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se pode perceber já na proposta de os dividir em planos do instituído sonegado (o

2.4. A dualidade de poderes e o poder dual latente: o poder dual/plural

Percussão sozinha não faz canção assim como uma andorinha somente não faz verão. Inevitavelmente, chegamos aqui com a clareza da tensão que marca qualquer análise do direito comprometida com a superação da opressão incubada em nossa sociedade. Se a marca da crítica jurídica foi a duplicidade entre o posto e o alternativo, o monolítico e o plural ou o vigente e o insurgente; e se o tratamento dado por Marx e por seus continuadores quanto ao direito exala o olor da falta de univocidade nas análises (do que a polêmica Stucka-Pachukanis é o mais eloqüente dos depoimentos para além de a dubiedade incrustada na própria produção teórica de Marx); não nos cabe minimizar uma tal tensão, sendo-nos necessário, assim, assumi-la em suas conseqüências mais extremas em níveis analíticos.

Por isso é que vamos aqui unir ao pandeiro o tamborim e ao surdo o tantã. Um, contraponto do outro, servem ambos para dar a marcação do samba-choro que, em nossa alegoria, é tocado como choro- canção. Daí que dar atenção a importante observação de Boaventura de Sousa Santos, em sua pesquisa sociológica nas favelas brasileiras, as quais foram unificadas sob o nome de “Pasárgada”, o paraíso de Manuel Bandeira, embotado de hierarquias e preconceitos (o rei e as mulheres vassalas o que mais não seriam senão expressão disso?), se nos torna imprescindível. Segundo ele, o “direito de Pasárgada” não deixa de reproduzir o direito do estado capitalista. No entanto, não se pode cair no fatalismo das análises mecanicistas: este fato não pode ser interpretado como algo distinto da necessidade de organização das populações marginalizadas. Sua sociabilidade, em níveis de conscientização (ou consciência crítica) ainda não otimizada, faz com que desenvolvam mecanismos próprios de relacionamento ou intersubjetividade. E é por isso que o autor, compenetrado no esforço histórico em que se comprometia à época (hoje já bastante matizado), perguntava sobre a relação entre direito e revolução: “qual é a contribuição do direito de Pasárgada (e de outros ‘direitos de Pasárgada’ em outros países do capitalismo periférico) para a revolução socialista?” Distinguia, portanto, entre uma estratégia jurídica progressista e uma revolucionária, sendo a questão do “poder” uma nota central, verdadeiro dó de peito do tenor chorão. É o que se depreende de uma de suas quatro polarizações acerca da estratégia progressista e da revolucionária: “uma estratégia progressista, qualquer que seja sua ideologia, nunca toca a questão do poder em termos práticos. Esta questão é central em uma

estratégia revolucionária mas o esforço para respondê-la precisa ser guiado sempre pelo princípio básico de que a conquista do poder é o último estágio e não o primeiro da transformação do poder”.296

Sendo assim, também queremos deixar assentado que foi na velha produção teórica de Boaventura que nos inspiramos a resgatar o problema que nesta secção ganha centralidade: o poder dual. Apesar de ser problematização abandonada pelo autor, entendemos que revivê-la significa arejar os estudos sobre o direito, em especial se entendermos o direito como um fenômeno complexo e de totalidade. Em artigo preparado para o simpósio “Disciplina capitalista e o princípio do direito”, em 1979, na cidade de Londres, intitulado “Justiça popular, dualidade de poderes e estratégia socialista”, o sociólogo do direito buscava uma reorientação estratégica para direito e estado desde a perspectiva socialista, de modo a analisar lutas revolucionárias concretas chegando a avaliar “algumas utilizações estratégicas e táticas da dualidade de poderes no direito e na administração da justiça, tanto em situações revolucionárias quanto não-revolucionárias”.297 Daí que não podemos falar de direito separadamente de poder e tampouco de poder dual afastadamente de revolução.

