3. A MONTAÇÃO DO CORPO DRAG
3.3 Drag kings, mulheres drag e outras possibilidades
A performance drag, ao longo da última década, se expandiu e criou inúmeras variações e categorias de performance e de expressão. Drag queens barbadas, peludas, andróginas, drag kings (mulheres performando homens), etc., são figuras cada vez mais presentes na noite.
A mais emblemática dessas incorporações é a das mulheres como parte legítima dessa cultura. À performance drag realizada por mulheres se dá o nome faux queens ou mulheres drags. Elas se utilizam dos mesmos elementos da drag convencional: exacerbam os traços do rosto e a vestimenta e agregam o estilo jocoso típico da performance drag.
Sua incorporação, no entanto, vem acompanhada de certa resistência. Em grupos de discussão sobre RuPaul’s Drag Race no Facebook63, por exemplo, pode-se notar um constante questionamento sobre o fato de mulheres “poderem ou não” serem drag queens. Nota-se, sem dúvida, certa misoginia nessas afirmações, visto que os homens, mais uma vez, poderiam tomar para si o que desejam, no caso, os elementos “femininos” para compor uma performance, enquanto deslegitimam a utilização desses mesmos elementos por mulheres.
O argumento mais utilizado pelos participantes desses grupos é o de que a performance drag tem como base a exploração do polo oposto. Assim, só seriam “legítimas” as performances drag queen (performance feminina a partir de um corpo masculino) e drag king (performance masculina a partir de um corpo masculino). No entanto, como aponta Baker (1994), desde sempre a performance drag é atrelada ao exagero, a levar a afetação a outro nível que extrapole sua definição como homens ou mulheres.
Ou seja, a performance drag é um além-mulher, em que as mesmas possuem total possibilidade de criar essas ilusões, de denunciar opressões de gênero e de padrões estéticos esperados64. Além disso, grande parte das performances drag não são realizadas tendo como base a transformação no polo oposto do sistema de gênero. A androginia, inclusive, é uma das mais marcantes características dessa cultura.
Podemos, inclusive, entender a performance de uma mulher drag como ainda mais potente no âmbito desregulação das noções “fixas” de gênero na perspectiva que, muitas delas, podem se passar por homens travestidos. Ou seja, a ampliação da prática drag a partir de corpos de mulheres tem o potencial de transformar a visualidade drag ainda mais desestabilizadora, tendo em vista que o público dessas performances passaria a não compreender, à priori, a materialidade do corpo o qual a drag foi construída. Em entrevista ao G165, Fernanda Aquino, uma mulher drag lésbica, conta:
63 Uma das maiores comunidades sobre o programa no Brasil é o grupo This is not RuPaul’s best friends
race group com mais de 100 mil integrantes: [ http://bit.ly/2C8qw5B ].
64 É preciso destacar, no entanto, que a performance drag também pode servir como reafirmadora tanto
das categorias de gênero, quanto das expectativas estéticas a partir do momento em que busca uma representação fidedigna e realística sem um objetivo satírico, debochado ou irônico em sua composição.
Sua incorporação, no entanto, vem acompanhada de certa resistência. Em grupos de discussão sobre RuPaul’s Drag Race no Facebook63, por exemplo, pode-se notar um constante questionamento sobre o fato de mulheres “poderem ou não” serem drag queens. Nota-se, sem dúvida, certa misoginia nessas afirmações, visto que os homens, mais uma vez, poderiam tomar para si o que desejam, no caso, os elementos “femininos” para compor uma performance, enquanto deslegitimam a utilização desses mesmos elementos por mulheres.
O argumento mais utilizado pelos participantes desses grupos é o de que a performance drag tem como base a exploração do polo oposto. Assim, só seriam “legítimas” as performances drag queen (performance feminina a partir de um corpo masculino) e drag king (performance masculina a partir de um corpo masculino). No entanto, como aponta Baker (1994), desde sempre a performance drag é atrelada ao exagero, a levar a afetação a outro nível que extrapole sua definição como homens ou mulheres.
Ou seja, a performance drag é um além-mulher, em que as mesmas possuem total possibilidade de criar essas ilusões, de denunciar opressões de gênero e de padrões estéticos esperados64. Além disso, grande parte das performances drag não são realizadas tendo como base a transformação no polo oposto do sistema de gênero. A androginia, inclusive, é uma das mais marcantes características dessa cultura.
