CAPÍTULO 2 – MEDIÇÃO DE DESEMPENHO
2.5. Drivers e Killers do desempenho
A medição de desempenho pode ser funcional ou disfuncional para organizações. Ela pode ajudar a organização a definir e atingir os seus objetivos, alinhar comportamentos e atitudes, e ter um impacto positivo sobre o desempenho organizacional. No entanto, também é criticada por encorajar comportamentos perversos ultrapassados, sufocando a inovação e aprendizagem, e tendo pouco efeito sobre os processos de tomada de decisão, em casos específicos (MICHELI e MANZONI, 2010).
O projeto de um SMD e a definição de seus papéis são fatores fundamentais que determinam seu sucesso e impacto no desempenho do negócio. Além disso, considerar cuidadosamente as características e funções dos gestores na modelagem do sistema traz um contributo substancial para a realização dos objetivos das organizações.
Segundo Micheli e Manzoni (2010), os tipos de comportamento promovidos pelos SMD são principalmente determinados pelo uso do sistema, particularmente se é adotado para fins de controle ou aprendizagem. As organizações devem considerar seu SMD como um meio de promoção e alinhamento de uma estratégia existente, mas também de capacitação e apoio à adaptação contínua da estratégia.
Kaplan e Norton (1996) utilizaram o termo “drivers” (condutores) de desempenho no BSC, referindo-se aos fatores que atuam como condutores para a melhoria da performance. As variáveis que influenciam negativamente na performance dos processos, por outro lado, são denominadas como “killers” (assassinos) de desempenho por Tsang (1998; 2000), e Parida e Kumar (2009).
Como discutido por Markeset e Kumar (2005), os assassinos de desempenho são fatores que reduzem o desempenho, sendo ou não fortes o suficiente para parar um processo, como fatores relacionados à disponibilidade de equipamentos críticos, saúde, segurança e meio ambiente; gargalos na capacidade, administração e inventário; incompetência; falta de ferramentas e instalações adequadas; procedimentos, informações e sistemas de fluxo de comunicação inadequados e etc.
Parida e Kumar (2006) discutiram uma série de killers do desempenho, como indisponibilidade de recursos, materiais, peças sobressalentes, pessoal, suporte de TI, apoio a projetos, tempo, etc. Segundo as estratégias de gestão da manutenção, tarefas de manutenção excessivas ou manutenções corretivas não otimizadas também são
considerados como killers do desempenho; enquanto que as atividades de prevenção ou de previsão podem ser denominadas como drivers, de acordo com sua aplicação e resultados alcançados.
2.5.1. Barreiras à medição
Neely e Bourne (2000) exploram as principais razões para a falha dos sistemas de medição: projeto inadequado e dificuldades de implementação. Os autores sugerem que as empresas devem começar o processo de implementação de um SMD com um “mapa do sucesso” organizacional, um diagrama de causa e efeito que mostra como a empresa opera (Figura 2.12). Três causas principais de falhas na implementação de SMD são observadas: causas políticas, causas relacionadas à infraestrutura, e causas relacionadas ao foco.
Figura 2.12 - Exemplo de um mapa de sucesso.
Fonte: Neely e Bourne (2000).
Kennerley e Neely (2002) identificaram os fatores que afetam a evolução do SMD, conforme mostra a Figura 2.13. A pesquisa destaca que um SMD bem concebido deve ser acompanhado por um ciclo evolutivo com gatilhos claros e explícitos, relacionados a: (a) processo – existência de um processo de revisão, modificação e implantação de medidas; (b) pessoas – a disponibilidade das habilidades necessárias para usar, refletir sobre, modificar e implantar medidas; (c) infraestrutura – disponibilidade de sistemas flexíveis que permitam a coleta, análise e comunicação de dados adequados; (d) cultura – existência de uma cultura de medição no interior da organização para garantir
que o valor de medição, e a importância de manter as medidas pertinentes e adequadas, sejam apreciados.
Figura 2.13 - Framework dos fatores que afetam a evolução dos SMD.
Fonte: Kennerley e Neely (2002).
