4. Resultados e Discussões
4.1.3 As duas faces da mesma moeda: humaniza paciente, (re) humaniza profissional
Ao longo das entrevistas, foi possível observar os diversos sentimentos experimentados pelos profissionais na prática do Melhor em Casa: impotência, frustração, raiva, como também aprendizagem, sensação de conforto e gratidão:
“Eu amo o que eu faço, eu amo minha profissão. Algumas coisas deslizas, mas eu amo o Melhor em Casa. Eu acho que eu sempre deixei claro, eu sou muito grata pelo Melhor em Casa e pelo o que posso passar para as pessoas. Eu não tinha, eu não conhecia o meu valor.” (Participante 6)
A atuação diária com importantes questões sociais, familiares, despertam sentimentos de reconhecimento e gratidão pela oportunidade de ofertar cuidado e recursos aos usuários. Os participantes da pesquisa revelam que o contato com a miséria, pobreza, sofrimento e a doença os convidam a refletir sobre os valores das próprias vidas e sobre suas potencialidades.
Nota-se também a satisfação dos participantes em perceber a confiança que as famílias desenvolvem no profissional e que se expressa na maneira como o familiar recebe a equipe no
domicílio, na adesão ao tratamento e no investimento que o cuidador tem com o paciente, como exemplifica a fala do participante 7:
“As vezes é uma coisa bacana, quando você tem empatia pela família, você se identifica (...). Você percebe que ela tenta se esforçar para cuidar daquele paciente, né? Você é bem recebida, você vê que a família tem a confiança em você”.
É possível perceber que a empatia do profissional com as famílias também está relacionada com as sensações experimentadas no domicílio e na relação com o usuário. Sentir- se seguro na casa, perceber a adesão do cuidador as orientações da equipe, motivam e aumentam a satisfação do profissional. Contudo, pacientes/ familiares com maiores dificuldades, acabam por despertam sentimentos de raiva, frustração e impotência:
“Ao mesmo tempo eu acho que eles são muito acomodados também. Eu acho que já ‘ta’ vivendo em uma situação tão difícil, financeira, social, emocional, que eles não se esforçam. (...). E por mais que você faça, você vê que as vezes a família não está nem um pouco interessadas. ‘Pra’ eles ‘ta’ bom viver daquele jeito. Vão vivendo, empurrando com a barriga e é aonde, quer dizer pelo menos ‘pra’ mim, me incomoda. Você fica estressada muitas vezes (...).” (Participante 7).
Yunes (2001) teve como objetivo de pesquisa compreender a expressão da resiliência em famílias de baixa renda a partir da percepção de profissionais da saúde e da educação. Em seu estudo encontrou a crença que famílias de baixa renda são acostumadas a viver na miséria, vivência já transmitida, herdada de uma geração para outra, o que dificulta a transformação e leva o sujeito ao comodismo. A leitura que a pesquisadora faz (a partir do seu objetivo de pesquisa) é que os profissionais desqualificam famílias que divergem do que julgam como correto e nota-se uma postura ideológica, estereotipada e patologizante dos entrevistados da pesquisadora. A autora reflete que os profissionais não reconhecem as dificuldades das famílias de baixa renda, os culpabilizam pela própria condição e pouco refletem sobre as deficiências do sistema público e a falta de recurso.
A leitura do presente estudo em relação aos dados é que os profissionais mantém esse olhar superficial na tentativa de se distanciar da vivência das famílias de baixa renda. O discurso ideológico parece os defender de entrar em contato com os sentimentos e as dificuldades, mantendo uma postura crítica e pouco acolhedora em relação a população atendida. A percepção dos entrevistados de que as famílias são acomodadas e acostumadas a viver na miséria, também reflete sobre a sensação de impotência e frustração desses profissionais que, na dificuldade de reconhecer e elaborar os próprios sentimentos adotam um discurso estereotipado e emocionalmente distante.
