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Capítulo 3: Resultados e Discussão: com a palavra, os estudantes

3. Caracterização dos universos pesquisados

3.3 Com a palavra, os estudantes

3.3.7 Drogas, Sexualidade e AIDS

Para além dos estereótipos associados ao usuário de drogas, foram abordadas as visões dos estudantes sobre práticas sexuais não hegemônicas. No que diz respeito às relações homossexuais, 70% dos entrevistados apresentou uma postura condenatória, referindo achar: “nojento”, “horrível”, “estranho”, “vergonhoso”, “vai acabar com a sociedade”. Esse grupo se pulverizou nas três unidades de ensino, mas predominou entre os alunos do segmento fundamental. Desse grupo, 30% dos jovens justificaram a sua reprovação a partir de crenças religiosas:

Estudante: Ah, é um absurdo! Porque Deus fez o homem e a mulher pra ser os dois, um pro outro, e não a mulher para a mulher e não o homem pro homem(E3, mulher, 16 anos).

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Entrevistadora: E como é que é isso pra você, já que você tinha um irmão que era “travesti”?

Estudante: Muito estranho! Muito! Eu perguntava pra ele se... que prazer daria pra ele fazer isso com o mesmo sexo dele? Não tenho noção de como é... Ele ria!

A maioria dos jovens refletiu sobre as possíveis origens e motivações para essa prática. Estes se dividiram entre explicações ancoradas em razões inatas ou em razões construídas. O primeiro grupo mencionou que as pessoas que escolhem parceiros do mesmo sexo já nascem assim, recorrendo a uma possível explicação genética e biológica: “é algo que já vem com a pessoa”. Para esses jovens a causa orgânica não diluiu a responsabilização individual e muitos enxergam o homossexual como uma pessoa que foge da normalidade, entendendo assim, as práticas homossexuais como um desvio, algo que se diferencia da “ordem natural das coisas”. Muitos alunos também recorreram ao discurso religioso para amparar suas reflexões julgando que essas práticas transgridem não só as leis biológicas como as religiosas. Outros usaram expressões como “natural”, “natureza”, “não natural” o que nos remete a pensar na existência de um modelo rígido de normalidade. Ou seja, do que está relacionado a um padrão de comportamento talvez a mais tempo sedimentado e melhor aceito socialmente.

Os estudantes que se remeteram a razões construídas acreditam que a homossexualidade é decorrente do meio social: está relacionada à educação familiar, é entendida como uma opção do sujeito, entre outros. Exemplificando a partir de relatos, alguns entrevistados mencionaram que certas pessoas podem fazer essa opção após ter se decepcionado com parceiros do sexo oposto. Três estudantes do gênero masculino acreditam que a mídia pode vir a influenciar a escolha por parceiros do mesmo sexo:

Estudante: (...) aí na “TV” a Preta Gil diz que é bi, o Leão Lobo é gay, essas pessoas que são formadoras de opinião, pessoas bonitas, ricas, elas influenciam as outras! Tem pessoas que se identificam muito com artistas, por exemplo, a Ana Carolina... As pessoas não tem personalidade suficiente para não ficar com tendência para o homossexualismo. Eu repudio isso, porque quando isso acontece você não é homossexual, só tá curtindo e querendo aparecer (E1, homem, 19 anos).

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Dentre os entrevistados, 12,5% demonstraram uma postura ambivalente em relação ao tema ao exporem dúvidas e relativizações:

Estudante: Acho estranho, mas não tenho nada contra (E2, mulher, 17 anos).

Percebemos que a maioria dos estudantes que expuseram uma visão positiva (17,5%) sobre as práticas homossexuais masculinas e femininas referiram também ter amigos e/ou familiares homossexuais ou ser homossexual.

Estudante: Eu acho legal. Não tenho preconceito porque eu até tenho uma prima sapatona (E3, mulher, 17 anos).

É interessante ressaltar que apesar da literatura (ALTMAN, 2003; HEILBORN E CABRAL, 2003) apontar para diferenças de atitude quanto a homossexualidade associadas ao pertencimento social e/ou ao gênero, considerando que os homens de baixa renda podem vir a ter uma menor aceitação da homossexualidade masculina, não identificamos esse fenômeno entre os entrevistados. A convivência com pessoas que se dizem homossexuais pode influenciar a visão sobre o tema. Os jovens de uma das unidades de ensino pública referiram que esse fenômeno é bastante presente no cotidiano escolar, confirmando o relato da professora de química, exposto anteriormente, em relação à forte presença das relações homossexuais nesse universo:

Estudante: Eu acho normal, não viu graça no outro sexo, procura outra pessoa (E1, homem, 17 anos).