Bourne et al. (2002), por sua vez, listam os fatores que apoiam ou bloqueiam o progresso dos SMD. Os fatores que apoiam o progresso, segundo o autor, são: comprometimento da alta direção para o projeto; esforço (trade-off entre esforços empregados no processo e benefícios percebidos); facilitação – relaciona-se com o apoio prestado pelos facilitadores internos e externos. Por outro lado, os fatores de bloqueio à implementação das medidas são: esforço necessário demasiado; a facilidade de acesso a dados através dos sistemas de TI; as consequências da medição e a ultrapassagem do processo de implementação por novas iniciativas da gestão de topo do negócio.
Em organizações que possuem cultura voltada aos valores de flexibilidade (espontaneidade, mudança, adaptabilidade, criatividade e inovação), segundo Henri (2006), ocorre um uso mais abrangente do SMD do que em organizações mais voltadas a valores de controle (estabilidade, previsibilidade, conformidade); principalmente no que concerne às atividades de suporte a decisões estratégicas, priorização e legitimação de ações. Esse fato relaciona-se à compreensão resultante da pesquisa de Hall (2008), que identificou que a relação entre a melhoria dos resultados e o uso do SMD pelos gestores
se dá por meio de duas variáveis: empowerment, sentimento de responsabilidade e comprometimento; e esclarecimento de papéis, definição clara do impacto das ações na cadeia de processos e das expectativas do desempenho.
O Quadro 2.1 a seguir exibe os pecados mortais da medição de desempenho, segundo Hammer (2007), e as formas de evitá-los.
Quadro 2.1 - Os 7 pecados da medição de desempenho e como evitá-los.
Pecado Descrição Possíveis Formas de evitá-los
Vaidade As medições são escolhidas de tal maneira que elas vão inevitavelmente fazer a organização, as pessoas e especialmente os gerentes parecerem bons.
Não definir bônus e outras recompensas para os funcionários com base nos resultados das medidas de desempenho. Manter as necessidades do cliente (interno
ou externo) em mente.
Ser crítico ao identificar as fraquezas da organização.
Provincianismo Fronteiras organizacionais e preocupações relacionadas às medidas de desempenho.
Ser cuidadoso sobre como as métricas de desempenho podem afetar outras áreas do negócio.
Narcisismo Modo de medição baseado no próprio ponto de vista, em vez de a partir da perspectiva do cliente.
Foco na aquisição de informações detalhadas sobre o que realmente importa para os clientes e no cumprimento das suas expectativas.
Preguiça Assumir que se sabe o que é importante medir sem se esforçar em pensar adequadamente.
Não tirar conclusões precipitadas ou medir o que é fácil de medir.
Se esforçar em conhecer o que é verdadeiramente importante medir. Mesquinhez Medir apenas uma pequena
parte do que importa.
Utilizar métricas que capturam a essência do que precisa ser medido.
Utilizar métricas de forma sistemática. Inanidade Implementar métricas sem
pensar em suas consequências para o comportamento humano e para o desempenho da empresa.
Analisar completamente os possíveis efeitos de todas as métricas escolhidas antes de serem implementadas.
Frivolidade Não priorização da medição. Iniciar o programa de medição de desempenho com real intenção e compromisso.
Fonte: Hammer (2007).
Para que os indicadores de desempenho não sejam utilizados de forma negativa, isto é: estimulando atitudes que possam defasar a imagem da organização na ótica dos clientes, por exemplo, ao invés de fomentar a melhoria da performance, é necessário
considerar todos esses fatores no momento de definição das métricas e do uso que o SMD terá no contexto da organização.
Os drivers e killers devem ser investigados e considerados no planejamento do sistema, principalmente no que concerne à tomada de decisão. Para definir quais são eles, deve-se questionar e procurar pelos fatores que melhoram ou pioram o desempenho global (condicionantes do desempenho), e os aspectos subjacentes a esses fatores (relações de causa e efeito). Já as barreiras à medição são relevantes no projeto do sistema, principalmente na composição de sua estrutura e definição do uso.