2 CLASSIFICAÇÃO E USO DOS PSICOTRÓPICOS
2.2 CLASSIFICAÇÃO DAS DROGAS E CARACTERÍSTICAS
2.2.2 Drogas Estimulantes do sistema Nervoso Central
2.2.2.1 Anfetaminas
São fabricadas em laboratórios, portanto, drogas sintéticas e têm atributos estimulantes: aceleram a atividade do Sistema Nervoso Central, fazendo com que o cérebro trabalhe mais depressa, deixando seus usuários mais acesos, elétricos, sem sono.
As anfetaminas também são conhecidas por rebite e bola. No primeiro caso, são geralmente utilizados para exploração da classe trabalhadora, especificamente os motoristas de caminhões que são obrigados por seus patrões a cumprirem prazos predeterminados de viagens para a entrega de produtos perecíveis. Já no segundo caso, são geralmente utilizadas por estudantes, para não dormirem durante o período noturno. As anfetaminas também são utilizadas em regimes de emagrecimento sem acompanhamento médico.
Seu mecanismo de ação é aumentar a liberação e prolongar o tempo de atuação de alguns neurotransmissores utilizados pelo cérebro (a dopamina e a noradrenalina). Uma pessoa que utiliza essas substâncias experimenta uma diminuição do sono e do apetite, fala mais rápido, sente-se cheia de energia e menos fatigável, muitas vezes realizando esforços excessivos, o que pode ser prejudicial. Observam-se também dilatação pupilar (midríase), taquicardia e elevação da pressão arterial em conseqüência do uso dessas drogas.48
Em doses tóxicas, todos esses efeitos acentuam-se, o sujeito tende a ficar mais irritável e agressivo, podendo surgir idéias de que outras pessoas estão tramando contra si (delírios persecutórios) e alucinações. Também é possível a ocorrência de convulsões.49
48 NICASTRI, op. cit.
49 CURSO DE FORMAÇÃO DE PALESTRANTES ..., op. cit.
Essas drogas induzem tolerância, sendo menos claro se ocorre uma verdadeira síndrome de abstinência. São freqüentes os relatos de sintomas depressivos (falta de energia, desânimo, perda da motivação), por vezes bastante intensos, ao se interromper o uso dessas substâncias.
No V Levantamento Nacional sobre o consumo de drogas psicotrópicas entre estudantes de Ensino Fundamental e Médio da rede pública de ensino50 ficou evidenciado o uso, na vida, no Brasil de 3,7%, sendo João Pessoa/PB a capital que maior apresentou uso na vida 6,6%. O percentual de crianças com idades entre 10 a 12 anos que fizeram uso na vida é da ordem de 9,9% ou 4.768 crianças de um total de 48.155 pesquisadas.
Esse levantamento nacional feito pela CEBRID também nos traz um dado significativo em termos estatísticos, no que diz respeito ao uso na vida por sexo:
constatou-se que o uso feito pelas pessoas do sexo feminino foi quase mais que a metade do uso pelo sexo masculino. Isto se deve fundamentalmente ao uso, pelas mulheres, em maior escala que os homens, com a finalidade de auxílio na redução do apetite e emagrecimento.
2.2.2.2 Cocaína
É um alcalóide obtido das folhas de coca (Erythroxylon coca) encontrada somente na América do Sul. A cocaína é um poderoso estimulante do Sistema Nervoso Central, utilizado sem indicação terapêutica para produzir euforia.
Pode ser consumida na forma de um sal (o cloridrato de cocaína, um pó que é inalado ou dissolvido em água e injetado), ou sob a forma de uma base que é fumada
50 GALDURÓZ, op. cit.
(o crack). Existe ainda a pasta de coca, um produto menos purificado, que também pode ser fumado, conhecido como merla.51
Enquanto o crack ganhou popularidade na cidade de São Paulo, Brasília foi a cidade vítima da merla. De fato, pesquisas mostram que mais de 50% dos usuários de drogas da Capital Federal fazem uso de merla, e apenas 2% de crack.52
Por apresentarem aspecto de pedra no caso do crack e pasta no caso da merla, não podendo ser transformados em pó fino, tanto o crack como a merla não podem ser aspirados e por não serem solúveis em água também não podem ser injetados.53
Recentemente, uma nova droga foi descoberta no estado do Acre, fronteira com a Bolívia. Possivelmente uma das mais potentes e perigosas drogas conhecidas, o oxi ou oxidado, como é conhecido pelos seus usuários, é uma variante do crack.
Segundo a ONG (Organização Não Governamental) Rede Acreana de Redução de Danos – REARD, a diferença é que, na elaboração, ao invés de se acrescentar bicarbonato e amoníaco ao cloridatro de cocaína, como é o caso do crack, adiciona-se querosene e cal virgem para obter o oxi.54
Antes de se conhecer e de se isolar cocaína da planta, a coca (planta) era muito usada sob a forma de chá. Ainda hoje esse chá é muito comum na Bolívia e Peru, sendo em ambos permitida por lei, por se tratar de uma tradição indígena com razões inclusive terapêuticas, face a altitude desses países. O Órgão do Governo do Peru que controla a qualidade das folhas vendidas no comércio para o fabrico do chá de coca é o Instituto Peruano da Coca. É salutar ressaltar que o chá da coca contém pouquíssima cocaína e quando ingerida oralmente é processada pelos intestinos, onde já começa a ser metabolizada, sendo boa parte dela destruída antes mesmo de chegar ao cérebro, diferentemente do que ocorre quando da ingestão da cocaína na sua forma isolada da folha.
