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2 DESCREVENDO AS INFECÇÕES RELACIONADAS À ASSISTÊNCIA À SAÚDE (IRAS)

2.3 Drogas antimicrobianas comumente utilizadas

A escolha terapêutica adequada tem fundamental importância para o sucesso do tratamento dos pacientes, logo, o conhecimento dos princípios gerais que norteiam o uso de antimicrobianos, assim como das propriedades e características básicas dessa classe de drogas, são essenciais para a melhora e possível cura dos doentes. Em contrapartida, o mau uso desses medicamentos pode ter efeito contrário impactando negativamente a saúde dos pacientes e mesmo do ambiente, quando descartados sem critério.

Os antimicrobianos correspondem a uma classe de fármacos que é consumida frequentemente em hospitais e na comunidade. Entretanto, são os únicos agentes farmacológicos que não afetam somente aos pacientes que os utilizam, mas também interferem de forma significativa no ambiente por alteração da ecologia microbiana. Muitos são os problemas relacionados à qualidade do uso clínico dos antimicrobianos. Dentre estes ressaltamos que diversos estudos têm demonstrado que aproximadamente 50% das

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prescrições médicas de antimicrobianos são feitas de forma inadequada além disso, o uso excessivo destes fármacos não apenas está associado à emergência e seleção de cepas de bactérias resistentes, mas também a eventos adversos, elevação dos custos e das morbimortalidades (AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA, 2017a).

O tratamento com antimicrobianos é indicado quando existem dados clínicos que evidenciem infecção (picos febris, presença de secreção purulenta), dados laboratoriais (hemograma com aumento dos leucócitos) e exames de imagem (RX sugestivo de infecção). A suspeita clinica pode ou não ser confirmada com cultura positiva para microrganismos, preferivelmente isolados de materiais considerados estéreis. Definido sinais e sintomas sugestivos de infecção, é necessária a procura de foco provável. A comprovação do sítio de infecção auxiliará na escolha do antimicrobiano empírico baseado na colonização habitual, patógenos mais comuns e penetração do antibiótico no sítio afetado (MOTA et al., 2010).

Observamos que a escolha de um antimicrobiano para o tratamento de qualquer doença não é uma tarefa fácil, existe a necessidade do diagnóstico clínico, laboratorial, conhecimento farmacológico, e sobre os agentes causadores da patologia. Portanto, essa escolha deve ser feita por profissionais capacitados e qualificados, o que representa um desafio e exige seriedade e atenção tanto de profissionais médicos quanto de farmacêuticos.

De acordo com Anvisa (2017a), para que o antimicrobiano exerça sua atividade, primeiramente o fármaco deverá atingir uma concentração ideal no local da infecção, ser capaz de atravessar, de forma passiva ou ativa, a parede celular, apresentar afinidade pelo sítio de ligação no interior da bactéria e permanecer tempo suficiente para exercer seu efeito inibitório, como esquematizado na Figura 1.

Figura 1 - Fatores relacionados à ação dos antimicrobianos

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Os antibióticos são classificados de acordo com o seu mecanismo de ação. Existem os bactericidas que destroem as bactérias, e os antibióticos bacteriostáticos que evitam apenas que os microrganismos se multipliquem, permitindo que o organismo elimine as bactérias resistentes. Para a maioria das infecções, ambos os tipos parecem igualmente eficazes, porém, se o sistema imune do paciente está enfraquecido ou a pessoa já apresentou infecção grave, como uma endocardite bacteriana ou uma meningite, um antibiótico bactericida costuma ser mais eficaz (RANG; DALE; RITTER; FLOWER; HENDERSON, 2016).

Segundo os mesmos autores, essa classe de fármacos foi inicialmente definida como substâncias químicas sintetizadas por várias espécies de microrganismos, vegetais e animais, que dificultam o crescimento de outros. Com o advento da indústria farmacêutica a produção de antibióticos de origem semi-sintética e sintética foi facilitada. Tais drogas diferem umas das outras quanto às propriedades químicas, seus espectros e mecanismos de ação e são classificados quimicamente como: derivados de aminoácidos, de açúcares, de acetatos, propionatos, entre outros. O Quadro 2 mostra, simplificadamente, os mecanismos de ação dos fármacos.

Quadro 2 – Mecanismos de ação, simplificados, de importantes fármacos antibacterianos e antifúngicos

Mecanismo de ação Fármacos utilizados

Inibição da síntese de parece celular

1 . Atividade antibacteriana Inibição das ligações cruzadas do peptideoglicano

Inibição de outras etapas da síntese do pepitideoglicano

2 . Atividade antifúngica

Inibição da síntese de β –glicano

Penicilinas, cefalosporinas, imipenem, aztreonam, vancomicina Cicloserina, bacitracina

Caspofugina

Inibição da síntese proteica

Ação sobre a subunidade ribossomal 50s Ação sobre a subunidade ribossomal 30s

Cloranfenicol, eritromicina, clindamicina, linezolide Tetraciclinas e aminoglicosídeos

Inibição da síntese de ácido nucléico

Inibição da síntese de nucleotídeos Inibição da síntese de DNA Inibição da síntese de mRNA

Sulfonamidas, trimetoprim Quinolonas

Rifampina

Alteração da função de membrana celular

Atividade antibacteriana

Atividade antifúngica Polimixina, daptomicina Anfotericina B, nistatina, cetoconazol

Outros mecanismos de ação

1 – Atividade antibacteriana

2 – Atividade antifúngica Isoniaziada, metronidazol, etambutol, pirazinamida Griseofulvina, pentamidina Fonte: Levinson (2010).

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Neste cenário destacamos o profissional farmacêutico. Seus serviços têm fundamental importância no combate ao uso irracional e indiscriminado de antibióticos, este faz parte da cadeia que liga o usuário ao medicamento. Conscientizando a população quanto ao uso correto de medicamentos, e em especial esta classe que tem seu uso controlado, e possui como uma de suas consequências à resistência bacteriana, quando usado indevidamente. Estes profissionais também devem cumprir o código de ética que rege a profissão, minimizando assim os problemas causados pelo uso incorreto de medicamentos e suas consequências (ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DE SAÚDE, 2011).

Em maio de 2011 a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) publicou, na edição do Diário Oficial da União a Resolução da diretoria colegiada (RDC) n° 20, uma nova norma que trata do controle da venda de antimicrobianos e acrescentando os serviços prestados pelos farmacêuticos na dispensação desses produtos, não só nas farmácias e drogarias particulares, como previa a versão original da Resolução, mas também nas farmácias públicas inclusive hospitalares (AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA, 2011).

A seleção dos medicamentos constitui o eixo central da assistência farmacêutica através de uma relação padronizada de medicamentos. Esta relação visa proporcionar ganhos terapêuticos, como a promoção do uso racional e a melhoria da resolutividade terapêutica, e econômicos, como a racionalização dos custos. A seleção pressupõe a instituição de uma Comissão de Farmácia e Terapêutica, com caráter multidisciplinar, composta por médicos, farmacêuticos, enfermeiros, farmacologistas clínicos, fármaco epidemiologistas e outros (ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DE SAÚDE, 2011).