É no contexto revolucionário que a noção surge. Sem dúvida, o termo duplicidade ou dualidade de poderes é cunhado por Lênin no período revolucionário russo, entre as revoluções de março e outubro de 1917. Mas sua análise surge anteriormente com Marx e Engels, por ocasião da revolução alemã de 1848 a 1849, em que os teóricos revolucionários “valem-se pela primeira vez da noção do ‘duplo poder’ para definir a dinâmica da revolução proletária”.298 Assim é que Marx e Engels propõem tal análise para os casos em que uma revolução se dá em aliança entre operários e democratas pequeno-burgueses, devendo-se

296

SANTOS, B. de S. “The law of the oppressed: the construction and reproduction of legality in Pasargada”. Em: Law and society review. Amherst, Massachusetts: Law and Society Association, n. 12, 1977, p. 101. Tradução livre do seguinte trecho: “what is the contribution of Pasargada law (and of other ‘Pasargada laws’ in the other countries of the capitalist periphery) to the socialist revolution?” [...] “a progressive strategy, whatever its ideology, never raises the question of power in practical terms. This question is central in a revolutionary strategy but the attempt to answer it must always be guided by the basic principle that the seizure of power is the last and not the first stage of the transformation of power”.

297 SANTOS, B. de S. “Justiça popular, dualidade de poderes e estratégia socialista”. Tradução

de José Reinaldo de Lima Lopes e José Eduardo Faria. Em: FARIA, José Eduardo (org.). Direito e justiça: a função social do judiciário. São Paulo: Ática, 1989, p. 188.

298 COUTINHO, Carlos Nelson. Marxismo e política: a dualidade de poderes e outros ensaios.

aí formar-se governos operários paralelos, para o caso de os democratas hegemonizarem os governos oficiais:

ao lado dos novos governos oficiais, os operários deverão constituir imediatamente governos operários revolucionários, seja na forma de comitês ou de conselhos municipais, seja na forma de clubes operários ou de comitês operários, de tal modo que os governos democrático-burgueses não só percam imediatamente o apoio dos operários, mas também se vejam desde o primeiro momento fiscalizados e ameaçados por autoridades atrás das quais se encontre a massa inteira dos operários.299

Sem embargo, aqui, trata-se de fomentar a força política a partir da qual a ruptura radical possa se forjar. Comitês, conselhos ou clubes operários são formas de agremiar a classe trabalhadora, supondo contudo que sua existência seja plausível. É muito nesse sentido que nossa reflexão se sente compelida a se dirigir e é daí que surge nossa intenção de, no âmbito de quem fala desde o “jurídico”, unir à força política a “produção da vida”, por isso dedicarmos um capítulo a este tema. Alertado o eventual leitor de que se trata de uma composição analítica entre produção da vida e poder dual a vigilância crítica (autoconsciente) de nosso trabalho, podemos prosseguir com a temática que ora deve se desdobrar.

Desnecessário é, a nosso ver, reconstruirmos toda a problemática que envolve o tema do “poder dual” ou “dualidade de poderes” (já que o poder é um só) na literatura marxista fundamental, uma vez que tal reconstituição já foi feita por vários autores.300 Cabe, entretanto, alguma dilucidação a fim de que nosso discurso possa ser melhor compreendido. Inicialmente, pode parecer que há um elemento sensivelmente ausente em nosso trabalho, qual seja, o estado. Entendemos, no entanto,

299 MARX, K.; ENGELS, F. “Mensagem do Comitê Central à Liga dos Comunistas”. Em:

_____; _____. Obras escolhidas. São Paulo: Alfa-Ômega, vol. 1, s. d., p. 88. Há publicação em português dos artigos de Marx escritos para o nova-iorquino “The tribune” em 1852: MARX, K. Revolução e contra-revolução. Tradução de Serafim Ferreira. Venda Nova, Amadora: M. Rodrigues Xavier, 1971.

300 Afora os já citados SANTOS, B. de S. “Justiça popular, dualidade de poderes e estratégia

socialista”, p. 189-192 e COUTINHO, C. N. Marxismo e política: a dualidade de poderes e outros ensaios, p. 17-42, vale a pena também ressaltar a obra de MERCADO, René Zavaleta. El poder dual: problemas de la teoría del estado en América Latina. 2 ed. México, D. F.: Siglo Veintiuno Editores, 1977, p. 15-77.

que ao trabalharmos com a noção de direito como fenômeno complexo e de totalidade não podemos excluir de seu questionamento aquilo que veio a ser conhecido como “estado”. Por isso, alguma razão temos de conceder a Kelsen, como exposto acima. O direito burguês e o estado capitalista estão umbilicalmente ligados, ainda que isto não impeça haver direitos outros (os vários direitos de Pasárgada ou Pasárgadas), mesmo que colocados em posição assimétrica com relação ao poder que estão destinados a exercer.