51 DROGAS. Cartilha sobre maconha ..., op. cit.
52 Id.
53 Id.
54 Disponível em: <http://www.narconews.com>
O mecanismo de ação da cocaína no Sistema Nervoso Central é bastante semelhante ao das anfetaminas, mas ela atua ainda sobre um terceiro neurotransmissor, a serotonina, além da noradrenalina e da dopamina.55
Seus efeitos são descritos como tendo um início rápido e uma duração breve, mais intensos e fugazes quando a via de utilização é a intravenosa ou quando o sujeito utiliza o crack. Caracterizam-se por uma sensação intensa de euforia e poder, além de um estado de excitação, hiperatividade, insônia, falta de apetite e perda da sensação de cansaço.
Apesar de não serem descritas nem tolerância, nem uma síndrome de abstinência inequívoca, o aumento progressivo das doses consumidas pelos sujeitos é observado freqüentemente. Particularmente no caso do crack, os sujeitos desenvolvem dependência severa rapidamente, muitas vezes em questão de poucos meses ou mesmo algumas semanas de uso. Com doses maiores, são observados outros efeitos, tais como irritabilidade, agressividade e até delírios e alucinações, que caracterizam um verdadeiro estado psicótico (a psicose cocaínica). Também podem ser observado aumento da temperatura e convulsões (freqüentemente de difícil tratamento, podendo levar à morte, se forem prolongadas). Ocorrem ainda uma dilatação pupilar (midríase), elevação da pressão arterial e taquicardia (sendo que pode ocorrer parada cardíaca por fibrilação ventricular, uma das possíveis causas de morte por superdosagem).56
No Brasil, a cocaína é a substância mais utilizada pelos usuários de drogas injetáveis (UDIs). Muitas dessas pessoas compartilham agulhas e seringas e expõem-se ao contágio de várias doenças, dentre elas hepatites, malária, dengue e AIDS. Esta conduta praticada pelos usuários de drogas injetáveis é um fator de risco para a transmissão do vírus HIV.
Segundo dados do Projeto Brasil, estudos epidemiológicos realizado entre 1995 e 1996 com 701 usuários de drogas injetáveis (UDIs), envolvendo vários centros
55 CURSO DE FORMAÇÃO DE PALESTRANTES ..., op. cit.
56 NICASTRI, op. cit.
do País, e coordenado pelo Instituto de Estudos e Pesquisas em AIDS de Santos (IEPAS), as taxas de prevalência de infecção pelo HIV entre usuários de drogas injetáveis chegavam a 71% em Itajaí/SC, 64% em Santos/SP e 51% em Salvador/BA, todas cidades portuárias.
No âmbito nacional, 21,3% dos casos de AIDS registrados até maio de 1997 referiam-se à categoria de usuário de drogas injetáveis. As campanhas do Ministério de Saúde, por meio da Coordenação Nacional de DST/AIDS, têm reduzido muito o número de infectados por essa via.
No V Levantamento Nacional sobre o consumo de drogas psicotrópicas entre estudantes de Ensino Fundamental e Médio da rede pública de ensino (CEBRID, 2004)57, a cocaína apresentou números significativos. No Brasil o uso na vida ficou em 2,0%. O maior índice de uso na vida ficou na região Norte com 2,9% e a capital com maior uso na vida foi Boa Vista/RR com 4,9%. Outro dado importante é de que a cocaína é consumida em mais que o dobro pelo sexo masculino se comparado com a utilização feita pelo sexo feminino.
2.2.2.3 Tabaco
O tabaco é uma planta cujo nome científico é Nicotina Tabacum, da qual é extraída uma substância chamada de nicotina. Sua utilização data de aproximadamente 1000 a.C. nas sociedades indígenas da América Central, em rituais mágico-religiosos, com o objetivo de fortalecer, purificar, contemplar e proteger os ímpetos guerreiros, além disso, esses povos tinham a crença que a planta tinha o poder de predizer o futuro.58
57 GALDURÓZ, op. cit.
58 DROGAS. Cartilha sobre maconha ..., op. cit.
Por volta de 1840 e 1850 surgiram as primeiras descrições de homens e mulheres fumando cigarros, porém, somente após a Primeira Guerra Mundial, seu consumo se expandiu de forma gradativa.
A partir da década de 1960, surgiram os primeiros relatórios científicos que relacionaram o cigarro ao adoecimento do fumante, e hoje existem inúmeros trabalhos comprovando os malefícios do tabagismo à saúde do fumante e do não-fumante exposto à fumaça do cigarro.
Os efeitos do tabaco sobre o sistema nervoso central são a elevação leve no humor e diminuição do apetite. Após o fumante tragar a nicotina, esta é absorvida pelos pulmões e chega ao cérebro em aproximadamente 9 segundos.
Quando utilizada por um período longo o tabaco pode provocar tolerância e também quando suspensa a droga pode causar síndrome de abstinência (irritabilidade, agitação, prisão de ventre, dificuldade de concentração, sudorese, tontura, insônia e cefaléia), esses sintomas desaparecem dentro de uma ou duas semanas.59
No V Levantamento Nacional sobre o consumo de drogas psicotrópicas entre estudantes de Ensino Fundamental e Médio da rede pública de ensino60 o tabaco apareceu como uso na vida com porcentagem de 24,9%.
Por fim, as drogas perturbadoras do sistema nervoso central.