03 ECONOMIA SOLIDÁRIA: SABERES IDEOLÓGICOS, ALTERNATIVA E
5.1 THOMPSON: TEORIA SOCIAL CRÍTICA
5.1.1 Doxa e Tripé Analítico
A análise é parte fundamental em uma pesquisa pela importância no aprofundamento do objeto de estudo que proporciona, no caso desta, uma análise discursiva. Através do discurso, é possível reconhecer elementos intrínsecos que compõem as características dos sujeitos, como os processos de trabalho e os referenciais ideológicos. Dessa forma, para estudar as maneiras como o sujeito estabelece e desenvolve seus processos de trabalho, esta pesquisa se baseou no referencial metodológico desenvolvido por John B. Thompson (1995), que tem na teoria social crítica principal influência na preocupação pela criticidade. De tradição filosófica, embasada por Kant, Hegel e Marx, essa teoria tem o enfoque na experiência humana, vista como histórica, onde impacta na compreensão do passado como base para a estruturação do futuro, além de servir como fonte de recursos para velar o presente, pelas noções de tradições criadas. A partir de Thompson, esse conceito ganhou intensidade para a linguagem como função de participação do indivíduo no mundo, batizadas por ele de “hermenêuticas críticas”, formando assim sua base teórica e epistemológica, o que resultou na obra Ideologia e Cultura Moderna (1995), mote deste estudo.
Esse método de análise inicia por uma etapa básica chamada Interpretação da doxa12, ou “hermenêutica da vida cotidiana”, a natureza especial da investigação social onde se visa compreender como os sujeitos entendem a realidade ao seu redor, suas opiniões, crenças e compreensões no cotidiano, “um amplo espectro de ações e falas, imagens e textos, que são produzidos por sujeitos e reconhecidos por eles e outros como construtos significativos” (THOMPSON, 1995, p. 79). Tem um forte apelo em considerar o mundo sócio-histórico não somente um campo-objeto, mas sim um escopo que interpreta as formas simbólicas que acontecem, de acordo com as interpretações feitas a partir dos sentidos em circulação; essa etapa é muito importante para a pesquisa porque propõe o debate dialético através da análise entre ideologia e cotidiano no trabalho associado.
12 Sistema ou conjunto de juízos que uma sociedade elabora em um determinado momento histórico supondo tratar-se de uma verdade óbvia ou evidência natural, mas que para a filosofia não passa de crença ingênua, a ser superada para a obtenção do verdadeiro conhecimento.
O tripé metodológico de Thompson (1995) é chamado de hermenêutica da profundidade, composto por três fases distintas, mas que se complementam: análise sócio-histórica, que se interessa pelas condições sociais e históricas de produção, circulação e recepção das formas simbólicas; análise formal ou discursiva, que compreende um estudo voltado às construções das formas simbólicas, e (re) interpretação, que se constrói a partir dos resultados das duas primeiras etapas. Está esquematizado da seguinte maneira:
Quadro 1 Tripé metodológico de Thompson
Fonte: Thompson, 1995, p. 365
A análise sócio-histórica parte da premissa que as formas simbólicas são inventadas, circulando em contextos sociais, categorizadas pelo autor desta forma: situações no espaço e no tempo; campos de interação; instituições sociais e a estrutura social, estratos que identificam o desequilíbrio na distribuição e implicações de poder e conflitos, escopo dos modos de operação da ideologia, significados a partir de temas sociais como trabalho, classe, gênero, etc. As situações espaço-temporais correspondem aos períodos históricos, onde as formas simbólicas foram estruturadas, circuladas e entram em contato com os sujeitos, assim como as práticas reproduzidas e naturalizadas onde os próprios atores não têm consciência do seu opressor.
O nível que se entende por campos de interação está relacionado com o espaço de posições que determinam as relações e oportunidades que possam surgir nesse contexto social, como normas e estratégias disponíveis as pessoas, grupos e instituições sociais, que funcionariam como conjuntos relativamente estáveis de regras e recursos para com as respectivas relações sociais, devendo ser analisadas no seu crescimento ao longo do tempo. Por fim, a estrutura social é onde se devem considerar as diferenças estáveis que conformam os espaços de interação e as
instituições sociais. O importante desse nível são as diferenças coletivas de grupos e critérios como formas estáveis aos sujeitos, como poder.