Nota-se no discurso de alguns participantes conflitos internos que permeiam a prática profissional e que dificultam o processo de resiliência. Os profissionais demonstram como estratégia a necessidade de se distanciar do sofrimento do outro, no entanto a fala também demonstra que o contato com o paciente supera o aspecto racional. O participante 1, a partir da técnica da fotolinguagem, elege a imagem 3 (abaixo) para representar a sua experiência no programa e afirma: “Eu escolhi essa foto porque eu acredito que... Como eu falei ‘pra’ você
né? É a empatia, é a dor. Eu vou proteger o outro, eu vou dar aquilo que o outro precisa por mais que eu sofra algum tipo de consequência.”
Foi possível perceber que a vivência de cuidar do outro e o sentimento de empatia despertar no profissional a sensação de vulnerabilidade, isto é, na relação de cuidado o profissional tem a sensação que se desprotege, percepção conflituoso sobre o conceito e a prática da empatia.
O conceito de empatia pode ser entendido como a capacidade de se colocar no lugar de outro, reconhecer os sentimentos e validar a experiência, contudo, é também a capacidade de n o perder de vista o “como se”, isto é, se colocar e se retirar do lugar do outro (Casellato, (2015; Kauffman(2002); Neimeyer(2002)). Percebe-se que os profissionais demonstram necessidade de manter uma prática distante, pouco empática e humanizada com receio de se perder na relação, de se deixar frágil e vulnerável. Contudo, o afeto pode acontecer mesmo que de maneira inconsciente e os profissionais se vem mobilizados. A falta de consciência e clareza em relação aos próprios sentimentos, dificulta que os profissionais construam estratégias saudáveis para a prática diária.
Percebe-se que se o profissional não consegue identificar, validar e transformar os seus sentimentos,dificulta o processo de resiliência, além de trazer prejuízos a qualidade da atuação. A falta de cuidado com as próprias emoções, pode levar o profissional a se distanciar da experiência do outro como uma forma de defesa. Contudo, deve-se refletir que estar defendido não é, necessariamente, estar protegido. Proteção exige conscientização e cuidado,
mas alguns participantes buscam adotar como estratégia o distanciamento físico e emocional, recursos que dificultam o movimento de resiliência e não são efetivos, como exemplifica a fala do participante 9:
“No momento que você esta com a mãe (silêncio). É... O meu... É difícil!A gente que é ser humano, é difícil estar ali próximo dela. Mas acho que depois que a gente afasta um pouquinho, a gente acaba se desligando, né? A gente como profissional fala assim: nossa! A gente sofre, mas a gente consegue desligar um pouco desse sofrimento dela. No momento que você esta com ela é complicado(risos), né? Um sofrimento muito grande. Eu nunca, eu fui em dois pacientes para fazer visita pós óbito, né? Mas assim, você chega na casa ‘pra’ ficar olhandopraela? A gente não consegue... eu ainda não consegui ser diferente, apoiar assim... Eu acabo sofrendo junto(risos).Complicado.”
O distanciamento também mobiliza sentimentos nos profissionais, como a impotência, conflitos e auto desvalorização.Além disso, diante de uma situação considerada desafiadora, triste e angustiante, a distância impede que o profissional reconheça e valide importantes instrumentos terapêutico, como a presença e a escuta, demonstrando cobrança e grande expectativa em relação ao seu papel.
O olhar a partir da resiliência convida a refletir que estratégias saudáveis permitem a elaboração e a construção de novas crenças. O distanciamento físico e afetivo, uma prática excessivamente técnica e mecanizada, dificulta o desenvolvimento de recursos que possam vir a contribuir com ressignificação de crenças pessoais e profissionais. Percebe-seque ainda há uma expectativa em relação ao papel do profissional diante de pessoas enfermas, sofrimento e a morte, crença que se mantem pela percepção e postura dos próprios profissionais.
Liberato (2015) propõe a diferenciação entre neutralidade e consciência. De acordo com a autora, o processo de cuidado necessita da clareza em relação aos papeis de cada um, porém é ilusório defender a neutralidade e o distanciamento. O vínculo deve ser construído de uma maneira protegida, que permite o profissional ter segurança e não se sentir frágil e vulnerável no contato com o outro.
Ainda nesse sentido, Silva (2019) entende relações terapêuticas como uma forma dos seres humanos evoluírem no ato de cuidar. No processo de cuidado é ofertado ao outro alguma habilidade do pessoal, mas para isso é preciso que o cuidador tenha clareza dos seus valores, crenças e potencialidades. Existe um motivo no desejo de cuidar, de querer disponibilizar ao doente um recurso individual e para que o cuidado aconteça terapeuticamente, de maneira saudável, é preciso ser consciente e coerente.