Apenas uma aluna, da unidade de ensino II, se declarou homossexual:

Estudante:Ah, eu acho lindo! (...) Amor é amor! Ponto! Isso é um fato! Então o sexo da pessoa não influencia em nada, porque a pessoa ama, a pessoa gosta, porque que elas não podem ficar juntas? Eu acho lindo as pessoas que assumem que elas amam, apesar de tudo e de todos. (...) A sociedade vê com maus olhos.

Isso é um fato meu, é uma coisa que acontece comigo, e as pessoas sempre vêem com maus olhos. (...) os pais de umas amigas minhas não deixam mais eu sair com elas porque eles pensam “meu deus, vai agarrar a minha filha”. Isso é

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ruim, me deixa mal, mas por outro lado eu entendo que é uma coisa de pai, é uma preocupação. Mas eu acho que as pessoas deveriam tentar entender melhor. Os filhos não ligam, o problema é os pais. Os pais tem dificuldade de aceitação e não deixam eu ir para a casa deles (E2, mulher, 17 anos).

Outros estudantes confirmaram o posicionamento negativo da sociedade sobre o tema. Estes prosseguiram dizendo que os homossexuais são alvo de agressões verbais e físicas. Vários expuseram uma visão negativa sobre a homossexualidade, com críticas e julgamentos e disseram não ter preconceitos acerca do tema. Em seguida, ao serem questionados sobre como a sociedade vê essas pessoas, apontam para posturas preconceituosas e agressivas. Percebemos que muitos estudantes não reconhecem a presença de juízos de valores nos seus depoimentos sobre o tema. Uma estudante relacionou o preconceito não à escolha homossexual, mas a AIDS:

Estudante: Ficam com muito preconceito, não ficam nem querendo ficar perto.

Às vezes essa pessoa pode tá com AIDS (...). Só que o AIDS não tem isso, a pessoa pode chegar perto, abraçar, dar a mão que não vai pegar. Só vai pegar se você se relacionar com ela (E2, mulher, 12 anos).

Outros entrevistados, em contrapartida, apontaram para a existência de um processo de transformação dessas visões. A mudança de cenário em relação ao assunto é percebida por uma maior abertura e entendimento da questão da homossexualidade.

Um aluno, inclusive, relacionou essa abertura à frequente abordagem do tema na mídia.

De acordo com Parker (1991), as ideias e crenças sobre sexualidade, no Brasil, ao longo do tempo, foram fortemente influenciadas não só pelo catolicismo como por uma forma de controle social que, dentre as várias funções, pretendia diferenciar os gêneros, atribuindo-os e delimitando-os a representações e papéis. A partir de sucessivas mudanças contextuais, profundamente inter-relacionadas, como a maior abrangência da escolarização, a relativização de crenças religiosas, o processo de urbanização nacional, a presença e força de ideias igualitárias entre homens e mulheres – repercutindo diretamente no acesso a educação e ao mercado de trabalho –, houve

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uma ampliação e diversificação das condutas em vários campos da vida, bem como no que se refere às práticas sexuais dos sujeitos.

Para além de instrumentos coercitivos, os valores e normas sobre sexualidade funcionam como uma espécie de orientação para as condutas dos sujeitos sociais facilitando as tomadas de decisão acerca dos comportamentos ditos mais apropriados a cada situação. Frente à complexidade das mudanças sociais, somadas a premissa do caráter social da sexualidade, é importante observar as práticas sexuais sempre contextualizadas ao invés de criar conhecimentos rígidos pautados em argumentos biológicos, polarizados entre costumes tradicionais ou modernos. Com isso pretendemos dizer que apesar de vir ocorrendo mudanças consideráveis em diversos cenários sociais, as práticas sexuais experimentadas pelos sujeitos carregam consigo marcas históricas e de pertencimento relacionadas à classe social, afiliação religiosa e, especialmente, direcionamentos específicos a cada gênero (JEOLÁS E PAULILO, 2008).