Assim é que fazemos o casamento da temática do poder dual com a questão do “jurídico” de forma tal a que a liga principal se faça pelo “estado”. É como se estivéssemos a dedilhar no violão uma escala cromática, sendo que a inteireza das freqüências imprescinde que tenha vez cada um destes elementos: direito, poder, estado e revolução. Podemos, agora, nos valer das palavras de Lênin para adentrar ao problema: “a questão fundamental de toda a revolução é a questão do poder de Estado”. Para Lênin, em pleno calor da batalha revolucionária, a dualidade de poderes aparecia como uma peculiaridade histórica, nunca antes imaginada. Vimos, porém, que Marx e Engels já haviam cogitado dessa possibilidade, ainda que talvez sem lhe dar o devido nome, o que quer dizer que lhes faltava a clareza dos bolcheviques de 1917. Pois bem, respondendo à pergunta sobre o que significava a dualidade de poderes, Lênin enfatizava que se consistia “em que ao lado do Governo Provisório, o governo da burguesia, se formou outro governo, ainda fraco, embrionário, mas indubitavelmente existente de facto e em desenvolvimento: os Sovietes de deputados operários e soldados”.301

Apesar de ser uma peculiaridade da revolução russa, a dualidade de poderes instaura, do lado dos sovietes, um tipo de poder análogo ao da Comuna de Paris, em 1871, descrito por Marx em “A guerra civil na França”. Na introdução escrita por Engels quando da reedição do texto, em 1891, já se pode notar a vitalidade da interpretação leniniana, pois Engels propõe que a guerra civil erigira-se “no sentido de abolir violentamente o velho poder estatal e substituí-lo por outro, novo e verdadeiramente democrático”, a isto chamando de “ditadura do proletariado”.302

301

LENINE, V. I. “Sobre a dualidade poderes”. Em: _____. Obras escolhidas. São Paulo: Alfa-Ômega, vol. 2, 1980, p. 17.

302 A última frase da introdução escrita por Engels ficaria célebre: “olhai para a Comuna de

É interessante notar que Lênin, que escrevera sobre a dualidade de poderes em abril de 1917, já em setembro, quando redige seu famoso “O estado e a revolução” resgata o exemplo da Comuna de Paris e os apontamentos de Engels como essenciais à radicalização da dualidade poderes em favor dos trabalhadores urbanos e rurais da Rússia. É dessa forma que se torna evidente a frase seguinte: “não se trata de aniquilar a burocracia de uma só vez, até o fim e por toda parte. Eis onde estaria a utopia. Mas destruir sem demora a velha máquina administrativa, para começar imediatamente a construir uma nova, que permita suprimir gradualmente a burocracia”, e arremata: “isso não é uma utopia, é a experiência da Comuna, é a tarefa primordial do proletariado revolucionário”.303

No terceiro parágrafo, que Marx dedica à Comuna de Paris, de sua já citada “A guerra civil na França”, encontramos uma descrição bastante interessante do que foi historicamente esta experiência popular. E esta descrição tem três grandes pilastras de interpretação: a fonte do poder estando na iniciativa direta das massas populares; o povo como exército em armas nas ruas; e a burocracia da nova organização política (“outro estado”, nas palavras de Engels, talvez intuitivamente repetido por Amílcar Cabral, na libertação da África Portuguesa) sendo elegível e destituível pelo povo a qualquer momento, não podendo ser remunerada por um salário maior que o do mais bem pago operário. Muito poderíamos escrever sobre esta experiência que, sem dúvida, não encontra paralelo no século XIX europeu e que viria a ser sucedida pelas revoluções socialistas do século XX na periferia da Europa ocidental e da América do Norte, seja na pioneira revolução de outubro no leste europeu, seja na China maoísta ou na Cuba de Che e Fidel. Posteriormente – e mesmo antes –, outros países da África, Ásia, América e mesmo Europa conheceriam experiências revolucionárias socialistas, ainda que a maioria delas imersas no conflito mundial que ficou conhecido como “guerra fria”, implicando a adoção de regimes de governo muito atrelados à União Soviética (exceções históricas são alguns períodos das revoluções tcheca, iugoslava, nicaragüense ou ainda cubana).

civil na França’”. Em: _____; MARX, K. Obras escolhidas. São Paulo: Alfa-Ômega, vol. 2, s. d., p. 51.