Este estudo não tem a pretensão de desenvolver a metodologia proposta por Thompson em sua integralidade, porém, busca aproximações com as estruturas de análise sociais estabelecidas pelo autor para composição da análise macro da pesquisa. No caso da primeira etapa, aspecto sócio-histórico, pelo nível de complexidade, pode-se apontar que este estudo tem sim uma maior aproximação com o último nível apresentado, ou seja, a estrutura social, porque analisa separadamente os aspectos que caracterizam os sujeitos na sua vida cotidiana, inclusive os referenciais ideológicos.
A análise da estrutura social demanda, pois, um nível de reflexão mais teórico, pois exige que o analista proponha critérios, formule categorias e faça distinções que ajudem a organizar e iluminar a evidência das assimetrias e diferenças sistemáticas da vida social. A análise da formação e reprodução das classes sociais, ou a análise da divisão entre homens e mulheres e outras formas congêneres de assimetria e desigualdade são exemplos do que está ligado à análise da estrutura social nessa perspectiva. (THOMPSON, 1995. P. 367) Na segunda parte do tripé metodológico de Thompson reside a análise formal ou discursiva, que se ocupa das estruturas de organização das formas simbólicas nas mensagens cotidianas de como se mobilizam sentidos no sujeito. O intuito dessa etapa é compreender como as formas simbólicas movem os sentidos e quais são eles. No caso desta pesquisa, a análise discursiva (será tratado neste trabalho como “práticas discursivas”, conforme Spink (2004)) foi o método escolhido, combinando com a técnica das linhas narrativas (o que será desenvolvido no subcapítulo 5.2), buscando compreender os sentidos do discurso. Para o autor, o termo “discurso”, de um modo geral, se refere às instâncias de comunicação presentes, ou seja, casos concretos da comunicação do dia a dia, onde o objeto da análise discursiva é uma conversa entre amigos ou um programa de televisão, e não é um exemplo especialmente preparado com o objetivo de testar nossas intuições linguísticas, pois na verdade formam unidades que excedem os limites de uma única sentença, implicando em uma harmonização de frases ou expressões, combinadas de maneira específica para formar uma unidade linguística ordenada, sequenciada.
Das seis estruturas propostas pelo autor, que são: semiótica, conversação, sintática, narrativa, conteúdo e temática, esta pesquisa se aproxima da estrutura
narrativa, por se desenvolver como um discurso que narra uma sequência de acontecimentos, contando uma história, característica principal das linhas narrativas, mais uma vez, aproximando a teoria metodológica da técnica de análise escolhida. Estudando a estrutura narrativa, é possível identificar os efeitos narrativos específicos que operam dentro de uma narrativa própria, elucidando seu papel na história.
A história geralmente contém uma constelação de personagens e uma sucessão de eventos, combinados de uma maneira que apresente certa orientação, ou “enredo”. A sequência do enredo pode diferir da sucessão temporal dos acontecimentos, como quando a história é contada através de efeitos contra temporais, como os flashbacks (uma recordação, ou uma lembrança, narrada como se fosse presente). (THOMPSON, 1995, p. 373)
Finalmente, a última fase da metodologia de Thompson (1995) trata da interpretação e (re) interpretação, o momento de retomar os resultados das etapas anteriores por uma produção criativa e crítica. É quando acontece a profundidade analítica para a compreensão do mundo social e construção de saberes que possuam um potencial crítico, de sentido emancipatório. De um modo geral, o interesse da metodologia de Thompson (1995) é centrar-se naquelas relações em que o sentido opera a ideologia, assim como esse objeto de estudo. Para o desenvolvimento desta pesquisa, a metodologia sugere a superação das abordagens tradicionais de ideologia, procurando descobrir os sentidos ocultos dos fenômenos sociais na subjetividade. Assim, fazendo a interpretação de um fenômeno social, de uma mobilização de sentido, se estará interpretando algo que já foi interpretado pelas pessoas, é a interpretação da interpretação, ou uma reinterpretação, uma forma cíclica de análise social.