A autora discute que é valioso ter coerência entre a fala e a ação, entre a comunicação verbal e não verbal. Não basta chegar na casa do paciente, pedir disciplina nos exercícios, foco no cuidado, paciência como familiar, se isso não estiver expresso nas atitudes e posturas corporais do profissional. Nessa perspectiva, cuidar implica primeiramente em cuidar de si, estar consciente, inteiro, atento, disponível para si mesmo e, posteriormente, disponível para cuidar do outro.
Durante as entrevistas, identificou-se importante conflito no discurso dos participantes em relação aos próprios sentimentos. Estar preparado, parece estar vinculado a percepção de ter controle emocional, que se expressa na ausência de emoções, do choro (especialmente) e na produtividade dos atendimentos. O conflito surge, pois ao mesmo tempo em que há a sensação de preparo, há a percepção em relação aos prejuízos na própria saúde e na qualidade da atuação profissional:
“Teve momentos que eu estava passando por momentos muito difíceis emocionais e (...) eu chegava no hospital eu lembro que eu tinha que me manter firme, sem chorar, que eu era ainda muito emotiva, né?(...). E tinha momentos que o meu atendimento me fazia esquecer daquilo que eu estava sentido. E isso me ajudou muito. Me fez muito mais forte. Hoje eu não consigo chorar pra qualquer coisa e eu sinto falta disso. Que eu era muito chorona (risos). Em algum momento eu sinto falta disso. (...). Por um lado isso foi bom, porque me deu um certo tipo de controle emocional, mas por outro me faz mal. Porque o chorar me aliviava (...). E as vezes, por exemplo, eu sinto pontada no coração, dor muscular muito forte, principalmente quando eu ‘to’ em um nível de estresse. (...). Tem momentos no seu contato com o paciente, principalmente cuidado paliativos, que você tem que ter um certo nível de emoção, né? Pra você entender a dor dele! E não é uma coisa que você aprende na faculdade. Eles ensinam hoje fazendo cuidados paliativos, eles falam que não é ruim você chorar com o familiar. E teve momentos(...), que eu, eu quis demonstrar pra eles que eu também tinha aquela emoção em relação ao que eles estavam sentindo e eu não consegui.”(Participante 3)
A prática mecanizada distancia o profissional das suas questões pessoais, dos seus valores, habilidades e dificuldades. Na tentativa recorrente de se desconectar do outro, o profissional corre o risco de se desconectar de si mesmo, podendo adoecer no corpo físico,na mente e no espírito. Nota-se também que o profissional não consegue mais se conectar emocionalmente com a vivência do paciente/ família ainda que exista uma validação e orientação para este afeto, como nos Cuidados Paliativos. A subjetividade, as emoções
daquele que se propõem a cuidar é uma importante ferramenta de trabalho e os profissionais precisam estar conscientes em relação a isso.
Como afirma Silva (2019), na perspectiva das relações terapêuticas, defende o afeto como um valioso instrumento do cuidado, “(...). Afetar n o é ‘morrer junto’, vitimizar- se junto, glorificar- se junto, é... acolher o outro e torna-se melhor pela experiência que esse outro te trouxe.” (p.44). Há uma fantasia do distanciamento, da neutralidade, da separatividade. Contudo, não é possível se relacionar com integridade, com cuidado e humanidade, sem ser afetado com esse contato.
5. Considerações finais
“Se a compaix o que você sente pelos outros não se estende a você, ela é incompleta” (Buda In: Silva, 2019, p. 1284)
É importante salientar os desafios de ser parte do Programa Melhor em Casa e estudar o grupo – pois apesar de haver benefícios, também havia limitações – e de não me deixar influenciar pelo contexto e experiência profissional – uma vez que escutar os colegas foi também escutar as demandas e utilizar os recursos da pesquisadora como profissional e como membro da equipe.
Ao longo do processo, a preocupação foi que esta pesquisa não se tornasse um momento catártico de angústias que permeiam a prática, mas sim um espaço de reflexão e discussão científica, ético e humano. As orientações e discussões com o grupo de pesquisa foram essenciais para refletir em conjunto, com o intuito de trabalhar e elaborar os conteúdos observados e ampliar o conhecimento.