Com relação ao uso de preservativos, a maioria dos estudantes fez menção tanto à função contraceptiva, quanto a diminuição do risco para a transmissão de DST’s (doenças sexualmente transmissíveis). Quando indagados sobre que tipo de doenças podem ser transmitidas, três alunos não sabiam responder (dois da unidade de ensino III e um da unidade II, todos homens e do segmento fundamental de ensino). Esse resultado pode estar relacionado ao fato de que os conteúdos relacionados à sexualidade serem ministrados na sétima série, na disciplina de ciências e inseridos no grande tema

“o corpo humano”.

De acordo com Altman (2003) as meninas costumam ter maior interesse e conhecimentos acerca dos assuntos gravidez, métodos contraceptivos e DST’s. Tal constatação é associada ao fato das aulas sobre sexualidade valorizarem fortemente o gênero feminino. Durante a pesquisa realizada pela autora, os entrevistados revelaram que aprofundaram seus conhecimentos sobre as DST’s a partir da abordagem do tema na escola, uma vez que a AIDS é comumente tratada pela mídia e, talvez, por essa razão, os jovens da referida pesquisa tivessem maior conhecimento sobre a mesma e menor sobre as demais doenças.

Paulilo e Jeolás (2005) alertam para a confiança na eficácia dos discursos educativos para a saúde proferidos pela mídia. As autoras questionam que os mesmos

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podem facilitar que determinadas ideias se tornem “lugar comum” quando a repetição, de forma irrefletida, não vem acompanhada de uma real compreensão dos significados particulares de um determinado tema para cada sujeito. A assimilação de uma crença, conhecimento e/ou representação está diretamente relacionada à subjetividade do sujeito e ao seu lugar social, bem como a outros elementos que se tornam muitas vezes impossíveis de mensurar.

Quando questionados sobre a relação entre drogas e AIDS, 70% dos entrevistados disseram desconhecer as possíveis implicações dessa articulação. Somente um aluno da unidade II associou o uso de drogas injetáveis à contaminação da AIDS via compartilhamento de seringas, afirmando que tal conhecimento foi adquirido durante uma aula da disciplina de biologia. Alguns alunos acreditam que o uso de drogas pode alterar a consciência e com isso facilitar que as pessoas pratiquem sexo sem preservativo ou que assumam uma “postura promíscua” no contato sexual. A ligação entre a prática do sexo (e a possível contaminação com a AIDS) e o uso de drogas remeta os estudantes a noção de falta de controle, geralmente associada a ambos os comportamentos por estarem atravessados por elementos que transcendem a razão e incluem sensações e sentimentos, como o prazer experimentado nestas (JEOLÁS, 1999).

Os dados coletados indicam, mesmo que de forma superficial, como o tema da sexualidade é tratado nos contextos escolares explorados. A literatura (ALTMANN, 2003; HEILBORN E CABRAL, 2004) aponta que as aulas sobre o assunto

“sexualidade” são geralmente ministradas nas escolas tendo como eixos centrais a gravidez e as DST’s/AIDS. O contorno dado a tais conteúdos é geralmente com o cunho de orientação, onde são repassadas informações sobre as formas de prevenção, como o uso da camisinha e dos métodos anticoncepcionais. Assim como em relação ao consumo de drogas, a escola é considerada como um espaço privilegiado de intervenção sobre a sexualidade humana que, nos últimos anos, em decorrência da epidemia da AIDS, adquiriu uma dimensão de problema social. Dessa forma, a escola se tornou um local importante para a implementação de políticas públicas que visam à promoção da saúde sexual e reprodutiva.

Um recorte dessas iniciativas é a inserção transversal do tema “orientação sexual” nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN’s). Desenvolvidos na década de

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1990 pelo governo federal, os PCN’s têm o objetivo de estabelecer uma referência curricular nacional. Os temas transversais incluem questões fundamentais da vida social, como saúde, meio ambiente, ética, orientação sexual e pluralidade cultural. Estes devem ser abordados ao longo de todos os ciclos de escolarização, não só dentro da programação dos conteúdos disciplinares, como no formato extra programação, sempre que surgirem questões relacionadas com o tema. Essa orientação reforça ainda mais a importância da capacitação de profissionais da área da educação para o manejo do tema da sexualidade, bem como do consumo de drogas. É importante ressaltar que a inclusão do tema orientação sexual nos PCN´s foi um marco no sentido de ser a primeira vez que a questão foi oficialmente inserida no currículo escolar brasileiro. Esta se torna uma evidência das dificuldades de serem tratados os temas.