta progressiva. Em todo caso, ganhava apoio na sociedade a instituição de uma tributação direta e progressiva, forte nos ideais de igualdade e distribuição de patrimônio, e os Democratas passaram a defender uma emenda constitucional que instituísse um imposto de renda e, em 1896, endossaram formalmente a implantação da tributação sobre a renda, sendo o primeiro grande partido a fazê-lo64 (BROWNLEE, 1996, p. 39).

No tocante ao imposto sobre herança, na verdade, não havia óbice constitucional, pois era visto como um imposto sobre causa específica, a morte, diferente do imposto de renda. E tanto assim o era que, para fazer frente aos gastos da guerra hispânico-americana, pelo War

63 No original: “The year 1894 may have been civilization’s most important tax year. Britain adopted

new death duties with progressive rates, and the United States adopted an income tax. The progressive rates in Britain soon applied to income taxation everywhere. In the United States the income tax and the estate tax would soon revolutionize society. The connection between the real 1894 and Orwell’s fictitious 1984 may turn out to be more than a transposition of numbers. If Orwell’s society, with its all- seeing Big Brother, comes to Western civilization, the roots of that monster may be traced to the tax laws of 1894”.

64 Interessante ressaltar que muitas das bandeiras da campanha de William Jennings Bryan, como a introdução do imposto de renda, eleições diretas para senadores, publicidade das doações de campanha, sufrágio feminino, criação de um ministério do trabalho, foram implementadas anos depois, por outros líderes do movimento progressivo, como anotado em suas memórias editadas por sua viúva (PHILIPS, 2002, p. 48).

Revenue Act de 1898, foi instituído um imposto sobre herança (tipo estate tax), revogado em

1902 ao término das hostilidades (GATES SR.; COLLINS, 2003, p. 37).

Com um pensamento diferente do movimento populista, este que advogava uma sociedade igualitária agrária nos moldes que pretensamente já existira, na virada do século veio ao lume o movimento progressivo, no começo do século XX, com foco na classe média profissional, alicerçado na desconfiança na concentração de poder nas mãos de grandes corporações e também dos sindicatos, defendendo fortalecer as regras democráticas, com igualdade de oportunidade, limitando o laissez-faire, com criação de uma sociedade mais justa com ajuda da ciência e tecnologia. Interessante ressaltar que também grandes tycoons industriais, como Andrew Carnegie, defendiam que a herança não deveria ser transmitida dentro da família, mas que deveriam ser doadas em vida para instituições beneficentes. Na visão de Carnegie, o proprietário era um mero detentor fiduciário da propriedade, sendo a sociedade a proprietária moral, porém tal propriedade deveria ir para instituições filantrópicas e não para o estado, como defendiam os membros do movimento progressivo (BECKERT, 2008, p. 177).

Havia apoio do Movimento Progressivo em ambos os Partidos, sendo o Presidente Republicano Theodore Roosevelt seu nome mais conhecido, o qual, no discurso do Estado da União de 1906, defendeu a introdução de um imposto sobre herança, o que também foi apoiado pelo seu sucessor, William Taft. Aparentemente, os Republicanos apoiaram o imposto sobre herança, que não tinha óbices constitucionais, por razões pragmáticas, pois seria um mal menor do que o imposto de renda (BECKERT, 2008, p. 176 e 325).

O Presidente Republicano William Taft (1909-1913) apoiou a ideia de uma emenda à Constituição para introduzir um imposto de renda, de forma um pouco surpreendente, pois Taft sabia da grande dificuldade em aprovar uma emenda à Constituição, pois a última havia sido aprovada há 40 anos, sendo necessária a ratificação por 3/4 dos estados. Essa foi uma estratégia de Taft para manter a integridade do Partido Republicano, fortemente dividido em relação a essa matéria. Proporia a emenda e esperaria que ela não fosse aprovada no Congresso (quórum de 2/3 de cada Casa congressual) ou não fosse ratificada pelos Estados. Para surpresa dos conservadores, em fevereiro de 1913, o mínimo de 36 estados já tinha ratificado a Décima Sexta Emenda, tendo já um quórum de 42 estados em junho de 1913, levando a sua aprovação. É de ressaltar que a partir de março de 1913 os Democratas assumiram a presidência (Presidente Woodrow Wilson) e passaram a controlar ambas as Casas do Congresso (STEINMO, 1993, p. 75; BROWNLEE, 1996, p. 43-44).

Apesar do imposto de renda contar com apoio bipartidário (Democratas e Republicanos), o que permitiu que o Federal Income Tax (Underwood-Simmons Tariff Act) fosse aprovado pelo Congresso logo após a ratificação da Décima Sexta Emenda, aquele foi sancionado pelo Presidente em outubro/1913, com uma taxa normal de 1% para todos os indivíduos com renda acima de 3.000 dólares ou famílias acima de 4.000 dólares, e uma taxa adicional de 1% a 6% a incidir sobre rendimentos acima de 20.000 dólares. Na prática, apenas uma fração dos cidadãos foi alcançado em um primeiro momento pelo imposto de renda (2% das famílias mais ricas, deixando de fora toda a classe média). Porém, em 1916, o imposto de renda atingiu 362.000 indivíduos, com a alíquota máxima subindo para 15%, e, em 1918, alcançou 5.518.000 cidadãos, com a alíquota máxima alcançado 77%, o que ainda era uma pequena fração de uma força de trabalho de 42 milhões de cidadãos. Relevante ressaltar que também foi instituído nesta mesma oportunidade o imposto de renda sobre os lucros da empresa e, em menos de 10 anos, os dois impostos de renda, das pessoas físicas e das empresas, geravam mais receitas que todos os outros impostos combinados. Ainda, o Underwood-Simmons Tariff

Act também introduziu uma redução relevante nas alíquotas aduaneiras, o que seria compensado

pelo novo imposto de renda (STEINMO, 1993, p. 75-76; BROWNLEE, 1993, p. 44-46).

4.2.3. Estabelecimento da tributação das sucessões causa mortis (estate tax) e de