DSC 3 Energia e Religiosidade B Ateísmo reconhecido
8.4. DSC 4 – Dualidades: complementaridade e conflito
Reuniram-se, no DSC 4, os discursos relacionados à dimensão da dualidade, tanto nos conteúdos que remetem a uma que se complementa, quanto em uma que é percebida ou experimentada como exclusivamente conflituosa.
DSC 4 Dualidades: complementaridade e conflito
Achei as imagens muito marcantes, muito fortes, mas extremamente duais, passam a ideia de conflito. E esta coisa do ser humano, esta ambiguidade, ao mesmo tempo, tem o lado bom e o lado ruim, o feminino, o masculino, a razão, a emoção e o instinto, religiosidade e ciência, a criança, que é vida, e o Raio-X, que me parecia a morte... aparecia a caveira, coisas assim... Você tem a ideia de calma e você tem a ideia de
agitação. As imagens mostram o corpo, os ossos, a questão anatômica, imediata referência à ciência, aí vem a questão do ambiente, a relação desta interação com a alma, os pontos, projeções internas. Quando eu vi o homem e a mulher, quando ele coloca uma bolinha que parece que está no coração da mulher, como se ela fosse mais emocional e no homem coloca o sol e várias linhas, que é como se fosse a luz da razão, mas acho que, antes de ser homem ou mulher, é uma pessoa. Eu tive uma fase que eu estava acreditando que eu só era instinto; eu estava meio que negando a razão, só que eu acabei ficando pior... Na quarta imagem, também tive uma identificação, não por mim, mas por causa de uma pessoa que eu já fiquei que eu sentia que era muito racional e eu era irracional. A nossa relação era bem oposta. Senti a sensação querendo irradiar, transcender e buscar o equilíbrio, de voltar a atenção às próprias emoções neste combate com o mundo racional. O pensamento como um censor, o que te coloca de volta para a vida real, das obrigações... mas as emoções permanecem... Na última imagem, é como se a criança estivesse um pouco imune a este mundo dos adultos e lidasse, de forma mais sincera e honesta, com seus afetos, porque ela não tem essa repressão do mundo do adulto... parecia uma coisa mais de inocência e a primeira imagem, ao contrário, mais de sabedoria, porque tinha os pontos de energia e parecia que estava em uma posição que estava meditando. A criança, para mim, remete a um antídoto para este conflito entre razão e emoção. Mas, ao mesmo tempo que me remete a uma alternativa espontânea da infância, também me remete à perda disso com o crescimento. Achei legal a ordem como foram apresentadas as imagens. Parece que é uma síntese.
O DSC 4 reuniu discursos relacionados à dualidade, seja norteada pelo conflito ou pela complementaridade. Observou-se no DSC 4 uma recepção das obras tidas como “marcantes” e “muito fortes”, ao mesmo tempo duais e “passam a ideia de conflito”, de ambiguidade. A ambiguidade das imagens foi relacionada a “tem o lado bom e o lado ruim, o feminino, o masculino, a razão, a emoção e o instinto, religiosidade e ciência”, além da criança e da morte e, em vários sentidos, houve uma referência à discussão sobre a natureza humana. A própria configuração da obra, apresentando grande rigor técnico, em conjunto com um corpo volátil, com a energia extrapolando o espaço interno, pareceram contribuir para esta sensação de conflito entre limites e fluidez. Observou-se no DSC 4 a presença de certa ansiedade diante da dualidade das imagens expostas, com a presença de “ideia de calma” e de agitação. Os participantes da
pesquisa recordam experiências pessoais de ambiguidade reconhecida, principalmente entre razão e emoção, ou chegam a sentir sensações de ambiguidade durante a exposição das obras. Na estória do participante 10M, o mesmo também se refere a uma “dualidade entre razão e emoção”.