303 LÊNIN, V. I. O estado e a revolução: o que ensina o marxismo sobre o estado e o papel do

proletariado na revolução. Tradução de Aristides Lobo. São Paulo: Expressão Popular, 2007, p. 67.

A Comuna de Paris é fruto de uma acumulação de forças histórica no seio do operariado francês que culmina com este sujeito coletivo em armas e seu enfrentamento contra o governo da época. O proletariado já estava armado quando proclamou a Comuna, a 28 de março de 1871, por conta das guerras havidas até então: de 1789 a 1870 foram pelo menos seis grandes confrontos. Em 1870, o último ano antes da emergência da Comuna, os operários armados defendiam, junto aos burgueses, a França da invasão prussiana. Por estar em armas é que o proletariado conseguiu instaurar um governo revolucionário em Paris, mesmo sob a direção política dos blanquistas e a orientação econômica dos proudhonianos. Este é um dos grandes argumentos de Engels em sua referida introdução à obra marxiana.

O fim, no entanto, desta experiência fundamental para a teoria política marxista, foi deveras rápido. Em 28 de maio, já havia se desagregado o poder comunal. O depoimento de Marx é bastante vigoroso:

a civilização e a justiça da ordem burguesa aparecem em todo o seu sinistro esplendor onde quer que os escravos e os párias dessa ordem ouse rebelar-se contra os seus senhores. Em tais momentos, essa civilização e essa justiça mostram o que são: selvageria sem máscara e vingança sem lei. Cada nova crise que se produz na luta de classes entre os produtores e os apropriadores faz ressaltar esse fato com maior clareza. Mesmo as atrocidades cometidas pela burguesia em junho de 1848 empalidecem diante da infâmia indescritível de 1871. O heroísmo abnegado com que a população – homens, mulheres e crianças – lutou durante oito dias desde a entrada dos versalheses na cidade reflete a grandeza de sua causa, do mesmo modo que as façanhas infernais da soldadesca refletem o espírito inato dessa civilização da qual é ela o braço vingador e mercenário. Gloriosa civilização essa, cujo grande problema consiste em saber como desprender-se dos montões de cadáveres feitos por ela, depois de cessada a batalha!304

304 MARX, K. “A guerra civil na França”. Em: _____; ENGELS, F. Obras escolhidas. São

Logo, não se pode querer ver em Marx um simples louva-deus da modernidade capitalista. Seu discurso e suas impressões vão muito além de isso. Mesmo porque suas idéias estão ligadas a sua prática e foi em sua práxis que teve a oportunidade de fazer essa crítica tremenda à “civilização”, que não pode ser outra senão a ocidental, e à justiça burguesa, dando azo à tensão congênita de nosso trabalho, pois não só um direito burguês é encontrável na obra de Marx (como de poderia depreender de sua “Crítica ao Programa de Gotha”), mas também uma justiça burguesa, o que complexifica ainda mais a argumentação daqueles que querem opor direito e justiça no pensamento marxiano, ou seja, o direito como fruto inextricável da modernidade capitalista (o mesmo valendo para o estado) e a justiça como uma possível alternativa ao âmbito jurídico.

Assim é que o “governo dos produtores pelos produtores”305 se encerra, mas não sem deixar um importante legado. E este cabedal teria na revolução russa seu mais promissor desdobramento.

Por ter se criado “de fato uma situação de duplo poder” em que a partir do confronto entre dois órgãos de poder – o governo provisório e os sovietes – “se confrontam duas concepções da democracia, a representativa e a direta, e por detrás delas, duas classes, a burguesia e o proletariado aos quais a queda do czarismo imediatamente deixava frente a frente”,306 por tudo isso é que Lênin, como já dissemos, passa a aperfeiçoar seu entendimento de que era preciso levar esse confronto às últimas conseqüências. Era um momento em que entendia ser transitório e que havia uma tendência a se resolver a dualidade de poderes em unidade: por ser “caracterizada, esta transição, de um lado, pelo máximo de legalidade (a Rússia é, no estágio atual, o mais livre país do mundo entre todos os beligerantes); de outro, pela ausência de violência contra as massas, e, por fim, pela confiança inconsciente destas com o governo dos capitalistas, os piores inimigos da paz e do socialismo”,307 é que se deveria “explicar às massas que os Sovietes de deputados operários (SDO) são a única forma possível de governo revolucionário”.308

305 MARX, K. “A guerra civil na França”, p. 81.

306 BROUÉ, Pierre. O partido bolchevique: dos primeiros tempos à Revolução de 1917.

Tradução de Anísio Garcez Homem. Curitiba: Pão e Rosas, 2005, p. 93.