A partir da fundamentação teórica sobre resiliência, foi possível compreender a experiência dos profissionais em sua totalidade, pois só é possível falar em enfrentamento saudável, se o sujeito estiver consciente da situação de estresse/sofrimento. Isto é, o que pode tornar possível um processo de resiliência diante de uma situação traumática ou desafiadora é a clareza do indivíduo em relação à experiência.
Identificou-se nesta pesquisa que é a partir da consciência em relação aos desafios que o sujeito poderá recorrer a recursos internos e externos. Dessa maneira, resiliência é entendida como um conceito muito mais amplo do que um processo de adaptação saudável diante de situações de crises e adversidades, é também poder reconhecer e validar as dificuldades.
Não é o intuito deste trabalho classificar os participantes como mais ou menos resilientes, muito menos enquadrar o que deve ser entendido como situação de estresse e/ou enfrentamento positivos para profissionais da área, pois se entende-se a complexidade dessas vivências, bem como a necessidade de aprofundar a singularidade de cada um. No entanto, é importante trazer os benefícios do olhar a partir da resiliência, a fim de poder pensar em estratégias preventivas e recursos que possam vir a contribuir com a prática dos profissionais no Melhor em Casa. A compreensão é que falar em resiliência é poder refletir sobre prevenção em saúde, um aspecto fundamental na área.
Foi possível perceber as demandas complexas que permeiam a prática do profissional no Programa Melhor em Casa, tais como cuidados clínicos, questões familiares e importantes
questões sociais (miséria, pobreza e violência), demandas que não são aprofundadas durante a formação ou início da contratação no programa.
A atenção domiciliar insere o profissional em um contexto desconhecido,repleto de variáveis e fora da proteção institucional,e o início da prática se revela como um grande desafio, mobilizando sofrimento e angústias.
Identificou-se que a motivação para fazer parte do Programa Melhora em Casa não foi a afinidade/escolha por essa modalidade de atendimento, mas a oportunidade de contratação de recém-formados(profissionais com pouca experiência na área) e a flexibilidade de carga horária, quando comparada com a área hospitalar.
Dessa forma, o processo de aprendizado para lidar com as demandas da AD veio com o tempo, e a experiência se mostrou uma ferramenta de trabalho. A atuação multiprofissional, o conhecimento do profissional em relação aos serviços da rede e a possibilidade de desenvolver uma prática mais resolutiva, criativa e humanizada foram aspectos importantes que contribuem com o movimento de resiliência na prática do Melhor em Casa.
Nesse sentido, percebeu-se a importância de conscientizar os profissionais, desde o momento da contratação, em relação ao contexto da prática domiciliar, a necessidade do cuidado compartilhado entre os membros da equipe e os serviços da rede, bem como acompanhá-los de perto no início da experiência, dando voz e sentido às vivências dentro do domicílio, orientando e instrumentalizando o profissional.
O conhecimento técnico se mostra um valioso instrumento, mas é necessário ir além das demandas clínicas. A disponibilidade do profissional no Melhor em Casa contribui para o movimento de resiliência.
A prática multiprofissional se mostra um recurso importante, mas é preciso caminhar para uma atuação interdisciplinar. Como citado por Jacob Filho (2012), a disponibilidade para dialogar e se apropriar de outras áreas do conhecimento amplia o repertório de atuação.Existe uma relação horizontal entre os membros da equipe e um processo de aprendizado mútuo, o que pode instrumentalizar os profissionais. Ao ser tocado pelo conhecimento do outro, o profissional na AD se instrumentaliza e amplia o repertório de atuação. No início da experiência, ao adentrar no domicílio,as demandas parecem surpreender e trazer importantes conflitos emocionais, como frustração e impotência. A atuação interdisciplinar pode favorecer a satisfação pessoal e profissional, contribuindo para um enfrentamento saudável e resiliente.
Ainda nesse sentido, as equipes EMAD e EMAP têm crescido no município de São Paulo.No entanto, é possível encontrar EMADs incompletas, que não contam com equipes de
apoio e suporte multiprofissional.Foi possível perceber que a ausência de uma equipe multiprofissional pode trazer prejuízos à saúde emocional do profissional, aumentando a sensação de sobrecarga e insegurança, e interferindo na qualidade da atuação.
