2 Digital Rights Management
2.4 DRM e pirataria
Ainda que o DRM seja uma ferramenta desenvolvida para evitar a pirataria, não há evidências sobre a sua eficácia nesse propósito.136 Na verdade, há indícios de que a ausência de DRM em arquivos digitais não tem impacto negativo nesse ponto: tanto é assim que alguns agentes econômicos têm abandonado o seu uso. No mercado de livros digitais, por exemplo, a editora especializada em obras ficção científica Tor declarou não ter visto um aumento da pirataria em suas obras após a remoção do DRM de seus livros em 2012 (CRISP, 2013). A editora não está sozinha no abandono aos sistemas de DRM: iniciativas semelhantes foram tomadas também na indústria dos quadrinhos (LAWSON, 2013) e por autores como Paulo Coelho e J.K. Rowling (SVENSSON, 2012). É de se supor que, se a comercialização de livros digitais sem a proteção de DRM tivesse levado ao aumento da pirataria e à queda das vendas desses agentes, tais decisões seriam revistas.
Similarmente, muitas editoras europeias também decidiram não incorporar sistemas de DRM em seus livros, ou passaram a adotar como proteção outros componentes tecnológicos com menor impacto no acesso aos arquivos. Por exemplo, a maior editora holandesa recentemente passou a utilizar marca d’água137 em seus livros em vez de sistemas de DRM. Esse também é o método adotado em 65% dos e-books disponíveis na Áustria e em 42% na Itália (em comparação com apenas 35% de livros digitais protegidos com DRM em ambos os países). A marca d’água o método preferido também na Hungria. Na Suécia, por sua vez, praticamente todo o mercado de livros digitais é livre de DRM (ROSENBLATT, 2013b). Ainda que os mercados citados sejam pequenos, essas iniciativas indicam a viabilidade de um modelo menos restritivo de proteção dos direitos autorais no mundo digital.
136 No que diz respeito às evidências dos impactos negativos da pirataria, a maior parte das pesquisas aponta que
a pirataria resulta em perdas econômicas. Para um panorama das pesquisas sobre esse aspecto, ver SMITH e TELANG (2012).
137 A marca d’água digital (watermarking) permite que os metadados sejam embutidos no arquivo de forma
permanente, mas não impede diretamente a cópia do arquivo pela sua estrutura (ROSENBLATT; TRIPPE; MOONEY, 2001, p. 98-102). Um tipo comum de marca d’água em livros digitais é a inserção do nome do usuário e até mesmo dos seus dados bancários no arquivo digital, para dissuadi-lo da distribuição.
Além disso, um relatório sobre as vendas da Amazon mostra que quase 100% dos livros digitais comercializados pelas Big Five são protegidos por DRM, em contraste com apenas 50% dos e-books das editoras independentes. Neste contexto, observou-se que os títulos das editoras independentes sem DRM venderam, em média, o dobro de cópias do que aqueles com DRM. Ainda, uma comparação das vendas diárias dos autores mais vendidos mostrou que a correlação entre falta de DRM e maior número de livros digitais vendidos está presente em todas as faixas de preço (AUTHOR EARNINGS, 2014).
Uma possível explicação para esse quadro é que as limitações impostas pelos sistemas de DRM diminuem o valor que o consumidor atribui ao conteúdo digital.138 Alguns usuários sentem-se punidos ao adquirir um arquivo digital protegido por DRM, uma vez que estão sujeitos a obstáculos a usos que consideram legítimos, como o acesso em diferentes plataformas, ao passo que arquivos pirateados, livres de DRM, permitem maior flexibilidade (TRIVEDI, 2009, p. 934). Tendo em vista que sites que distribuem, de forma ilegal, arquivos digitais e ferramentas para remoção de sistemas de DRM estão a apenas um clique de distância,139 é de se supor que os usuários que estão sujeitos às restrições excessivas do DRM são justamente aqueles que não querem praticar nenhuma atividade ilegal.
De qualquer forma, os dados das vendas da Amazon não são tão surpreendentes para aqueles familiarizados com os impactos do DRM na indústria da música. Especificamente, uma pesquisa mostra que a o abandono do uso de DRM nos arquivos de música digital em 2009 aumentou as vendas em 10%, sendo esse efeito mais acentuado em álbuns menos populares (ZHANG, 2013). Outra análise indica que, mesmo com o abandono de DRM, o crescimento nas vendas de música digital se manteve na mesma taxa dos anos anteriores, o que sugere que a falta de proteção de DRM não provocou uma transição da aquisição de conteúdo para a pirataria (ROSENBLATT, 2014). Ainda, modelos econômicos mostram que
138 Burk atenta para um ponto positivo dessa situação, que é o fato de que produtores de conteúdo dispostos a
distribuir arquivos sem DRM, ou com proteções menos intrusivas, podem encontrar maior espaço no mercado (BURK, 2005, p. 555). Contudo, uma competição por arquivos digitais protegidos de forma mais conveniente para o usuário só é possível em um ambiente com transparência sobre as limitações impostas pelos diferentes sistemas de DRM. Além disso, a dinâmica concorrencial do mercado, examinada com mais detalhes no Capítulo 3, também pode limitar a possibilidade de entrada de competidores dispostos a flexibilizar as restrições impostas pelos sistemas de DRM.
139 Este exemplo ilustra como as travas digitais podem ser inócuas em combater a pirataria: “BigChampagne is a
media-metrics company that produces usage statistics for file-sharing systems. Back when iTunes required digital locks on all its music, the BigChampagne folks decided to time how long it took for a song to go from iTunes to the file-sharing underground. They chose a song that had an early, iTunes-only release (to exclude songs that were being ripped from unlocked CDs), and measured away. They reported that the net time between the release of a song with a digital lock and the appearance of the same song, unlocked, on file-sharing services, was three minutes. This 180-second gap represented the maximum time that a potential customer would have to wait before he could get a free copy of the song in question, complete with all the freedoms and permissions that had been locked out by iTunes.” (DOCTOROW, 2014c, p. 39).
a pirataria pode até mesmo diminuir com o abandono de DRM (VERNIK; PUROHIT; DESAI, 2011).
A generalização dos resultados de outras indústrias para o mercado de livros tem limites, é claro. Por exemplo, o consumo de e-books é diferente do consumo de música, especialmente no que diz respeito ao tempo que o consumo requer. Além disso, os músicos podem contar com outras fontes de renda, como concertos, enquanto o lucro de um autor deriva principalmente da vendas de livros. No entanto, essas descobertas ainda são valiosas para nos ajudar a analisar se os impactos negativos do DRM podem ser compensados pela efetividade no cumprimento de sua meta.