2 O PROCESSO ATUAL DE GESTÃO: AVANÇOS E
2.4 VARIAVEIS QUE INTERFEREM CONTRA A ESCOLA
2.4.1 A droga: um comércio em rede
Embora saibamos que as condições apresentadas formam a grande parte da cidade, que de um modo geral é invisível ao poder público, uma pesquisa realizada em 2002, em todas as capitais brasileiras, sobre a violência nas escolas destaca dados comparativos da situação da capital baiana em relação aos outros estados.
De acordo com Abramovay e Rua (2002, p. 97), os membros do corpo técnico- pedagógico pesquisado informaram que 76% consideram a localização de sua escola ótima ou boa (índice de satisfação menor em relação à média nacional) e que 24% consideraram ruim ou regular (índice mais elevado de insatisfação).
Com relação aos índices de atropelamento de alunos em locais próximos da escola, Bahia, Alagoas e São Paulo empatam em segundo lugar com 19%, tendo o Rio Grande do
Sul ficado na frente com 20%. (ABRAMOVAY; RUA, 2002) Isso revela uma absoluta falta de planejamento.
De acordo com os dados da pesquisa citada, os entornos das escolas não são locais seguros. Uma das razões é a presença do tráfico de drogas.
Na pesquisa realizada por Gomes (2005) em todos os distritos sanitários da cidade e com 1394 alunos do ensino fundamental e médio, demonstrou-se a existência de um comércio extremamente organizado de drogas dentro das escolas. Além disso, tanto a compra quanto a venda estão presentes entre crianças de diversas idades, que conhecem, já utilizaram ou já viram colegas utilizando a droga.
Candau (2005, p. 144), em consonância com Gomes (2005), discute a presença do tráfico de drogas nos morros cariocas e a influência destes nas escolas da região. Segundo a autora, a respeito do narcotráfico:
Trata-se de uma realidade cada vez mais presente, particularmente nas escolas públicas situadas em zonas periféricas das grandes cidades, consideradas de risco do ponto de vista social. Trata-se de um tema extremamente difícil que coloca, muitas vezes, a direção das escolas e o corpo docente em situação-limite, em que o medo, o sentimento de impotência e o desânimo imperam.
O tráfico de drogas atualmente está presente nas zonas periféricas e centrais das escolas públicas e privadas, no entanto, nas escolas periféricas, que têm menos acesso a um controle efetivo do Estado, por falta de serviços básicos ou pelas próprias fragilidades do corpo docente e da equipe gestora, o tráfico tende a ter uma influência maior.
Anteriormente os traficantes esperavam os alunos na porta da escola; atualmente o traficante entra na escola, e no espaço que deveria servir para a formação da cidadania passa a ocorrer o aliciamento de menores, inicialmente como usuários e depois como revendedores dentro da escola.
Abramovay e Rua (2002), citando Guimarães (1998), dizem que esse é o tipo de manifestação da violência que é trazida de fora para dentro das escolas, tornando-as sitiadas. O clima de insegurança nos arredores de determinadas escolas tem como agravante a formação de gangues, as quais vão dos grupos de amigos, turmas de bairro, de quadra, até o grupo de bandidos (traficantes, assaltantes e ladrões), que, em muitos casos, contam com alunos como seus membros.
No entanto, as escolas não sabem como enfrentar esse problema, pois não cabe aos profissionais da educação o enfrentamento do tráfico de drogas, além disso, a omissão do Estado com relação à diminuição da pobreza e das desigualdades, a falta de uma política para a juventude que se efetivem no cotidiano da escola, o descrédito na instituição escolar como formadora de sujeitos críticos e qualificados para uma sociedade que dá ênfase à qualificação colocam a escola pública em meio a situação de conflito.
Guimarães (1998) citado por Candau (2005, p. 145), discutindo a influência do narcotráfico, questiona
Se o Estado e a sociedade serão capazes do esforço necessário para alçar esses jovens às condições de cidadania compatíveis com as exigências atuais, considerando toda a complexidade de que se reveste esse processo em sociedades em que coexistem diferentes lógicas sociais [...] fazendo da escola uma das instâncias fundamentais para a instauração desse processo ou, ao contrário, se multiplicar-se-ão as práticas sociais voltadas para a consolidação de uma juventude cada vez mais segregada, socializada de forma sistemática ou intermitente por acontecimentos e grupos sociais particulares, como as quadrilhas, as seitas religiosas, os bailes, os DJs, cuja ação – através de gincanas e, mais recentemente, de programas televisivos – busca instituir formas de contenção e redirecionamento das práticas de grupos que fazem do exercício da violência um estilo de vida.
No âmbito da escola dificilmente os profissionais da educação poderão enfrentar o problema do tráfico de drogas sozinhos, sem que haja uma efetiva participação do Estado por meio de políticas de valorização do magistério, pois os professores e diretores encontram-se desestimulados, tendo que enfrentar um problema para o qual não foram preparados. É necessário que exista uma preocupação de toda sociedade e do Estado com o futuro dos jovens que hoje estão nas escolas, e isso necessariamente passa pela re-qualificação dos professores, dos gestores e de uma reestruturação física e técnica das unidades de ensino.
As drogas ilícitas compõem parte dos problemas enfrentados nas escolas, pois existem as drogas lícitas como o álcool, cujo consumo cresce em larga escala entre os jovens, sendo tão danosas quanto as ilícitas, porém de difícil enfrentamento, pois os jovens têm acesso à bebida dentro de suas casas.
Pesquisa realizada pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD) (2006) na capital paulista aponta que a droga que se dissemina cada vez em maior escala entre
os jovens é o álcool. Muitas vezes induzidos pelos pais e pelos amigos, os jovens começam a beber com 12 anos de idade, segundo dados da pesquisa6.
O álcool é visto como um rito de passagem entre os jovens; é preciso beber muito e ter relações sexuais para ser visto como adulto. Essa construção cultural e o fato de o álcool ser uma droga lícita contribuem para a venda de bebida a menores, mesmo sendo proibido por lei. Observa-se, porém, no entorno das escolas públicas e particulares de nossa cidade, a existência de bares vendendo bebidas alcoólicas, em visível desrespeito a resolução municipal que diz que estabelecimentos comerciais que vendem bebidas alcoólicas devem guardar uma distância mínima de 500 metros das instituições escolares.
Segundo Mary Castro e Miriam Abramovay (2002, p. 170)
[...] o consumo de drogas lícitas, especialmente o álcool, em alguns casos, inicia-se na própria família. Por ser socialmente aceito, o álcool é incorporado como elemento de sociabilidade em todas as camadas sociais. Encontram-se vários casos de alcoolismo de pais, irmãos ou parentes dos jovens, em geral.
Assim, as drogas lícitas ou ilícitas devem ser enfrentadas na escola, por meio de ações conjuntas; de um lado, por meio de campanhas promovidas pela equipe gestora, com o objetivo de sensibilizar os jovens para os riscos do uso de drogas; de outro, o Estado, no seu desenvolvimento de políticas que valorizem o magistério, de políticas para a juventude e de uma maior proximidade por meios de serviços com os bairros pobres.