É importante, também, discutir o orçamento e a diferença dos recursos financeiros disponibilizados para as equipes EMAD e EMAP. O Ministério da Saúde, na atual portaria vigente das equipes de atenção domiciliar (portaria n° 825 de 25 de Abril de 2016), compartilha o valor orçamentário de R$ 50mil por mês para as EMADs tipo um, R$ 34mil para as EMADs tipo dois (variando a carga horária dos profissionais entre os tipos de EMAD) e R$ 6mil por mês para as EMAPs. Ainda que a carga horária seja a mesma, ou até maior, a discrepância do investimento financeiro é muito significativa, impactando diretamente a remuneração dos profissionais da EMAP. Muito se discute o valor das intervenções multiprofissionais e a descentralização do saber médico, mas na área da saúde, este é um aspecto que também deve perpassar a remuneração, uma realidade distante da prática atual.
Os dados da pesquisa revelam que o Programa Melhor em Casa abre possibilidades de um cuidado individualizado e humanizado. O contato com questões tão profundas, como fome, miséria e situações de violência, e o cuidado fora do ambiente padronizado e institucional, podem aproximar o profissional do paciente/ família e favorecer um cuidado humano e genuíno. No entanto, os aspectos que aproximam também podem distanciar. A rotina com importantes questões de vulnerabilidade social, fora da proteção e alienação institucional, desperta no profissional sentimentos de raiva, impotência e frustração, correndo o risco de adotar uma prática emocionalmente distante, um discurso que julga e desqualifica a população atendida, na tentativa de se defender das próprias emoções.
Foi possível observar que muitos profissionais do Melhor em Casa se sentem aptos e seguros para acolher o sofrimento e a dor dos pacientes/famílias e prestar um cuidado humanizado. Contudo, há uma dificuldade em conseguir lidar com os próprios sentimentos suscitados nessa relação. Nota-se que ainda falta ao profissional ter clareza e consciência dos próprios sentimentos, reconhecer e validar as emoções suscitadas no cuidado com o outro e buscar dar sentido à experiência, não se distanciar dela.
O contato diário com equipes na área da saúde revela que os profissionais investem muito no aspecto técnico e formação e pouco em cuidados pessoais, como atividades de lazer e auto-conhecimento. É preciso ampliar essa discussão, pois nota-se que muitos profissionais
já se sentem confortáveis ao cuidar do sofrimento do outro, mas ainda há uma dificuldade de cuidar de si mesmos.
Nas últimas décadas, muito tem se discutido em relação à formação dos profissionais de saúde, pautada no modelo racional/operacional, distanciando os trabalhadores do olhar humano e subjetivo. A desumanização no cuidado, a falta de ética e empatia dentro das instituições de saúde e o número crescente e expressivo de profissionais adoecidos alarmou para uma situação que precisa ser discutida e repensada.
A literatura à luz da resiliência e os dados desse estudo questionam a formação/ambiente institucional versus valores e crenças pessoais. Fatores externos, como formação profissional e rotina institucional, não são suficientes para distanciar o sujeito de uma prática humana e empática. Profissionais humanos emergem de seres humanos, com histórias de vida, de relacionamentos e crenças pessoais. É importante compreender melhor o perfil e as motivações que levam à busca pela área da saúde, pois quando estudantes também fazem parte do processo de construção de conhecimento, podem questionar e buscar outras linhas complementares, e como trabalhadores, também são parte do fazer institucional,isso é, discutir a formação e as instituições como fatores determinantes na falta de humanização na saúde.É possível perder de vista um importante ator nesse contexto: o ser humano profissional. Como Robles reflete (2019, p.12), “(...). O que é cuidar? Sabemos fazer? Nós temos condições de? Requer estudo ou é um dom? E ensinar a cuidar? Será mesmo que tudo isso está alinhado com nossas ações, pensamento e sentimentos?.”.
Lemes (2019) argumentou que a importância da liberdade e da autonomia dos profissionais de saúde favorece o cuidado criativo, empático e humano. No entanto, para que