Podemos, inclusive, entender a performance de uma mulher drag como ainda mais potente no âmbito desregulação das noções “fixas” de gênero na perspectiva que, muitas delas, podem se passar por homens travestidos. Ou seja, a ampliação da prática drag a partir de corpos de mulheres tem o potencial de transformar a visualidade drag ainda mais desestabilizadora, tendo em vista que o público dessas performances passaria a não compreender, à priori, a materialidade do corpo o qual a drag foi construída. Em entrevista ao G165, Fernanda Aquino, uma mulher drag lésbica, conta:
63 Uma das maiores comunidades sobre o programa no Brasil é o grupo This is not RuPaul’s best friends
race group com mais de 100 mil integrantes: [ http://bit.ly/2C8qw5B ].
64 É preciso destacar, no entanto, que a performance drag também pode servir como reafirmadora tanto
das categorias de gênero, quanto das expectativas estéticas a partir do momento em que busca uma representação fidedigna e realística sem um objetivo satírico, debochado ou irônico em sua composição.
65 Disponível em: [ https://glo.bo/2xmGfwa ].
[...] quando comecei a sair montada, começou a dar um nó na cabeça da minha mãe. Porque ela já não estava lidando bem com o fato de eu ser lésbica, masculina, e aí, do nada, ela me vê performando uma feminilidade muito forte. Ela chegou a falar que eu ia começar a me prostituir, misturar as coisas. Mas hoje em dia ela entende que não tem a ver com gênero nem com a sexualidade.
Isso aponta o caráter libertário de sexualidade e gênero que essas performances podem proporcionar. A pluralidade dos corpos pelos quais se constroem os corpos drag contemporâneos podem potencializam a denúncia do caráter de construção de gênero artificial gerado pelo uso dos signos da feminilidade/masculinidade. Se mulheres e homens fizessem drag na mesma proporção, como definiríamos quem é o que? Se homens e mulheres fizerem drag kings, exaltando as formas tradicionalmente conhecidas como masculinas, como definir o gênero original daqueles indivíduos?
Na contramão desse pensamento, muitos participantes do grupo de Facebook citado criticavam as performances realizadas por mulheres utilizando como prerrogativa que a construção da mulher drag seria apenas um uso exagerado da maquiagem. Aumentar e criar um novo contorno para a boca, mudar a direção e o formato da sobrancelha, afinar o nariz, delinear as maçãs do rosto, etc. seriam meras aplicações em um rosto já “feminino”, sem “realmente” alteraram.
Contudo, ao fazerem essas modificações as mulheres passam a denunciar o exato mesmo que os homens em drag. Essas performances não servem apenas para realocar os universos masculino-feminino, mas também, como forma de denunciar a opressão sofrida pelas mulheres sobre as características esperadas em seus corpos. Se as mulheres recriam os contornos da boca, transbordando os lábios de maneira grotesca, elas podem criticar as imposições sobre a idealização dos lábios grandes e carnudos, da mesma forma como o afinamento do nariz através do uso da maquiagem pode demonstrar a crítica à idealização do nariz fino desejado.
Para além do comparativo entre essas performances, a drag protagonizada por mulheres também possui características próprias. Como visto na reportagem “Meet London’s Female Queens” da VICE66, as lady queens de Londres fazem o uso do drag
como forma de se libertarem não apenas dos estigmas femininos, como também dos homens. A caracterização como drag funciona como fator de repulsa masculina, pois afastam os homens que se confundem sobre o gênero e a sexualidade daqueles indivíduos. Essas performances vêm ganhando espaços nas festas temáticas e nas apresentações em boates por todo Brasil. Há, inclusive, um coletivo nacional composto apenas por mulheres intitulado Riot Queens67 que se denominam drag queens.
Ao final, seja como forem as interpretações, as mulheres, como sempre ocorreu no percurso histórico, demarcaram seu espaço e, independentemente das conceituações criadas ou dissonâncias de discurso, lá permanecerão. No século XXI discutir o que pode ou não fazer uma mulher, é caminhar na contramão do mundo.
É preciso lembrar, também, que o espaço da performance drag sempre foi dado às mulheres transexuais e travestis. Como abordado, a performance transformista no Brasil, era uma mescla dessas identidades sob um único termo. Da mesma maneira, as drag queens protagonistas das revoltas de Stonewall podem ser consideradas, para muitos, mulheres trans, tendo em vista que as delimitações desses universos eram escassas e as terminologias, inexistentes. Assim, o que se discute, na verdade, é a incorporação de mulheres cis, tendo em vista que as mulheres trans já fazem parte desse processo há bastante tempo.