307

LÊNIN, V. I. “Sobre as tarefas do proletariado na presente revolução”. Em: _____. Teses de abril: sobre as tarefas do proletariado na presente revolução. Tradução de J. A. Cardoso. São Paulo: Acadêmica, 1987, p. 9.

Neste momento, em que Lênin se esmera para que suas teses – as “Teses de abril” – sejam adotadas pelo partido bolchevique, a marca é a da indecisão dos vermelhos, ganhando muita força uma idéia conciliadora que se sustentava na concepção etapista de revolução, partindo da premissa de que os sovietes deveriam sustentar o governo provisório burguês. O partido se dividiria, ainda que a tese conciliadora hegemonizasse o processo, uma vez que Lênin estava refugiado em Zurique. “Contudo, há uma minoria de metalúrgicos, encabeçada por Schiapnikov, que imediatamente será secundado por Kolontai, que resiste em adotar esta posição [conciliadora]. Sua tese de que os sovietes constituem já um embrião do poder revolucionário converge neste ponto com as posturas que mantém a organização interdistrital”.309

Então, já nas “Teses de abril”, Lênin propõe sua análise da dualidade ou duplicidade de poderes como instrumental de análise política para os bolcheviques. E a transição implicada nesta análise levou-o a considerar a existência de um “entrelaçamento de duas ditaduras”, quais sejam, a da burguesia que se notava por ser “um poder que não se ampara na lei, na vontade previamente expressa pelo povo, mas na conquista do poder pela força” e outra, a dos proletários e campônios que se ancoravam em “um poder que não se apóia na lei, mas na força direta das massas armadas da população”.310

Tratava-se, portanto, de um estado embrionário em oposição a outro, não tão embrionário assim, convergindo ambos para uma disputa final acerca do poder estatal russo. Como sabemos, a história foi mais bondosa para com os bolcheviques e Lênin sequer pôde concluir seu “O estado e a revolução” com um pretendido capítulo sobre a revolução russa, de 1905 a 1917, porque foi “mais útil e mais agradável fazer ‘a experiência de uma revolução’ do que escrever sobre ela”.311

Posteriormente, entre 1930 e 1931, em seu refúgio turco após ter sido definitivamente expulso da União Soviética, Trótsqui reinterpretaria a formulação da dualidade de poderes como sendo “condição peculiar a crises sociais”, quer dizer, “característica não exclusiva da revolução russa de 1917”.312 Segundo ele, a grande

309 BROUÉ, P. O partido bolchevique, p. 95.

310 LÊNIN, V. I. “As tarefas do proletariado em nossa revolução (Projeto de plataforma do

partido proletário)”. Em: _____. Teses de abril: sobre as tarefas do proletariado na presente revolução. Tradução de J. A. Cardoso. São Paulo: Acadêmica, 1987, p. 19.

311 LÊNIN, V. I. O estado e a revolução, p. 139.

312 TROTSKY, Leon. A história da revolução russa: a queda do tzarismo. Tradução de E.

peculiaridade desta revolução teria sido a maturidade do proletariado russo, o que permitiu que o processo revolucionário perdurasse no tempo. Considerando que “fracionamento do poder prenuncia a guerra civil”, Trótsqui deixa assentada sua opinião, na esteira de Lênin, de que “a unidade de poder, condição absoluta para a estabilidade de qualquer regime, subsiste enquanto a classe dominante consegue impor à sociedade inteira as suas formas econômicas e políticas como as únicas possíveis”.313 Fundamental, aqui, é ressaltar que em seu discurso articulam-se – ou seja, não se estancam um em relação ao outro – os momentos político e econômico da revolução, com o que concordamos plenamente: produção da vida e poder dual/plural devem se entrecruzar