• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO I – HISTÓRIA DAS IDEIAS LINGUÍSTICAS NO BRASIL: UMA TOMADA DE POSIÇÃO PARA PENSAR TEORIAS E MÉTODOS NAS

2. Ducrot e os estudos linguísticos no Brasil

Oswald Ducrot nasceu em Paris no dia 27 de novembro de 1930. Entre os anos de 1949 e 1954, cursou filosofia na Escola Normal Superior (ENS), obtendo, em 1954, o título de “agrégation de philosophie”. Entre 1954 a 1963, foi professor de filosofia em liceus. A partir de 1963, torna-se encarregado de pesquisas (attaché de recherches) no Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS). Em 1968, entra para a Escola Prática de Altos Estudos (EHPE – 6ª seção) como diretor suplente de estudos e, em 1975, se torna diretor titular da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS), nome pelo qual a EHPE passou a se chamar em 1975.

Ao longo de sua carreira acadêmica, Oswald Ducrot foi professor convidado em universidades de vários países (Canadá, Suíça, Alemanha, Eslovênia, Estados Unidos) inclusive no Brasil. Na década de 1970, Ducrot, a convite do Prof. Carlos Vogt, fez parte do corpo docente do Departamento de Linguística do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp onde colaborou para a constituição da pós-graduação em linguística ministrando cursos e orientando pesquisas de mestrado e doutorado. O trabalho de Ducrot no IFCH contribuiu desse modo para a constituição, em 1977, do

Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp, onde esta tese foi desenvolvida24.

24 Os dados biográficos sobre Oswald Ducrot apresentados aqui foram retirados das seguintes obras: Ducrot (1996), Vogt (1998), Ferreira (2005), Ducrot e Biglari (2013), Guimarães (2015).

A presença de Ducrot na Unicamp foi fundamental para a constituição dos estudos da linguagem no Brasil como também para o próprio desenvolvimento e projeção de sua teoria para fora da Europa. A dissertação de mestrado de Ferreira (2005), desenvolvida no domínio da história das ideias linguísticas, mostra isso ao analisar como semântica

argumentativa significa na obra de Carlos Vogt, Eduardo Guimarães e Oswald Ducrot.

Vogt e Guimarães se tornaram referências de semanticistas no Brasil e no exterior, propondo em suas produções modos de repensar a semântica, numa relação de diálogo e debate com o modelo de descrição semântica de Ducrot, ao abordarem fatos de linguagem do português brasileiro.

Em sua tese de doutorado, por exemplo, Vogt (1974) propõe dividir os componentes linguístico e retórico da teoria de Ducrot (1972a) em componente linguístico, componente argumentativo, componente informativo e componente retórico para analisar o funcionamento dos comparativos (mesmo, ainda, também, tão... quanto, por ex.) no que chama de intervalo semântico desses componentes. Nessa tese, Vogt passa a denominar sua teoria como uma semântica argumentativa. Esse nome de teoria vai se tornar, na década de 1970, o nome de uma disciplina na pós-graduação do departamento de linguística da Unicamp e será adotado posteriormente (mais precisamente em 1978, segundo Ferreira, 2005, p.68) pelo próprio Ducrot para se referir a sua semântica em suas produções. Esse nome vai se projetar sobre as obras de Ducrot, Vogt e Guimarães no Brasil e também sobre a obra de outros autores brasileiros e de outros países. Como mostra Ferreira (2005, p.187-191) a semântica argumentativa é o nome de disciplina em várias universidades brasileiras e europeias cujas ementas propõem apresentar e discutir a teoria semântica de Ducrot; semântica argumentativa também é o nome de um domínio de estudos em artigos de autores de diferentes nacionalidades, na Argentina, nos artigos de Maria Marta Garcia Negroni, na Espanha, em artigos de Marta Tordesillas, nos Estados

Unidos, em artigo publicado por Jean-Michel Grandchamp, entre outros25.

A tese de doutorado de Guimarães (1979) repensa o modelo de descrição semântica proposto por Ducrot (1972a) a fim de incluir como objeto da semântica as leis conversacionais e o caráter polissêmico da linguagem ao analisar a argumentação na modalidade verbal de enunciados no passado em português brasileiro. Nessa tese,

25 A importância dos trabalhos de Carlos Vogt é reconhecida também pelo próprio Ducrot em entrevista publicada recentemente. Ao lado de Benveniste, Saussure, Jean Claude Anscombre e Marion Carel, Vogt é considerado por Ducrot como uma das pessoas que influenciaram o modo como ele pratica a linguística (Ducrot e Biglari, 2013, p.36).

Eduardo Guimarães formula semântica da enunciação como um nome de teoria. O nome

semântica da enunciação, nos estudos de Guimarães, passa a incluir a semântica argumentativa em seu domínio na medida em que, como mostra Ferreira (2005, p.170-

172), o autor desenvolve análises argumentativas sob o nome de semântica da

enunciação, e incluindo também o nome semântica argumentativa. Como explica

Ferreira (ibid., p.174): “No conjunto dos estudos produzidos por E. Guimarães, a

semântica argumentativa estará sempre configurada no interior da semântica da enunciação, mesmo que em seus estudos das décadas de 1970 e 1980, isso não seja dito

diretamente (...)”. Isto permite não só a identificação do próprio do gesto de autoria de Guimarães na semântica como também a projeção do nome semântica da enunciação como um domínio de estudos semânticos no Brasil e em outros países no qual as obras de Ducrot podem ser incluídas, ainda que o próprio Ducrot não mobilize o nome

semântica da enunciação para identificar sua teoria (cf. Ferreira, 2005, p.68)26.

A presença de Oswald Ducrot na Unicamp foi importante para o desenvolvimento dos estudos linguísticos no Brasil não só pela sua presença na formação de semanticistas como Vogt e Guimarães, mas também por sua semântica ser mobilizada para diálogo e debate por outros linguistas brasileiros cujas pesquisas se dão em diferentes domínios de estudos linguísticos. Apesar de não analisar essas relações, Ferreira (2005, p.21-22) lembra, por exemplo, do papel central que a semântica argumentativa tem na tese

Aspectos da argumentação em língua portuguesa (1981) de Ingedore Koch inscrita no

domínio da linguística textual27, das considerações do domínio da semântica

argumentativa feitas na tese Linguagem, interação e ensino (1990) de João Wanderley

Geraldi, tese que trata essencialmente da questão do ensino de línguas, das críticas feitas à semântica argumentativa no artigo Quando ‘2+3’ não é igual a ‘3+2’. A semântica e a

pragmática das construções simétricas em língua natural (1987) de Kanavillil

Rajagopalan. Enfim, a dissertação de Ferreira (2005) mostra que a obra de Ducrot é um lugar de interesse para a HIL em geral e em particular no Brasil, onde foi e tem sido fundamental na construção do pensamento científico sobre a linguagem.

26 No Brasil, por exemplo, o texto de introdução aos estudos semânticos de Pires de Oliveira (2000, p.27) apresenta a teoria de Ducrot sob o nome de semântica da enunciação. Na França, por exemplo, o livro de introdução à semântica de Tamba (2007, pp.33-34) apresenta a semântica argumentativa de Ducrot, Anscombre e Carel como representantes do que chama semântica da enunciação.

27 A tese de Koch foi publicada no ano de 1984 em forma de livro com o título Argumentação e linguagem. O livro conta hoje com mais de 10 edições e é referência bibliográfica em diversos concursos para ingresso no cargo de magistério no Brasil e em disciplinas de semântica nas universidades brasileiras.