Mesmo que menos explorada, há também performances drag englobam o sentido contrário do binarismo de gênero, ou seja, a performatividade de uma masculinidade exacerbada ou mesclada com elementos femininos. Esse universo é conhecido como drag kings, ou seja, mulheres que utilizam signos masculinos na construção de um corpo híbrido onde o pontapé inicial é o corpo feminino68. Um exemplo claro desse tipo de performance é o alter ego Jo Calderone de Lady Gaga, performado durante do VMA 2011.
Essa exploração da masculinidade drag nos corpos é algo cada vez mais presente. Figuras constantes na noite, as drag queens barbadas e peludas se proliferam. Um exemplo midiático conhecido é Conchita Wrust, vencedora do Eurovision Song Contest,
67 O grupo pode ser acompanhado em: [ http://bit.ly/2Dv99MG ]. 68 Um exemplo de drag king é Spikey Van Dykey: [ http://bit.ly/2C5zLPI ].
como forma de se libertarem não apenas dos estigmas femininos, como também dos homens. A caracterização como drag funciona como fator de repulsa masculina, pois afastam os homens que se confundem sobre o gênero e a sexualidade daqueles indivíduos. Essas performances vêm ganhando espaços nas festas temáticas e nas apresentações em boates por todo Brasil. Há, inclusive, um coletivo nacional composto apenas por mulheres intitulado Riot Queens67 que se denominam drag queens.
Ao final, seja como forem as interpretações, as mulheres, como sempre ocorreu no percurso histórico, demarcaram seu espaço e, independentemente das conceituações criadas ou dissonâncias de discurso, lá permanecerão. No século XXI discutir o que pode ou não fazer uma mulher, é caminhar na contramão do mundo.
É preciso lembrar, também, que o espaço da performance drag sempre foi dado às mulheres transexuais e travestis. Como abordado, a performance transformista no Brasil, era uma mescla dessas identidades sob um único termo. Da mesma maneira, as drag queens protagonistas das revoltas de Stonewall podem ser consideradas, para muitos, mulheres trans, tendo em vista que as delimitações desses universos eram escassas e as terminologias, inexistentes. Assim, o que se discute, na verdade, é a incorporação de mulheres cis, tendo em vista que as mulheres trans já fazem parte desse processo há bastante tempo.
Mesmo que menos explorada, há também performances drag englobam o sentido contrário do binarismo de gênero, ou seja, a performatividade de uma masculinidade exacerbada ou mesclada com elementos femininos. Esse universo é conhecido como drag kings, ou seja, mulheres que utilizam signos masculinos na construção de um corpo híbrido onde o pontapé inicial é o corpo feminino68. Um exemplo claro desse tipo de performance é o alter ego Jo Calderone de Lady Gaga, performado durante do VMA 2011.
Essa exploração da masculinidade drag nos corpos é algo cada vez mais presente. Figuras constantes na noite, as drag queens barbadas e peludas se proliferam. Um exemplo midiático conhecido é Conchita Wrust, vencedora do Eurovision Song Contest,
67 O grupo pode ser acompanhado em: [ http://bit.ly/2Dv99MG ]. 68 Um exemplo de drag king é Spikey Van Dykey: [ http://bit.ly/2C5zLPI ].
uma competição musical de países Europeus, em 2014. Ao som da música Rise like a Phoenix, Conchita utilizou um vestido longo e vermelho, ao mesmo tempo que uma maquiagem aos olhos e também na barba, para escurece-la69.
Há, inclusive, um programa protagonizado apenas por visualidades drags mais contestadoras, o Dragula70. Nele, as mais diversas corporeidades se encontram presentes e apresentam de maneira nítida as mesclas de corpos masculinos e femininos na montação drag. Em Dragula, isso é elevado à potência com apresentações escatológicas e bizarras, já que o programa se propõe a mistura da arte drag com os filmes de horror e a ficção científica.
Como aponta Bragança (2018), mesmo dentro da cena drag convencional, ou seja, das drag queens performadas por homens LGBTs, a cultura drag se modificou. Como falado, a nova cena musical acabou transformando a figura dos DJs como central na noite, relegando as drags para espaços periféricos e marginalizados por todo país. Como forma de adaptação e sobrevivência, a cena drag jovem vem se realocando também para o espaço dos DJs.
Em uma visão geral, a corporalidade drag e os estímulos que elas criam em seus variados públicos adequam essas performances dentro de três categorias teóricas: o camp, o queer – até então constantemente explorados nos trabalhos que abordam essa temática – e a contrassexualidade. Essas categorias ajudam a compreender que a construção do corpo drag não se trata apenas de um recurso estético, mas também político. Vindo do pensamento estadunidense e europeu, essas características drag acompanham, até certo ponto, até a importação dessa estética nos anos 1990 e também no final da década de 2000.