No DSC 4 o pensamento foi analisado, até certo ponto, como limitador, como agente censor dos afetos, emoções e instintos, embora paradoxalmente necessário. Houve evocação de pensamentos sobre gênero que serão melhor detalhados no DSC 7, mas, fundamentalmente, é importante destacar um “depassar” da dualidade em direção a uma unidade: no final, antes de ser homem ou mulher, é uma pessoa. No mesmo sentido, houve um indicativo de que o caminho unilateral do instinto, sem consideração pelo racional, leva ao sofrimento e perda do controle ou equilíbrio. Jung (1928/2002) considerou o sistema psíquico como autorregulatório e foi esta dinâmica autorregulatória que se observou no DSC 4, pela via da sensação: “Senti a sensação querendo irradiar, transcender e buscar o equilíbrio”, ao mesmo tempo que o equilíbrio foi tomado pela compensação na continuidade do discurso “[...] de voltar a atenção às próprias emoções neste combate com o mundo racional”. Observou-se que o mundo racional foi tomado a distância, como algo que exige um combate, um enfrentamento, pois o mesmo age como censor, “te coloca de volta para a vida real, das obrigações”. Ambos não aparecem como em uma complementação pacifica, mas em contenda.
Na estória da participante 2I nota-se a imagem do “isolamento”, do sujeito em uma bolha, na qual se mantém viva a figura da contradição, com o desejo de libertação e com elementos de contenção: “as montanhas, as geleiras, o próprio racional, o fogo que está circundando a figura, etc”. A impressão evocada no pesquisador pelo discurso foi da existência de uma constante tensão, vivida por um dos participantes da pesquisa, que identificou nas obras, paralelamente, um limite sufocante e um potencial de superação de limites impostos. Essa superação permitiria chegar ao equilíbrio (sic). A projeção de imagens de Alex Grey, portanto, mostrou-se profícua neste caso, para fomento de discussões psicodinâmicas. Na estória, uma lysis é fornecida pela presença da personagem da criança. Na estória do participante 7C os conflitos são entendidos como constantes nas obras e parecem ligados à busca interior dos personagens da obra. Já na estória do participante 15L, o marco é a dualidade entre poder e amor, dualidade fantasiada pelo participante a partir de lembranças do desenho Avatar. No desenho, Avatar escolhe o amor no lugar do poder, atitude que o participante considera “idiota”. De acordo com Jung, poder e amor são, de fato, opostos. Segundo Jung (1917/2007b,
par. 78): “Onde impera o amor, não existe vontade de poder; e onde o poder tem precedência, aí falta o amor. Um é a sombra do outro”.
Finalmente, o DSC 4 é marcado por uma esperança de resolução dos conflitos, por meio da figura da criança, que simboliza a criatividade, a espontaneidade e a possibilidade de ir além da repressão, censura, por estar livre de responsabilidades do mundo adulto e manter uma inocência original. Ao compensar o embotamento racional do adulto, a criança aparece como símbolo unificador. Ela é envolta no discurso coletivo de características numinosas, como personagem salvadora, capaz, não apenas, de trazer alegria e prazer, mas, igualmente, de redimir a unilateralidade da razão, uma síntese da dualidade. Paralelamente, no DSC 4, a criança carrega uma tensão, na qual ela, ao mesmo tempo, representa a vida e a morte; esta última, pictoricamente, indicada pelo seu crânio transparente. Na estória de 15L, o participante da pesquisa relata que estava muito conectado com a lua e pedia ajuda a ela. O pedido de ajuda, que pode ser entendido como mobilizado por questões psíquicas do participante e que não podem ser totalmente inferidas a partir de seu discurso, podem contribuir com a fantasia produzida na criação de sua estória. Nela, a criança encontrava-se em uma floresta, perdida e sem ninguém, até seu encontro com a lua. A lua não apenas trouxe luz, mas a certeza de sentir-se acompanhada e de que tudo daria certo. A lua é um símbolo relacionado ao feminino, à transformação e ao crescimento, normalmente polarizada com o sol (CHEVALIER e GHEERBRANT, 2007). Nota-se a possibilidade de amplificação do da lua como símbolo de transformação e crescimento, facilitando o progresso da criança, na estória de 15L.